Em
boa parte da poesia brasileira que se publica contemporaneamente pelos novos escritores,
aqueles nascidos da década de 60 em diante, chama a atenção
a predileção dos poetas pelo uso de formas clássicas - em
muitos isso chega ao exagero da imitação não apenas formal
mas expressional de linguagens de outras épocas, a tal ponto que irremediavelmente
fica no leitor a dúvida quanto à idade do poeta que se lê,
uma vez que os traços do contemporâneo são obscurecidos ou
inexistem. Outro dos sintomas de muita dessa poesia é a preferência
por um lirismo em geral ingênuo, ao qual qual se poderia perfeitamente aplicar
a palavra alienado, pelo tanto que nele também transparece a ausência
de interrogação do próprio tempo, ainda que se diga que essa
é a forma possível de representá-lo, ignorando-o e aplicando
a ele uma identidade estranha.
Essa
ausência de interrogação direta do próprio tempo no
texto poético é como que sinônimo de ausência de rebeldia,
trocada pelo gosto por um beletrismo que promete a ilusão de ascendência
fácil ao panteão da academia. Ilusão aqui é palavra
apropriada porque essa poesia, construída à sombra da diminuição
da potência destruidora e renovadora do ideário moderno, recende
a monotonia e, padecendo de criticidade, daquele impulso corrosivo do moderno,
não aparenta energia suficiente para superá-lo, renovando o pensamento.
Essa prática, no entanto, não chega a ser nada de novo pois, desde
que o movimento modernista arrefeceu seus ânimos, apregoa-se sua morte,
iniciada lá pela década de 30 com Tristão de Ataíde
cantando a volta triunfal do soneto, símbolo dessa retomada classicista
e em geral marcadamente conservadora.
Sua
continuidade e o enfraquecimento do impulso modernista nos trazem à cena
contemporânea, na qual o conflito praticamente inexiste e todas as formas
e ideologias convivem em nome do pluralismo e da diversidade que a regem. Essa
poesia, no entanto, não seria de todo desinteressante se aprendesse com
seu oposto, assimilando sobretudo a criticidade ou, em suma, a rebeldia que, mais
afeita às vanguardas, desanestesia o pensamento e o renova ambicionando
desalienar o homem que, hoje, mais do que nunca, é um mero objeto de consumo
e de ainda mais desigualdades na sociedade globalizada.
Se,
no entanto, não é possível encontrar a insatisfação
objetiva com o presente nessa poesia, não nos faltam exemplos de poetas
que contra ele investem usando de imaginação e o que de melhor acumulamos
de experiência de linguagem e de reflexão neste século que
passou. É o casos de Zona Branca, segundo livro de poemas de Ademir Assunção,
que já começa pelo título contaminando-se do imaginário
de um presídio de segurança máxima, inspirado na ópera-rock
Joe's Garage, de Frank Zappa, para onde são enviados os rebeldes, dissidentes
e arruaceiros.
Não
se trata de um mero Carandiru, mas de uma outra dimensão do espaçotempo,
onde os presidiários são submetidos à incomunicabilidade
total, embora possam ver em detalhes tudo o que está acontecendo no chamado
mundo real, estruturado por um sistema de poderes disseminados e não identificáveis
facilmente. Nele, a cooptação de artistas é moeda corrente
para transformá-los em celebridades e burgueses decadentes; a manipulação
de fatos e idéias, por sua vez, mantém no ostracismo os criadores
brilhantes e promove clones descartáveis para alimentar as hordas miseráveis
que se humilham, matam e morrem nos semáforos e becos mal-iluminados.
Trata-se,
portanto, de um livro eminentemente urbano, de um poeta que se alimenta de filmes,
música artes plásticas e literatura e do caldo que sai dos meios
de comunicação de massa, cuja epígrafe inicial é de
William Burroughs e dá o tom da sua escrita: "Linguagem é um
vírus".
A
poesia de Ademir Assunção, portanto, é um libelo de insatisfação
contra o mundo contemporâneo: beira o jorro da fala, é calculada
e incisiva em sua expressão e sobretudo petulante contra o status quo.
Há um poema, por exemplo, "Anti-Ode aos publicitários (De um
guerrilheiro morto em combate)", que diz "eu quero que vocês morram"
- referindo-se aos publicitários que usaram a figura de Che Guevara como
propaganda do Limpol em comercial televisivo e anúncios de revistas em
1998. Não se trata, no entanto, de uma raiva xiita a se manifestar, pois
nela percorre um senso de humor refinado, que funciona como antídoto a
esse que poderia ser mais um clichê e, assim, a morte desejada aos vampiros
publicitários pode ser ultimada com "uma estaca/ cravada no prepúcio"...
A
contestação à sociedade de consumo ("o meu cartão
de crédito é uma navalha" - epígrafe de Cazuza) se derrama
para o meio da poesia, esse meio cândido, em "Descida aos inferninhos"
que ironiza: "eureka - grita o poeta/ achei meu estilo, traço rude
de fino tino,/ quer dizer, daqui detrás dos montes/ vai ser ferro na perereca/
cuspe seco, pedra cabralina"; define uma postura: "cansado da palavra
polida/ hímem rompido da beleza clássica/ o poeta talha o verso
com pedra lascada/ primata astuto, ladrão convicto/ despedaça pétalas,
arrebenta rimas/ imola virgens, deflora rosas/ segue viagem com um guia cego/
desce aos infernos, aos inferninhos", onde encontra o que abomina: as musas
e os poetas "sugando esperma em troca de dinheiro/ vulgares em suas rimas
ricas/ musas de luxo na corte das artes/ carne à la carte, poesia em postas/
máscara bem moldada ao talhe da face/ técnicas, sem dúvida/
mas sem as dádivas e com eternas dívidas".
Zona
Branca, assim, é um livro percorrido pela insatisfação, impregnado
de literariedade sem ser beletrista e nele não há lugar para o clássico,
a não ser pela via referencial de signos como sereias e seus silvos, navios
e obeliscos que podem habitar os poemas como retalhos e imagens, como se estivessem
num sonho de alguém que vive plenamente sua época, ironizando-a
em suas banalidades, inclusive literárias, tal como se comprova no poema
de sugestivo título, "Terapia de vidas futuras". O clássico,
então, comprova-se que pode ser assimilado como signo sem ser repetido
como linguagem extemporânea.
Quanto
ao lirismo em tal ambiência, ele também se manifesta, principalmente
numa das partes do livro, "um deus está a caminho", mas em consonância
com a época, sem ingenuidade e contaminado pela crueza deste mundo. O poema
"5 dias para morrer", dedicado a Hector Babenco, expõe o olhar
sensível de quem ainda encontra lirismo no mundo, em seus detalhes, na
natureza, nos objetos que o cercam, mas definitivamente a inocência está
perdida e se existe, manifesta-se como fratura: "morreremos loucos, Ana//
os sapatos/ novos/ em cima da mala/ - mala notte/ o dia, a pior/ foto: olhos úmidos/
no vídeo/ flashbacks:/ a virilha imunda/ do marinheiro/ os eletrodos frios/
nas têmporas/ as pílulas coloridas/ peixes/ num aquário/ cujo
vidro/ quase se quebra/ toda vez/ que o tocamos// sim, Ana/ morreremos loucos/
mas/ esta noite/ dormiremos/ juntos".
Esse lirismo e sua prática
são definidos pelo poeta por uma epígrafe de Assim Falou Zaratustra,
de Nietzsche e se adeqúa perfeitamente ao livro e a essa poética
que tem se construído desde o livro anterior, LSD nô (poemas, Iluminuras,
1994) e A máquina peluda (prosa, Ateliê Editorial, 1997): "De
tudo o que se escreve, aprecio somente o que é escrito com o próprio
sangue".
Zona
Branca, de Ademir Assunção. São Paulo, Editora Altana.
(*)
Este artigo foi originalmente publicado no Jornal do Brasil/Idéias, de
27/10/2001, com leves alterações, sob o título "O caldo
espesso do verso rebelde" e é aqui incluído neste "Dossiê
Debord" por responder às mesmas inquietações que motivam
esse Dossiê e a releitura das experiências ocorridas em torno do Maio
1968, do qual Debord foi um propulsor de idéias.