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A ideologia Reloaded : a razão cínica e sua crítica

Joelton Nascimento

 

SAFATLE, Vladimir. Cinismo e falência da crítica. São Paulo: Boitempo, 2008. 216 p. (Coleção Estado de Sítio).


No fabuloso filme Narradores de Javé de Eliane Caffé há uma cena hilária. Nesta temos, de um lado, o esperto intelectual sertanejo Antônio Biá, que é obrigado, pelo povoado em que vive, o "Vale do Javé", a escrever a história da fundação da cidade e os grande feitos lá realizados até então, e, do outro, o barbeiro do povoado, Odisseu, que atendia seu clientes em sua velha bicicleta. Nesta passagem, que se passa embaixo de uma frondosa árvore, o barbeiro tenta convencer Antônio Biá a colocar uma história fictícia sua no livro de histórias que Biá está a escrever. Ao receber o pedido, Antônio Biá se indigna: "Peraí senhor Odisseu! A coisa não é bem assim não. O senhor está confundindo Habeas Corpus com Corpus Christi. O meu trabalho é de responsabilidade, é verdadeiro." Em seguida, após perceber o constrangimento de Odisseu e suas desculpas, Biá completa: "E o mundo hoje não é como antigamente, no tempo do rascunho da bíblia, quando bastava ter um homem, um feixe de capim e um jumento e pronto, se tinha uma boa história. Hoje não. Contar uma história hoje é difícil. Eu quero pelo menos um ano de barba grátis!"

Não lembrei desta cena pelo caráter visivelmente cínico de Biá, cuja indignação oscilou entre a ofensa pela tentativa de violação da verdade de seu trabalho e o alto preço que exigiu para violar precisamente essa verdade. Lembrei-me desta pois o filósofo e psicanalista Vladimir Safatle em seu novo livro chegou a uma conclusão semelhante, bastando substituirmos "contar uma história" por "fazer uma crítica". Não se pode fazer uma crítica como se fazia no passado recente. Até há algumas décadas, garante Safatle, bastavam expectativas normativas e fatos que as violassem. Pronto. Ao mostrarmos que os fatos como tais violavam as expectativas normativas tidas para aquelas circunstâncias estávamos diante de uma boa crítica. Esta é a "crítica de juizado de pequenas causas", como a chamou Deleuze, citado por Safatle.

Essa forma de crítica não funciona mais por uma razão: a sociedade capitalista tardia não mais esconde seus fatos e seus enunciados de poder sobre estes de suas expectativas normativas, mesmo quando estes enunciados contradizem a norma que deveriam seguir. Ou seja, a violação destas expectativas normativas é aberta, esta sociedade expõe-se de modo já "crítico" ou seja, transparentemente violando sua própria estrutura normativa. Como fazer a crítica de uma sociedade cuja estrutura de normatividade é assim, dual, com uma estrutura normativa e um ímpeto sempre renovado de rompimento sistemático e aberto a esta mesma estrutura?

Um exemplo disso pode ser lido na atual crise do sistema financeiro mundial. Todos os grandes bufões do neoliberalismo, dentre eles Georg W. Bush, estiveram engajados em pedir auxílios bilionários aos cofres do Estado para salvaguardar bancos e investidores, em manobras nunca sonhadas pela ideologia Tatcher-Reagan.

Embora não procure responder esta questão - dada a relação que a questão tem, não só com a teoria, mas com a práxis social - Safatle trata de refazê-la e explorá-la de várias maneiras. Esta estrutura dual, ao mesmo tempo normativa e excepcional é o que Safatle estuda sob a chave de uma teoria do cinismo. Para o filósofo "devemos chamar de "cinismo" um problema geral referente à mutação nas estruturas de racionalidade em operação na dimensão da práxis. Há um modo cínico de funcionamento destas estruturas que aparece normalmente em épocas e sociedades em processo de crise de legitimação de erosão da substancialidade normativa da vida social" (p. 13).

Lemos neste livro, resultado da reescrita de diversos ensaios publicados em revistas especializadas, o desenrolar de uma série de problemas que se dão sob o seguinte equilíbrio: como falar em crítica da ideologia - pois este tema ainda persiste, a despeito da saída fácil de uma certa "pós-modernidade" - diante de uma sociedade que produz uma "ideologia 2.0" que já vem com sua própria crítica embutida, só que em uma chave cínica? Como fazer um "Teoria da Ideologia em sociedades pós ideológicas"? (p. 12)

Começando, responde Safatle, a compreender como uma crise de legitimação pôde resultar no estabelecimento de uma racionalidade social cínica, ou nas palavras do próprio Safatle: "compreender como elas [as coordenadas históricas que produziram tal situação] foram capazes de legitimar-se através de uma racionalidade cínica, e com isso estabilizar uma situação que, em outras circunstâncias, seria uma típica e insustentável situação de crise e anomia" (p. 14, grifo do autor).

Os principais interlocutores de Safatle no encalço desta questão, que aparecem por vezes explícita e por vezes implicitamente são Peter Sloterdijk e sua Crítica da Razão Cínica (que, como diz o autor, foi quem catalizou os temas deste debate para o bem e para o mal (p. 67)); Slavoj Zizek, sobretudo em O Sublime Objeto da Ideologia; a obra do psicanalista Jacques Lacan, sobre quem Safatle é um dos maiores especialistas no Brasil; os trabalhos sociológicos de Theodor Adorno e os mestres uspianos Roberto Schwarz e Paulo Arantes que, cada um a seu modo e em suas áreas de estudos, contribuíram para a compreensão de uma razão cínica (ideológica em segunda potência) nos primórdios da formação nacional brasileira. São essas fontes tão complexas e díspares, mas ao mesmo tempo fecundas, que tornam Cinismo e Falência da Crítica uma obra que revitalizará em grande medida o debate atual sobre a questão da crítica e da ideologia em nosso tempo.

Para Safatle são três os grandes campos que constituem o que chama de "formas de vida" da contemporaneidade: o desejo, a linguagem e o trabalho. "Seremos obrigados a descrever" - diz ele, e é disso que o livro trata - "como a estrutura paradoxal da racionalidade cínica é atualmente capaz de organizar as disposições hegemônicas em cada um desses campos" (p. 20).

No campo do desejo, da linguagem e do trabalho acompanha-se, segundo Safatle, a uma série de conseqüências derivadas do "declínio da imago paterna" (Lacan). Sobretudo o fim de uma sociedade calcada na repressão que dá lugar a uma sociedade cuja estrutura psíquica é baseada principalmente em um "imperativo de gozo". Nas palavras do autor:

Já há muito não vemos mais a hegemonia de discursos sociais que pregam a repressão. Hoje, o verdadeiro discurso que sustenta os vínculos socioculturais da contemporaneidade é, digamos, maternal. Trata-se, por exemplo, do "cada um tem o direito a sua forma de gozo" (ou, ainda, "cada um deve encontrar sua forma de gozo") que podemos encontrar na liberação multicultural da multiplicidade das formas possíveis de sexualidade em nossas democracias liberais. Devemos pensar aqui na tese de que a incitação e a administração do gozo se transformaram na verdadeira mola propulsora da economia libidinal da sociedade de consumo, ao invés da repressão própria à sociedade da repressão. (p. 128, grifo do autor)

Embora Safatle se refira aos modos das forma hegemônicas de vida, compreendendo por isso "um conjunto de sistemas de ordenamento e justificação de processos de interação social" (p. 201) em sociedades como a nossa, é difícil concordar de todo com sua tese. Se não fosse muito injurioso poder-se-ia voltar a Marx aqui. Na Contribuição à Crítica da Economia Política, como se sabe, Marx escreveu que a vida material em qualquer sociedade se desenvolve como uma totalidade.

Assim, em toda forma social de organização material da vida temos a produção, a distribuição, a troca e o consumo como aspectos diversos de uma unidade. Marx criticou duramente aqueles que, segundo ele, pensavam tais esferas como autônomas, independentes entre si e que, portanto, deduzimos, poderiam suceder uma à outra. Lembro-me sempre deste texto de Marx quando ouço o termo "sociedade de consumo" muito em voga e que Safatle não só admite como toma como centro de sua argumentação. Segundo o autor: "...a mudança de paradigma da sociedade industrial da produção para a sociedade pós-industrial do consumo traz uma série de conseqüências fundamentais..." (p.126).

O campeão dessa divisão etapista "produção/consumo", e que foi até às últimas conseqüências dela foi Jean Baudrillard, que chegou a falar sobre o "fim da produção" em As trocas simbólicas e a morte. Um dos principais problemas de Baudrillard e desta divisão radical de consumo e produção é afirmar, como o fez o pensador francês, que já não havia ligação alguma da reprodução da sociedade capitalista com qualquer "lastro" real. Que, portanto, estamos numa hiper- realidade, numa terceira ordem de simulacros, etc. Parece-me que isso até foi a aparência da verdade nos anos 80 e 90, auge no neoliberalismo, mas o século XXI acordou com outra música a tocar.

O mundo de papéis fictícios foi a base material para as teorias pós-modernas do virtual dos anos 80 e 90. Mas o lastro ainda estava lá, a ser relembrado catastroficamente, como um "retorno do reprimido". Acreditar no completo descolamento do real de lastro da formação do valor, como fez Baudrillard em boa parte de sua obra recente é o perigo - de resto, paradigmático - de acreditar nos contos fantasiosos na grande narrativa capitalista como meio de criticá-la.

Mas justiça seja feita, Safatle é claro ao escrever que são, na verdade,"...os dispositivos de controle no mundo do trabalho [que] são agora decalcados das dinâmicas em operação nas práticas de consumo" (p. 126, grifo do autor). Ou seja, as formas assumidas pela ideologia são sobretudo as da incitação publicitária ao consumo. Ainda assim, poderíamos retornar à indicação do conceito de totalidade na concepção marxiana. Para tanto, vamos a um exemplo: pensemos em duas instituições cujas funções sociais e estruturais são centrais no capitalismo tardio, a Polícia e o Exército. São instituições essencialmente repressivas que residem no princípio da soberania e, por conseguinte, do inabalável monopólio da violência coerciva do Estado.

Atualmente há debates sobre novos problemas surgidos nessas instituições, como por exemplo, os escândalos de homossexualidade no exército, ou os métodos da polícia que extravasam as formas jurídicas normais. Que se pense, por exemplo, na discussão quase convulsiva que o filme Tropa de Elite de José Padilha causou. Discussão em grande parte estéril já que o que se mostra no filme é apenas o curto-circuito entre essas duas instituições, vez que o BOPE carioca age como um batalhão do exército em guerra, sendo da força policial. Soberania interna curto-circuitada em soberania externa. Quando se afirma a tese de que na "sociedade de consumo" as formas hegemônicas de vida estão calcadas no "imperativo do gozo" e não em estruturas repressivas, quer-se necessariamente dizer que estas instituições, repressivas por definição, não são parte das formas hegemônicas de vida, o que certamente é falso.

Talvez fosse muito mais importante fugir a esse etapismo (sociedade da produção - estrutura repressiva, sociedade do consumo - estrutura de gozo) para pensar como, nas sociedades contemporâneas essas formas coexistem, sobretudo na América Latina, vez que, ao contrário do que parecem crer os críticos com olhos voltados para os EUA/Europa, os bolsões de anacronismo e de exclusão do mundo do consumo na periferia do mundo capitalista tardio não são resíduos, mas importantes partes constituintes de nossa realidade social.

Todos os exemplos dados por Safatle acerca da ascensão de uma razão cínica governando os discursos do poder nas sociedades contemporâneas são plausíveis. O argumento central de seu livro é inegável. O que causa desconforto é o grau de "universalização" que ele atribui a esta razão cínica. Este desconforto é ainda maior quando nos situamos na periferia do capitalismo mundializado, quando facilmente percebemos, portanto, os bolsões e zonas negras do capitalismo, que estão longe de serem computadas sem mais em uma "sociedade de consumo".

O cinismo, segundo as teoria dos atos de falas analisadas pelo autor, é qualitativamente diferente dos atos insinceros de fala, como a hipocrisia e a má-fé. A questão, ao que me parece, é pensar na interação e na coexistência da razão cínica e da razão insincera, para usar os termos das teorias dos atos de fala. Aparentemente, a ideologia 2.0 convive com sua versão mais arcaica e "repressiva". A hegemonia, pois, perpassa a ambas.

No post scriptum que aparece no final do livro, Safatle responde a algumas questões que lhe foram endereçadas na ocasião de suas conferências sobre o desenvolvimento deste livro. Esse post scriptum é bastante interessante. Nele o autor parece se defender antecipadamente da "injúria" - como ele a chama - de niilista. Sua posição é incrivelmente próxima à de Adorno acuado pelos estudantes no final dos anos 60, pouco antes de sua morte. Instala-se no negativo para colaborar teoricamente com o desabamento da sociedade da mercadoria, desabamento sem o qual não é possível se reestruturar uma normatividade positiva.

De modo geral, concordo com Safatle, assim como concordo com os trabalhos de Adorno desse período. O que deve ficar mais claro no futuro, todavia, é o modo de "acelerar o desabamento" (p. 204) sobre o qual escreve o autor em seu post scriptum. Safatle insiste que "Se ainda não há ação que satisfaça a urgência é porque ainda não fomos suficientemente longe com nosso desespero", desespero este, até onde vai Safatle, é expresso teoricamente. É incômoda a posição de Safatle, um acadêmico pregando um pensamento "até o fim" e investindo pesado em "críticas de críticas". A semelhança com o Biá de Narradores de Javé é inevitável. Uma incômoda pergunta fica pairando, queiramos ou não: o autor colabora com os esforços da crítica ou quer "um ano de barba grátis"?
Parece-me que esta tarefa, que Safatle parece involuntariamente ter dado uma excelente designação como "aceleração do desabamento", é a resposta para a pergunta que Safatle afirma não querer e não poder dar. Portanto, à questão "Que fazer?" parece haver resposta, que Safatle contribui com seu livro para elucidar: acelerar o desabamento.




 

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