Freqüentemente, quando nos jornais e no noticiário são veiculados
relatos sobre depredação de monumentos públicos, vem à
tona a principal personagem dessa novela, o vândalo. Por trás desse
estereótipo, tão antigo quanto o Pierrot e a Colombina, se esconde
um outro anônimo mascarado. Como os milhares de cidadãos pacatos
que incham as metrópoles de certezas, o vândalo passeia nas praças
públicas, inconsciente, límpido e transparente. Navega no rio corrente
dos pedestres e automóveis, seguindo a direção do fluxo,
dos sinais abertos, das escadas rolantes, dos elevadores. Não é
possível reconhecer no vândalo nenhuma característica que
o destaque da turba onde habita, e talvez essa seja a sua grande motivação
para agir. Proponho pensar esse ator figurativo além do recobrimento
afetivo que desempenha na enunciação jornalística. Nesse
papel, cabe a personagem ilustrar o maniqueísmo próprio das narrativas
romanceadas dos noticiários, sem nenhuma profundidade histórica
ou conceitual. Estruturada de forma bipolar, o formato da notícia reduz
a realidade a um conto de fadas, ora patético, ora terrível, igualmente
sem sentido. Dissemina uma homologia perversa entre tipos psicossociais e estratos
sociais desfavorecidos. De nada serve para uma reflexão sobre o assunto
esse espantalho ficcional, que procura mais criar uma categoria universal, sem
história, sem vida interior, apenas funcional na narrativa maior, que é
a da propriedade como bem supremo da sociedade de consumo.
Metrô
de São Paulo
Refletir
conceitualmente esse personagem é criá-lo, instaurando no relato
filosófico um plano de imanência, conexões singulares a partir
dos movimentos do seu modo de existência. A personagem conceitual faz do
seu pensar um acontecimento filosófico, um campo novo de atuação,
um novo território ético e estético. Para Gilles Deleuze
, personagens conceituais são "heterônimos do filósofo",
agem como um sujeito de uma filosofia, exercendo seu devir singular. Não
devemos identificar a personagem conceitual do vândalo a qualquer indivíduo
que cometa um delito de depredação, mas como um pivô conceitual
para amarrar as vizinhanças conceituais que definem o acontecimento na
perspectiva filosófica. O vândalo, personagem conceitual desta
investigação, habita uma sociedade que delegou o papel de narrador
para a publicidade, e para a indústria cultural que surge do seu umbigo.
A memória épica dos homeros citadinos desapareceu na mudez dos milhares
de mendigos, escondidos nas sombras dos monumentos, testemunhas dessa odisséia
de mesmerismo . Milhares de histórias são contadas pelos outdoors,
painéis eletrônicos, midiascape. Histórias de consumo feliz.
Histórias de memória curta, imediata como o paladar de uma guloseima.
Uma memória repleta de esquecimento programado, daí a necessidade
de relembrar o prazer perdido, no próximo outdoor, no próximo jingle.
Nosso personagem não carrega uma predisposição ideológica.
Não tem um plano para finalmente mudar sua situação. Órfão
de uma lembrança épica que o inclua.
Inscrições de soldados russos no Reichestag - Berlin 1944
O
vândalo ainda é um bárbaro, um analfabeto funcional, porém
contido nos muros da ideologia da sociedade da informação. Do lado
de fora dos muros feitos de bits, esse novo bárbaro não se afirma
positivamente, tem seu lugar garantido nas estatísticas oficiais e nas
generalizações de mercado. Alvo, é público-alvo. A
positividade possível desse bárbaro é através do princípio
econômico, traduzir a liberdade de escolha num exercício de contração
de dívidas e empréstimos, funcionalizá-lo na inflação
perdulária de consumo e crédito. A barbárie, hoje, não
é um exercício de vontade ou extravasamento, constitui uma das principais
ferramentas do sistema de produção. O bárbaro é resultado
de investimento às avessas do Estado, regressão da sensibilidade
e desqualificação necessária para a preservação
das margens de segurança do capital. A atomização do indivíduo,
despreparado para, por conta própria, pensar sua relação
com os objetos e entre seus pares, serve ao propósito de universalizar
a vida sob o programa das mercadorias. O bárbaro contemporâneo é
um sujeito pacato, medroso e covarde, incapaz de dar um passo à frente,
pronuncia sem cessar a ladainha carismática da ideologia dominante, transformada
em bula para a paz eterna. Se o vândalo é um bárbaro,
não é por nenhuma violência exacerbada, ou por ele não
carregar as crenças da cultura dominante, mas por não ter ferramentas
de articulação, numa realidade que não a prevê. A verdade
da sociedade do consumo é a sua ideologia de progresso, de impossibilidade,
moral até, de questionar seus caminhos, resultados e finalidades. Esse
modelo enraizou sua legitimação na sua verdade imperativa de produção.
A barbárie se solidifica na produção de uma cidadania baseada
no consumo, uma vez que os diversos campos sociais foram gradativamente semantizados
por esse paradigma. O vândalo é um bárbaro porque é
um cidadão comum, regido pelo mesmo registro cotidiano, da promessa não
cumprida de inclusão. Enquanto atributo do vândalo, a barbárie
está como um sintoma irreversível do descompasso entre o desenvolvimento
técnico e as dimensões sociais humanas. Desenvolvimento esse que,
repartindo de forma desigual o resultado de sua transformação, retira
o fundamento de práticas tradicionais de convívio, sem lhe outorgar
novas. Esse processo de deslegitimação dissocia, nas práticas
cotidianas,o vínculo sentimental e o distanciamento intelectual, tradicionalmente
juntos na síntese moral. Ao invés dessa síntese tradicional,
ou de um acerto normativo atualizado, o que acontece é a opção
pela estratégia voltada para interesses privados, freqüentemente instintivos. Freud,
em seu texto "O futuro de uma ilusão" aponta o aspecto ambivalente
da cultura. Por um lado abrange as forças humanas que dominariam a Natureza,
por outro, as normas que regulam a interação dos homens entre si.
Essa dualidade é mediada pela distribuição do produto do
trabalho social, dons e satisfações individuais. No entanto, é
sobre o peso das restrições aos impulsos que Freud reflete com mais
atenção, chegando a afirmar que a Cultura precisa ser "defendida
contra o indivíduo" . Desenvolve então um raciocínio
onde o desejo irrefreável do indivíduo o impele a se voltar contra
a Cultura e seu sistema de coações. Principalmente quando as comunidades
não desenvolvem, ou entregam aos círculos de poder, as ferramentas
de transformação e distribuição de bens e satisfações. Historicamente,
o domínio sobre as forças naturais acompanhou a especialização
das atividades humanas e a hierarquização das atribuições
coletivas na vida em sociedade. A demanda de legitimação e transmissão
desse conhecimento originou as instituições educacionais, jurídicas,
religiosas e políticas. O surgimento de uma elite dirigente, identificada
com essas instituições, engendrou a continuidade do saber em uma
estrutura semelhante à familiar, tornada círculos de poder. A idéia
de Civilização está baseada na sublimação das
proibições ancestrais reproduzidas nas estratégias institucionais
sob a forma de renúncia. Esse ato de renúncia vem sempre acompanhado
de uma promessa. A promessa da Civilização é a troca de opressões
externas para o cumprimento das proibições por um acordo interno
do sujeito, uma privação interiorizada. Essa abstinência é
assumida como bem cultural, fundamento da idéia moral de beleza. Essa troca
da satisfação do impulso pela idéia de elevação
moral é um dos principais objetivos das instituições sociais.
Essa satisfação ideal, para Freud, tem base narcísica, isto
é, tem seu gozo garantido pelo espelhamento do indivíduo na sociedade
através da promessa de ascensão e privilégios na distribuição
econômica. O monumento público representa uma reconciliação
narcísica coletiva a partir dessa promessa.
Queima de Livros pelos Nazistas
Após
a experiência histórica dos totalitarismos modernos, a barbárie
enquanto atributo deixou de ser apenas uma falta de maneiras civilizadas e um
vociferar violento de grunhidos sem nexo, para se constituir numa máquina
burocrática, hierárquica e política de autodeterminação,
totalmente dissociada da referência a qualquer moral tradicional ou arcaica.
Unidas sob a égide do lucro, progresso e barbárie se mesclam no
modelo massificado de sociedade, onde toda a delicadeza desaparece, junto da possibilidade
de relações isentas de interesse. Assim comenta Arendt sobre a responsabilidade
sob as ditaduras: "A sociedade totalitária, em oposição
ao governo totalitário, é na verdade monolítica; todas as
organizações, os serviços sociais e de bem-estar, até
os esportes e o entretenimento, são "coordenados". (...) Devo
lembrar-lhes que a questão pessoal ou moral, distinta da responsabilidade
legal, quase não surge entre aqueles que eram adeptos convictos do regime:
que eles não podiam se sentir culpados, mas apenas derrotados(...)".
Se o vândalo possuísse apenas o atributo da barbárie,
estaria ocupado, dentro do sistema, em destruir os vínculos morais e éticos
da coletividade, colocando em seu lugar a truculência e a violência
ativa, desde as micro-performances sociais até os rituais, tidos como seculares,
como condição de inclusão na nova Arca de Noé globalizada.
Mas, o vândalo cultiva, tanto quanto a barbárie, a revolta como elemento
definidor de sua ação social. Ao contrário da barbárie,
a revolta não é um paradigma cultivado pelas instituições
e pelo mercado. A revolta não cabe na forma maniqueísta dos folhetins,
muito menos se apresenta como a ausência de sentido. A revolta é
a manifestação de sentido. Se a barbárie é como
a cegueira do Sr. Meursault, do romance de Camus, "por detrás desta
cortina de lágrimas e sal" , a revolta é descrita pelo mesmo
autor como consciência. Manifesta-se como uma tomada de decisão:
"as coisas já duraram demais". O vândalo como revoltado,
é o bárbaro que não mais silencia, não coopta com
a violência do sistema. É aquele que provoca uma ruptura, procura
as razões do estado de coisas, e mesmo sem encontrá-las, decide
agir. Existe por trás do ato do vândalo revoltado a idéia
de que ele não está sozinho, seu propósito não é
solitário, tem como endereçamento sujeitos iguais a ele. Trata-se
de um diálogo. As condições desse encontro, entre o vândalo
revoltado e seu objeto, são premeditadas, pois existe uma energia mobilizada
para esse investimento significativo. Esse vândalo quer comunicar algo,
seja a sua existência, sua origem, seu devir. O impulso destrutivo que o
aciona logo se transforma em pulsão de significância, para onde se
dirige a libido e o exercício sublimatório narcísico. Essa
personagem, que se identifica muito mais com Prometeu do que com Narciso, abre
um campo conceitual que proporciona uma territorialização nova do
sentido da violência urbana. É uma violência sublimada, ideológica.
O vândalo, que deixa sua marca, sua revolta contra os signos de uma promessa
de inclusão e felicidade, inalcançável, e afirma a necessidade
de novos contratos.
Brassai - Grafitti
As inscrições do vândalo compõem uma linguagem mágica,
arquetípica, e ao mesmo tempo irredutivelmente pessoal. Longe de ser uma
garatuja, ou um automatismo psíquico, à moda dos expressionistas
abstratos, essa escrita, reproduzida com a preocupação de um calígrafo,
carrega a identidade secreta do autor. Impregnada como uma mitologia marginal
na urbe, essas inscrições tabus seguem regras. Podem conter lutas
por territórios, apropriação da ruína citadina em
tribos nômades. Aqueles acostumados com uma leitura linear e progressiva
da História dos povos, interpretam esses sinais como deseducação,
grosseria ou mero desafio à propriedade privada. Trata-se, no entanto,
de uma linguagem formadora de vínculos sociais, num universo cultural e
histórico que comporta uma sincronia de maneiras de socialização,
ou como querem os positivistas, coexistência de estágios de evolução
distintos. Mas existe uma realidade mais aguda e desesperada, a do sujeito
completamente desubjetivado. O pensador Giorgio Agamben denomina esse "fantasma"
de Muselmann, inspirado nas figuras mortas-vivas dos campos de concentração.
Essas testemunhas mudas da catástrofe cotidiana do projeto moderno, vivem
a impossibilidade da fala. Incorporaram a impossibilidade do testemunho, somatizam
o relato numa dor moral tão intensa que apaga os vestígios de significado
das palavras. A negação da fala é uma consciência aprisionada
pela vergonha moral de se descrever neste cenário perverso. Essas pessoas
não estão concentradas em campos. Os muros e cercas desapareceram,
elas são aprisionadas em si, espalhadas pelas ruas. Por falta do testemunho
verbal, essas pessoas moram aquém da representação, além
da loucura. São intensidades. Presenciam e personificam o colapso da sociabilidade.
Não são um Povo, são sombras de consciência. Homo sacer,
resgata Agamben dos holocaustos romanos. São os olhos fixos e estarrecidos
da cidade, que podemos encontrar nas frestas dos monumentos públicos. Como
a arte chega a essas pessoas? São escombros, formas enigmáticas,
natureza da cidade, possíveis abrigos, limites improvisados de privacidade.
Os historiadores costumam definir as mudanças de paradigmas civilizatórios
a partir de grandes eventos transformadores. No entanto, a experiência histórica
se assemelha mais ao trajeto de um cometa, onde um núcleo iluminado e pujante,
consome a si mesmo para trazer luz ao caos inerte do infinito. E podemos seguir
o seu rastro de incandescência, nos pedaços menores do colosso, crepitantes
e revolucionários. Até o fim da cauda, onde pedregulhos e cinzas
esfriam lentamente, devolvidos a escuridão do espaço. Seríamos
capazes de definir onde começa e onde termina o cometa? Nos meteoritos
que se ajuntam à massa contorcida e seguem errantes, ou no seixo que estaciona
e assiste maravilhado à luz da qual fazia parte?
Taleban e Buda destruído no Afeganistão
Quem faz parte ainda do sonho civilizatório? Quem são os destinatários
dos segredos dessas figuras de bronze, de pedra? Quem poderá entrar na
barca de Caronte? Qual será o preço da travessia? A consciência?
Em sua radiografia da nova metrópole urbana, Baudelaire escreve, no
poema "O Cisne" :
"Paris
mudou! Porém minha melancolia É sempre igual: torreões,
aindaimarias, blocos, Arrabaldes, em tudo eu vejo alegoria, Minhas lembranças
são mais pesadas que socos. Também diante do Louvre, uma imagem
me oprime: Penso em meu grande cisne, o do gesto feroz, Exilado que ele
é, ridículo e sublime, Roído de um desejo infindo! Como
em vós"
Segundo Spinelli , "a arte pública pode ser considerada como um mediador
entre desejos." Desejar é articular falta estrutural com uma presença
significante, num movimento ad infinitum. Criador, criatura e público operam
manobras simbólicas e imaginárias, em dança, como diz Valéry
em "Variedades" . Um gesto pode salvar uma escultura, pode ser lido
como benção, como agouro, como reconciliação. A arte
tem o poder de atribuir sentido, frágil e, ainda assim, superando as barreiras
do tempo e da significação cultural histórica, atingindo
o passante atual. Para prosseguir desse ponto, é necessária
a distinção entre as intenções da História
da Arte, da Filosofia da Arte e da Crítica de Arte. Berenson afirma, "a
História da Arte é a estória do que a arte criou, dos problemas
que teve de solucionar antes de produzir o que fez; do que pode realizar e transmitir;
a que necessidades espirituais deu expressão, introduzindo-as com isso
no campo da consciência, que obstáculos técnicos ou psicológicos
impediram-na de render frutos melhores em determinados momentos."
Remontar o quebra-cabeça do percurso humano da sua própria construção.
As derivações de cada modelo, caminhos abortados, acidentes, são
matéria-prima para a imaginação do historiador. Ao descrever
e interpretar os arranjos de cada sociedade, a História da Arte desenha
um mosaico panorâmico da presença da cultura, enquanto acumulação
sincrônica de tempos e espaços perdidos e encontrados. Para Berenson,
"são as obras que têm importância e não a biografia
do artista. Estas obras existentes compõem a personalidade artística,
como distinta da personalidade cívica, biográfica(...)"
Já Max Bense nos descreve uma filosofia da arte como o momento onde "
a obra passa do estado de puro ser ao estado de pura teoria. O objeto estético
é percebido esteticamente e a isso segue o juízo estético."
Questionando a expressão em busca do valor estético, o filósofo
percorre a realidade material para alcançar a transcendência de um
novo modo de ser do objeto. Ao criar correspondências entre aparência
e essência, o filósofo, na arte, consegue superar o limite interpretativo
da cartilha da lógica propositiva e envereda, mais além, numa dimensão
de compreensão mais profunda - segundo Hegel, mais próxima do modo
de ser do espírito. A verdade e a mentira dão lugar a uma co-realidade
instrumental, margem irreversível da diferença entre a linguagem
e as coisas, ali onde virão a se unir, em totalidade, nas consciências.
Finalmente, a crítica de arte se nutre da condição depauperada
em que habita. Sem o distanciamento temporal do historiador, e sem os anteparos
idealistas do filósofo, o crítico tece seu comentário em
meio às contradições culturais de sua época e de seu
lugar. Adorno comenta:
"Enquanto
avaliador, o crítico da cultura tem inevitavelmente de se envolver com
uma esfera maculada por valores culturais, mesmo quando luta zelosamente contra
a mercantilização da cultura. Em sua atitude contemplativa em relação
a ela, introduz-se necessariamente um inspecionar, um supervisionar, um pesar,
um selecionar: isto lhe serve, aquilo ele rejeita."
Estátua
de Lênin retirada
O crítico se movimenta num terreno conturbado, de luta, onde grita e aponta
para a desumanização em ato. É agente histórico fundamental,
mesmo sem a certeza do devir, manifesta-se no interior da produção.
Se para a história, o artista não é importante, pois é
a soma das obras em retrospectiva, e se para a filosofia o sujeito do conhecimento
torna-se uma figura abstrata, para a crítica, o autor é um dos campos
de batalha, o outro é o público. O valor da arte pública
resulta de uma operação de análise. A diferenciação
das sínteses históricas, filosóficas e críticas possíveis
inaugura o campo de atuação daquele que pretende interpretar significados
e atribuir valores. Para a História, cada pedaço do quebra-cabeça
não pode ser perdido, por arruinar a coerência do mosaico. A missão
de organizar, catalogar e preservar é fundamental para que tenhamos a própria
idéia de valor cultural. Essa recolha perpétua se torna uma herança,
acrescida de sentido através do esforço documental e imaginativo
do historiador. Como poderíamos avaliar o valor da obra-prima sem o exemplar
de menor alcance para compará-lo? Seguindo esse raciocínio,
nenhum artefato ou vestígio da passagem humana devem ser descartada ou
destruída. Todos têm valor em si enquanto documentos, pelo valor
da mensagem que carregam, ou por nos transportar mais atrás na História,
e alguns se destacam pela maestria na execução. A História
da Arte foi desenvolvendo parâmetros para pensar valor, no interior de cada
época, comparando o nível de detalhe, a qualidade dos materiais,
amadurecimento de estilos e grau de influência no decorrer da modalidade,
por exemplo.
Laboratório
de restauração
Por outro lado, a Filosofia da Arte, denominada Estética por Baumgarten,
percorre as manifestações artísticas na direção
de uma teoria, ou modelo de compreensão, a partir da experiência
específica da arte. O olhar do filósofo se detém sobre as
imagens que portam sua própria metalinguagem. Obras que expressam, no seu
arranjo material e sensível, a lógica formal e inteligível
de seus argumentos. O destino da obra de arte, filosoficamente, é transitar
do sensível ao inteligível, reconfigurando o primeiro a cada retorno.
A linguagem artística, não procura imitar o real para se tornar
ontologia. A arte utiliza seu poder de imitação para criar-se autônoma.
O exercício de abstração na obra de arte dirige o artista
e o público para acompanhar o movimento vital de expressão e juízo.
O fazer estético cria um movimento próprio, um bloco de sensações
em confronto com nossas imagens de mundo. Essa tensão entre o conhecido
e essa nova apresentação conduz o espírito a novas configurações
do real existente. A abertura ideativa, que advém dessa comparação,
nos faz intuir o devir das coisas e o espaço essencial para o que ainda
virá. A síntese crítica, por sua vez, precisa alcançar
uma autonomia para poder se vincular de forma livre e verdadeira. A crítica
não deve seguir a sucessão dos fenômenos para simplesmente
traçar sua fisionomia, tampouco cometer generalizações, tão
ideológicas quanto os dispositivos de convencimento do poder instalado.
A consciência de que "nenhuma teoria, (...), está segura de
jamais se perverter em suposição" pauta uma reconciliação
possível da opinião crítica que, devendo se manter, simultaneamente,
longe e próximo do seu objeto, tenta ser coerente no que há de crítico
no interior da arte. Caminhando na instabilidade das ordens sociais, e seus
regimes interpretativos, o crítico deve criar um novo espaço, atual
e arregimentado por práticas políticas, éticas e significativas.
Cabe ao crítico optar, rejeitar e construir. Consciente que a tradição
e a teoria se transformam também em ideologia, ou seja, ferramentas de
poder, o crítico precisa torná-las instrumentos para a ação.
A missão da crítica , além de desmistificar as estratégias
de poder, é de apontar caminhos ainda não trilhados. Cada uma
das abordagens sobre a arte também ofereceria uma tradução
diferente sobre a atuação do vândalo. Dependendo de cada recorte
sobre o objeto artístico, as diferenciações entre o vândalo
e um criminoso comum podem ou não fazer sentido. Podemos pensar nas contradições
de valores e práticas de cada disciplina de conhecimento, frente a uma
atitude tão extremada, e por vezes até irreversível.
Como avaliar um ato, que a princípio, seria resultado de pura má
consciência. Seria muito mais fácil agredir o que pertence a outrem,
do que aquilo que pertence ao próprio. A dificuldade começa a aparecer
quando, neste caso, aquilo de outrem, ao mesmo tempo é meu. O público
é vazio, até o momento que incorpore ambos. O trabalho do conceito
de público é de tornar comum. Se para o vândalo, a cena
privada transgredida traz consigo um antagonista: o proprietário, na nova
cena pública, a relação deixaria de ser de posse para se
tornar de convivência e diálogo. Nesse outro contexto, pode-se abrir
mão da segurança do anonimato, pois ali se abriria um campo para
projeção representativa. O movimento agora seria o de baixar as
defesas, sem a urgência de um golpe desferido.
Escultura "Davi" de Michelangelo e detalhe do pé atingido a golpes
de martelo - Setembro 1991
Para
o historiador, a atitude do vândalo é injustificável. Sob
nenhuma justificativa alguém teria o direito de danificar ou destruir um
patrimônio que pertence a toda a humanidade. A historiografia não
pode abrir mão de nenhum ítem de uma totalidade ainda porvir. Alerta
aos relativismos e aos reformismos revolucionários, que não hesitariam
em liquidar os museus, sob alegações contra a tradição
e convencionalismo, que o historiador se projeta na defesa do legado humano, substrato
legítimo de todas as inovações duradouras. A filosofia
provavelmente julgaria o vândalo incapaz de análises instrumentais
e de sínteses transcendentais. Imoral e sem razão, age no ímpeto
de uma vontade irrefletida, sem qualquer compreensão da realidade de seu
entorno. Não conseguiria sequer extrair qualquer sentido posterior de suas
ações, pela completa incapacidade de pensar demonstrada. Os
questionamentos da crítica recontextualizadora procuram elucidar e combater
estereótipos e mitologias. O cenário da reflexão pós-moderna
é erguido com uma forte tendência ao recobrimento figurativo e metonímico,
onde o realismo é o de uma imagem, não o de um objeto. O paradigma
para a apresentação da realidade contemporânea é a
de quadros legendados em movimento, com a devida locução explicativa.
Se por um lado seria impraticável propor uma representação
estável das massas globalizadas, uma vez que se tratam de contingentes
nômades de híbridos culturais, a mídia digital se ocupa de
atomizar ainda mais seus participantes em células virtuais desconectadas
umas das outras. A ausência de instâncias coletivizadoras e representativas
é resultado da descrença em uma real interação com
o sistema, assim como a dificuldade de imaginar um futuro em grupo, sem que demandas
muito imediatas e compreensíveis justifiquem a reunião.
Bar e videoteca do Projeto 24h Foucault - Thomas Hischorn
Seria necessária criatividade para romper com esse falso realismo estático,
em direção à tentativa de criar espaços concretos
de interação real e comunicativa. Essa espacialização
alternativa, muito próxima da ágora grega e da praça italiana,
possibilitaria o surgimento espontâneo de identidades e micro-organizações
sociais.
1
DELEUZE, Gilles e Félix Guattari. "O que é Filosofia?"
trad. Bento Prado Jr e AlbertoAlonso Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
p. 86 2 Teoria médica criada no século 18 por Franz Anton Mesmer,
utilizando poder de sugestão colocava pessoas em sonolência, convulsão
ou transe. Postulou a existência de um Fluido universal que tudo atravessa
e influencia. 3 FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras completas
de Sigmund Freud, trad. Dr. J.P. Porto-Carrero. Rio de Janeiro: Ed. Delta.S/D.
p. 08. 4 ARENDT, Hannah, Responsabilidade e Julgamento, trad. Rosaura Einchenberg.
São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p. 96-97. 5 CAMUS, Albert. O
estrangeiro. Trad. Maria Jacintha e Antonio Quadros. São Paulo: Abril Cultural,
1982. p. 223. 6 AGAMBEM, Giorgio, Remnants of Aushwitz, Nova Iorque: Zone Books,
1999. p. 148 7 Ibidem, p. 164 8 BAUDELAIRE, Charles, As Flores do Mal. Trad.
Jamil Almansur Haddad. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. p.227 9
SPINELLI, João J. Arte pública subsídio para a pesquisa em
artes visuais. In: Artes Visuais - pesquisa hoje. Salvador: UFBA. 2001 p 46 10
VALÉRY, Paul. Variedades. Trad. Maiza Martins de Siqueira. São Paulo:
Iluminuras, 1991. 11 BERENSON, Bernard. Estética e História.
Trad. Janete Meiches. São Paulo: Perspectiva, 1972. p.214 12 Idem 13
BENSE, Max. Estética. Trad. Alberto Luis Bixio. Buenos Aires: Ed. Nueva
Visión, 1960. p.34. 14 ADORNO, T.W, Prismas - Crítica cultural
e sociedade. Trad. Augustin Wernet e Jorge de Almeida. São Paulo: Ática,
2001. p 12. 15 Idem p 25.