>editoriais............

 

Editorial 6ªedição - Eu acuso!

Marcelo Chagas

 

O intervalo entre cada edição da Critério é ocupado por uma série de reflexões, estímulos, desilusões, esperança renovada. A idéia de alcançar um diálogo sobre Arte, Filosofia e Política, de forma franca, solidária e visando a mudança de postura em relação às inúmeras contradições que habitam o campo do pensamento e da ação prática cotidiana, parece utópica em meio à tanta desconfiança e desespero. Sendo brasileiro e imerso inexoravelmente numa sociedade que ainda conjuga a cartilha colonial, com todo seu requinte semiótico em encontrar novos signos para velhas práticas, faço do livre pensar minha cruz cotidiana. Um país sobredeterminado por Leis de Gérson, de Murphy, da oferta e da procura, faz questão de viver com o sentimento de estar à margem da moral, ou do assentimento coletivo de normas de vida comunitária. Como uma espécie de declaração de existência, "Eu existo", o percurso marginal e anti-ético se consolida como uma petição de princípios de um cidadão de carne numa sociedade de papel.

Navegando na maré midiática, surfando na baba ideológica dos intelectuais orgânicos (ou deveria dizer cibernéticos ?), o proletáriado cultural brasileiro chafurna à procura de justificativas para sua rendição. Disse brasileiro, mas comemos apenas os restos do banquete desiludido dos filósofos, sociólogos e antropólogos europeus e americanos. Pois os acadêmicos e artistas desiludidos ainda esperam a resposta do enigma da esfinge na inteligência dos babalaôs english-speakers e no barra-vento dos intelectuais de vanguarda do século passado. "Sou cavalo de Mayakovski!" brada o poetinha que quer ver a classe média universal sair do umbigo de Vishnu. "Êpa! Ezra Pound meu pai!". O Brasil é um mercado perfeito para assimilar o refugo das teorias acadêmicas sobre como fazer versos, críticas, leis ou nações. E enquanto Simone de Beuvoir anotava no seu caderninho: "O brasileiro não gosta de mostrar suas favelas.", estávamos preocupados em construir uma nova capital e construir um mito de país moderno. Tudo para ocultar a determinação material das condições do pensamento, ou seja, esconder e repudiar que o pensamento se faz ao modo do poder dominante. Luta de classes não existe mais, é coisa ultrapassada, diz o acadêmico europeu, renovado na fé neoliberal. Lembra o patrão colonial que diz: "A Benedita não quer aumento não, ela é da família!". Até enquanto puder carregar o peso dessa modernidade, Benedita é da família.

Enquanto nos países pós-industrializados a sociedade se remodela através do capital da informação, numa produção incessante de diferenças de mercado, o Brasil opta por encobrir sua realidade e cortar na carne de seus deserdados. Ainda nostálgico da ordem e progresso militares, a classe dominante (a qual recuso o rótulo de elite) investiga formas de perpetuação e domínio, sem a incômoda presença da ultrapassada classe trabalhadora e intelectual. Essas duas reminiscências de um tempo sem saudades incomodavam por sua pressão insistente a respeito da opressão e das desigualdades da marcha para o capital. Aqui, essa marcha pode ser descrita como exploração e saque. De forma instrumental, a classe dominante procurou criar uma legalidade à sua imagem e semelhança, dando origem à instituições, leis, crenças e saber popular. Como diria o bardo: "Vaia de bêbado não vale". Será por isso que continuamos a ser um dos maiores produtores de cana? E também de seus duplos sentidos, aguardente e prisão?

É compreensível que o artista e o pensador tenham se retirado do espaço público. "Um lugar fétido, repleto de mendigos, loucos, prostitutas, punguistas..." Terra de ninguém, lugar de passagem. Quem está dentro se conformou, não vê saída; quem está fora tem medo de ali cair, aviso aos navegantes. "E além do mais, para quê dedicar tempo e esforço a essas pessoas? Faremos um país dessa gente?" Duas opções se apresentam: auto-exílio (se possível com dinheiro do governo), ou torná-las invisíveis (nem que seja necessário muito tempo e esforço). O monsieur tout-le-monde brasileiro quer cadeias de segurança máxima, para as crianças inclusive. Por que o Brasil não pode ser como aquele lugar da propaganda? É assim que atualizamos nosso DNA escravocrata numa democracia pós-sem-nunca-ter-sido. Como na piada-tese daquele intelectual de caserna - quentinho no seu bunker - que o projeto moderno "não dá conta da realidade complexa das novas subjetividades".

Desculpem os mais sensíveis que esperam de uma revista cultural algum tipo de elevação espiritual, alguma mais-valia simbólica, ou um simples relaxamento das tensões cotidianas. Não foi a intenção agredir os bem-intencionados. Parece que já ouço as palavras: "Mas o que eu posso fazer?", "Lá vem esse papo bolchevique, de novo?", "Quem esse cara pensa que é?". Infelizmente é real a constatação de que para Capitão do Mato não existe plano de cargos e salários. O proletariado cultural, como sempre bem intencionado, não deveria mais aceitar o encobrimento da realidade material do pensar, ou seja, a dominação sobre os meios de produção e distribuição do fazer cultural, assim como o controle social da intervenção do intelectual. "Como sobreviver e se manifestar ao mesmo tempo?" essa é a pergunta. Se sou reconhecido, em pleno embate com as forças dominantes, como conseguirei minha subsistência? Mais-valia simbólica, revolução do pensamento, ou feijão no prato? "Não se deve cuspir no prato que comeu!"

A melhor forma de viver aqui é introjetando o policial, o censor, o patrão.

Capitão do Mato - Debret

Não me espanta que os livros luxuosamente encadernados não tenham nada a me dizer, e que aquilo que me atinge seja escrito por mãos imperitas. Não estou a procura de autopiedade, sublimação barata ou mais ideologia dominante, transvestida de exotismo. Aliás está aí um tema predileto dos habitantes da fila para celebridade: exotismo. Indiano, filipino, cubano, celta, africano, sexual, metafísico. Por que falam tão mal de Manuel Bandeira se todos querem mais é ir para Pasárgada?

" Vou me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada.
Vou-me embora pra Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconsequente / Que Joana a Louca de Espanha / Rainha e falsa demente / Vem a ser contraparente / Da nora que nunca tive.
E como farei ginástica / Andarei de bicicleta / Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar ! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d'água.
Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar / Vou-me embora pra Pasárgada.
Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um processo seguro / de impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcalóide à vontade / Tem prostitutas bonitas / pra gente namorar.
E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar - Lá sou amigo do rei - Terei a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada."

"Cabeça vazia, oficina do diabo". Aqui nesta terra, o cientista sapiente cria uma semente que dá fruto sem semente. Fazer senso comum transgênico é a missão daquele que, pago com dinheiro de impostos, vislumbra ser Capitão do Mato de última geração, para as corporações de terra-de-ninguém. Em tempos de abreviação forçada, destilamos nosso riso histérico em kkk. Nunca se escreveu tanto para mudar tão pouco. Minha mãe dizia : "Saco vazio não pára em pé". Será que ela já se referia às chamadas novas subjetividades? Um saco de gatos reacionário de ítens da moda de contracultura. No meu tempo de criança isso se chamava o conto do vigário, mas quem sabe ajude a alavancar a indústria de cosméticos e gerar novos empregos? Pois essa é a nova aritmética.

Folia - Debret

 

Num país onde poucos sabem fazer contas, mas todos são calculistas, equilibramos nosso déficit intelectual com um superávit ideológico. Acostumados que estamos com a aparência mecânica das relações sociais, simulado como um autômato pelas mídias globais, fazemos do futuro a esperança pelo próximo feriado, esperando que nada mude até lá. O peso do mundo se torna tolerável se renunciamos nossa posição nele, passando como espectadores, de canal em canal. Afinal, quem fizer a pergunta se prepare para ter a resposta, ou se cale! Não se dá crédito àquele intelectual que nos retira do esconderijo para não oferecer respostas. Ouço a novena que decreta que todas as esferas sociais estão sobredeterminadas pelas leis da economia e do mercado globalizado. As respostas estão nas mãos dos economistas, das bolsas de valores, das casas de crédito.

Meu pai dizia: "Crédito não é riqueza". Assim entendo o pensamento e a arte que toma por empréstimo um valor que não produziu. "Trabalhar hoje, receber amanhã, para pagar o que comeu ontem." Só se vive assim na côrte ou na senzala. "Quem paga o flautista dá o tom". O medo e a esperteza substitui a independência e a mestria. Quem tem valor vive o risco. E como dizia o revolucionário de outrora, o risco não vale a pena ser corrido só. Mas a dificuldade está justamente em arregimentar uma comunidade quando os recursos são escassos, ou quando a ganância predomina. Praticar solidariedade num contexto canibalista pode ser interpretado como suicídio. Resta ao técnico bem formado disputar uma vaga de emprego num programa de tv, exercitando uma ferocidade que até então desconhecia. Mas afinal, como dizem: "Faz parte do jogo."

Por outro lado, receber as mensagens e colaborações de diversos colegas, brasileiros e portugueses, criam uma perspectiva mais otimista para a jornada desta iniciativa. A Revista Critério, resultado da confiança e do trabalho sério de diversas pessoas, se consolida a cada edição em uma via de diálogo de fato. Criativa e éticamente comprometida, reafirma, mesmo com todas as dificuldades, o desejo de contribuir para a construção de uma convivência mais justa, consciente e fraternal. Sem abrir mão do prazer, correndo os riscos, esquentando o ferro para malhar.

 

Comente esse artigo

Adicione esse artigo

Métodos de Amir Brito Cadôr

Haxixe de Benjamim de Marcelo Chagas

Capital de la doleur e Alphaville de Godard de Marcelo Chagas

 

...

 

 

Get this widget!

 

C..divulgação...envie originais...quem somos...OPML...newsletter...expediente