Este
ensaio
tem
por
objetivo
comentar
alguns
aspectos
da
obra
de
Pierre
Bourdieu,
um
dos
grandes
sociólogos
do
século
XX,
falecido
em
2002.
Utilizaremos
como
base
os
textos
"A
Distinção",
"O
Desencantamento
do
Mundo",
"O
Camponês
e
o
seu
Corpo",
"A
Dominação
Masculina"
e
"Meditações
Pascalianas".
Este
autor
pretendeu
um
pensamento
de
síntese
nas
Ciências
Sociais,
uma
crítica
ousada
do
mundo
moderno,
com
uma
teoria
da
ação
social
envolvendo
ordem
e
coordenação
das
ações
humanas,
uma
lógica
estruturante
e
estruturada,
sob
jogos
sociais.
Uma
de
suas
grandes
virtudes
é,
com
sua
teoria
crítica,
o
desmascaramento
de
certa
"ideologia
da
igualdade
de
oportunidades",
e
o
combate
à
naturalização
da
ideologia
dominante,
idéia
presente
na
obra
de
Marx,
da
qual
Bourdieu
faz
uma
boa
leitura
sobre
a
ordem
social
do
capitalismo.
Enquanto
que
para
Karl
Marx
o
que
determina
a
classe
é
ser
proprietário
ou
não
dos
meios
de
produção,
o
autor
de
"O
Poder
Simbólico"
afirma:
o
material
é
simbólico,
o
simbólico
é
material,
e
na
realidade
social
não
há
diferenciação.
Para
Marx,
o
interesse
resulta
da
classe,
tendo-se
a
consciência
de
classe
como
revolucionária,
como
um
comportamento
ligado
à
consciência,
o
que
Weber
chamará
de
comportamento
de
classe,
havendo
influências
deste
na
obra
bourdiesiana,
sendo
um
ponto
a
diferenciação
das
esferas
de
valor.
Com
relação
à
Marx,
para
Bourdieu,
não
temos
consciência;
o
que
há
é
a
inconsciência
de
classe
1,
um
lado
pré-reflexivo.
É
preciso
recuperar
a
parte
ativa
do
senso
prático,
que
foi
abandonado
pelo
materialismo.
Ele
também
não
utiliza
o
termo
ideologia
por
sua
polissemia
e
por
ignorar
a
naturalização
que
resulta
da
inscrição
do
social
nos
corpos
e
nas
coisas.
Neste
seu
pensamento
de
síntese,
há
também
influência
durkheimiana
no
que
se
refere
à
existência
de
um
elemento
supraindividual
"imperando"
na
ação;
o
filósofo
Merleau-Ponty
e
a
sua
idéia
de
homem
como
ser
no
mundo,
engajado,
também
encontra
"eco"
em
sua
obra.
Pierre
Bourdieu
é
tido,
por
alguns,
como
conservador,
por
não
explicar
bem
as
variações
individuais
2,
e
sim
a
regra,
por
ver
quase
sempre
a
reprodução,
e
não
a
mudança;
o
que
não
compreendem
os
críticos
é
que
a
reprodução
faz
parte
da
maior
parte
do
cotidiano.
O
mundo
social,
para
o
sociólogo
francês,
é
um
mundo
alienado,
em
que
se
conhecem
os
efeitos
ignorando
as
causas;
entretanto,
o
termo
marxista
de
alienação
não
é
mencionado,
e
sim,
illusio;
há,
por
exemplo,
a
illusio
do
tempo,
marcado
pela
urgência
ou
não
de
determinadas
classes;
o
poder
econômico
é
o
poder
de
estar
liberto
das
necessidades
econômicas.
O
autor
ainda
adota
uma
perspectiva
ontológica,
em
que
o
real
é
relacional
e
multidimensional;
há
muitas
dimensões
atuando,
e
somente
podemos
separá-las
para
analisá-las;
não
há
substância
ou
essência;
até
a
dominação
é
relacional
3.
As
ciências
sociais
devem
se
confrontar
com
o
chamado
"fetichismo
platonizante
escolástico",
trabalhando
para
uma
genealogia
das
estruturas
objetivas
e
cognitivas
dos
campos
(principalmente
dos
considerados
escolásticos),
que
constituem
o
produto
e
a
condição
de
seu
funcionamento.
A
teoria
da
prática
é
um
ponto
a
ser
considerado
para
Bourdieu,
com
seus
conceitos
principais,
que
iremos
aqui
discutir:
campo,
capital
e
habitus,
sendo
que
a
prática
se
dá
na
relação
entre
habitus
e
campo.
A
estrutura
está
na
dinâmica
social,
sendo
preciso
romper
com
o
dualismo
estrutura-ação,
havendo
em
sua
obra
uma
teoria
da
ação
social
vinculada
a
uma
teoria
da
dominação
no
capitalismo
contemporâneo;
não
há
como
explicar
ação
sem
compreender
como
se
dá
a
dinâmica
da
luta
de
classes
por
distinção,
por
exemplo.
Os
efeitos
da
dominação
das
práticas
são
engendrados
pelas
disposições
aprendidas,
esquecidas
e
naturalizadas.
O
espaço
social
é
uma
representação
abstrata,
uma
visão
panorâmica
onde
os
agentes
lançam
seu
olhar
sobre
o
mundo
social;
é
definido
pela
distinção,
pela
exclusão
mútua,
com
a
posição
relativa
que
o
sujeito
ocupa
em
relação
outros
lugares.
Entretanto,
o
que
nos
move
é
a
autolegitimação,
a
adaptação
das
condições
simbólicas,
o
interesse
prático;
a
distinção
é
apenas
o
efeito
socialmente
orquestrado
desta
necessidade
de
autolegitimação
enquanto
corpo
socializado.
O
princípio
da
ação
está
nesta
cumplicidade
entre
a
história
tornada
corpo
e
a
história
tornada
coisa.
A
lógica
específica
dos
espaços
sociais
em
que
os
sistemas
simbólicos
são
produzidos
deve
ter
alguma
pretensão
à
validade
universal,
apesar
de
certos
aspectos
variarem
de
acordo
com
o
local.
O
conceito
de
campo
pode
ser
entendido
como
o
contexto
onde
acontece
a
prática;
os
resultados
das
regras
sociais
se
dão
nestes
contextos,
sendo
que
não
se
escolhem
os
elementos
de
posições
estruturais.
O
campo
é
tido
como
um
fato
social
total,
para
usar
uma
expressão
difundida
por
Marcel
Mauss;
é
um
constrangimento
lógico
e
social,
ao
mesmo
tempo.
Temos,
por
exemplo,
o
campo
acadêmico,
o
político
e
o
mercado,
sendo
que
este
último
é
tido
como
um
campo
importante,
influenciando
diversos
outros
campos;
há
conflitos
em
todos
os
campos.
O
campo
tende
à
reprodução,
com
lutas
de
classes
quase
sempre
a
reproduzir
o
espaço
social;
porém,
há
rupturas.
O
conceito
de
campo
se
divide
em
doxa
(os
leigos),
ortodoxia
e
heterodoxia
(os
especialistas);
a
ortodoxia
fala
em
nome
da
doxa;
a
heterodoxia
rompe
com
ela,
questiona
a
raridade
dos
bens
simbólicos,
e
a
própria
condição
de
ortodoxia
indica
a
fraqueza
da
doxa.
A
condição
de
transformação
do
campo
seria
uma
relação
entre
a
heterodoxia
e
os
leigos.
A
partir
da
lógica
de
cada
campo
é
que
sabemos
quais
as
disposições
importantes
em
cada
um
deles;
há
uma
força
arbitrária
no
princípio
de
todos
os
campos,
com
cada
um
possuindo
sua
lei
fundamental;
cada
universo
erudito
também
possui
uma
doxa
específica.
Cada
campo
tem
um
fim
específico,
tendo
a
capacidade
de
favorecer
investimentos
iguais
por
parte
dos
que
possuem
as
disposições
requeridas,
mesmo
se
estiver
na
forma
de
um
interesse.
O
campo
também
institucionaliza
um
ponto
de
vista
nas
coisas
e
nos
habitus,
conceito
que
logo
destacaremos;
a
lógica
de
cada
campo
está
sob
a
forma
de
habitus,
e
é
esta
lógica
específica
que
comanda
as
propriedades
através
das
quais
a
relação
entre
a
classe
e
a
prática
é
estabelecida.
Os
capitais
serão
responsáveis
por
estruturar
os
campos
na
prática
social
e
o
lugar
onde
se
pode
investir
nos
capitais
é
o
mercado,
que
é
um
conceito
ampliado
de
campo.
O
conceito
de
capital
também
é
extraído
de
Karl
Marx,
porém,
como
já
afirmado,
para
Bourdieu
o
material
se
equivale
ao
simbólico.
Há
uma
refinação
do
conceito,
com
subdivisões,
como
os
conceitos
de
capital
econômico,
capital
social
e
capital
cultural;
termos
como
capital
simbólico
e
capital
midiático
(principalmente
no
livro
"Sobre
a
Televisão")
também
são
vistos
por
sua
obra.
O
volume
de
capital
social
depende
de
fatores
como
prestígio,
favorecimento
e
cooperação;
já
o
capital
cultural
pode
ser
incorporado,
objetivado
(como
bens
culturais),
e
institucionalizado
(como
diplomas).
Há
de
ser
ressaltado
que
o
capital
é
transmitido
de
forma
particular,
com
estratégias
específicas
das
classes
dominantes
para
a
sua
reprodução,
principalmente
em
relação
ao
capital
cultural,
onde
a
incorporação
é
um
fator
importante;
a
propriedade
é
um
capital
objetivado,
por
exemplo,
e
o
habitus
é
um
capital
incorporado.
O
capital
simbólico
assegura
formas
de
dominação,
que
é
um
tema
central
em
Bourdieu;
este
capital
incorporado
é
percebido
como
dom,
a
dominação
cria
a
legitimidade
da
cultura
legítima.
Há
uma
ambigüidade
constitutiva
do
capital
simbólico:
o
amor-próprio
e
o
reconhecimento,
uma
transmutação
do
interesse
individual
em
interesse
pelo
outro;
a
luta
pelo
capital
simbólico
começa
desde
cedo,
quando
criança,
sendo
que
a
família
é
uma
estrutura
estruturante
(porque
engendra
o
jogo
e
o
processo
de
identificação),
e
estrutura
estruturada
(pois
reflete
jogos
sociais
sérios).
O
habitus
é
o
princípio
de
práticas
objetivamente
classificáveis,
e
ao
mesmo
tempo,
de
classificação;
é
um
princípio
unificador
de
práticas,
núcleo
gerador
de
cotidiano,
incorporação
dos
atores
sociais
às
regras
do
campo,
produto
da
aquisição
histórica,
é
a
energia
potencial
de
onde
a
eficácia
da
violência
simbólica
é
extraída,
uma
estrutura
estruturada
e
estruturante
4.
Na
relação
entre
estas
duas
capacidades,
constitui-se
o
mundo
social
representado.
O
conceito
de
habitus
se
refere
à
interiorização
pré-reflexiva
de
valores,
lei
social
incorporada,
corporificação
e
não
pura
e
somente
internalização,
como
afirma
a
sociologia
funcionalista:
o
conceito
de
inconsciência
é
muito
importante
para
Bourdieu,
com
o
habitus
explicando
a
"mágica"
da
reprodução
social;
é
o
jogo,
enquanto
o
campo
dá
o
sentido
deste
jogo.
É
um
esquema
de
conduta
de
comportamento,
gerando
práticas
individuais
e
sociais;
os
indivíduos
são
sujeitos
de
classe;
este
conceito
analisado
não
pode
ser
considerado
o
sujeito
egoísta
dos
utilitaristas.
Os
estilos
de
vida
são
produtos
do
habitus,
e
se
tornam
sistemas
de
sinais
socialmente
construídos,
tidos
como
distintos
ou
vulgares.
O
habitus
é
um
pressuposto
filosófico,
sendo
que
a
experiência
do
homem
no
mundo
é
de
engajamento,
prática;
este
conceito
tem
a
função
primordial
de
lembrar
que
nossas
ações
assentam
sua
lógica
mais
frequentemente
no
senso
prático
do
que
no
cálculo
racional.
O
agente
nunca
é
sujeito
"inteiro"
de
suas
práticas,
a
ação
não
é
nem
puramente
reativa
nem
puramente
calculada;
é
o
senso
prático
que
permite
a
ação
sem
executar
uma
"moral",
uma
regra
de
conduta.
Os
agentes
apreendem
os
objetos
através
dos
esquemas
de
percepção
de
apreciação
de
seus
habitus,
que
podem
ser
de
geração
ou
de
classe.
O
habitus
muda
com
as
gerações,
mas
é
um
processo
lento;
um
exemplo
brasileiro
é
o
negro,
que
perdeu
o
habitus
de
escravo
e
adquiriu
habitus
de
subproletariado,
com
a
entrada
do
Estado
e
do
mercado
no
Brasil.
Há
uma
mudança
no
conceito
de
habitus
em
Bourdieu,
notado
principalmente
em
"Meditações
Pascalianas";
antes,
havia
a
sistematicidade
do
habitus
de
agir
simbolicamente,
algo
socialmente
contingente,
engendrando
homologia
entre
os
campos,
se
manifestando
em
vários
contextos,
onde
são
aplicados
os
mesmos
princípios
de
escolha
e
rejeição,
com
um
estilo
de
vida
mais
ou
menos
coerente
nas
disposições.
A
modificação
está
na
não-sistematicidade
do
habitus,
com
a
incoerência
e
o
caráter
pré-lógico
das
disposições,
sendo
o
caráter
central
do
habitus
de
classe;
o
habitus
não
é
necessariamente
adaptado,
nem
necessariamente
coerente.
A
Argélia
estudada
em
"O
Desencantamento
do
Mundo"
não
possui
as
mesmas
condições
"sistemáticas"
que
Bourdieu
estudou
na
França;
há
uma
fragmentação
entre
prática
e
discurso,
entre
o
que
se
faz
e
o
que
se
diz;
a
sistematicidade
do
habitus
é
própria
de
quem
possui
o
domínio
sobre
a
vida,
sem
se
"deixar
levar
pelo
mercado";
o
habitus
tem
seus
desclassificados.
Como
se
percebe,
o
tema
da
"mudança"
também
está
presente
em
Bourdieu;
entretanto,
o
discurso,
por
si
só,
não
é
capaz
de
converter
o
habitus.
A
relação
entre
habitus
e
classe
é
um
produto
de
disposições
que
constitui
a
regra
de
um
campo;
o
conceito
também
pode
ser
compreendido
como
"marca
de
classe",
a
fala
adquire
formas
diferentes
nas
diversas
classes,
como
o
capital
lingüístico,
por
exemplo;
entretanto,
para
Bourdieu,
diferente
de
Habermas,
o
"vencedor"
é
o
dito
antes,
o
não-dito.
O
fato
de
os
indivíduos
não
se
moverem
de
modo
arbitrário
no
espaço
social
explica
o
pertencimento
a
uma
classe.
A
fórmula
geradora
do
habitus
retraduz,
em
um
estilo
de
vida
particular,
as
necessidades
e
as
facilidades
características
de
determinada
classe,
das
condições
de
existência.
A
ausência
de
futuro
afetará
toda
a
vida
de
um
indivíduo
das
classes
dominadas,
por
exemplo;
o
subproletário
possui
uma
religiosidade
mágica,
e
serve
como
massa
de
manobra
para
os
dominantes.
Seu
habitus
é
precarizado,
transforma
o
que
é
necessidade
em
virtude,
como
se
dissesse
"eu
não
queria
aquilo
das
classes
dominantes
mesmo",
com
o
subproletário
aceitando
a
culpa
por
seu
próprio
fracasso;
falta
futuro
e
objetivo
à
sua
vida.
O
conceito
de
classe,
então,
pode
ser
definido
como
o
que
se
resulta
da
diferenciação
do
chamado
"volume
global
de
capital",
principalmente
do
capital
social,
em
conjunto
com
o
econômico
e
o
cultural,
sendo
traduzidos
como
status,
salário
e
prestígio
social.
Também,
para
Bourdieu,
uma
classe
se
define
pelo
lugar
e
valor
que
atribui
aos
dois
sexos
e
a
suas
disposições
constituídas
socialmente.
O
conceito
de
habitus
complexifica
todas
as
relações,
há
uma
corporificação,
um
corpo
tornado
sentido,
como
se
alguém
dissesse:
"você
não
pensa
deste
modo,
e
sim
age".
O
corpo
revela
uma
posição
no
mundo,
um
habitus,
representando
urgência
da
prática
ou
não;
há
algo
pré-reflexivo,
espontâneo,
inscrito
no
corpo;
a
capacidade
de
construir
a
realidade
social
é
a
de
um
corpo
socializado.
Há
a
estilização
da
vida
como
um
todo,
com
a
disposição
do
habitus
relacionada
com
as
disposições
do
campo
cultural,
com
a
finalidade
de
associar
quais
bens
são
considerados
legítimos.
O
distanciamento
do
mundo
social
marca
a
diferença
entre
forma
e
função
na
arte,
por
exemplo;
as
classes
dominadas
tendem
a
se
perguntar:
"qual
serventia
tem
esta
obra
de
Picasso
para
mim?",
enquanto
a
forma
seria
a
forma
de
expressão
das
classes
dominantes;
deste
modo,
a
cultura
legítima
é
percebida
como
a
oposição
corpo
e
alma,
em
que
tudo
o
que
é
próximo
à
alma
é
referendado
como
distinto,
raro,
e
o
considerado
como
"corpo"
é
tido
como
vulgar,
estigmatizando
as
classes
dominadas;
não
existe
o
valor
de
um
bem
cultural
em
si.
Há
a
naturalização
da
percepção
estética,
escondendo
sua
gênese;
torna-se
natural
o
que
é
social.
Há
a
expressão
do
corpo
com
o
tempo;
em
um
de
seus
primeiros
textos,
"O
Camponês
e
o
corpo",
Bourdieu
coloca
o
camponês
com
certa
consciência
de
seu
corpo.
Talvez
a
questão
mais
importante
deste
texto
seja
a
do
aprendizado
moral,
pois
o
habitus,
além
de
dominação,
envolve
esta
questão
de
aprendizado;
as
mulheres
são
tratadas
de
um
modo
melhor
pelos
homens
urbanos,
havendo
uma
hierarquia
valorativa,
e
a
"modernidade"
surge
como
possibilidade
de
emancipação
para
as
mulheres
que,
detendo
o
monopólio
do
juízo
estético,
aprendem
com
o
corpo
a
estética
do
mundo
urbano.
Há
a
introdução
da
esfera
erótica
neste
mundo
urbano,
sendo
que
a
lógica
anterior
dos
camponeses
a
que
Bourdieu
se
refere
eram
valores
como
honra
e
prestígio.
O
corpo
não
somente
responde
à
cultura,
mas
é
cultura;
há
uma
maneira
legítima
de
posicionar
e
apresentar
o
corpo,
que
é
percebido
como
conduta
moral,
mas
é
relacionado
à
representação
social
do
corpo.
As
determinações
sociais
mais
importantes
estão
ligadas
ao
corpo,
e
não
ao
intelecto;
o
corpo
está
no
mundo
social,
e
este
está
no
corpo,
em
uma
dupla
determinação.
A
transmissão
do
habitus
se
dá
principalmente
pela
família,
de
forma
afetiva,
emocional;
a
família
é
o
lugar
da
dominação
impessoal
transformada
em
pessoa.
A
escola
termina
um
trabalho
já
começado
em
casa,
reforça
o
aprendido
na
família,
ou
o
desaprendizado,
como
um
estigma,
a
repetência
escolar,
por
exemplo.
A
escola
institui
condições
para
que
as
condutas
ensinadas
possam
se
efetivar
sob
a
forma
de
exercícios
gratuitos
e
jogos
sérios,
sem
ter
uma
utilidade
ou
conseqüências
imediatas.
O
capital
escolar
e
o
capital
familiar
são
formas
diferentes
do
capital
cultural;
toda
herança
material
é,
necessariamente,
uma
herança
cultural.
O
capital
é
considerado
legítimo
porque
é
da
classe
dominante;
para
haver
legitimação,
é
necessário
o
reconhecimento
social.
Não
é
preciso
saber
porque
os
dominantes
são
lindos,
ricos
e
prestigiosos,
mas
sim
mostrar
que
tudo
é
merecido,
em
mais
uma
illusio
constituída,
uma
questão
de
legitimidade;
só
nos
tornamos
"gente"
quando
somos
reconhecidos
por
alguém.
Somente
quem
tem
a
cultura
legítima
pode
recusá-la;
existem
classes
com
mais
poder
de
escolhas
do
que
outras;
a
urgência
das
classes
dominadas
lhes
impede
de
ter
mais
escolhas,
e
isto
não
é
natural,
e
sim
fruto
de
uma
história,
há
o
condicionamento
social
desta
construção;
o
único
fundamento
possível
de
lei
deve
ser
buscado
na
história.
A
forma
de
usufruir
o
privilégio
tem
o
poder
social
de
esconder
o
privilégio,
naturalizando-o;
o
"mito
do
dom
natural"
é
centro
de
uma
sociodicéia
baseada
no
privilégio,
que
converte
a
inteligência
em
princípio
de
legitimação,
atribuindo
a
pobreza
à
estupidez,
por
exemplo.
O
diploma
pode
ser
visto
como
importante
distinção,
principalmente
nas
estratégias
de
reprodução
do
capital
cultural,
mas
após
o
tempo,
ele
é
desvalorizado;
a
internalização
pré-reflexiva
dos
"valores
do
diploma",
que
pode
ser
chamado
da
relação
com
o
saber,
é
que
importa.
O
aprendizado
"legítimo"
é
visto
como
desinteresse,
e
geralmente
ocorre
precocemente.
O
princípio
da
distinção
está
relacionado
com
uma
luta
por
prestígio
com
uma
regra
arbitrária,
transformando
dinheiro
em
valor;
a
identidade
social
se
define
se
afirma
na
diferença;
entretanto,
muda-se
sempre
o
bem
desejável
em
torno
do
qual
se
darão
as
lutas
sociais,
os
jogos
sociais;
a
mobilidade
é
uma
ilusão
social,
é
apenas
relativa,
não
estrutural.
Há
de
ser
ressaltado
que
nem
os
dominantes
podem
tirar
proveito
deste
jogo
se
não
ocorrer
uma
adesão
visceral,
corporal
a
ele.
O
capital
cultural
pode,
ao
longo
das
gerações,
ser
levados
aos
novos-ricos;
há
também
o
fenômeno
da
histerese,
em
que
ao
longo
do
tempo
as
classes
podem
"derrapar"
no
tempo
ou
ter
uma
ascendência;
a
classe
é
dinâmica,
há
um
movimento
com
o
tempo,
conceito
igualmente
importante
na
sociologia
bourdiesiana.
Ao
contrário
de
Weber,
Bourdieu
trabalha
com
as
categorias
"classe"
e
"status"
juntas;
dependendo
do
tempo,
os
novos-ricos
não
conseguem
chegar
ao
status
de
dominantes.
O
subproletariado,
as
classes
dominadas
possuem
uma
racionalidade
mágica,
e
há
uma
questão
de
tempo
envolvida:
a
classe
proletária
que
se
mantém
como
tal
não
tem
projeção,
não
tem
domínio
do
presente,
nem
do
futuro,
por
isso
não
possui
uma
idéia
revolucionária.
O
tempo
e
o
ritmo
são
fatores
importantes
da
ordem
social;
nas
disposições
temporais,
não
há
a
intenção
dos
agentes,
e
sim
a
prática;
esta
intenção
é
imaginária;
o
camponês,
por
exemplo,
não
tem
noção
de
intenção,
pois
vive
em
mundo
de
racionalidade
mágica.
A
disposição
com
relação
ao
tempo
é
uma
conduta
de
mundo
implícita
em
todas
as
práticas;
as
disposições
são
construções
passadas
afetivamente;
esta
noção
de
disposição
é
naturalizada
E
esta
pressão
da
necessidade
econômica
pode
resultar
em
um
comportamento
reativo
ou
em
uma
passividade
resignada.
Uma
mudança
econômica
pressupõe
uma
mudança
também
na
cultura;
para
os
camponeses
argelinos
estudados
por
Bourdieu,
o
dinheiro
"não
faz
sentido",
há
certa
desconfiança
do
camponês
para
com
o
dinheiro;
o
tempo
econômico
é
o
bem
cultural
de
uma
classe.
Para
"ser
o
dominador",
é
preciso
afastar-se
do
presente
e
da
urgência,
ter
certa
dominação
sobre
o
tempo;
há
uma
luta
de
poder
de
todas
as
classes
com
todas
as
classes,
sendo
que
esta
luta
precisa
ser
legitimada,
através
de
prestígio
social,
por
exemplo.
Tanto
o
camponês
quanto
o
subproletário
são
modernos,
havendo
uma
desqualificação
individualizante;
o
indivíduo
é
tabu
na
sociedade
pré-capitalista;
não
devemos
encarar
estes
tipos
como
sociedade
pré-moderna,
mas
como
uma
sociedade
moderna
de
outro
tipo.
O
indivíduo
deixa
de
ser
tabu
quando
são
possibilitadas
trocas
sem
o
véu
de
uma
camada
moral;
o
interesse
egoísta
é
legítimo.
A
sociedade
inteira
muda
quando
a
ação
econômica
se
autonomiza;
há
uma
revolução
no
mercado.
Os
dominados
sempre
possuem
condutas
ambíguas,
como
a
relação
entre
o
camponês
e
o
seu
corpo,
citada
acima;
não
há
a
adaptabilidade
do
pré-moderno
para
o
moderno,
por
exemplo:
esta
mudança
exige
uma
metamorfose
cultural,
que
é
demorada,
por
isso
o
indivíduo
não
perde
de
imediato
as
condições
econômicas
particulares
em
que
foi
"criado",
"produzido".
Não
existe
o
gosto
puro
inato
para
Bourdieu,
em
oposição
a
Immanuel
Kant,
e
sim
o
afastamento
das
necessidades
econômicas
como
condição
material
de
existência
alterando
a
vida
dos
indivíduos;
o
gosto
é
analisado
como
o
operador
prático
de
transmutações
das
coisas
em
sinais
qualificados
como
distintos
ou
vulgares,
fazendo
com
que
as
diferenças
inscritas
nos
corpos
tenham
acesso
à
ordem
simbólica
de
distinções.
Esta
distinção
não
é
somente
de
classe,
mas
de
gênero
e
raça;
a
primeira
diferença
entre
os
homens
é
a
diferença
de
gênero.
Em
Bourdieu,
não
existe
o
biológico;
mas
o
social;
a
cor
da
pele
é
um
elemento
definidor
de
classe,
porém
não
é
determinante.
A
dominação
de
gênero
é
uma
contingência
histórica
que
não
se
consegue
enxergar
como
tal;
é
a
forma
maior
de
violência
simbólica,
que,
por
sua
vez,
é
sempre
ligada
a
poder.
Há
o
favorecimento
de
uma
impotência
aprendida
no
sexo
feminino,
tendo
como
exemplo:
"quanto
mais
eu
era
tratada
como
uma
mulher,
mais
me
tornava
mulher";
mais
uma
vez
relacionado
à
representação
social
do
corpo,
com
uma
construção
social
naturalizada,
os
gêneros
como
habitus
sexuados.
A
dominação
sempre
tem
um
caráter
simbólico,
e
um
de
seus
efeitos
é
a
obscuridade
das
disposições
do
habitus.
A
dominação
masculina
é
universalmente
compartilhada,
tendendo
a
ser
vista
como
relação
de
complementaridade.
Toda
dominação
deve
ser
baseada
em
uma
dissimulação
cognitiva,
acentuando
algumas
diferenças
e
ocultando
outras,
como
meias-verdades,
invertendo
causas
e
efeitos.
Há,
portanto,
um
natural,
visto
como
justo,
uma
violência
sutil
e
doce.
As
mulheres
aderem
à
dominação
por
efeito
de
magia;
toda
percepção
é
fruto
desta
divisão
sexual.
A
construção
social
do
homem
e
da
mulher
como
seres
diferentes
está
nos
corpos
e
nos
cérebros;
as
transformações
da
condição
feminina
mascaram
a
permanência
de
estruturas
invisíveis,
só
podendo
ser
esclarecidas
por
pensamento
relacional;
o
homem
é
detentor
do
monopólio
dos
instrumentos
de
produção
e
reprodução
do
capital
simbólico,
para
assegurar,
no
mínimo,
a
conservação
deste
capital,
havendo
estratégias
de
reprodução
e
transmissão
dos
privilégios
herdados
e
dos
poderes.
Com
a
introdução
da
esfera
erótica,
há
uma
erotização
das
relações
sociais
de
dominação,
um
reconhecimento
erotizado
da
dominação;
a
mulher
sempre
existe
primeiramente
pelo,
e
para
o
olhar
do
outro,
enquanto
objeto
receptivo
e
atraente;
a
dominação
masculina
constitui
as
mulheres
como
objetos
simbólicos;
o
princípio
de
divisão
fundamental
da
dominação
é
entre
ativo
e
passivo.
Este
princípio
cria
e
organiza
o
desejo
masculino
como
dominação
erotizada
e
o
desejo
feminino
como
submissão
erotizada,
desejo
da
dominação
masculina;
este
princípio
pode
ser
aplicado
às
dominações
de
classe
e
raça
também,
por
exemplo.
A
"culpa
da
dominação"
não
é
dos
homens,
pois
o
poder
simbólico
apenas
se
exerce
com
a
colaboração
dos
dominados;
um
exemplo
sobre
classe
são
os
dominados
que
adotam
o
discurso
liberal,
o
mesmo
discurso
que
os
sufoca;
esta
submissão
encantada
é
um
efeito
característico
da
violência
simbólica,
que
ocorre
por
ato
de
conhecimento
e
desconhecimento
prático;
além
disso,
os
dominantes
são
dominados
por
sua
dominação.
A
dominação
masculina
é
a
forma
por
excelência
da
violência
simbólica
e
da
submissão
da
mulher,
e
ao
mesmo
tempo
espontânea
e
extorquida;
os
atos
de
submissão
são
atos
de
conhecimento
e
reconhecimento;
a
violência
simbólica
se
fundamenta
nas
disposições
moldadas
pelas
estruturas
de
dominação.
A
submissão
à
ordem
estabelecida
é
produto
de
um
acordo
entre
estruturas
inscritas
pela
história
coletiva,
filogenética,
e
a
individual,
ontogenética.
Uma
mudança
só
poderia
se
dar,
efetivamente,
se
ocorre
uma
radical
transformação
da
produção
das
tendências
que
levam
os
dominados
a
adotar
a
visão
dos
dominantes.
Há
também
a
aprendizagem
ligada
à
experiência
que
os
agentes
têm
das
estruturas
destes
espaços;
entretanto,
os
dominadores
também
aprender
a
"dominar
melhor",
tratando-se
de
uma
estrutura
histórica;
o
capitalismo
redefine
relações,
como
a
virilidade,
que
passou
de
virtude
de
classes
altas
para
virtude
das
classes
baixas.
No
caso
da
dominação
masculina,
a
mulher
faz
parte
da
mesma
construção
social
da
heterossexualidade,
constituída
como
padrão
universal
das
práticas
sexuais
"normais";
Bourdieu
enxerga
o
homossexual
como
heterodoxia
potencial,
pois
pode
dominar
o
dominador,
no
caso
masculino.
Uma
subversão
à
ordem
simbólica
visa
a
um
trabalho
do
tipo
"desconstrução-construção",
tentando
impor
novas
categorias
de
enxergar
o
mundo.
As
revoluções
simbólicas,
de
certo
modo,
ocorrem
mais
por
carisma
do
que
por
discurso;
é
preciso
considerar
revolução
simbólica
no
nível
da
teoria
e
da
prática
também
(relacionando
o
habitus
e
os
saberes
incorporados).
Na
questão
de
classe,
há
uma
dificuldade
dos
desclassificados
de
se
legitimar
no
mundo,
uma
ilusão
de
que
sua
posição
é
coerente,
e
qualquer
força
de
mudança
está,
para
o
autor,
na
classe
média
dotada
de
capital
cultural,
com
autocrítica
da
disposição
escolástica,
e
que
foge
do
senso
comum.
Propondo
uma
"sociologia
reflexiva",
para
combater
a
naturalização
do
que
é
social,
Bourdieu,
como
já
afirmado,
também
age
contra
a
falta
de
autocrítica
na
disposição
escolástica;
há
um
descompasso
entre
a
lógica
escolástica
e
a
lógica
da
prática;
não
podemos
nos
esquecer
do
mundo
social;
esta
ruptura
com
a
realidade
representa
uma
desconexão,
uma
mutilação
social.
O
cientista
social
não
deve
fazer
perguntas
"escolásticas"
ao
seu
nativo,
como
perguntar
em
um
questionário
quantas
classes
sociais
ele
acha
que
existem,
mas
tem
que
levar
a
sério
a
fala
deste
nativo
sem
cair
em
um
erro
escolástico,
mostrar
o
que
está
oculto
nas
condições;
é
preciso
romper
com
a
correspondência
espontânea
entre
prática
e
discurso.
O
objeto
por
excelência
de
um
pensamento
sociológico
crítico
seria
analisar
a
miséria
humana.
Uma
sociologia
crítica
deve
considerar,
mas
não
apoiar
sua
visão
no
senso
comum;
campos
transnacionais,
como
o
próprio
campo
científico,
criam
sensos
comuns
específicos,
que
por
sua
vez
questionam
o
senso
comum
nacional,
favorecendo
uma
visão
escolástica
do
mundo.
O
senso
comum
se
mostra
importante
para
a
análise;
a
regra
epistemológica
de
uma
sociologia
crítica
para
Bourdieu
é
objetivar
a
análise,
e
depois
a
própria
objetivação,
com
uma
reconciliação
do
discurso
escolástico
trabalhado
com
o
discurso
fragmentado.
Não
podemos
sufocar
o
debate
no
campo
científico;
ele
é
necessário.
É
preciso
combater
a
arrogância
da
razão;
a
competição
faz
o
conhecimento
progredir;
também
é
necessário
oferecer
a
possibilidade
de
uma
liberdade
verdadeira
ao
pensamento.
A
competição
científica,
de
alguma
forma,
produz
uma
forma
singular
de
interesse,
parecendo
desinteressada
principalmente
ao
poder
e
ao
dinheiro;
entretanto,
conflitos
intelectuais
também
são
conflitos
de
poder.
Quanto
à
questão
do
senso
comum,
Bourdieu
nos
fala
das
instituições
escolares,
que
têm
inculcado
e
reforçado
a
nação
como
população
dotada
das
mesmas
categorias,
o
que
não
é
verdade;
a
"boa
ciência",
então,
não
deve
se
basear
no
senso
comum
e
analisar,
a
partir
de
Bourdieu,
por
exemplo,
"o
brasileiro"
como
um
todo,
pois
as
diferenças
de
classe
são
maiores
que
uma
unidade
nacional.
Pierre
Bourdieu
também
afirma
que
o
senso
comum
não
é
ingênuo
enquanto
mapa
para
seguir
a
vida,
enquanto
saber
prático;
o
"povo"
tem
bom
senso,
no
sentido
de
senso
de
lugar.
O
autor
enxerga
modelos
de
ação
política
nas
formas
autônomas
do
campo
científico,
em
que,
na
ciência
se
preza
a
verdade,
e
na
política,
a
virtude.
A
luta
política
se
trata
de
uma
luta
cognitiva,
na
prática
e
na
teoria,
pelo
poder
de
impor
qual
a
visão
legítima
do
mundo
social,
através
do
reconhecimento
social
acumulado
em
capital
simbólico.
O
Estado
também
é
considerado
um
dos
móveis
cruciais
pela
disputa
do
poder
simbólico;
a
autoridade
jurídica
é
a
forma
por
excelência
do
poder
simbólico
de
construção
socialmente
instituído,
a
visão
legítima.
Além
disso,
uma
ação
política
subversiva,
para
Bourdieu,
deveria
universalizar
as
condições
de
acesso
ao
universal.
Nesta
parte
final
do
ensaio,
gostaria
de
dissertar
sobre
a
contribuição
de
Bourdieu
para
o
meu
atual
estudo,
envolvendo
a
lógica
das
classes
sociais
e
das
notícias,
apresentando-o
de
forma
rápida.
O
acontecimento
midiático
se
dá,
efetivamente,
na
intersecção
e
relação
do
campo
da
imprensa
com
os
diferentes
campos
sociais,
ou
seja,
são
transformadas
em
notícias
as
ocorrências
situadas
em
tempos,
espaços
e
condições
consideradas
legítimas
pelos
profissionais,
que
podem
ser
considerados
como
parte
das
camadas
dominantes.
No
grande
estudo
empírico
de
Bourdieu,
"A
Distinção",
o
autor
afirma
que
a
probabilidade
de
ler
um
jornal
de
difusão
nacional
está
ligada
à
classe
social.
Para
ele,
as
classes
populares,
fora
dos
jornais
locais,
lêem
quase
exclusivamente
jornais
"para
todos",
com
um
valor
social
mais
baixo;
os
jornais
e
semanários
somente
desempenhariam
seu
papel
como
marcadores
políticos
a
partir
do
nível
das
classes
médias.
O
discurso
jornalístico
se
apresenta
como
universal,
mas
os
jornalistas
vêm
de
camadas
sociais
específicas,
a
classe
média,
como
um
mundo
de
classe
média
que
precisa
ser
tornado
o
mundo
de
todos.
Esta
fração
da
classe
média
a
quem
o
jornal
se
dirige
se
distingue
das
outras
frações
desta
classe
por
possuir
a
disposição
escolástica
Este
discurso
das
notícias
mostra
uma
imagem
negativa
e
estigmatizada
das
classes
pobres,
com
um
sentimento
de
não-pertencimento
à
sociedade;
há
uma
repressão
à
ociosidade,
como
se
fosse
escolha
destas
camadas
da
população
fazer
outra
coisa,
como
se
fosse
livre-arbítrio,
como
se
o
pobre
fosse
o
próprio
culpado
pela
pobreza.
Os
manuais
de
redação
não
recomendam
que
o
jornalista
se
utilize
de
um
discurso
muito
escolar
ou
universitário,
entretanto
observamos
que,
historicamente,
os
leitores
de
jornais
diários
no
Brasil
são
os
mais
escolarizados,
como
se
dissesse:
"os
jornais
apresentam
uma
linguagem
acessível
a
todos,
eles
não
lêem
porque
não
querem";
as
mais
baixas
camadas
da
população
vivem
na
urgência,
não
dominam
o
tempo
(nem
presente,
nem
futuro).
Um
fator
importante
a
ser
demarcado
é
que
os
meios
de
comunicação
desempenham
um
papel
importante
na
construção
social
da
noção
de
classe.
Os
jornais
de
circulação
nacional
e
com
grande
legitimidade
cultural,
por
exemplo,
possuem
um
caderno
de
negócios
e
economia,
como
se
as
notícias
do
ponto
de
vista
apresentado
neste
caderno
fossem
valores
comuns
a
toda
a
população,
gerando
a
impressão
de
que
não
há
nenhum
conflito,
como
se
as
noções
de
disciplina,
autocontrole,
por
exemplo,
fossem
a
mesma
para
todos.
Com
isso,
dá-se
a
impressão
de
que
todos
possuem
o
mesmo
domínio
do
tempo
e
do
espaço.
Existem
condições
econômicas
e
culturais
de
acesso
à
condição
tida
como
racional;
a
ciência
econômica
trata
como
um
dom
universal
de
natureza
esta
disposição
"calculadora"
em
relação
ao
mundo
e
ao
tempo,
quando,
verdadeiramente,
é
um
produto
histórico.
Cabe,
então,
discutir
o
papel
do
jornal
em
obscurecer
estas
diferenças
de
classe.
Às
vezes,
ao
falar
do
trabalho
sofrido,
por
exemplo,
dá-se
um
verniz,
atenuando
a
existência
do
conflito.
Comparando
com
a
"estética
de
classe"
mostrada
em
"A
Distinção",
percebe-se
que
as
camadas
dominantes
da
população
rejeitam
os
produtos
jornalísticos
que
tem
uma
angulação
"visceral",
exibindo
cenas
deveras
fortes,
dando
ênfase
ao
corpo,
fonte
de
estigma.
Quanto
mais
a
carne
e
o
corpo
são
construídos
na
matéria,
mais
esta
é
considerada
como
própria
de
classes
mais
baixas,
como
vulgar.
Alguns
exemplos
em
manchetes
de
jornais
como
o
Meia-Hora
(Rio
de
Janeiro,
26
mai
2008),
do
Rio
de
Janeiro:
"Safado
mata
a
esposa
e
toca
fogo
na
própria
casa";
"PM
leva
um
tiro
durante
procissão";
"Safadão
ainda
solto";
"PM
manda
4
para
a
vala";
"Ex-chefe
do
pó
no
Morro
do
Encontro
é
assassinado".
Neste
tipo
de
jornal
também
é
comum
aparecerem
mulheres
de
biquíni
nas
capas
todos
os
dias;
um
ar
convidativo
ao
corpo,
ao
instinto,
uma
pequena
amostra
do
conteúdo
que
será
tratado
no
interior.
Este
é
apenas
um
exemplo
de
uma
pesquisa
introdutória,
de
como
Pierre
Bourdieu
pode
ser
importante
para
pensar
a
"miséria
brasileira",
seja
em
campos
específicos,
como
Educação,
Cultura
e
Comunicação,
ou
para
a
construção
de
uma
teoria
sociológica
crítica
mais
ampla;
o
importante
é
desvelar
o
que
aparece
como
natural,
invisível,
e
não
se
deixar
cair
nos
paradigmas
dominantes
na
atualidade,
nem
se
utilizar
de
temas
blasés.
Como
ele
mesmo
dizia,
a
sociologia
é
um
esporte
de
combate.
Notas:
1
Bourdieu
critica
a
concepção
de
"ideologia
como
falsa
consciência",
primeiramente
pelo
caráter
polissêmico
e
problemático
de
ideologia,
e
também
por
"falsa
consciência"
ter
"consciência"
demais.
2
Como
faz
muito
bem
Bernard
Lahire,
por
exemplo.
3
No
exemplo
da
dominação
masculina,
por
exemplo,
que
iremos
abordar
adiante,
a
"culpa"
não
pode
ser
considerada
dos
homens.
4
Uma
estrutura
objetiva,
que
é
vista
como
prisão
ou
liberdade
da
urgência
da
vida,
e
uma
estrutura
subjetiva,
vista
como
modo
de
vida,
percepção,
apreciação.
Referências
Bibliográficas
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Pierre.
O
Desencantamento
do
Mundo:
estruturas
econômicas
e
estruturas
temporais.
São
Paulo:
Perspectiva,
1979.
______.
A
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Masculina.
Rio
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Janeiro:
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Brasil,
1999.
______.
Meditações
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Rio
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Janeiro:
Bertrand
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2001.
______.
O
camponês
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Revista
de
Sociologia
e
Política,
n.
26,
pp.
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jun.
2006.
Disponível
em
<http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n26/a07n26.pdf>.
Acesso
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19
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A
Distinção:
crítica
social
do
julgamento.
São
Paulo:
EDUSP;
Porto
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Zouk,
2007