O
intervalo entre cada edição da Critério é ocupado
por uma série de reflexões, estímulos, desilusões,
esperança renovada. A idéia de alcançar um diálogo
sobre Arte, Filosofia e Política, de forma franca, solidária e visando
a mudança de postura em relação às inúmeras
contradições que habitam o campo do pensamento e da ação
prática cotidiana, parece utópica em meio à tanta desconfiança
e desespero. Sendo brasileiro e imerso inexoravelmente numa sociedade que ainda
conjuga a cartilha colonial, com todo seu requinte semiótico em encontrar
novos signos para velhas práticas, faço do livre pensar minha cruz
cotidiana. Um país sobredeterminado por Leis de Gérson, de Murphy,
da oferta e da procura, faz questão de viver com o sentimento de estar
à margem da moral, ou do assentimento coletivo de normas de vida comunitária.
Como uma espécie de declaração de existência, "Eu
existo", o percurso marginal e anti-ético se consolida como uma petição
de princípios de um cidadão de carne numa sociedade de papel.
Navegando
na maré midiática, surfando na baba ideológica dos intelectuais
orgânicos (ou deveria dizer cibernéticos ?), o proletáriado
cultural brasileiro chafurna à procura de justificativas para sua rendição.
Disse brasileiro, mas comemos apenas os restos do banquete desiludido dos filósofos,
sociólogos e antropólogos europeus e americanos. Pois os acadêmicos
e artistas desiludidos ainda esperam a resposta do enigma da esfinge na inteligência
dos babalaôs english-speakers e no barra-vento dos intelectuais de
vanguarda do século passado. "Sou cavalo de Mayakovski!" brada
o poetinha que quer ver a classe média universal sair do umbigo de Vishnu.
"Êpa! Ezra Pound meu pai!". O Brasil é um mercado perfeito
para assimilar o refugo das teorias acadêmicas sobre como fazer versos,
críticas, leis ou nações. E enquanto Simone de Beuvoir anotava
no seu caderninho: "O brasileiro não gosta de mostrar suas favelas.",
estávamos preocupados em construir uma nova capital e construir um mito
de país moderno. Tudo para ocultar a determinação material
das condições do pensamento, ou seja, esconder e repudiar que o
pensamento se faz ao modo do poder dominante. Luta de classes não existe
mais, é coisa ultrapassada, diz o acadêmico europeu, renovado na
fé neoliberal. Lembra o patrão colonial que diz: "A Benedita
não quer aumento não, ela é da família!". Até
enquanto puder carregar o peso dessa modernidade, Benedita é da família.
Enquanto
nos países pós-industrializados a sociedade se remodela através
do capital da informação, numa produção incessante
de diferenças de mercado, o Brasil opta por encobrir sua realidade e cortar
na carne de seus deserdados. Ainda nostálgico da ordem e progresso militares,
a classe dominante (a qual recuso o rótulo de elite) investiga formas de
perpetuação e domínio, sem a incômoda presença
da ultrapassada classe trabalhadora e intelectual. Essas duas reminiscências
de um tempo sem saudades incomodavam por sua pressão insistente a respeito
da opressão e das desigualdades da marcha para o capital. Aqui, essa marcha
pode ser descrita como exploração e saque. De forma instrumental,
a classe dominante procurou criar uma legalidade à sua imagem e semelhança,
dando origem à instituições, leis, crenças e saber
popular. Como diria o bardo: "Vaia de bêbado não vale".
Será por isso que continuamos a ser um dos maiores produtores de cana?
E também de seus duplos sentidos, aguardente e prisão?
É
compreensível que o artista e o pensador tenham se retirado do espaço
público. "Um lugar fétido, repleto de mendigos, loucos, prostitutas,
punguistas..." Terra de ninguém, lugar de passagem. Quem está
dentro se conformou, não vê saída; quem está fora tem
medo de ali cair, aviso aos navegantes. "E além do mais, para quê
dedicar tempo e esforço a essas pessoas? Faremos um país dessa gente?"
Duas opções se apresentam: auto-exílio (se possível
com dinheiro do governo), ou torná-las invisíveis (nem que seja
necessário muito tempo e esforço). O monsieur tout-le-monde brasileiro
quer cadeias de segurança máxima, para as crianças inclusive.
Por que o Brasil não pode ser como aquele lugar da propaganda? É
assim que atualizamos nosso DNA escravocrata numa democracia pós-sem-nunca-ter-sido.
Como na piada-tese daquele intelectual de caserna - quentinho no seu bunker -
que o projeto moderno "não dá conta da realidade complexa das
novas subjetividades".
Desculpem
os mais sensíveis que esperam de uma revista cultural algum tipo de elevação
espiritual, alguma mais-valia simbólica, ou um simples relaxamento das
tensões cotidianas. Não foi a intenção agredir os
bem-intencionados. Parece que já ouço as palavras: "Mas o que
eu posso fazer?", "Lá vem esse papo bolchevique, de novo?",
"Quem esse cara pensa que é?". Infelizmente é real a constatação
de que para Capitão do Mato não existe plano de cargos e salários.
O proletariado cultural, como sempre bem intencionado, não deveria mais
aceitar o encobrimento da realidade material do pensar, ou seja, a dominação
sobre os meios de produção e distribuição do fazer
cultural, assim como o controle social da intervenção do intelectual.
"Como sobreviver e se manifestar ao mesmo tempo?" essa é a pergunta.
Se sou reconhecido, em pleno embate com as forças dominantes, como conseguirei
minha subsistência? Mais-valia simbólica, revolução
do pensamento, ou feijão no prato? "Não se deve cuspir no prato
que comeu!"
A
melhor forma de viver aqui é introjetando o policial, o censor, o patrão.
Capitão
do Mato - Debret
Não
me espanta que os livros luxuosamente encadernados não tenham nada a me
dizer, e que aquilo que me atinge seja escrito por mãos imperitas. Não
estou a procura de autopiedade, sublimação barata ou mais ideologia
dominante, transvestida de exotismo. Aliás está aí um tema
predileto dos habitantes da fila para celebridade: exotismo. Indiano, filipino,
cubano, celta, africano, sexual, metafísico. Por que falam tão mal
de Manuel Bandeira se todos querem mais é ir para Pasárgada?
"
Vou me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho
a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada.
Vou-me
embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz / Lá a existência
é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha
/ Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive.
E
como farei ginástica / Andarei de bicicleta / Montarei em burro brabo /
Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar ! / E quando estiver cansado /
Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d'água.
Pra
me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar
/ Vou-me embora pra Pasárgada.
Em
Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um
processo seguro / de impedir a concepção / Tem telefone automático
/ Tem alcalóide à vontade / Tem prostitutas bonitas / pra gente
namorar.
E
quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de
noite me der / Vontade de me matar - Lá sou amigo do rei - Terei a mulher
que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada."
"Cabeça
vazia, oficina do diabo". Aqui nesta terra, o cientista sapiente cria uma
semente que dá fruto sem semente. Fazer senso comum transgênico é
a missão daquele que, pago com dinheiro de impostos, vislumbra ser Capitão
do Mato de última geração, para as corporações
de terra-de-ninguém. Em tempos de abreviação forçada,
destilamos nosso riso histérico em kkk. Nunca se escreveu tanto para mudar
tão pouco. Minha mãe dizia : "Saco vazio não pára
em pé". Será que ela já se referia às chamadas
novas subjetividades? Um saco de gatos reacionário de ítens da moda
de contracultura. No meu tempo de criança isso se chamava o conto do vigário,
mas quem sabe ajude a alavancar a indústria de cosméticos e gerar
novos empregos? Pois essa é a nova aritmética.
Folia
- Debret
Num
país onde poucos sabem fazer contas, mas todos são calculistas,
equilibramos nosso déficit intelectual com um superávit ideológico.
Acostumados que estamos com a aparência mecânica das relações
sociais, simulado como um autômato pelas mídias globais, fazemos
do futuro a esperança pelo próximo feriado, esperando que nada mude
até lá. O peso do mundo se torna tolerável se renunciamos
nossa posição nele, passando como espectadores, de canal em canal.
Afinal, quem fizer a pergunta se prepare para ter a resposta, ou se cale! Não
se dá crédito àquele intelectual que nos retira do esconderijo
para não oferecer respostas. Ouço a novena que decreta que todas
as esferas sociais estão sobredeterminadas pelas leis da economia e do
mercado globalizado. As respostas estão nas mãos dos economistas,
das bolsas de valores, das casas de crédito.
Meu
pai dizia: "Crédito não é riqueza". Assim entendo
o pensamento e a arte que toma por empréstimo um valor que não produziu.
"Trabalhar hoje, receber amanhã, para pagar o que comeu ontem."
Só se vive assim na côrte ou na senzala. "Quem paga o flautista
dá o tom". O medo e a esperteza substitui a independência e
a mestria. Quem tem valor vive o risco. E como dizia o revolucionário de
outrora, o risco não vale a pena ser corrido só. Mas a dificuldade
está justamente em arregimentar uma comunidade quando os recursos são
escassos, ou quando a ganância predomina. Praticar solidariedade num contexto
canibalista pode ser interpretado como suicídio. Resta ao técnico
bem formado disputar uma vaga de emprego num programa de tv, exercitando uma ferocidade
que até então desconhecia. Mas afinal, como dizem: "Faz parte
do jogo."
Por
outro lado, receber as mensagens e colaborações de diversos colegas,
brasileiros e portugueses, criam uma perspectiva mais otimista para a jornada
desta iniciativa. A Revista Critério, resultado da confiança e do
trabalho sério de diversas pessoas, se consolida a cada edição
em uma via de diálogo de fato. Criativa e éticamente comprometida,
reafirma, mesmo com todas as dificuldades, o desejo de contribuir para a construção
de uma convivência mais justa, consciente e fraternal. Sem abrir mão
do prazer, correndo os riscos, esquentando o ferro para malhar.