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Entrevista com Leda Tenório da Motta

Viagem por Cratília

 

Leda Tenório da Motta, professora do Programa de comunicação e semiótica da PUC-SP, dirige trabalhos na área de concentração Intersemiose na Literatura e nas Artes, e na linha de pesquisa Literatura: Intertextualidade e Hipertextualidade.
Com Mestrado e Doutorado em Semiologia Literária, estudou com Roland Barthes, Gérard Genette e Julia Kristeva, na França, onde se doutorou na Universidade de Paris VII. Tem cinco livros publicados, o mais recente deles sobre as relações entre a Literatura e as Comunicações de Massa (Literatura e Contracomunicação, Editora Unimarco, 2003). Em 2002, por ocasião das comemorações dos 50 anos do Grupo Noigandres, lançou o volume Sobre a crítica literária brasileira no último meio século (Editora Imago), em que examina a intervenção de Haroldo de Campos na cultura brasileira e revê a dicotomia críticos scholars/críticos-jornalistas. O trabalho foi resenhado em toda a grande imprensa brasileira e na Revista Pesquisa Fapesp. Tradutora e crítica literária com colaboração assídua nos Segundos Cadernos _ entrevistou os escritores Danilo Kiss, Cabrera Infante e Paul Bowles para a Folha de São Paulo _ tem também inúmeros artigos publicados em revistas estrangeiras de prestígio, a exemplo da portuguesa Colóquio Letras, da Fundação Gulbenkian, e da norte-americana Revista Espelho, da Purdue University. Prepara atualmente com um grupo de doutorandos do PEPCGS um Dicionário da Crítica Brasileira.

O curso que ministrou neste semestre propõe um panorama histórico das principais teorias do signo, do texto platônico fundador que é o diálogo intitulado Crátilo às lingüísticas gerais, semióticas e semiologias do século XX. É inseparável dessa apresentação a discussão do caráter arbitrário ou motivado das palavras e o estudo, em paralelo, de toda uma série de proposições em torno de uma língua adâmica ou língua perfeita. Tudo isso deverá conduzir os trabalhos ao rastreamento de um pequeno corpus de teorias poéticas verbais e não-verbais que administram a idéia da língua-mãe ou verificam sua dramática falta. Entram aí casos de figura como a semiótica dos objetos na poesia concreta, a poética da fotografia em Roland Barthes e certos movimentos de câmera que mimetizam assassinatos em Alfred Hitchcock.

Critério - Gérard Genette, semioticista e autor de Mimologiques - Voyages en Cratilie, explora a hipótese de uma tradição literária e filosófica que investiga a "justeza" entre as palavras e as coisas. Desde a arqueologia de uma raiz lingüística única, perdida na catástrofe babélica, até os delírios miméticos e onomatopeicos de poetas e lingüistas procurando consertar falhas das línguas históricas. Genette então indica no seu mapa literário um lugar chamado Cratília. Existiria um roteiro de viagem até lá ?

Leda - Como cidade dos justos, Cratília, naturalmente, não pode existir, só existe a Viagem a Cratília, como diz o lindo título do Gérard Genette para um livro que, decorridos quase trinta anos desde a sua publicação, em 1976, continua rigorosamente desconhecido entre nós. O que é fascinante nesse livro desse autor que, ao contrário do Barthes, do Todorov e da Kristeva, não prosperou por aqui, é que ele realiza uma viagem para trás, rumo ao texto platônico que, pela primeira vez, administrou o problema da "referência", alusivo às relações, se justas ou injustas, entre o objeto e o signo que o representa. Mas toda a movimentação parece ser para a frente, pois o que interessa ao autor é mostrar como as teses aí em jogo, seja a da personagem Hermógenes, que trabalha pela demonstração da injusteza, seja a do debatedor cujo nome está no título do diálogo, que defende, e muito em nome de Homero, a opinião contrária, abrem um enorme dossiê literário, que não será nunca arquivado. Desse ponto de vista, como você resume muito bem, o livro gira em torno de uma tradição às voltas com a queda na balbúrdia babélica. No mapa do Genette, que é principalmente poético e principalmente francês, esse sentimento da queda se repropõe, com renovada força, na modernidade finisseccular. Sinal disso é a palavra de ordem sobre mudar a língua, característica do grande simbolismo, e particularmente, da inflexão mallarmeana, e a introdução de uma nomenclatura inédita, que vem falar de coisas como "alquimia verbal", "trabalho do verso" e "linguagem poética", todas expressões curativas da farmácia simbolista. Então, para responder a sua pergunta, essa viagem a Cratília é uma fuga para a frente, como dizem os franceses, e ela prevê paradas em todos os autores suscetíveis de representar a exquise crise formulada por Mallarmé. Mas no roteiro de Genette, o Proust e o Francis Ponge têm um lugar de destaque. O Genette, aliás, é um dos melhores críticos franceses de Proust e o capítulo sobre Ponge é anterior à difusão do poeta pelo Derrida.

"A base que menos engana, estamos felizes de dize-lo àqueles que virão depois de nós, é aquela de que os jovens eruditos mais desconfiam, e que uma ciência perseverante acaba por descobrir tão verdadeira quanto forte, indestrutível: a crença popular.
Não somos de modo algum desses amigos do povo que desprezam a opinião do povo, sorriem do preconceito popular, acreditam-se, modestamente, mais sábios que Todo Mundo. Todo Mundo, para os hábeis e os homens de espírito, é um pobre homem de bem, que enxerga pouco, bate, tropeça, faz garatujas, não sabe muito bem o que diz. Rápido, um bastão para esse cego, um guia, um apoio, alguém que fale por ele.
Mas os simples, que não têm espírito, como Dante, Shakespeare e Lutero, vêem de maneira muito diferente esse bom homem. Reverenciam-no, recolhem, escrevem suas palavras, mantêm-se em pé diante dele. Era a ele que o pequeno Shakeaspeare ouvia, guardando os cavalos, à porta do espetáculo; era a ele que Dante ia ouvir no mercado da Florença. O dr. Martinho Lutero, doutor como era, fala-lhe de borla na mão, chamando-o mestre e senhor: "Herr omnes" ("Senhor Todo Mundo")

Michelet, Jules - História da Revolução Francesa: da queda da Bastilha à festa da Federação. Pg. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras: Círculo do Livro, 1989.

Critério - Qual a relação entre o nomoteta em Crátilo e o Sr. Todo Mundo (Monsieur Tout le Mond) descrito por Michelet e Valery ?

Leda -O Monsieur-tout-le-monde do Michelet é bem menos conhecido que o do Mallarmé, que faz uso da mesma fórmula numa carta famosa, e é outra pessoa. Para o Michelet, o autor da Histoire de la révolution française, que é uma obra com um pé na história e o outro na literatura, na era da invenção da disciplina histórica, ele é o herói , o representante do povo que assume a palavra na Grande Revolução, e nesse sentido, o condutor da voz geral. Para Mallarmé, ele é, por isso mesmo, o anti-poeta. Mas as coisas não são assim tão fáceis, a introdução do terceiro estado na literatura é, de saída, revolucionária, e o discurso burguês, que os malditos detestam, é um dos trunfos do romantismo. Por outro lado, tudo é ambíguo no Crátilo, que os bons comentadores costumam considerar um dos mais áridos dos diálogos platônicos, por conta da organização interna. E se o Sócrates, como sempre, não fecha a questão, a questão, neste caso, é um verdadeiro beco-sem-saída: será que as palavras da língua grega foram bem atribuídas, e quem as atribuiu, um divino reitor ou a sociedade dos homens? Mas soma-se ainda a isso a desconfiança de Platão em relação aos artistas da palavra, quer dizer, à palavra em si. É nesse emaranhado de problemas que surge a figura de um legislador dos nomes: o nomóteta. Espécie de representante da convenção ou da norma estabelecida, como convém a uma homem da lei (nomos), ele vem afirmar o lado contratual da língua. Mas isso não basta a Sócrates, que o encarrega ainda de operar como um parente do poeta, já que lhe toca também uma certa intervenção criativa nos pontos em que a língua falha. É a essa figura paradoxal, para voltar à primeira pergunta, que o Genette atrela toda a poesia moderna, tornada consciente do acaso da linguagem. O diferencial aí é esse sentimento da catástrofe da falha da língua.
" O pensamento é fala pura. Tem que reconhecer nele a língua suprema, aquela cuja extrema variedade de línguas apenas nos permite reavaliar a deficiência: "Sendo pensar escrever sem acessórios, nem murmúrios, mas a fala imortal ainda tácita, a diversidade, na terra dos idiomas impede que se profiram palavras que, caso contrário, graças a uma única matriz, seriam a própria concretização material da verdade."(o que constitui o ideal de Crátilo mas também a definição da escritura automática.) Somos tentados a dizer, portanto, que a linguagem do pensamento é, por excelência, a linguagem poética, e que o sentido, a noção pura, a idéia, devem tornar-se a preocupação do poeta, sendo isso somente o que ns liberta do peso das coisas, da informe plenitude natural." Blanchot, Maurice - O espaço literário. pg 32. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987
" um idioma se define menos pelo que ele permite dizer, do que por aquilo que ele obriga a dizer." Barthes, Roland- Aula.pg Trad .Vera de Azambuja Harvey. São Paulo: Nova Fronteira, 1985

Critério - O sonho da língua matriz, ou da língua perfeita aponta para a obrigação ética de dizer a verdade. Sem contar a visão parmenidiana de um mundo que escorre em transformação permanente e irreversível, ou dos inúmeros ruídos nas comunicações, e imaginando a real boa vontade de um falante em expressar o que vê e pensa, a invenção do inconsciente é a pá de cal nas aspirações tanto do pensamento quanto da linguagem. Poderíamos dizer que a literatura moderna mimetiza essa derrota?

Leda -Acho que sim, afinal, isso que você diz é praticamente o resumo de poéticas importantes como a Crise de vers do Mallarmé, que continua em Variété do Valéry, e o que nos ensinam todas as grandes teorizações elaboradas fora do laboratório da poesia, de O que é a literatura? de Sartre a O grau zero da escritura de Barthes e à Escritura e a diferença de Derrida. Além do mais, para melhor acusar essa derrota, a literatura ganha o apoio da psicanálise. Quem conhece os desdobramentos da psicanálise freudiana na França sabe que é pouco dizer, como fazia Freud, que os escritores ajudaram a desbravar o inconsciente. Depois de Lacan, que discursava em sintaxe mallarmeana, não cessava de fazer jogos ubuescos de linguagem ou de produzir lapsos, e exibia em Vincennes, nos anos 1970, diante dos estudantes que lhe cobravam posições políticas, as suas credenciais de surrealista da primeira hora, que passou pelas diásporas de Bataille e de Queneau, já não é mais a psicanálise que reivindica a literatura, é a literatura que reivindica a psicanálise, para demonstrar que são os escritores, principalmente, que não são mestres em sua própria casa. Reagindo a isso, já começam a sair na França obras sobre Literatura&Lacan e nós temos entre nós a Leyla Perrone-Moisés que insere Lacan em seu livro Inútil Poesia, onde o chama de "formidável escritor", e nada menos que dois ensaios de Haroldo de Campos sobre os barroquismos lacanianos _ um deles de título particularmente impressionante: '' O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua" _, até onde eu chego, ainda não recolhidos em livro.

" Vinde desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro. Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade." Bíblia Sagrada - Velho Testamento - Gênesis 11. pg 12. Trad. João Ferreira de Almeida. São Paulo: Soc. Bíblica do Brasil, 1993

Critério - A língua portuguesa no Brasil se babeliza, se reinventa e se sabota cotidianamente na sua relação com as coisas (neologismos, estrangeirismos, gírias...), isso deriva de uma frustração da ilusão cratilista, em seu ideal de conexão direta com os objetos, ou expressa a auto-consciência hermogenista do seu processo histórico - e sua particular rejeição colonial / ordem do Pai ?

Leda -O Pai está sempre em questão mas uma é a linha Mário, outra, a linha Oswald de enfrentamento do problema. O Mário é um patriota ativo, que quer falar em brasileiro, celebrar o caráter democrático da fala, num repto ao modelo metropolitano português. Como um Padre Anchieta redivivo, ele chegou a elaborar uma gramática do brasileiro, a Gramatiquinha, que legitima os "milhor", os "quede" e os "cincoenta", e está hoje editada, sob a chancela da USP. É um movimemnto que se aproxima também do pensamento do Fernando Pessoa, que tem um livro sobre A língua portuguesa, que deposita no vernáculo a missão sebastianista de reconstruir o país. Já o Oswald é um edipiano cômico, é um estrangeirista que não defende nenhuma pureza da íngua, não envereda por nenhuma missão, nem desafia nenhuma ordem metropolitana, mas recepciona as diferenças, faz conviver as contradições, com o seu "coup de dents antropofágico", para dizer como o Haroldo de Campos. É daí que vêm a hospitalidade haroldiana e a nossa chance não apenas de trocar o trânsito nacionalista pela freqüentação de um mundo mais alargado, civilisatório, mesmo, como já se disse, mas, para tocar no outro ponto da sua pergunta, de opor Pentecostes a Babel, pela via da operação tradutória. O Derrida diz a hora tantas, em Torres de Babel, que a tradução promete um reino à reconciliação das línguas. O Haroldo tradutor realiza essa promessa, recolando os cacos da Babel lingüística. Nesse xadrez de posições, poderíamos arriscar pensar que o espírito gramatical, ainda que se exercite na naturalização da expressão periférica, fica mais próximo da tese do oponente de Crátilo, o Hermógenes, já que a gramática é a própria convenção. E se é certo que o estilo é o erro, esse é o lado contrário da poesia. Para continuar a arriscar, talvez por isso não tenham saído poetas, nem comentadores de poesia, dos descendentes de Mário, que atacaram a prosa machadiana.

" A fala poética deixa de ser fala de uma pessoa: nela, ninguém fala e o que fala não é ninguém, mas parece que somente a fala 'se fala'." Blanchot, Maurice - O espaço literário. pg 32. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987

Critério - O filósofo Gilles Deleuze postula dois tipos de gagueira em literatura, o gago da fala (tropeço involuntário movido pelo inconsciente do falante) e o gago da língua ( que inflexiona criativa e afetivamente a língua em sua própria heterogenia). Existe um limite entre essas duas formas de gagueira ?

Leda -Se eu entendi bem a sua pergunta, ela pressupõe que o tropeço involuntário, o "chiste", como isso se chama em psicanálise, não é poético. Ora, toda a surpresa do livro de Freud sobre esses tropeços de linguagem está no fato de mostrar, a partir de uma deliciosa variedade de exemplos, que formam um verdadeiro anedotário, inclusive judaico, como eles são pura poesia, e como envolvem, nesse sentido, todo o leque das figuras de linguagem: ironias, contradições, duplos sentidos, nonsense... Bem por isso, Os chistes e sua relação com o inconsciente é o livro de Freud que, como denunciou Lacan, menos interessou aos psicanalistas, e o que mais mobilizou os lingüistas, os semanticistas e os neo-retoricistas. Bom, diante disso, eu não faria grande diferença entre a gagueira inconsciente e a gagueira dos poetas. Não foi o Sílvio Romero quem disse, sem saber o que dizia, o que é patético, que o Machado de Assis era gago? Eu não faria grande diferença porque, nos dois casos, são as figuras de estilo que marcam a impossibilidade de dizer, ou de dizer completamente, seja lá o que for. Se pararmos para pensar que a figura é aquilo de que lançamos mão para dizer os objetos através de um outro nome que não o seu, nada mais ilustrativo da impossibilidade de dizer o que quer que seja de todo do que uma metáfora ou uma metonímia! Seria preciso ser leigo em poética e em poesia para pensar que as metáforas são um poder de fogo lingüístico. É todo o contrário. Todo poeta é um gago, seja que a sua afasia explicite um problema para associar, ou fazer metáforas, seja que explicite um problema um problema para encadear, ou fazer metonímias. Em todos os casos, ele não vai conseguir continuar...

"Então noto, sem emoção, que, de uns tempos para cá, parece que elas escutam melhor. Oh, nunca fui nem parcialmente surdo. Mas, há muito tempo, ouço as coisas confusamente. Lá vou eu de novo. O que quero dizer talvez seja o seguinte: pouco a pouco os barulhos do mundo, tão diversos e que eu sabia distinguir uns dos outros, à força talvez de serem sempre os mesmos, se fundiram em um só, acabando por ser apenas um profundo zumbido contínuo."
Beckett, Samuel - Malone Morre.Pg. 42. Trad.Paulo Leminski. São Paulo: Círculo do Livro, 1990

Critério - Vários escritores são criticados negativamente por sua falta de engajamento à causas sociais e políticas do seu tempo, ou por mimetizarem discursos totalitários e abjetos. Como fica a afirmação de Barthes de que a liberdade em literatura é dar expressão aos mais diversos socioletos (idiomas sociais específicos)?

Leda -O Barthes começou como sociólogo e a École des Hautes Études en Sciences Sociales, em que ele trabalhou até ser recebido no Collège de France, em 1978, não tem esse nome por acaso. Mas ainda assim, não é possível pensar que, quando fala em "idioleto", esteja pensando em literaturas que acolham as diferenças sociais, como um adepto daqueles estudos culturais que o Harold Bloom chama de "escola do ressentimento". Para ele, o idioleto é a língua musicalizada, desfuncionalizada dos modernos, a poesia irredutível ao sentido, a "escritura" que suspende a literatura... o Valéry dizia: a dança e não a marcha. É pela força dessa escritura que, em Aula, ele vai equiparar o Victor Hugo, que é o campeão das causas nobres e dos direitos humanos , com o Céline, que é tido e havido como perseguidor de judeus. É o deslocamento imposto por ambos à língua francesa _ ele insiste em dizer _ que conta. E ele tem razão. Para não mencionar o Pound e o Eliot, você já parou para pensar no que seria de todo o Sade, do De Quincey de O Assassinato como uma das belas artes e do Baudelaire de O mau vidraceiro à luz dos bons sentimentos e do engajamento? O Platão do Livro III da República reservou sua cidade ideal aos poetas mais austeros e menos agradáveis (sic) que pudessem ajudar na educação dos guerreiros. Eu prefiro ficar com o Philip Roth que disse que a literatura não é um concurso de beleza moral.

" O que as palavras nos apresentam das coisas é uma imagem clara e usual como essas que se dependuram nas paredes das escolas para dar às crianças o exemplo do que é um banco, um pássaro, um formigueiro, coisas tidas como semelhantes a todas as da mesma classe." Proust, Marcel - No caminho de Swann. pg 225 . Trad. Mario Quintana. São Paulo: Abril Cultural, 1982

"...puxa! estou falando de novo de mim!... é muito feio falar de si mesmo, todo eumesmismo é odioso, irrita o leitor..."
Céline, Louis-Ferdinand - Norte. Pg. 168. Trad .Vera de Azambuja Harvey. São Paulo: Nova Fronteira, 1985

Critério - Dentre as estratégias para abolir o arbitrário do signo, você cita o conceito de Punctum da poética fotográfica da Câmara clara de Barthes. Essa pungência sem comentários, muito próxima de uma idiossincrasia, levaria a linguagem para um universo de somatização afetiva e de realidade da ordem do testemunho ? Idealmente livre da trapaça da invenção...

Leda -Levaria. Nada mais testemunhal que a literatura produzida pelo Barthes em torno da fotografia. Esse é o seu último tema _ a publicação da Câmara clara coincide com a data da morte _ e o que mais mobiliza uma narração em primeira pessoa, ou o diário íntimo, já em ação em obras como RB por RB, O império dos signos e Incidentes. Você fala em "somatização". O Barthes da fase da fotografia está tão diretamente envolvido com ele mesmo, tão em refluxo narcísico para dentro, que os seu objetos de trabalho o contaminam, o intoxicam. A palavra "intoxicação" está lá, nas derradeiras páginas do seu (por ora) derradeiro livro póstumo, que se chama La préparation du roman e não tem ainda tradução em português do Brasil. Ele diz ali, no epílogo, que, da mesma forma como o Proust foi "intoxicado" pelas duquesas e marquesas que freqüentou, o mundo das marquesas e duquesas do Proust, todo ele registrado pelo fotógrafo Nadar, que também está no volume, o "intoxica". De semiólogo da tribo do arbitrário do signo, que forma aquela roda de pensadores que ele imortalizou em traje de tanga nas páginas de RB por RB _ o Lévi-Strauss, o Foucault, o Lacan e ele mesmo _ esse último Barthes entrou para valer na ilusão da realidade do referente, que, seu entendi bem, é o que você chama de "trapaça". É uma licença-poética terminal. E isso enseja dizer que o problema dos diários íntimos nas assim chamadas "literaturas de testemunho", ou "do holocausto", ou "da shoah" é que a realidade das experiências traumáticas ali narradas quer ser real sem assumir a licença poética. Eu falo longamente disso no capítulo "Literatura e testemunho" do meu último livro Literatura e contracomunicação.

" Na verdade, também (Francis) Ponge não está preocupado com descrever. Ele sabe muito bem, sem dúvida, que seus textos não representariam ajuda alguma para o futuro arqueólogo que procurasse descobrir o que pode ser, em nossa civilização perdida, um cigarro ou uma vela. Sem a prática cotidiana que temos desses objetos, as frases de Ponge a eles relacionados são apenas lindos poemas herméticos." Robbe-Grillet, Alain- Por um novo romance.pg. 49. Trad. T.C. Netto. São Paulo: Documentos, 1969

" O estranho é que a página se estrutura de cima para baixo, ao contrário do muro. O escrevedor trabalha, em sentido contrário do pedreiro. Talvez (mas isso me parece fraco, magro, amaneirado) se pudesse inferir daí que o muro é a página nua, branca e que o escrito é feito para negar, anular (de cima para baixo), riscar, destruir o muro, transformar o muro em abertura (em porta aberta)" Ponge, Francis - A mesa.pg 247. Trad. Ignacio Antonio Neis e Michel Peterson. São Paulo: Iluminuras, 2002

Critério - Existe hoje algo como a necessidade da literatura ? Onde, para o senso comum, reinam a idiossincrasia, o próprio senso comum ou o absurdo, existe espaço para um diálogo cotidiano ou abertura, no sentido pongiano?

Leda -Quando eu fazia Letras na USP, nos anos 1970, o centrinho dos alunos vivia promovendo palestras do Antonio Candido, o que era simpaticíssimo. Geralmente, as palestras eram sobre esse mesmo assunto que você traz à baila: a necessidade ou não da literatura e, de modo mais geral, das artes. Pedindo desculpas por repetir-se, o Candido dizia algo ótimo: o sujeito pode até garantir que não precisa da arte, mas de noite ... ele sonha. Hoje como sempre, continua existindo, sim, a necessidade da literatura, isso não mudou. Eu acho que o que mudou foi o tipo de literatura _ ou de sonho _ a que cada um de nós pode recorrer agora. Tem muita proposta em vista, tem leitores e literaturas para todas as demandas. Tem os escritores máximos, os bons escritores, os escritores médios, os ruins e os péssimos. Tem os policiais, as biografias, as auto-ajudas, os livros de jornalista, as irritantes narrativas sobre a narrativa.... Eu sempre digo aos alunos: não precisamos torcer o nariz para os escritores médios, do alto de nosso Proust, de nosso Cabrera Infante ou de nosso Danilo Kis, porque eles têm sua função: ajudam a formar público, camadas de leitores que, um dia, talvez, cheguem no Danilo Kis. De qualquer forma, eu não poderia perder a oportunidade desta pergunta para dizer que, para o assim chamado grande público, temos hoje a Feira de Paraty.

" Pays des mots, la France s'est affirmée par les scrupules qu'elle a conçus à leur égard. (...) En tout civilisation délicate s'opère une disjonction radicale entre la réalité et le verbe. (...) Quand on aime un langue, c'est un déshonneur de lui survivre." Cioran, E.M.- La tentation d'exister.Oeuvres. pg 899. France: Éditions Gallimard, 1995

" Pour rafrîchir le langage, il faudrait que l'humanité cessât de parler: elle recourrait avec profit aux signes, ou, plus visible de son avilissement; il n'y a plus de vocable intact, ni d'articulation pure, et, jusqu'aux choses signifiées, tout se dégrade à force de redites. Pourquoi chaque génération n'apprendrait-elle pas un nouvel idiome, ne fût-ce que pour donner une autre sève aux objets? La "vie", la "mort", - poncifs métaphusiques, énigmes désuètes... L'homme devrait se créer une autre illusion de réalité et inventer à cette fin d'autres mots, puisque les siens manquent de sang, et, qu'à leur stade d'agonie, il n'y a plus de transfusion possible." Cioran, E.M.- La tentation d'exister.Oeuvres.pg 719.France: Éditions Gallimard, 1995

Critério - Godard afirma que prefere fazer filmes a partir de romances ruins. O cinema detecta esse cansaço das letras para contar boas histórias?(Talvez o melhor cinema de Hitchcok seja estritamente não-verbal) Estaria essa "outra seiva" dos objetos além da ilusão das palavras?

Leda -É mais uma boutade dele. Todo o cinema do Godard homenageia a literatura. Lê-se bastante em Pierrot le fou, por exemplo, e mais ainda em A chinesa, que é quase inteiramente feito de citações ou recitações de um líder comunista que, na época, queria ser poeta: o Mao. Então, levando isso em conta, eu acho que é possível dizer que esse é um cinema assombrado pela literatura, que absorve, inevitavelmente, os impasses das escrituras modernas, ou que detecta, como você diz, o cansaço das letras, o "la chaire est triste hélas et jái lu tous les livres". A claquette metalingüística que estala nos filmes do Godard retoma, na sua ordem, a conversa irônica sobre livros no Bouvard et Pécuchet de Flaubert, ou vale pelo livro dentro do livro no romance de Proust. Uma lei das Comunicações é que uma mídia nunca enterra a outra. Não pode haver ilustração mais impressionante disso que os games, tudo ali, ou quase tudo, é tirado do cinema. Na nouvelle vague, quase tudo vem da literatura. Foi esse tipo de fina especialização que permitiu ao pessoal dos Cahiers du Cinéma perceber o Hitchcock, que também se permitia partir de maus romances para fazer boa poesia na tela.

" Porque a Crítica elevada é na realidade a exteriorização da alma de alguém! Ela fascina mais que a história pois não se ocupa senão de si própria. É mais delicada que a filosofia, porque o seu assunto é concreto e não abstrato, real e não vago. É a única fórmula civilizada de autobiografia..." Wilde, Oscar- A crítica e a arte em A decadência da mentira e outros ensaios. Trad. João do Rio. Rio de Janeiro : Imago Editora, 1994

Critério - A citação de Wilde que abre seu mais recente livro - Sobre a crítica literária brasileira no último meio século - entende a crítica como mais que uma predileção gratuita por este ou aquele texto e escritor, mas um percurso profundo das suas dúvidas, hipóteses e convicções através de suas escolhas. Poderia comentar suas escolhas e a relação com seu percurso?

Leda -Eu adoro essa frase do Wilde, até porque ela é absolutamente verdadeira a respeito do próprio Wilde: a maneira como ele faz passara crítica na frente da literatura é tão divinamente decadentista quanto ele. Sobre as minhas próprias relações biográficas com a crítica, acho que poderia dizer duas coisas. A primeira é que todo o lado francês do meu repertório, longe de corresponder a uma escolha ou a um arbítrio, me foi, por assim dizer, imposto pela formação completamente francesa que eu recebi. Eu tinha francês na escola _ o Liceu Pasteur da Vila Mariana _ desde o primário e, na segunda série do que a gente chamava, antigamente, de "ginásio", já tinha que dissertar sobre o Balzac e o Flaubert em francês! Depois disso, o mestrado e o doutorado na França só fizeram confirmar aquilo que os meus amigos chamam de "atmosfera francesa" da minha pessoa. A segunda coisa é que, desde mais ou menos os quinze anos, eu queria ser escritora, eu comecei tentando a poesia (!) Mas nunca consegui, então, eu comecei a prestar atenção nos grandes escritores que dizem que não conseguem escrever... Não há ninguém que tenha levado isso tão longe quanto o Francis Ponge, daí eu ter me preparado, a vida toda, eu acho, para ser a sua tradutora.

Critério - Você poderia comentar seu próximo curso - sobre adaptações cinematográficas e as figurações do feminino?

Leda -Está havendo muita pressão da CAPES sobre o Programa de Comunicação e Semiótica da PUC, onde eu dou aulas, para que os professores se restrinjam aos objetos das comunicações massivas. Mais que uma pena, porque isso põe em risco um dos programas de pós-graduação mais sofisticadamente interdisciplinares do país, e uma área que já nasceu provocadora, porque introduziu as mass media norte-americanas no coração francês das humanidades, trata-se de um grande equívoco. Como dizia o Borges da Sociologia, as Comunicações só nasceram antes-de-ontem. Então, elas têm que importar métodos de outras áreas. Você já parou para pensar no que seria, por exemplo, da ECA sem os frankfurtianos e sua crítica da indústria cultural, sem o Gérard Genette e seu conceito de "diegese", que é obsessivamente aplicado ao estudo das narrações cinematográficas, sem o Barthes e o modelo fulgurante das Mitologias, sem o Sergio Miceli e seu livro sobre os programas de auditório? Eu também falo disso, a título de protesto, no meu livro Literatura e contracomunicação. Mas enquanto as coisas não mudam, eu aproveito o fato de ter tido o privilégio de assistir às aulas do Barthes, e principalmente às últimas que ele deu no Collège de France, onde estava tratando das fotografias do monde proustiano por Nadar, como eu disse, para atacar o tema, da mesma maneira que ele fazia. Quem leu a Câmara clara sabe do que se trata, trata-se de uma poética dos retratos. Essa é a última e talvez a melhor das suas famosas dissidências e é, mais ou menos, em torno dela que vai girar o curso. Não será um curso sobre os logros das imagens fotográficas, à moda da Susan Sontag, mas , ao contrário, sobre a verdade pungente dos retratos, quando escapam de seu quadro ou de sua condição de simulacro para vir nos assombrar.

 

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