O
Espetáculo Moderno, escreveu Guy Debord, é um canto épico,
mas não canta, como a Ilíada, os homens e suas armar, e sim as mercadorias
e suas paixões. (1) animismo, totemismo,
fetichismo enfeitiçam as mercadorias. Analisando a migração
do conceito, da história da religião para a ideologia contemporânea,
Marx não só compara o fetichismo da mercadoria ao fetichismo religioso,
como revela a permanência do encantamento do mundo nos valores religiosos:
os homens os produzem e adoram, atribuindo poderes sobrenaturais a objetos materiais.
Assim, nas sociedades ditas primitivas - como as de Melanésia -, o mana
é um força imaterial, sobrenatural e impessoal, espécie de
"fluido invisível", ou de aura; concentra-se em determinadas
pessoas e coisas, transmitindo-se a objetos e, se tratado inadequadamente, pode
produzir efeitos negativos e desagregadores que pedem sacrifícios. Por
isso ao mana associa-se um tabu, e a este, a transgressão.
A
mercadoria é o totem capitalista ao qual o indivíduo se sacrifica:
"Toda pessoa especula sobre a possibilidade de criar no outro uma nova necessidade,
a fim de obrigá-lo a um novo sacrifício, de impingir-lhe uma nova
dependência, de induzi-lo a uma nova forma de prazer, levando-o assim à
ruína econômica!. (2)
Na pessoa
do capitalista "o prazer submete-se ao capital, o indivíduo que usufrui,
àquele que capitaliza". (3) A
categoria do fetichismo é o centro da crítica de Marx aos fundamentos
das sociedades capitalistas. (4)
A
"religião capitalista" inscreve-se em meio aos crescentes processos
de secularização, demitização, desencantamento do
mundo - que, em sua radicalização, atinge não apenas representações
religiosas, mas também as ideológicas consideradas seu prolongamento.
O capitalismo é uma religião profana, pois tem seus objetos de contemplação
e de desejo - as mercadorias e suas imagens; a libido, que está em toda
parte, exceto na sexualidade, como já o notara Barthes, Isto significa
que a tecnologia da sensualidade está a serviço da "estética
da mercadoria ", (5) estética
que deve produzir fascinação, que arrebate as sensações
dos "indivíduos" assim mobilizados.
A
manipulação dá-se pela promessa estética do valor
de uso, da utilidade da mercadoria, por uma lado, e da beleza agregada a serviço
da realização do valor de troca, por outro, a fim de suscitar o
desejo de posse. Aquele que compra pretende suprir uma necessidade, sendo-lhe
o objeto, então, útil; mas, no que diz respeito ao valor de troca,
a finalidade desse objeto é alcançada quando se transforma em dinheiro.
A mercadoria como valor de troca representa e realiza a diminuição
qualitativa e quantitativa da utilidade das mercadorias, o que vem a ser compensado
por seu embelezamento e sensualidade: " A mercadoria", escreveu Marx,
"ama o dinheiro", ao qual ela "acena" com seu preço,
lançando "olhares amorosos" ao consumidor. (6)
Essa inversão, na qual os humanos imitam os jogos amorosos dos objetos
materiais, faz também com que as pessoas retirem suas expressão
estética das mercadorias. Estas, desde os produtos de embelezamento corporal
até os modelos da moda, por meio da publicidade, induzem comportamentos,
bem como são coletivamente adotadas. Por um "amor de transferência",
o charme da manequim magicamente migra para aqueles que imitam seu estilo. Benjamim
considera essa empatia com a mercadoria, escrevendo: " Se a mercadoria tivesse
aquela alma de que Marx fala, ocasionalmente, em tom de brincadeira, ela seria
a mais empática já encontrada no reino das almas. Pois teria de
ver, em todos, o comprador em cuja mão e em cuja morada gostaria de ajeitar-se".
(7)

Cena
do filme "Societé de l'espetacle" de Guy Debord
Ansiando
pelo dinheiro, a mercadoria é criada à imagem da ansiedade do público
consumidor, oferecendo-lhe o que espera: a ideologia do prazer pelo consumo, sem
o que não suscitaria o sentimento de felicidade pelo consumo. Para tanto,
seu "conteúdo de realidade" torna-se cada vez mais sutil, chegando
a prescindir da realidade, e mesmo rompendo com ela.
O
mundo contemporâneo é o mundo da aparência, inteiramente realizado,
o que se atesta na separação entre mercadoria e publicidade, a coisa
e sua imagem, o pré-prazer prometido pela imagem é dissociado da
posse real. Desfazem-se da maneira mais extrema os fundamentos do mundo moderno,
elaborados por Descartes, cujas Meditações constituem o esforço
de separar a verdade do erro, o conhecimento da ilusão, o conhecimento
da ilusão, no esforço em desvincular-se do sensível e de
suas imagens enganadoras, como se lê na Segunda meditação,
quando o filósofo se dedica a analisar o pedaço de cera que acaba
de ser retirado de uma colméia:
Não
perdeu ainda a doçura do mel que continha, ainda retém algo do aroma
das flores de que foi produzido, sua cor, sua figura, sua grandeza são
patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, algum som
produzirá [...]. Mas eis que o aproximamos do fogo: o que restava de sabor
desfaz-se, o odor se dissipa, sua cor se altera, sua figura se modifica, [...]
mal o podemos tocar e, se nele batermos, nenhum som produzirá. A mesma
cera permanece após essa modificação ? (8)
Se
a cera mantém sua identidade primeira, é possível sabê-lo
pela razão, e não pelos sentidos. A cera pode tomar diversos disfarces,
múltiplas formas sensoriais. Também quando se observa pela janela
um passante vestido com seu casaco e chapéu: o que nos garante não
ser isso um simples robô com roupas de homens ? Descartes procura mostrar
que tão-somente os fenômenos de consciência são certos,
qualquer conteúdo sensível pode ser falsificado. A intenção
cartesiana é emancipar o mundo, das ilusões, o que culmina, não
obstante, em uma separação perversa: domínio da natureza
por meio da ciência, pelo pensamento algébrico-matemático,
por um lado, e permanência da ilusão, por outro.
É
o que se passa com a mercadoria separada de sua imagem. A mercadoria atesta o
fim do culto à origem, ao original e à originalidade, pois se multiplica
ao infinito pelo artifício da produtividade técnica; fim das noções
de natureza e natural, da filosofia da identidade, da subjetividade, da consciência,
substituídas pela proliferação de imagens. De certo modo,
a modernidade é herdeira da querela entre iconófilos e iconoclastras,
que, entre os anos de 726 e 843, dominou o Império Romano do Oriente. Essa
querela se deu entre os iconoclastas, os quais recusavam as imagens em nome da
pureza da tradição cristã - para eles, a representação
do Cristo não era apenas inadequada, mas uma blasfêmia -, e os iconófilos,
que reconheciam no ícone um conteúdo espiritual que não é
o Outro do original, mas o "próprio original". Segundo essa corrente,
a imagem é evocação e medium através do qual Deus
se revela no sensível, original sendo, pois, passível de evidência
sensível. A imagem, para seus seguidores, consiste em uma teologia visual
em que se conjugam o visível e o invisível. Sendo, assim, a imagem
um excelente veículo para a fé, deve ser integrada a ritos e objetos
de culto já existentes.
A
modernidade não é platônica nem cartesiana. Se, para o platonismo,
o inimigo do original é a cópia, a falsificação, o
simulacro apenas confirma o estatuto primeiro do original, sublinhando sua precedência
autêntica diante de imitações sem valor ontológico
ou metafísico. Assim, também, as disputas dos especialistas para
decidir se algo é falso ou autêntico apóiam-se nessa hierarquia
de valores, cuja origem recua a Platão. Quanto ao mundo contemporâneo,
a mercadoria separa-se de sua imagem, assim como a embalagem de seu "corpo",
vindo a ser mais importante que ele. A mercadoria está encoberta, dissimulada
ou esquecida atrás das imagens espetaculares. Às sociedades em que
isto acontece deu-se o nome de "sociedades do espetáculo",
(9) para indicar sua natureza alucinatória,
por não se ligar ao real, e sim ao "hiper-realismo", cuja pretensão
é ser mais real que o real, ou mesmo substituí-lo. Mas, ainda aqui,
não se escapa do campo da metafísica, pois permanece a assunção
de um original, de uma verdade substancial, encoberta, dissimulada ou esquecida
por detrás das imagens.
O mundo contemporâneo prescinde de uma
verdade substancial, o que se revela na publicidade ou nas embalagens das mercadorias:
A
embalagem não é pensada apenas como proteção contra
os riscos do transporte, mas é um verdadeiro rosto a ser visto pelo comprador
potencial, antes de seu "corpo", e ela o envolve, transformando-o visualmente,
a fim de correr ao encontro do mercado e de sua mudança de forma [...].
Depois que a superfície [ da mercadoria ] se liberta, tornando-se uma segunda
[ pele ], frequente e incomparavelmente mais perfeita que a primeira, desprende-se
completamente, descorporifica-se e circula com rapidez pelo mundo inteiro como
se fosse o espírito colorido da mercadoria [...]. Ninguém mais está
seguro contra seus olhares amorosos. (10)
Walter
Benjamim, por sua vez, considera essa figura moderna do erotismo, na expressão
"sex appeal do inorgânico". Sua história primeva encontra-se
nas exposições universais do século XIX, em particular, a
do ano de 1855 em Paris, cidade-fetiche, onde se entrecruzavam o fenômeno
religioso da superstição e o erótico, o desejo de posse da
mercadoria e o amor de transferência de suas supostas qualidades e propriedades
ao consumidor. Além disso, o filósofo reconhece uma continuidade
da religião no culto contemporâneo às imagens e na adoração
das mercadorias.
As
Exposições Universais de Londres e Paris, que receberam, durante
um ano, mais de 50 milhões de visitantes, manifestaram uma nova peregrinação,
diversa daquela que levava pessoas a acorrerem a lugares sagrados. Em "Paris,
capital do século XIX", Benjamim escreve que as exposições
universais são os centros de peregrinação das mercadorias-fetiches.(11)
Abandonando o recinto das igrejas, o sagrado expõe-se nos imensos "palácios
do efêmero" - os Palácios de Cristal -, construídos para
a glória dos deuses modernos: a mercadoria, a novidade, a máquina,
o progresso. Mas é em Paris que a cidade acede a essa consciência
e à aventura da constituição dos sentidos inéditos
do mundo das coisas. Com efeito, há na mercadoria fartamente exposta um
apelo ambivalente: sua estética incita tanto à compra quanto ao
furto, pois o sinal de seu sucesso não se mede apenas pelo volume de vendas,
mas também dos roubos:
O
impulso de pegar é fortemente provocado pela arrumação astuciosa
das mercadorias em vitrines e prateleiras, de tal modo que um cliente mal consegue
passar direto. A mercadoria deve ser assim ornamentada a ponto de o cliente sentir
vontade de roubá-la. (12)
Walter
Benjamim, à maneira do arqueólogo, procura o inconsciente da modernidade
e o do século XIX numa investigação a partir de suas construções
arquetípicas, as passagens ou arcadas, galerias construídas em ferro
e vidro, pelas quais a multidão se desloca. O espetáculo das multidões
que assim se movimentam, expostas como em vitrines, pela primeira vez se oferece
à leitura e à legibilidade, uma vez que foi o século XIX
que produziu uma literatura em que a personagem principal é a cidade de
Paris. Seu aspecto moderno, surrealista, é notado em uma carta a Gershon
Scholem, de 1926, escrita enquanto se dedica à tradução do
segundo tomo de À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust, para o
alemão. Benjamim reconhece nos interstícios da "linguagem secreta"
de seus salões, no "jargão de classe" ininteligível
aos estranhos, o elemento pré-surrealista da cidade, onde se impõe
a verdadeira fisionomia surrealista da existência. Surrealismo: desmontagem
de um todo uno, do qual cada peça é elemento de um outro texto,
novo e original. Assim, apresentando-se na personagem do bibliômano vindo
consultar in loco catálogos e livros da Bibliothèque Nationale,
dos quais colhia citações, Benjamim faz a mania do leitor compulsivo
abranger, através da irradiação literária da cidade,
o conhecimento de Paris: "Há séculos", anota, "a
hera das folhas doutas embaralha-se com o cais do rio. Paris é a grande
sala de leitura de uma biblioteca que atravessa o Sena".(13)
A legibilidade da cidade é também a de sua psyche. Modernidade complexa,
a de Paris, que reúne erotismo e fetichismo.
Para
compreendê-la, Benjamim percorre a literatura sobre Paris, valendo-se dos
procedimentos de Freud em sua interpretação de sonhos, a fim de
decifrar nesses escritos a experiência que contêm. A interpretação
dos sonhos, de Freud, antecipa o "método" benjaminiano. Com efeito,
Roma e Paris estão presentes nos dois escritos. São cidades que
o detetive do inconsciente deseja, com ardor, conhecer, em que realidade e desejo
mesclam-se nos sonhos em que ambos se manifestam - e a realização
do sonho de ir a Paris aparece a Benjamim como possibilidade de realização
de outros desejos. É a cidade como espaço de coexistência
de diferentes épocas e do passado objetivado que se torna o modelo de concomitância
subjetiva de épocas na recordação.
Se
Pompéia é o paradigma da cidade soterrada, fixada em um agora passado,
Roma é, para Freud, a cidade sob o signo da rememoração,
cujo presente é invadido pelo passado. Também para Benjamim, as
edificações comemorativas, os monumentos que ornamentam a cidade
são símbolos mnemônicos, mas também símbolos
"histéricos": a cidade como sobrexposição de diversas
épocas mantém o passado materializado na pedra que faz surgir seu
passado em presentes novos. Sendo assim, a cidade é a imagem da estratificação
da consciência, aí a cristalização do passado emerge
do esquecimento na consciência do presente.
Mas,
diferentemente dos signos mnemésicos da cidade, tais estratos não
apenas emergem à consciência como também a subjugam. Por sua
vez, Freud escreve que, em Roma, reminiscências das ruínas integram
o presente; o que hoje ocupa antigas construções são ruínas,
mas não ruínas de si mesmas - templos e edifícios daquelas
épocas -, e sim de renovações feitas em épocas posteriores,
depois de incêndios e destruições. Esses vestígios
da Roma antiga aparecem disseminados e sobrepostos à cidade, devendo ainda
haver algo escondido em seu subsolo ou sob construções modernas.
Eis o modo em que se conservou o passado em lugares como Roma. (14)
A
Paris benjaminiana, como a Roma de Freud, com suas camadas arqueológicas,
é um ente psíquico, dotado de passado, no qual tudo o que um dia
nasceu perdura ainda. Mas essa coexistência nada tem de simples: há
um recalque do antigo. Se, na cidade, uma outra coisa vem ocupar um mesmo lugar
ou sobrepor-se no presente, o recalque psíquico é dinâmico,
o presente luta com o passado para ocupar seu lugar. O recalcado converte-se em
algo mítico. Ao mito substancial dos gregos, ligado ao lugar solitário
e eminente de um templo, contrapõe-se, na grande cidade, o mito do efêmero:
o presente em sua cotidianidade, impermanência e banalidade; mas, também,
abre-se ao imemorial. A própria escolha da palavra "passagem",
para as narrativas de Benjamim sobre Paris não é fortuita: passo,
passar, passado, passante, passageiro (como substantivo e adjetivo); mas também
maison de passe, a cujos segredos a passagem oferece um acesso discreto, secreto.
A cidade de Paris e um lugar absoluto, é obra de arte total. Nela nada
resta de natureza, tudo é artifício, espetáculo, irrealidade.
Nela,
o unheimlich é o choque do retorno do recalcado ou "inibido"
(Hemmung) que constitui seus fantasmas. Quando Marx escreve que, pelo fetichismo
da mercadoria, as sombras perdem seus próprios corpos, dada a evanescência
do valor de uso, só resta o valor de troca, sobra que perdeu seu próprio
corpo; só resta o trabalho morto, coagulado em um objeto, como o passado
morto-vivo cujos fantasmas vêm importunar o cérebro dos vivos.

Cena
do filme "In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni " de Guy Debord
O
passado reprimido, mas não esquecido, permanece submerso. É assim
que o filósofo leitor de Baudelaire procura compreender estes versos do
poeta: "fervilhante cidade, cidade cheia de sonhos". Aí espectros
agarram-se ao presente em plena luz do dia: ela é o lugar da presença
aguda do real e da perda; e suas brumas conferem-lhe aspecto fantasmal. Aparição,
espectro ou fantasma são ameaçadores, pois bruscamente rompem o
familiar e conhecido, fazendo com que as identidades vacilem. Categorias como
espaço e tempo, sujeito e objeto, tornam-se incertas, e estes não
mais se beneficiam da estabilidade que seu conceito prometia. O flanêur
solitário naufraga na histeria, pois não se diferenciam da irrupção
do fantasma e o mito. Sem limites categoriais, a realidade carece de garantias,
torna-se estranha a si mesma, procurando apagar a cidade passada, erigindo imperiosamente
sua atualidade sobre ruínas. O unheimlich é, aqui, um dépaysement
com respeito à linearidade do passado, é o sentimento do perturbante,
advindo dos fragmentos do tempo. É também a memória involuntária
proustiana, imagem que cintila como clarão de um raio, de que fala Banjamim
nas teses "Sobre o conceito de história".(15)
Ele se choca contra a idéia fixa, a compulsão à novidade,
à repetição do mesmo, contra o novo tempo da economia de
mercado e da experiência na metrópole. O unheimlich é
o choc a indicar que aquele por ele supreendido encontra-se diante de um
perigo para o qual não está preparado. O que no plano individual
ocorre como delírio irrompe na sociedade no plano da ideologia, pois esta
é resistente à crítica lógica.
O
unheimlich é o choc nas metrópoles modernas, a realidade
que se transforma em imagem fantasmática, sem silhueta definida, como paisagem
em um inverno tomado por brumas. Imersa nelas, as casas parecem mais altas e alongadas
do que são, podendo ainda enganar o passante como se fossem o cais seguro
de um rio. Não se separam sonho e realidade:
A
submersão do espaço da cidade na bruma, que apaga contornos e categorias
espaciais, é ela mesma a imagem evocadora da submersão do espaço
psíquico interior: cabe ao Eu permanecer forte, no esforço de uma
presença de espírito heróica a ponto de tornar-se histérica.
(16)
Também
a descoberta de catacumbas sob as ruas de Paris deve ter impactado seus habitantes,
tornando-os conscientes de que se deslocavam por sobre o imenso cemitério
que se encontrava sob seus pés.
Foi
Nadar, de quem Benjamim trata no "Pequena história da fotografia",(17)
quem empreendeu, pela primeira vez, fotografar com luz artificial as catacumbas
de Paris. Assim, ao lado de sua vocação documental, a fotografia
foi uma maneira de explorar o invisível ou os fenômenos fugazes,
pois ela interroga uma temporalidade intermediária, um "entre-dois",(18)
que é uma espécie de metempsicose, pois os mortos, de vez em quando,
visitam os vivos.
A
lógica das mercadorias e suas hierarquias desrealizam também o tempo:
as horas dedicadas ao capital não têm passado nem futuro, são
horas mortas. A ele, Benjamim contrapõe o flanêur, o herói
da modernidade: ocioso, deixa-se levar pela multidão e pelo ritmo das tartarugas:
Havia
(por volta de 1840) o passante que se perde na multidão, mas também
o flanêur, que precisa do espaço livre e não quer perder sua
privacidade. Ocioso, caminha como uma personalidade, protestando assim contra
a divisão social do trabalho [...]. Nessa época, por algum tempo,
foi de bom-tom levar tartaruga para passear pelas passagens; de bom grado o flanêur
deixava que elas lhe prescrevessem o ritmo do caminhar. (19)
A
sociedade da abundância que promete luxo e volúpia por meio do consumo
pode encontrar na mercadoria e suas origens a possibilidade de desfetichização.(20)
Assim, se a prostituta é, para Benjamim, a igual título que para
Marx e Engels, a apoteose da identificação entre o amor e a mercadoria,
a possibilidade de uma vida "sem tempos mortos" remete ao imaginário
coletivo que reconhece no feminino a exigência de sua realização,
no universo da mulher "tout n'est que beauté, luxe, calme et volupté"
. Benjamim, leitor de Baudelaire, faz surgir do Mal suas "flores", da
"danação", a salvação da vida moderna. Assim,
Safo de Lesbos traz o que o amor pode trazer: ele é uma "contra-religião",
uma revolução. Para Benjamim, como para Baudelaire, a mulher é
o artifício, o belo é pura ilusão; na maquiagem - e Baudelaire
faz seu elogio -, as mulheres encontram práticas para consolidar e divinizar
sua "frágil beleza". Por sua toilette, parecem mágicas,
como também pelo refinamento de sua maquiagem, de suas atitudes, mas, sobretudo,
pelo olhar que lhes confere um charme pela aura que suscita:
Não
há olhar que não espere resposta do ser ao qual se destina. Quando
esta espera é compensada (por um pensamento, por um esforço voluntário
da atenção), a experiência da aura conhece então a
plenitude [...]. A experiência da aura repousa, pois, na transferência
[...]. Assim que se é ou se crê olhado, levantamos os olhos. Sentir
a aura de algo é conferir-lhe o poder de levantar os olhos. (21)
Tanto
Benjamim quanto Baudelaire dissociam a beleza do bem e fundam-na, por assim dizer,
no mal, na "artificialidade" do moderno, desfazendo a conotação
de falsidade que lhe era atribuída pelo "belo clássico".
O belo moderno não procura esconder seus artifícios, e a mulher
lhe faz apelo para parecer mágica. E a moda lhes oferece um repertório
de signos arbritrários; a moda é, a um só tempo, artificial
e sobrenatural, e é um ritual fetichista. Transforma a natureza em artifício
e artefato dotado de encantamentos e feitiço. Ao mesmo tempo, a moda transforma
a mulher em "estátua", em um "ser vivo divino e superior",
mármore, bronze ou pedra. Perturbadora e fantasmagórica, investida
de poderes mágicos, a mulher realiza a crítica e a emancipação
com respeito ao mundo do espetáculo e seus "valores". Utopia
do feminino, o universo das passagens recupera à sua maneira o mundo épico,
Safo, as Sereias. Se Ulisses, na Odisséia, renunciou à sua sedução
- e ao princípio do prazer -, o que fez dele o antagonista de uma realidade
ontologizada, Benjamim e Baudelaire desejam, ao contrário, decifrar o que
desejam com seu canto.(22)

Cena
do filme "In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni " de Guy Debord
Notas
1 - Cf. Guy Debord, A sociedade do espetáculo, trad. Estela dos Santos
Abreu (Rio de Janeiro: Contraponto, 1997).
2- Karl Marx, Manuscritos económico-filosóficos
de 1844, trad. Daniel Zadunaisky (Bogotá: Pluma, 1980), p. 119
3 - Ibidem.
4
- No século XIX, a Inglaterra, depois de realizar sua Revolução
Industrial, foi seguida nesse processo pela França, Estados Unidos e Alemanha.
Cada economia nacional de mercado desde o início já se inscreve
na economia mundial, confrontando-se, pois, com o fenômeno da concorrência
- o que constrange as economias menos produtivas a alcançar o nível
das nações altamente industrializadas. A maior parte dos países
encontrou-se em descompasso com respeito aos desenvolvimentos econômico,
tecnológico e ético dos Estados centrais que os antecederam, quando,
mais tarde, entraram na competição mundial. Dada essa falta de sintoma,
tão logo um país em "atraso" tentasse implantar-se no
capitalismo mundial, sua economia era abalada pelo afluxo de mercadorias mais
baratas provenientes dos países de alta produtividade. Assim, a única
oportunidade de tomar parte nessa modernidade de forma não inteiramente
subordinada, como ocorreu na Rússia, na China e em outras economias de
capitalismo subordinado, foi uma "autarquia forçada", em um espaço
protegido de toda concorrência externa, a fim de estabelecer-se um capitalismo
local. Deste modo, a Rússia de Lênin, Trótski e, sobretudo,
Stálin, com sua "revolução em um só país",
realizava uma modernização tardia em um país atrasado: "Repetiu-se
na Rússia uma espécie de 'acumulação primitiva', que
implicou a transformação forçaca de milhões de camponeses
em trabalhadores fabris e a difusão de uma mentalidade adaptada ao trabalho
abstrato", cf. Anselm Jappe, Les aventures de la merchandise: pour une nouvelle
critique de la valeur (Paris: Denoël, 2003), p. 206.
5 - Cf. Wolfgang
Fritz Haug, Crítica da estética da mercadoria, trad. Erlon José
Paschoal (São Paulo: Unesp, 1996).
6 - Karl Marx, "O fetichismo
da mercadoria", em El capital, vol. I (Cidade do México: Fondo de
Cultura Económica, 1986).
7 - Walter Benjamim, "O flâneur",
em Obras escolhidas. Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo, trad.
José Carlos Martins Barbosa & Hemerson Alves Baptista, vol 3 (São
Paulo: Brasiliense, 1989), p. 52.
8 - Cf. René Descartes, Meditações
metafísicas. Segunda meditação, trad. Jacó Guinsburg
e Bento Prado Jr., Coleção Os Pensadores (São Paulo: Abril
Cultural, 1973), p. 104.
9 - Cf. Guy Debord, A sociedade do espetáculo,
cit.
10 - Wolfgang Fritz Haug, Crítica da estética da mercadoria,
cit., p. 75.
11 - Walter Benjamim, "Paris, capital do século XIX",
em Walter Benjamim. Sociologia, trad. Flávio R. Kothe (São Paulo:
Ática, 1985).
12- Wolfgang Fritz Haug, Crítica da estética
da mercadoria, cit., pp 62-63.
13 - Ver Theodor W. Adorno, Gesammelte Schriften,
vol. 4 (Frankfurt am Main: Suhkamp, 1980), p 358.
14 - Sigmund Freud, A interpretação
dos sonhos, trad. Ismael de Walderedo (Rio de Janeiro: Imago, 1998).
15 - Walter
Benjamim, "Sobre o conceito da história", em Obras escolhidas.
Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história
da cultura, trad.Sergio Paulo Rouanet, vol.1 (São Paulo: Brasiliense, 1985).
16-
Karlheinz Stiele, La capitale des signes: Paris et son discours (Paris: Maison
des Sciences de l"Homme, 2001), p.510.
17 - Walter Benjamin, " Pequena
história da fotografia " em Obras escolhidas. Magia e técnica...,
cit.
18 - A idéia de intervalo, de interrupção, de deslocamento
encontra-se , no que diz respeito à teoria do conhecimento, na premissa
gnoscológica da Origem do drama barroco alemão, em que o filósofo
faz o elogio da forma "tratado medieval" e dos "mosaicos".
Cf. também Olgária Matos, "Benjamin e a questão do método",
em O iluminismo visionário: Benjamin, leitor de Descartes e Kant (São
Paulo: Brasiliense, 1993).
19- Cf. Walter Benjamin, "frâneur",
em Obras escolhidas. Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo, cit.,
pp50-51. No mundo moderno, o homem domina a natureza, mas não suas relações
de sociedade. A sociedade não passa de um auxiliar do mercado para que
o sistema econômico possa funcionar segundo suas próprias leis. O
ultraliberalismo contemporâneo remete à livre-concorrência
do século XIX, quando o mercado era entendido como instância de auto-regulação.
Dada a ameaça à continuidade dos laços sociais de solidariedade
e confiança, o que poderia levar à destruição da própria
produção capitalista, sociedades européias ao longo do século
XIX tomaram medidas de autoproteção, sobretudo com a legislação
trabalhista e a introdução dos serviços públicos.
Estes eram entendidos, até o momento em que passaram a ser privatizados,
como dispositivos que ofereciam à maior parte dos indivíduos, senão
a todo cidadão, bens essenciais de que não podem encarregar-se interesses
privados. Serviços fundamentais acessíveis a todos constituíam
fator de coesão social, hoje em processo de dissolução.
20
- O mundo das mercadorias e dos trabalhos forçados obscurece a consciência
operária, naturalizando-se como destinação ontológica
do homem, desviando o operário da consciência de sua própria
infelicidade. Com efeito, a antropologia, como a de Marcel Mauss, Marshall Sahlins
e Polanyi, demonstra, por aspectos diversos, que a troca de equivalentes - a produção
para fins de mercado e não para suprir necessidades e carências,
e a separação entre economia e trabalho - constitui um fenômeno
relativamente recente. Assim Mauss, em seu Ensaio sobre o dom (1924), analisa
os potlatch da Melanésia. Nas sociedades do "dom", a conservação
e a permanência das relações sociais são mais importantes
do que as trocas materiais: "Estes são apenas meios em vista de um
fim: os dons não têm finalidade comercial, mas devem produzir um
'sentido da amizade' entre indivíduos e sobretudo entre grupos. O dom fundamenta-se
em um verdadeiro culto à generosidade e manifesta desapego material, que
o aproxima do espírito de nobreza, de prodigalidade, que permaneceu por
longo tempo nas culturas mais desenvolvidas". Quanto a Sahlins, em Idade
da pedra, idade da abundância (1972), escreve: "É de interesse
notar que a teoria marxista contemporânea freqüentemente concorda com
a economia dos habitantes das ilhas Fiji, que utilizam uma única palavra
para significar 'trabalho' e 'ritual'".
21 - Walter Benjamin, "Úber
einige motive bei Baudelaire", em Illuminationen (Frankfurt am Main: Suhrkamp,
1980), p. 223. Ed. Brasileira: Sobre alguns temas em Baudelaire, Coleção
Os Pensadores (São Paulo: Abril Cultural, 1975).
22 - Cf. Charles Baudelaire,
"Meu coração a nu" e "Madame Bovary", em Charles
Baudelaire, poesia e prosa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995); Walter Benjamin,
"Socrates", em Metafisica della Gioventú (Torino: Einaudi, 1982);
Olgária Matos, "Benjamin e o feminismo", em Márcia Tiburi
et al. (orgs.), As mulheres e a filosofia (Sõ Leopoldo: Unisinos, 2001).