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Editorial 5ªedição

Marcelo Chagas

 

" XXVIII - Falemos agora das artes. Por que os espíritos conceberam e transmitiram tantos conhecimentos que passam por excelentes, a não ser por sede de glória? Foi à custa de vigílias e de suores que uns homens, na verdade extremamente loucos, acreditaram comprar essa fama, que , na verdade, é a mais vã de todas as coisas. Assim é que deveis à Loucura todas as preciosas comodidades da existência, pelas quais, o que é infinitamente agradável, tirais partido da loucura alheia." Elogio da Loucura de Erasmo de Rotterdam (1466 -1536)1

"27ª Tese Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório. 39ª Tese É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e, ao contrário, o verdadeiro arrependimento e pesar. 82ª Tese Haja vista exemplo como este: Por que o papa não livra duma só vez todas as almas do purgatório, movido pela santíssima caridade e considerando a mais premente necessidade das mesmas, havendo santa razão para tanto, quando, em troca de vil dinheiro para a construção da basílica de São Pedro, livra inúmeras delas, logo por motivo bastante infundado? " As 95 Teses afixadas por Martinho Lutero na Abadia de Westminster a 31 de outubro de 1517, fundamentalmente "Contra o Comércio das Indulgências"


Freqüentemente acontecem processos de relativização do valor cultural das principais matrizes vigentes, em dado local e período histórico, momentos que carregam a justificativa de outorgar validade para discursos estéticos e políticos que se encontravam à margem das instituições culturais e do debate social mais amplo. Momentos como o chamado Renascimento, Iluminismo, Romantismo, etc. Alguns teóricos querem afirmar que estamos vivendo um momento com essas características, de grande diversidade de referências, muitas delas contraditórias e coexistindo num regime de hibridismo e realinhamento conceitual. Principalmente depois da queda dos maniqueísmos entre os blocos sobreviventes da Guerra Fria, e o progressivo "entregar de armas" para a mundialização de mercados, a prima-dona desse processo de uniformização cultural pelo mercado tem sido a cultura globalizada.


De vinte anos para cá, vem junto na MacOferta: batatinha-frita, Tom Wolfe, hambúrger, Faulkner, sundae e Harold Bloom. Toda uma onda reacionária, transvestida de nova subjetividade contemporânea, que saboreia todos os produtos com seu peculiar excesso de gordura, açúcar e aromatizantes. Também é freqüente nas análises históricas que para as metrópoles imperiais, quando alcançam sua supremacia militar, política e cultural, só restam as bênçãos do excesso de peso e da promiscuidade. Quem não se lembra de Nero, ou Calígula, Bill Clinton, ou mesmo do cidadão comum, acima da média, de peso, americano. É também nesse ambiente que prosperam a sátira e a comédia.
Nesse mesmo pacote, de brinde, uma enxurrada de instituições. Para cada novo produto, uma instituição que a celebre. Da associação dos pipoqueiros da Carolina do Sul, aos produtores de pornografia, passando pela world music, latin poetry e todo tipo de cânone que espelhe uma "nova subjetividade". E o produto mais cobiçado dessas instituições são as coletâneas de top 10 a top 100. Onde se pode colocar, lado a lado, Homero, Einstein, Mozart, Picasso, Cicciolina, Madonna e o digníssimo "Sr. Qualquer Um" de qualquer área industrial. Nesse contexto de diversidade institucional surgem como figuras fortes da cultura os editores, curadores, e as bancas de júri: os novos vendedores de indulgências, os salvadores dessas almas que pretendem, à qualquer custo sair do limbo do anonimato.
A moeda corrente mais aceita hoje é o elogio, a menção, a entrevista, a titulação, a premiação. Afinal, como sobressair à descarga diária de novos produtos culturais, nem todos contemplados com a atenção da máquina publicitária das mídias, nem todos com um escândalo para promover seus nomes. São ex-jogadores de futebol, ex-drogados, ex-prostitutas, todos querendo contar as suas histórias e dividir o peso de suas consciências. Talvez, movidos pela curiosidade ou culpa, essas lamúrias por escrito chamam a atenção e se destacam como alguma coisa verdadeira nesse mar de ficção. Engrossam a fila as atrizes com seus casamentos perdidos, os escritores medíocres que viram a morte de perto em algum acidente, e as minorias tradicionais. Cada um com seu cânone próprio no bolso e a justificativa das suas "idiossincrasias" nas teses acadêmicas que professam a complexidade do mundo contemporâneo.

Andy Warhol: Lênin, Howdy Doody, kafka, Pat Hearn


Quem já não viu um professor doutor com sua malinha, à la Gato Félix, de onde tira a cura para toda desconfiança quanto aos cânones. "É o herói!". A figura proeminente do "Crítico criador de mitos", lição bem aprendida com Andy Warhol. Não há superficialidade que resista à alguns goles de bom champanhe e caviar - servidos pelas mesmas mãos negras de sempre, com luvas. Escrevem seus catálogos, cada vez mais pesados - seu peso medido em quilos. Derrisão é a pedra filosofal de uma retórica burguesa que faz questão de afirmar que o tempo da luta de classes já passou. Hoje, em tempos de complexidade, quem pode dar uma opinião definitiva sobre qualquer coisa? Aranhas a tecer sua renda de citações, armadilha conceitual, arquitetura de saliva, na expectativa de que a mariposa nela se enlace e debata, até extinção de suas forças.
Em tempos pós-modernos a disputa é pelos espólios, heranças, influências tardias ou inspiração, que seja. Faz lembrar Hamlet escavando seu encontro com o bobo-da-corte:
"Deixa-me vê-lo (segura o crânio) Ai ! Pobre Yorick ! Eu o conheci, Horácio: era um homem engraçadíssimo e de fantasia portentosa. Mil vezes me carregou nas costas e, agora, sinto horror ao recordá-lo! Meu estômago até se revolta ! Aqui pendiam aqueles lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Que fizeram de teus sarcasmos, de tuas cabriolas, de tuas canções, de teus rasgos de bom humor, que faziam toda a mesa prorromper em gargalhada ? Nada, nem uma só graça sequer para ridicularizar tua própria careta ? (...)"2
A lembrança metafísica que o bobo-da-corte provoca garante a última dignidade possível hoje: a dos defuntos. Nesse caso, vale a lógica dos abutres, escarafuchadores e arqueólogos. Um restinho de carne no osso, uma moeda rara, ou ponta de lança, um prêmio inestimável para quem não tem nada de próprio para dizer.
Mesmo as vozes discordantes do coro pós-moderno, a louvar, ininterrupto, a abundância de oportunidades dos novos tempos, caminham numa linha tênue entre ironia e enquadramento. Escarnecem do jogo, dentro dele, prestando atenção a cada movimento. Novos enfant-terribles, com seus blusões de couro, aro tartaruga, cachimbos, ou qualquer muleta de personalidade que valha, procuram imitar trejeitos e, quem sabe, inventar novos, nessa comédia de mau gosto, que se tornou a cultura mundializada. Que de mundializada só tem a mediocridade, pois a metrópole prefere seus próprios idiotas, english-speakers, para lhes entreter. Passa a valer na colônia o canibalismo sem virtude e a lógica fura-fila, na enorme procissão de desempregados com títulos, caminhando sem imagem para louvar, sem igreja para ir.


"A própria sociabilidade é a participação na injustiça, na medida em que finge ser este mundo morto no qual ainda podemos conversar uns com os outros, e a palavra solta, sociável, contribui para perpetuar o silêncio, na medida em que as concessões feitas ao interlocutor o humilham de novo na pessoa que fala." Minima moralia, Theodor Adorno.3


Por que editar uma revista literária hoje? Para tentar não reproduzir a farsa, ou sintoma, que tomam conta dos espaços de cultura. Sem cair na ingenuidade romântica, ou na presunção de salvador da pátria, uma alternativa seria reduzir a escala das expectativas, trazer o diálogo para uma realidade não tão mediada pelas promessas de sucesso de mercado, pela mais valia da erudição ilustrada, pelo corporativismo dos acadêmicos. Ao invés de "viver de arte", com toda a conotação parasitária possível, "viver com arte", eticamente. O lugar dessa satisfação é o espírito. Não o ego. O espírito, lugar de encontro entre os sujeitos. O poeta instala no outro um espaço seu, a partir da sua imaginação. Entre.
Esse lugar, o espírito, que não encontra endereço na anatomia, dificulta a produção de estatísticas de satisfação do consumidor. Não mora na barriga, no rosto ou nos genitais. Nem no arranha-céu, muito menos nos altares santificados. Irritantemente indefinível. Um lugar próximo ao endereço da Loucura, como afirma Erasmo. Sem cor, sem raça, sem gênero, sem pátria, como definí-lo ? Segundo Hegel, "o verdadeiro é unicamente essa diversidade que se reinstaura ou a reflexão de si mesmo no ser-outro. Não é unidade original enquanto tal, ou imediata enquanto tal. É o devir de si mesmo, o círculo que pressupõe seu fim como seu alvo, tem esse fim como princípio e é efetivo somente por meio da sua realização e do seu fim." 4
A idéia de editar uma revista é a de compartilhar essa diversidade irredutível, desenvolvendo um diálogo que possa trazer sínteses críticas, mesmo que provisórias, mas que possam, de forma autônoma aos valores excludentes da "sociedade de abundância", nortear um paradigma ético e político mais solidário e tolerante. As vanguardas artísticas que, através de uma total reversão cultural e lingüística, se afastaram do cidadão comum, com o objetivo de reinstaurá-lo numa outra sociedade, transformada pela empreitada estética, acabaram abandonando, gradativamente essa missão, e redundando em práticas formalistas e auto-referenciais fetichizadas. O que veio para ampliar o espectro do imaginário humano desaguou numa enorme redução de sensibilidade, a serviço da uniformização dos hábitos culturais em rotinas de consumo.


Todo o cuidado possível com um ceticismo exagerado, niilismo mais próximo da capitulação sem luta. Prefiro, teimosamente, insistir que a arte é um fazer social, sua legitimidade passa por uma afirmação do individual, mas deve alcançar o coletivo com uma força libertadora. Exceto as obras feitas por encomenda para colecionadores, ou execução em salões privados, a arte e o estudo que utiliza financiamento público deve tomar consciência que todo o recurso empregado nela tem uma fonte e um endereço comum: a sociedade. Da mesma forma, a crítica, que toma emprestada essa legitimidade, deve evitar a privatização dessa pretensa base moral, em direção a uma reflexão de fato, que leve em conta, não apenas o lugar comum das tradições eruditas estabelecidas, mas a real necessidade de criar - ou recriar - práticas políticas, intrínsecas nas obras de arte e nas outras instâncias culturais.

1 Elogio da loucura - Erasmo de Rotterdam; trad. Maria Ermantina G.G. Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1990
2 Hamlet, príncipe da Dinamarca - William Shakespeare; trad. F. Carlos de Almeida e Oscar Mendes. São Paulo: Nova Cultural, 1993
3Minima Moralia - Theodor W. Adorno; trad. Luiz Eduardo Bicca. São Paulo: Ática, 1993
4 A Fenomenologia do Espírito - Georg W. F. Hegel; trad. Henrique Cláudio de Lima Vaz. São Paulo: Abril, 1974

 

 

 

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