"A
cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações
e se dilata. (...) Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém
como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, nas grades das
janelas, nos corrimãos de escadas, nas antenas dos pára-raios, nos
mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas,
entalhes, esfoladuras". Calvino (2004, p.14)
O
corpo está no mundo e é capaz de estabelecer relações
com tudo à sua volta. As experiências do corpo no mundo são
diversas e produzem diferentes significados que variam de indivíduo para
indivíduo. Merleau-Ponty situa o corpo como uma extensão do mundo
e de tudo o que nele contém. Essa corporeidade, essa consciência
do 'corpo no mundo', advém de uma série de quebras de paradigma
ocorridas na ciência e na arte. De mero observador da natureza o homem passa
a fazer parte dela. Essa tomada de consciência da não externalidade
do homem ao meio, muda completamente a visão de mundo em diversos campos
do conhecimento: nas ciências exatas, nas ciências da natureza, nas
ciências humanas e, sem dúvida, na arte. O homem adquire consciência
do seu "estar no mundo" e da interferência que essa corporeidade
provoca no meio e, por reflexo, provoca também em si mesmo, numa mútua
transformação constante. Como afirma Merleau-Ponty (2004, p.17),
o corpo "conta-se entre as coisas, é uma delas, está preso
no tecido do mundo, e a sua coesão é a de uma coisa". Assim
como o pesquisador observador dos fenômenos da natureza, o artista também
foi, durante muito tempo, um observador passivo que através da mimese se
propunha a chegar à obra de arte. Com os movimentos artísticos de
vanguarda e seus posteriores desdobramentos, a arte passa a enveredar por caminhos
do fazer artístico que valorizam mais o processo de construção
do que a obra em si. O lugar da arte enquanto espaço físico também
é colocado em questão e ela passa a ocupar novos espaços,
dentre eles a própria cidade. A cidade por muito tempo foi um dos objetos
de representação dos artistas. Com o advento da Revolução
Industrial a atenção sobre as cidades se intensificou. Sem dúvida,
a partir desse momento, a urbe proporcionou ao homem viver sob diferentes noções
de escala e tempo, o que acabou transformando a sua percepção da
paisagem e a própria realidade. É relevante perceber como que as
propostas artísticas apresentadas a partir da vanguarda, no início
do século XX, sofreram influência do grande e acelerado crescimento
dos centros urbanos. Segundo Peixoto (2004, p. 11), "as cidades são
as paisagens contemporâneas". É importante admitir que tais
paisagens contribuíram para o redimensionamento da arte e do homem enquanto
indivíduo. A arte passou então a ser pensada também como
algo que tem relação com o seu lugar. A cidade tornou-se um objeto
de estudo e um campo de interseção para as artes visuais: pintura,
fotografia, cinema, vídeo, arquitetura, cartazes, grafite, lambe-lambe,
entre outras manifestações, inclusive de cunho publicitário.
Cada indivíduo pode estabelecer inúmeras associações
com diversas partes da cidade onde vive. Segundo Lynch (1999, p. 1), cada uma
dessas relações pode gerar uma imagem impregnada de lembranças
e significados particulares. O que fica gravado na memória é produto
das relações estabelecidas pelo homem com o mundo. As experiências
cotidianas são ferramentas afiadas que deixam sulcos nessa matriz geradora
de lembranças, que é a memória. Tais lembranças são
multiplicadas a todo instante e podem dar origem a diferentes impressões
e interpretações da realidade, como num caleidoscópio que
fragmenta a paisagem. Calvino (1999, p. 115) destaca essa percepção
polimorfa através de suas descrições poéticas sobre
cidades imaginadas:
a
cidade de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem é
aprisionado e não sai mais dali; uma é a cidade à qual se
chega pela primeira vez, outra é a que se abandona para nunca mais retornar.
O
gravador carioca André de Miranda demonstrou um interesse particular por
arquitetura desde muito cedo. "O pé-direito alto, janelões,
portas e sacadas, isso tudo sempre me atraiu. Antes mesmo de me interessar por
artes visuais, pensava em fazer arquitetura", declara o artista. Seu primeiro
emprego foi como projetista numa construtora, em 1977. Depois trabalhou como desenhista
em fábricas de móveis durante muitos anos. Daí nasceu seu
interesse pela madeira e, conseqüentemente, pela xilogravura a partir de
1979. Xilocidade é um movimento poético em busca do registro
dessa memória arquitetônica urbana captada pelo artista no decorrer
dos anos. Essa série de xilogravuras nasceu em 2003, a princípio
de forma tradicional, ou seja, as gravuras foram impressas em papel japonês,
com tiragens definidas, numeradas e assinadas (Fig. 1).
Fig.
1 - Subúrbio 2, xilogravura
Durante
seu processo de criação e à medida que produziu e refletiu
sobre esse trabalho de resgate, sua proposta inicial se transformou e, desde então,
vem sendo modificada continuamente. Quando o artista se deparou com o caderno
imobiliário do jornal de domingo espalhado pelo ateliê, os quais
continham diversas imagens fotográficas de prédios novos à
venda, imaginou que sua Xilocidade ganharia um caráter mais reivindicativo
se provocasse o confronto entre as imagens de suas fachadas antigas - feitas através
da xilogravura - e as imagens dos novos edifícios - estampadas no jornal.
Esse embate tem duplo enfoque: é tanto de caráter técnico
quanto ideológico. Técnico porque sobrepõe a xilogravura
- que é uma técnica antiga de reprodução - à
fotografia reproduzida através da imprensa. Ideológica porque confronta
o antigo e o novo com o objetivo de denunciar o desaparecimento da memória
arquitetônica da cidade. A inserção da cor na Xilocidade
se dá de uma maneira muito particular. O artista imprime as gravuras em
papel manteiga e, usando da transparência desse suporte, sobrepõe
a impressão xilográfica ao jornal e busca a cor através dessa
sobreposição. A escolha se dá através dessa janela
xilogravada impressa no papel transparente. Depois de selecionado o fundo, o artista
faz um registro e imprime sua xilogravura em cima do recorte escolhido. Essa impressão
xilográfica sobre a impressão ofsete do jornal, possibilita a reflexão
do novo sobre o antigo não só em termos da temática urbana,
mas também, enquanto o contraste ente técnicas de reprodução
gráfica. É até de certa forma irônica a apresentação
de uma xilogravura impressa manualmente e que faz alusão à arquitetura
antiga em contraste à impressão ofsete que remete à nova
arquitetura da cidade. O embate entre o antigo e o novo se dá constantemente.
Quando Peixoto (2004, p.35) desenvolve argumentos referentes à pintura
enquanto apreensão da paisagem, ele o faz através do destaque do
elemento 'cor'. Segundo o autor, "a pintura é uma revelação.
A gravura é trabalho, é ação. O gravador não
tem acesso à cor da mesma maneira que na pintura, portanto precisa enfatizar
o traço, o movimento". Mas no caso de André de Miranda, quando
imprime as xilogravuras sobre imagens coloridas extraídas do jornal, ele
traz para a sua gravura certos aspectos da pintura, tanto em termos de cor quanto
de perspectiva (Fig. 2 e Fig.3).
....
Fig. 2 -
Diferença entre a xilogravura Subúrbio 2 impressa em papel japonês
(à esquerda) e a mesma xilogravura impressa sobre jornal (à direita).
.... Fig.
3 - Diferença entre a xilogravura Era uma vez a minha rua impressa em papel
japonês (à esquerda) e a mesma xilogravura impressa sobre jornal
(à direita).
No início de seu trabalho, o artista representou fachadas dos principais
bairros do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, cresceu e viveu por anos. Em seguida,
André de Miranda somou à sua paixão pela arquitetura a experiência
de ter vivido em vários outros lugares. No ano de 1994, por exemplo, o
artista morou em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. Lá viu um dos
prédios mais antigos da cidade ser demolido. "Este prédio foi
o primeiro hotel da cidade, chamava-se Hotel Modelo e todos que por lá
passavam no início do século XX ficavam encantados com sua arquitetura.
Simplesmente foi demolido da noite para o dia porque o proprietário soube
que o imóvel seria tombado. Hoje é um estacionamento", declara
o artista com certo pesar. A cada nova viagem mais material é coletado
para alimentar sua produção: São Paulo, João Pessoa,
Curitiba, Florianópolis, entre outras cidades (Fig. 4).
Fig.
4 - Maranhão, xilogravura da série Xilocidade.
O fato de o artista conhecer outros lugares contribuiu para um aprimoramento do
olhar e da reflexão sobre a arquitetura e, consequentemente, para o amadurecimento
da sua produção. Marco Polo, personagem do livro As Cidades Invisíveis,
de Calvino (1999, p. 28), conta que
quanto
mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia
as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía
as etapas de suas viagens, e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado
e os lugares familiares de sua juventude". André de Miranda pensa
a cidade através de seus sucessivos deslocamentos geográficos. Através
do olhar nômade acontece a apreensão de fragmentos da paisagem do
presente que remete ao passado.
Com esse trabalho, André de Miranda concretiza o registro da sua memória
particular da cidade. Ele testemunha e apresenta ao mesmo tempo, a presença
e a ausência, sobrepondo uma à outra. Segundo texto crítico
do artista e professor da UFPE, Sebastião Pedrosa (2006),
André
de Miranda explora uma imagem pelo viés de uma preocupação
social: a preservação e o zelo pela estética urbana. Com
esta série, o artista se inscreve entre os gravadores brasileiros que pensam
a paisagem urbana através da gravura, tais como Evandro Carlos Jardim,
Thereza Miranda, Manoel Martins, Marco Buti, Hélio Vinci, Francisco Maringelli,
Carlos Martins entre outros.
Fig. 5 -
André de Miranda em seu ateliê - fotografia do arquivo pessoal do
artista.
Ao utilizar a gravura enquanto uma forma de denúncia, o artista passa a
situar-se na história da arte brasileira a partir dos anos 50, década
da formação dos clubes de gravura e período em que as artes
gráficas eram uma ferramenta de manifestação e de denúncia
social e política. A Xilocidade vai além do aspecto delator. Mais
que evidenciar o desaparecimento de prédios históricos, o artista
cumpre o importante papel de também interferir e contribuir na construção
da paisagem da cidade através da criação de um universo imagético
particular. Segundo Lynch (1999, p.2), "a cidade não é apenas
um objeto percebido (e talvez desfrutado) por milhões de pessoas, mas também
o produto de muitos construtores que, por razões próprias, nunca
deixam de modificar sua estrutura". A cidade pode ser estável em linhas
gerais, mas os detalhes são modificados a todo instante. Não há
resultado final, mas uma contínua sucessão de fatos. Não
há obra final, há um processo, um desdobramento contínuo.
"A cada instante há mais do que o olho pode ver, mais do que o ouvido
pode perceber; nada é vivenciado em si mesmo, mas sempre em relação
aos seus arredores, às seqüências de elementos que a ele conduzem,
à lembrança de experiências passadas" (Lynch, 1999, p.1).
Peixoto (2004, p.13) explica que as relações entre arte e cidade
se dão através de recortes possíveis, pois formam "um
caleidoscópio que talvez sintetize melhor a paisagem urbana." O pensamento
da paisagem passa a ser fragmentado, assim como no trabalho de André de
Miranda, em que vemos a paisagem através de recortes que são janelas.
"Através dessas paisagens fragmentadas é possível redescobrir
a cidade" (Peixoto, 2004, p. 15). O autor (2004, p. 13) afirma ainda que
a paisagem das cidades é constituída pelo "cruzamento entre
diferentes espaços e tempos, entre diversos suportes e tipos de imagem."
Essa paisagem caracteriza-se por uma mutação constante. A cidade
não é estática; ela pulsa. O seu permanente estado de construção
faz pensar sobre algumas questões importantes - de cunho histórico
e ideológico - com relação à preservação
de seus patrimônios arquitetônicos. Como a cidade é viva e
as pessoas que nela habitam interferem nesse espaço a todo instante, é
preciso refletir até que ponto a preservação pode beirar
o engessamento da sua paisagem. Calvino (1999, p. 19-20) faz alusão à
naturalidade e à necessidade dessa mutação quando descreve
a cidade imaginária de Zora. É uma cidade que permanece na memória
e
o
seu segredo é o modo pelo qual o olhar percorre as figuras que se sucedem
como uma partitura musical da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma
nota. É uma cidade estática com ruas, vielas e praças perenes.
Obrigada a permanecer imóvel e imutável para facilitar a memorização,
Zora definhou, desfez-se e sumiu. Foi esquecida pelo mundo.
Segundo Peixoto (2004, p.13), as cidades apresentam "horizontes de pedra,
onde o mais moderno convive com a decadência, o futuro com a antiguidade.
Elas são um solo arcaico juncado de vestígios e lembranças".
As cidades podem ser vistas como um sítio arqueológico inesgotável,
de onde é possível extrair cotidianamente os fósseis urbanos
em meio a essa permanente construção. Para Lynch (1999, p.6) o observador
deve ter um papel ativo na percepção do mundo. "Deve ser capaz
de transformar essa imagem de modo a ajustá-la a necessidades variáveis.
Um ambiente ordenado em detalhes precisos e definitivos pode inibir novos modelos
de atividade. Uma paisagem na qual cada pedra conta uma história pode dificultar
a criação de novas histórias". As cidades são
históricas desde o momento em que nascem: a partir da primeira pedra, da
primeira estrada, da primeira praça. A sua história se faz a partir
da intenção de um projeto ou de sua construção. Mas
elas não formam, em seu conjunto, uma única história ou geografia.
Segundo Peixoto (2004, p.37), "seus limites são indefiníveis,
não têm localização, hierarquia nem centro. Sua força
se faz sentir pelo fato de interromper as narrações". Peixoto
se opõe à narração enquanto instrumento de captação
da paisagem. O autor afirma que quando Calvino fala das cidades através
da "descrição de suas torres, pontes, bairros e feiras e todas
as informações a respeito da cidade no passado, presente e futuro,
a paisagem acaba por desaparecer". Calvino (1999, p.14) descreve sim as cidades
imaginadas, mas o faz de maneira particular e fragmentada, sem se prender apenas
ao tom descritivo. Procura destacar os índices narrativos que dão
personalidade a cada lugar:
Poderia
falar de quantos degraus são feitas as ruas em forma de escada, da circunferência
dos arcos dos pórticos, de quais lâminas de zinco são recobertos
os tetos; mas sei que seria o mesmo que não dizer nada. A cidade não
é feita disso, mas da relação entre as medidas de seu espaço
e os acontecimentos do passado: a distância do solo até um lampião
e os pés pendentes de um usurpador enforcado; o fio esticado do lampião
à balaustrada em frente e os festões que empavesavam o percurso
do cortejo nupcial da rainha; a altura daquela balaustrada e o salto do adúltero
que foge da madrugada; a inclinação de um canal que escoa a água
das chuvas e o passo majestoso de um gato que se introduz numa janela; a linha
de tiro da canhoneira que surge inesperadamente atrás do cabo e a bomba
que destrói o canal; os rasgos nas redes de pesca e os três velhos
remendando as redes que, sentados no molhe, contam pela milésima vez a
história da canhoneira do usurpador, que dizem ser o filho ilegítimo
da rainha, abandonado de cueiro ali sobre o molhe.
Segundo Peixoto (2004, p.26), para fazer o olhar recuperar a paisagem é
preciso usar da narração. "Hoje em dia a descrição
está substituindo a paisagem. Todas as tentativas de descrição
redundam em mera enumeração, que não dá conta da verdadeira
paisagem". É por meio dos indícios (nomes, cartões-postais
antigos, pedras, esquinas, mapas mentais, ruínas, etc.) que se pode obter
um verdadeiro quadro dos lugares. Da mesma forma que o personagem Marco Polo,
André de Miranda vasculha suas lembranças, volta ao passado, atenta
o olhar para o presente e se depara com paisagens urbanas de diferentes lugares.
"A cada viagem, em cada lugar que conheço, faço questão
em conhecer primeiro o centro histórico. Muitas gravuras são pequenos
fragmentos de tudo que já vi e pesquisei", declara o artista. Sua
xilogravura evoca a presença dos casarões de outrora e os coloca
frente a frente com a sua melancólica impermanência. Os sulcos gravados
na madeira são impressos e geram imagens que delimitam janelas de onde
é possível avistar os prédios novos ao longe, como se fossem
lápides tumulares da velha arquitetura. São fragmentos desse caleidoscópio
que é a paisagem urbana.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CALVINO,
Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras,
1999. ITAÚ CULTURAL. Gravura: arte brasileira do século XX. São
Paulo: Cosac & Naify/Itaú Cultural, 2000. LYNCH, Kevin. A imagem
da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997. MEARLEAU-PONTY, Maurice.
O olho e o espírito. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. PEIXOTO,
Nelson Brissac. Paisagens urbanas. 3ª ed. São Paulo: Editora Senac
São Paulo, 2004. ESPAÇO CULTURAL BRDE. Xilocidade: memória
urbana gravada. Curitiba, 2006.