"Trata-se
apenas de usar as notas de maneira diferente. Exatamente isto: usar as notas de
maneira diferente." Thelonius Sphere Monk (1920 - 1982)(1)
Desde
1887 que o registro musical em discos vem servindo ao Homem como preservação
da memória e forma de estudo e transmissão referencial de suas produções
artísticas, de maneira hábil e eficaz. Conquista humana resultante
dos esforços de inúmeros pesquisadores como Thomas Young (Vibroscópio),
Charles Cros (Proto-Fonógrafo), Edward L. S. de Martinville (Fonautógrafo),
Thomas Edson (Fonógrafo-Cilíndrico), Graham Bell (Fonógrafo-Cilíndrico
aperfeiçoado), Eldridge R. Johnson (Melhorias no Gramofone de Berliner),
todos atuando durante o séc. XIX, mas, principalmente, das atividades do
imigrante alemão EMILE BERLINER, radicado na América do Norte em
parte daquele século, que, embora vendo sua idéia da criação
e reprodução sonora registrada em formato plano-circular convivendo
com a idéia de Thomas Edson em formato cilíndrico por certo tempo,
acaba premiado pelo êxito do seu gramofone que supera o fonógrafo
a partir de 1896, e tornando-se então a eletrola, vitrola e pick-up, firmam-se,
cada qual há seu tempo, até a chegada do Compact Disc na década
de 80 do século passado, resultado de pesquisas tecnológicas avançadas
desenvolvidas pelos laboratórios da gravadora holandesa Philips.
Importante
ressaltar que as possibilidades técnicas de registrar e catalogar Música,
analisamos a popular, ofereceu, em mais de um século, a praticidade de
levar a público de modo rápido e abrangente o que antes era apenas
transmitido de forma oral, ou através de partituras, quando estas fossem
preservadas; assim, o ato de deixar à posteridade o resultado dos esforços
artísticos nessa área, por si só, acabou gerando grandes
avanços para a Cultura artística num sentido geral, já que
não só a Música passou a ser transportada ao futuro através
de suportes cada vez mais fidedignos às intenções do artista,
mas, parte da produção poética humana, e dos mais diversos
ramos das Artes plásticas, passam a caminhar conjuntamente, agregados pela
força atrativa que resultou do progresso daqueles esforços. No entanto,
pensamos que a massificação proporcionada pelo avanço tecnológico
e as estratégias de promoção e distribuição
de música gravada vêem trazendo, constantemente, contradições
e provocações à qualificação artística,
o que vemos como desafio positivo, porém, depois de quase um século
e meio de registro, com a instrução musical e discernimento tornando-se
cada vez mais distanciados do aspecto tecnológico, sempre à frente,
músicos e compositores nos parecem levados a situações confusas
em matéria de objetivos e finalidades e o público envolvido pela
Música a maneiras excludentes e simultâneas de abordá-la,
ora, em grande maioria, numa aceitação passiva e quase fanática
do que se produz, ora, alguns poucos, em reflexão mais apurada, contrária
ao modo instantâneo que se estabeleceu para a criação e contemplação
de tais obras, provando que o progresso sendo fatal, a equalização
de suas conseqüências é permanente provocação
(2). Ordem e desordem nessa esfera de ação
estariam se definindo tecnologicamente sem nenhum questionamento, e com a colaboração
dos próprios agentes da Arte musical, ao esquecerem sua busca de emancipação
e relevante papel social?
Nos dias de hoje, quase vinte anos após
a edição dos primeiros CD's (Compact-discs) na Europa, a partir
de 1983, começamos a perceber, de maneira peculiar, a retomada crescente
da fabricação dos discos em formato Long-play (os 12' de Peter Goldmark
- Columbia/1949), bem como dos aparelhos de reprodução sonora (pick-ups),
adequados a esse formato, nos principais mercados de Cultura musical (Oeste Europeu,
EUA, Canadá, Japão). Entre diversas hipóteses prováveis
para esse fenômeno poderíamos incluir uma resposta técnica
à chamada "pirataria", que assim voltaria a ser inviável,
causadora de grandes prejuízos à indústria e artistas, e
os trabalhos artísticos e gráficos, ainda não superados na
maneira criativa de integrar diversas manifestações num único
artefato. Se ao menos uma das hipóteses se provasse estaríamos perante
séria revisão de atitudes do modo de produção nos
últimos vinte anos. Basta que se comparem os trabalhos desenvolvidos por
múltiplos artistas para as capas de discos, durante as décadas de
50 a 80 passadas, e o que encontramos presentemente: diminuição
drástica do espaço criativo, estojos e capas facilmente destrutíveis,
cartazetes dobráveis pouco provocantes à reflexão, visibilidade
dificultosa de letras e textos, somados à redução autoritária
da oferta do formato Long-Play e o registro musical, como bem de consumo especial
do Marketing, transformado em bem de conveniência, pequeno, plástico,
rapidamente destrutível, etc. Quando o LD (Laser-disc) surgiu no fim da
citada década de 80 pensávamos que as 12' que serviriam às
imagens seriam plenamente adaptáveis às 12' da Música. Digitalização
sonora, com certa assepsia questionável na transposição do
sistema analógico, porém, com mesma área de extensão
do domínio artístico-gráfico, e tempo de gravação
sendo duplicado dos 40 para os 80 minutos. Qual interesse impediu o pensar e agir
a caminho dessa solução técnica? Artistas e cidadão-ouvinte,
não apenas o cidadão-consumidor das regalias materiais, foram consultados
pelos gerenciadores de produção do suporte musical, em pesquisas
qualitativas quanto a seus desejos e satisfações?
Com mudanças
tão pontuais como a redução de espaço gráfico
e tempo abundante para criação, isso não nos parece ter provado,
nem provocado, nos últimos vinte anos da era musical em dígitos,
a capacidade inventiva de tantos compositores populares, que retornam, com raras
exceções, após a década compreendida entre 1965 e
1975, que consideramos a mais criativa, ao comodismo dos hits (3)
e das fórmulas de canções curtas e facilmente memorizáveis,
quando não, labutando pelo preenchimento do tempo contratual e tecnológico
a qualquer custo. Têm-se passado por isso a cada nova descoberta ou avanço
de instrumentos musicais e equipamentos de gravação (a virada das
décadas de 70/80 do séc. passado é prova), quando estúdios
ficam abarrotados desses acréscimos de possibilidade, e compositores ou
intérpretes, sob a necessidade tecnológica de utilizá-los,
mesmo que inúteis a suas propostas estéticas, com insólitas
e estupendas exceções para trabalhos como do grupo multinacional
de jazz "Weather Report", e os diversos teclados de seu líder
Joe Zawinul ("Heavy weather" - CBS - 1977), ou das experiências
do pianista e tecladista norte-americano Chick Corea ("The mad hatter"
- Polydor - 1978), entre alguns que podemos citar. Poderíamos, assim, também
questionar: A alta tecnologia, com suas praticidade compactada e ação
coercitiva de consumo, seriam suficientes ao progresso do gênero humano
via Arte musical?
"Da
janela de um sobrado onde moravam dois adolescentes paulistanos que os pais deixaram
na Baixada Santista, aos cuidados de governanta iletrada e rigorosa, saíam
músicas que poucos dias depois se descobriu serem de um tal Jimi Hendrix.
Sentados na sarjeta da calçada oposta, alguns garotos ouviam os sons e
observavam a estante de discos que atingia o teto, sonhando que a autoridade da
casa permitisse a entrada. Isso nunca ocorreu. Restaram a Música, as conversas
pela janela e a amizade de alguns anos com o mais novo dos irmãos, que
convencia um dos garotos a pedir discos 78 rpm a seu pai para trocar pelos 33
rpm com o zelador do edifício frente à praia mais próxima.
Duas músicas por treze, mono por stéreo, envelopes de papelão
por arte-gráfica... Quarenta anos depois, no edifício mais próximo,
ouve-se a reclamação do síndico, aos berros, contra a mãe
do garoto que toca CD de um ritmo eletrônico batizado "pô-pe-rô",
ensurdecedor, invasivo e igual a tantos que se coloca em qualquer caixa de plástico
trocada: -Para o bate-estaca! Para o bate-estaca! Eu vou multar!"
Podendo
observar a caminhada da produção e edição musicais
desde o início dos anos 60, e quanto houve em avanços tecnológicos
e estratégias mercadológicas nesse período, acompanhados
por triste degradação artística, que não é
apanágio de nosso país, mas do mundo em geral, sentimos a necessidade
de uma retomada da valorização da originalidade e inovação
estética, talvez em síntese buscada pela autonomia artística
na releitura de produções antecedentes combinada à liberdade
de se utilizar, ou não, ditos avanços, que, se existem provocados
pelo avançar da inteligência humana em busca de prazer e felicidade,
precisam se justificar na prática. Nada de atitude assaz vanguardista,
quase impossível nestes dias, mas de ouvidos humildes, de quem possa dizer
a si mesmo: "Isto já foi feito. Que tal remexer os arquivos para encontrar
possíveis vestígios de criatividade não explorados até
1975?" Esta postura, embora tentada por diversos músicos e compositores
através da criação de selos musicais ou lançamentos
independentes, ainda que dentro dos padrões de comercialização
que caracterizam a Música como arte massificada há quase um século,
via lojas especializadas, Internet e até bancas de jornal, ou projetos
alavancados pelos Poderes público e privado, carece, sob nosso ponto de
vista, de ações complementares que vão além das questões
ligadas à cautela com ofertas tecnológicas à criação,
distribuição de Música como objeto de prateleira e não
produto do espírito ou soluções gráficas em menor
escala já incorporadas ao design do séc. XXI pelo arbítrio
da indústria, pois pensamos que tais ações são vinculadas
direta e intimamente ao ambiente escolar, que deve se caracterizar, e um dia já
o foi, como espaço essencial ao desenvolvimento do senso crítico
e descoberta constante de produções musicais, dado à contínua
troca de valores e experiências nesse meio, que serve a gerações
que se sucedem e se interseccionam de maneira inequívoca e peculiar, muitas
vezes brilhante ao contrariar normas de quem pretenda dirigi-lo de modo autocrático.
Já tivemos em épocas arbitrárias, de múltiplas feições
político-ideológicas, algo mais em criatividade e contestação
artístico-musical popular brotando desse ambiente e disseminadas de forma
ampla e pelos mais diferentes países (4).
Teríamos esquecido ambas pela falta de compromisso com o diálogo
e esclarecimento de base, quando, ao estímulo em dizer "não"
às ditaduras do pensamento também o dissemos à visão
analítica quanto a novo modelo ditatorial, resultante da incompreensão
da relação Arte-tecnologia-ética? No ambiente familiar, há
tempos exposto ao "olho mágico" da TV e seus ícones teatrais
pagos por merchandising de bebidas alcoólicas em novelas, talvez não
estejamos dialogicamente bem nesse aspecto e aptos a ouvir e responder à
ânsia juvenil, camuflada musicalmente pelas propostas técnicas das
raves e ecstazy, raps e revólveres, hardcore e pontapés, todos cooptados
pela Mídia, e sua opinião emudecida a cada dia mais, sufocada por
som alto, luz intensa e ritmo pobre, extraído muitas vezes de obras musicais
primorosas através de samplers (5), num labor
técnico comodista. Nos parece que a geração dos anos 60 e
70 da qual fazemos parte, hábil nas contestações e elaboração
de utopias, atualmente formando diversos núcleos familiares e tornada público-alvo
para a venda de registros musicais que carregam o discurso noveleiro ou hollywoodiano
teria sido cooptada por sua vez à exploração da antecipação,
rapidez e eficiência nas respostas, com extinção dos questionamentos.
Talvez por isso esquetes filosóficos criados para a revista eletrônica
dominical da TV Globo, ou alguns clones da programação desse mesmo
veículo, sob codinome "Repórter", da Record, Bandeirantes,
e dirigidos a esse público em especial, abordam, em escassos momentos e
superficialmente, o papel da Música na construção do pensamento
popular estandardizado e imerso nesse tumulto que só visa entreter, já
que as instituições midiáticas parecem estar apenas preocupadas
no envolvimento emocional e sensual do público, como garantia dos pontos
frios que lhes apontem liderança nas pesquisas de audiência. Seriam:
opção filosófica quantitativa, materializada na redução
ótico-neuronal do Homem, mais Engenharia de emoções (6)
fundamentada em estudos sobre as teorias Motivacionais de Maslow, Freud, Adler,
Horney, etc.(7) , que baseiam essas programações?
Mesmo na produção musical independente, que só no Brasil
já apresenta quase 400 selos, o que se percebe é a sensação
de liberdade e sucesso que canais mais livres e criativos de produção
e distribuição possam oferecer, mas, no fim, empresários
competentes deverão cuidar das agendas dos botequins ou teatros supostamente
adequados às apresentações ao vivo do "material"
e talvez um dia ponham o dedo na própria criação, se já
não o põem, na ânsia de se entenderem artífices de
artistas. Já houve mais profundidade nessa tarefa filosófica, urdida
com talento e visão estendida, mesmo de maneira dependente da grande indústria
fonográfica, diríamos: com Chico Buarque por aqui e Bob Dylan por
lá, entre outros, e Philips, CBS, BMG-Ariola, etc., pelo mundo. O velho
argumento da "genialidade minoritária" tentará justificar
a degradação promovida pela falta de novos grandes criadores, como
alguns do passado, escondendo assim a responsabilidade de cada um de nós,
criadores, distribuidores e assimiladores de Música no processo, assim,
muitos artistas inseridos ao contingente nas três últimas décadas,
já não crendo na longevidade e condição crítica
de sua obra não poderão fazer leituras sutis do presente, como antes
se fez, já que o próximo disco do compositor concorrente estando
vizinho demais para enxergar-se com cuidado os efeitos do que se criou a pouco,
só deixa a alternativa das resenhas jornalísticas e os shows (ou
trilhas de novelas) como breve empatia com o público, explorada pelo Marketing
e que passa a sustentação financeira da fidelidade de um ambiente
assimilador precariamente reflexivo.
A convivência de trabalhos qualificados
seja instrumental ou vocal, com outros, supostamente dirigidos a uma classe social
"não merecedora" (8) de crédito
em cultura musical, sempre existiu no período de nossa experiência
pessoal, e mesmo antes, porém, o que se observa é a ação
midiática direcionando e padronizando a cada dia o público, privando-o
das oportunidades de acesso a algo que se conceituou preconceituosamente como
"mais complexo", num processo que não deixando de ser do âmbito
artístico e, a partir do início do séc. XX, também
do mercadológico (Economia, Administração), adentra no pós-guerra
aos da Comunicação, Psicologia, Filosofia, Pedagogia, além
de outras especialidades que complementam os ramos instrucional e profissional
do Homem, sua preparação para a cidadania, para as ruas, justificando-se,
assim, sob nossa visão, a questão e pensamento anteriormente colocados
(9) : "Mas qual o, ou um, critério para
avaliar a Música? Defendemos que Música pode ser boa ou ruim. A
boa, que leva ao questionar, ao avanço, ao apuro da escolha, à busca,
acrescentando nova visão a quem produz, e a quem lhe introjeta no espírito.
É da Cultura. A ruim, que realiza egoisticamente aquele que a concebe,
como obra de pura troca monetária. É da Economia. Teríamos
Música cultural e música econômica". Uma ciência
se sobrepondo a tantas outras ao lidar com manifestação artística,
em pleno século XXI, é no mínimo preocupante, assim estando
na multidisciplinaridade, ou transdisciplinaridade, pensamos que as críticas,
estudos, teses desenvolvidas nesse sentido pelo mundo acadêmico, deveriam
também estar nas ruas, acessadas à comunidade em linguagem apropriada,
justificadas e sustentadas pela coleta e manutenção de acervo discográfico
aberto ao conhecimento, análise e discussão do público, das
escolas, faculdades, centros comunitários, etc.
O cidadão transmitindo
ao cidadão suas razões e sentimentos através da Música,
ou, como possibilitaram os registros musicais do pós-guerra, da Música,
Poesia, Pintura, Fotografia e outras artes conjugadas, cede lugar nos últimos
trinta anos, à simples expedição de cópias frágeis
de modelos pré-estabelecidos e à comercialização de
"produtos" musicais competitivos entre si, num imenso supermercado global
movido por gôndolas bem dispostas a impedir as visões diferenciadas
de um mundo em constante dinâmica e, por isso, necessariamente transformável
e aberto a releituras. A obra musical popular cujo ânimo fosse o expressar
humano através das técnicas musicais conjugadas ou não ao
poema, que encontrando ouvintes em lugar totalmente estranho àquele no
qual vivia ou experimentava seu autor e alcançando universalidade (10)
suficiente a ponto de levá-los ao debate sobre seu próprio ambiente,
muitas vezes influindo na ação sobre este, degradou-se ao amor banalizado
em ginástica e corpos suados, à tristeza dissimulada de ser milionário
inculto e sem amor, aos ricos festivais globalizados para famintos das migalhas
dos ícones erigidos por méritos questionáveis, ao aproveitamento,
ou capitalização, de trabalhos populares já editados como
fiança artística a outras obras caídas, por alguma estratégia,
em rápido esquecimento, etc. É patente que, há pelo menos
trinta anos, período que podemos vislumbrar com mais profundidade, a Música
popular, como Arte de escopo fundamentalmente crítico da realidade, pelo
próprio sentido questionador que retêm (ou deveria reter), se encontra
deslocada de seus fins, encarcerada que ficou por índices e estatísticas,
não desempenhando mais de forma nítida seu papel de veículo
de cidadania, libertador das convenções humanas superficiais, sendo
mero passaporte para sucesso efêmero de protótipos repetitivos em
simples mudança de vestuário, e, logicamente, carreira profissional
rentável, a priori. Nada de novo, então há tempos vamos copiando
e mal copiando (11). Observamos que a produção
musical do espírito se cristaliza, como o suporte necessário à
Arte musical, olvidando-se que este é somente o intermediário concreto
das idéias, interação e debate de criadores e contempladores,
vórtices intencionais de progresso ou estagnação social.
A Música já não estaria por demais aviltada em seu sentido
criativo, e até profético, servindo a interesses baixos, pois submetida
às mãos dos setores mais distintos do conhecimento humano? (12)
A política de resultados e facilidades inerente à produção
em série, que mesmo às voltas com contradições ofereceu
grandes benefícios à criação musical, quando agindo
em fusão progressista até um dado momento, vem possibilitando a
produção de valores imateriais que emancipem o público em
seu livre-arbítrio e juízo crítico por quem, para quem, e
quais?
As diversas maneiras de facilitação que as novas tecnologias
vem proporcionando aos ouvintes como: MD, DAT, CD, CDR, DVD, DVDR, mas, sobretudo,
o HD (Hard-disc) e sua potencialidade vertiginosa (Internet, MP3, downloads, arquivamentos,
compartilhamentos, iPod, Palm top, etc.) mais a chamada "pirataria"
de beira de calçada, levaram ao fechamento de mais de 2.000 lojas do ramo
de discos apenas no Brasil desde 2.001, provocando a substituição
do atendimento cuidadoso oferecido ao público, pelo contato frio e exclusivamente
monetário a serviço das chamadas majors (13)
do ramo fonográfico, ou, dos traficantes de direitos autorais perdidos,
que despejam seus "itens de produtos" através de hipermercados,
E-commerce e bancas de rua, desmazeladas, sem qualquer prerrogativa ao debate,
digo, sem condições humanas para serem debatidos. As estratégias
do Marketing de consumo de produtos convencionais, com seus plus (14)
periódicos na caça criativa à satisfação e
fidelidade da clientela tornaram esse ambiente até mais interessante de
se refletir sobre, pelas discussões democráticas provocadas por
associações de consumidores em todo o mundo, luta por direitos constitucionais,
Centros de defesa, Ipem, Inmetro, Idec, etc., já, músicos e audiência,
se distanciando da autonomia crítica e inventividade artísticas,
ficam alheios ao diálogo analítico, sujeitos apenas a opiniões
de críticos da imprensa livre, impressa ou eletrônica, que em sua
maioria não compram os discos comentados, negando a própria lógica
do mercado que sustentam e o esforço necessário ao cidadão
em adquirir um bem de consumo tão especial para ser criticado com mínima
isenção; até a velha "pirataria", desobediente,
e pouco censurada pelos artistas mais despojados do interesse financeiro, que
se aplicava diuturnamente em produzir seus registros inéditos ao vivo e
capas tantas vezes superiores às dos próprios discos oficiais, vira
simples atestado de "bons tempos" e confundida nos julgamentos superficiais
a outros afazeres desonestos. Que desumanidade... Shows musicais são apenas
shows, aditivados pela cerveja, whisky ou cigarro que forem mais rápidos
no gatilho publicitário; quando uma loja de distribuição
de CD´s de Música independente é inaugurada já integra
antecipadamente seu "barzinho", com palco de apresentações,
ao novo modelo de comercialização e os LP´s viram alicerce
visual e auditivo de boutiques e espaços temáticos, cercados pelo
aroma de sanduíches e petisqueiras.
Afirmar que a troca particular
de arquivos musicais passou a ser um fato concreto no campo virtual é o
óbvio, a pornografia também, porém, a oferta universal e
garantida de qualidade, seja a sonora, agora transformada em simples "zero
e um", e sujeita a intempéries e quedas de voltagem, e especialmente
a gráfica, empobrecida pela costumeira ausência de dados e informações,
ainda não se estabeleceu nesse mundo livre de jeito convincente. Nesse
sentido, e em breve especulação, veríamos as instituições
educacionais dos anos 60 e 70 do séc. XX permitindo o prazer do compartilhamento
musical cara-a-cara, as comparações poéticas, a busca das
diferenças e dos entrelaçamentos com outras Artes já mencionadas,
até mesmo a discussão e sugestão na escolha de lojas e vendedores
mais competentes e conhecedores do assunto, e tal afirmativa não significa
saudosismo, mas simples advertência a nós mesmos e a quem quiser
abrir os ouvidos, para séria e legítima conquista de valores culturais
obtida por gerações sucessivas no empenho dialético do Ser
humano, daí, quem quiser estar próximo da vanguarda musical popular
deve correr, cada vez mais veloz, para trás.
Tal fenômeno de
facilitações, sempre bem acolhido, mas sem o conseqüente juízo
crítico assimilado e exercitado, promoveu também o desqualificar
profissional do setor, quando vendedores esforçados e instruídos
nos meandros da Arte, vão sendo ao longo do tempo substituídos,
nas lojas remanescentes ao impacto tecno-administrativo, por simples empacotadores
de produtos, apoiados pelo mix de Comunicação das indústrias
fonográficas, em campanhas mercadológicas agressivas. Gerentes já
não compram registros musicais para lojas e magazines na tentativa de interpor
qualificação e sensibilidade ao ramo comercial e de consumo, sequer
para agradar ao público, mas se faz "X" em catálogos impressos
ou eletrônicos, movidos a cotas na ânsia da conquista de discos de
ouro, platina, etc. Além disso, os preços abusivos dos discos digitais,
que passam a exceder de longe os tradicionais 10% do salário mínimo
brasileiro (15), da chamada "era" analógica,
causando inevitável redução no acesso público a tais
instrumentos culturais, tanto de compositores nacionais como estrangeiros, mais
políticas excludentes em todos os níveis, inclusive o rebaixamento
excessivo do setor cultural nos orçamentos governamentais, acabam por culminar
no domínio, via canais de TV de música ou programações
de rádio subservientes, daqueles que, órfãos de referências,
salvo as pré-estabelecidas, se inserem no conhecimento e práticas
musicais sem ímpeto algum na busca de originalidade e competência,
mesmo as mais relativas, aceitando os paradigmas propostos pelos regentes do mercado
a cada frenesi ideológico, por mais inconsistentes que sejam, e ainda apoiados
por parcela de músicos que acabam se autorizando professores, necessitados
do pão-de-cada-dia que a pseudo-barbárie lhes dá, para tomar
logo adiante.
Não contentes em viabilizar o grosseiro musical, os ditadores
do mercado promovem a "cópia artística", cientes, nunca
esquecidos, que o duplicar de discos é mecanismo de distribuição
em larga escala, mas não fundamento criativo único, incentivando,
inclusive, através de certos programas televisivos, os resistentes "fã-clubes",
velhas usinas de afeto pelo trabalho e imagem de artistas, a se converterem em
tristes laboratórios de apoio à clonagem, os tais covers (16),
imitadores baratos de quem entregou a própria vida à Música.
Isto não seria prazer aliado à expansão do senso crítico,
mas simples condicionamento emocional permanentemente lucrativo. I. P. Pavlov
talvez corasse de vergonha perante um quadro desses, de tamanho "reflexo
condicionado", com o Teatro às (de)avessas, sujeitando a Música.
Bem, ouvir ringtones como amostra grátis de identificação
pessoal pública que certos laboratórios musicais vendem aos milhões
é admitir, na prática, o café-de-cada-dia de músicos
que se submetem a analistas (ordenadores) de sistemas eficientes, práticos
e rápidos. Se na década de 30 passada o grave pensador alemão,
sr. Theodor W. Adorno, apontava sua análise rigorosa para a dita "música
ligeira", incluindo o jazz, gênero que trinta anos após geraria
um selo musical popular (ECM)(17) em sua própria
pátria, pautado até os dias de hoje pela caça ao incomum
e confluência de distintas manifestações musicais, o que diria
hoje quando chegamos a esse quadro no início do século XXI? Toalha
jogada. A cidadania chega a knock-out de tanto comer guloseimas, na ausência
de um bom arroz-com-feijão.
Acreditamos também que a degradação
propositada da Música popular acaba servindo à relação
cada vez mais tardia do público com a produção erudita, quando
isto chega a existir, seja com a chamada Música clássica, ou a de
Vanguarda, sempre guardadas exceções. Precisamos, nesse momento,
repetir menção que já fizemos em outra oportunidade, quanto
aos diversos graus de erudição, localizados no universo da Música
popular, este habilmente dissociado do erudito e jogado em vala incomum, e concluir
pelas restrições que boa parte desses artistas que buscaram diferenciação
sofrem, nos dias de hoje, ao tentar apresentar suas obras sem fazer concessões.
Alguns inclusive estão adquirindo com sacrifício seus próprios
direitos para verem seus discos relançados. São raros os veículos
de Comunicação no Brasil que expõem tais obras (TV Senado,
Multi-Show, p. ex. (18)) e mesmo assim, através
de Meio pago, segundo pensamos, ainda cultural e economicamente privilegiado,
o que reflete a importância que tiveram, e têm, esses Meios e veículos
de Comunicação em geral, no processo de manipulação
e mercantilização da Música nas últimas décadas,
não descuidados das funções informativa e opinativa, embora
nem sempre esclarecedoras, mas entregues a evidente exploração comercial
e em certos casos radicais tornados espaço "vale-tudo". Bom lembrar
que, em meados da década de 70 passada, a transmissão FM surge (aqui
no Brasil) como alternativa técnica e musical à rádio AM,
que fez seu papel de democratização honrada ao combinar, com sacrifício,
qualificação e mediocridade, no entanto, pouco tempo depois, ambas
se tornam meios de Comunicação com rara diferença na objetividade
que construiu a anemia cultural que observamos há tempos, salvo, mais ou
menos ruídos em cada uma. Nesse setor são poucas as exceções
que não se tornaram rádios com tempo vendido a bom preço
para transmissões moralistas de seitas religiosas que proliferam a cada
ano e que sustentam economicamente programações musicais profanas,
numa contradição teológica e ética flagrante, embora
para nós, nada surpreendente.
Porém, se, em síntese,
considerarmos a degradação musical globalizada dos últimos
30 anos como efeito de conjuntura sócio-cultural forjada em cálculos
ecônomico-financeiros, talvez influenciada pelo pensamento da "nova
liberdade" proposto por certos economistas norte-americanos desde 1973, em
profunda coincidência com medidas oportunistas de aumento dos preços
dos barris de petróleo (leia-se Registro Musical) por parte de quem literalmente
pisava sobre ele, esta seria reversível? Provavelmente, se levássemos
em consideração, pelo menos como hipótese, a execução
de ações que contemplem os ambientes acadêmicos e escolares
regionais, legítimos cadinhos de produção artística
quando explorados com perspicácia, possibilitando a informação
e debate claro por seus públicos, quanto às produções
musicais e seus registros, das mais diversas regiões do país e do
planeta, e ao longo da História, que possui, embora este presente financeiramente
lucrativo e, de certa maneira, musicalmente engessado e entregue à simples
especulação tecnológica, um passado rico em talentos criativos
e o futuro com os inevitáveis resultados que nos pertencerão. Poderíamos
nessa conjuntura, como exemplo ainda que burocrático e emperrado, quando
vítima da falta de dinâmica, invocar a manutenção do
papel das bibliotecas e hemerotecas como instrumentos de cidadania nos âmbitos
escolar e comunitário perante o avanço da Internet nas últimas
décadas de globalização dos conhecimentos científicos,
não sendo substituídas por esta, mas complementadas no aprofundamento
de seu ofício e promovendo o acesso permanente e democrático àqueles
que buscam os múltiplos ramos do saber sem a perda de tempo e nervos com
imenso cortejo de futilidades, levando com liberdade, e direto ao assunto, a todos
que lhes consultam.
"No
início dos anos 70 só se conhecia Hermeto Paschoal por raríssimos
discos que apareciam nas poucas lojas da cidade onde o velho e blindado sobrado
ficava. Com um pouco de tempo, e dois cruzeiros, ouviam-se mais trabalhos musicais
seus nas lojas de cidade pouco distante, onde mais chances eram oferecidas. Num
dia qualquer a TV Bandeirantes resolve mostrar uma apresentação
do artista. Após o jantar, um pai liberal abdica da paixão por sambas
e tango, sugerindo que ele e seu filho assistam conjuntamente o show, em preto-e-branco:
"-É um gênio filho. É um louco." Porcos, galinhas,
cães e câmeras numa fazenda onde se construiu um palco tosco e absurdo.
Não foram as músicas "Gaio da roseira", "Sereiarei",
nem "Plim", nem os bichos andando de lá pra cá, no meio
do improviso geral, que somente causaram conflitos à cabeça do jovem,
mas a notícia sobre o inovado compositor e cantor João Gilberto,
décadas após tal experiência, pisando num palco hi-tech de
uma sala qualquer paulistana, implorando silêncio à platéia
e recebendo vaias de quem pagou alto preço para beber durante a apresentação.
Parece que ultimamente as platéias não vaiam, apenas sustentam apoios
culturais."
Pensamos,
assim, em diversidade musical discutida e transformadora brotando de micro-regiões,
e harmonizada a instrumentos globalizados (discos, livros, revistas, vídeos,
TV e rádio comunitárias, Internet, downloads, etc.), mesmo os provisoriamente
exclusivos, como opção à padronização de composições
musicais transmitidas por meios de Comunicação com intenções
uniformizadoras, e quase totalitários, que ditam a oferta mais cômoda,
sem descobrir talentos, a não ser os que lhes servirão posteriormente
de forma apática. Nas recentes experiências de festivais promovidos
por emissoras privadas de TV, e mesmo estatal, para os quais milhares de inscrições
são propostas com filtragem de algumas poucas dezenas, tem-se demonstrado
muita repetição banal, quando não, trazendo aquela chancela
de "mais-do-que-referência", num apelo que denuncia oportunismo
comercial, mesmo que inconsciente, não intencional, embora os cartazetes
com nomes de compositores e músicas em meio à platéia, fato
conservador e talvez pré-combinado. Covers de Djavan, Alceu Valença
e Supertramp (estes vestidos de palhaço) há poucas semanas nos provocaram
os ouvidos através do Festival da "Nova Música Popular Brasileira"
da TV Cultura-SP, e, por isso, assistindo pouco das fases eliminatórias,
encontramos ironicamente na final, entre doze escolhidos, e representando essa
nossa "nova música", compositores e intérpretes como Marília
Medalha, Celso Viáfora, Zé Renato, Toninho Horta e Luiz Tatit, gente
do ramo há pelo menos trinta anos, mostrando composições
interessantes e sem nenhum arroubo de novidade. Desnecessários comentários
sobre apresentadores da MTV, vídeo-clips a serem produzidos e vaias para
o resultado final, incluindo a Gilberto Gil, atual Ministro da Cultura, que veio
a público no dia seguinte refletir sobre o cerceamento de sua palavra.
Vemos marchando por outro caminho, e de forma bem diferente e calculada, os diretores
musicais das novelas televisivas, experts no ramo, promoverem seus festivais particulares
através de triagem musical objetiva, e gerando venda de milhões
de discos que se tornarão material reciclável em poucos meses, triturando
junto os hits de vida curtíssima, depois de atingir público considerável
e de memória treinada para o esquecimento. The Beatles, e até Roberto
Carlos, há quarenta anos, emplacavam canções curtas, durante
24 meses nos ouvidos do público, cada qual atuando à sua maneira
e na amplitude conseqüente. Haveria motivo para legitimar-se, a cada dia
mais, "criaturas" artísticas, se os registros já trazem
os criadores, que poderiam ser ouvidos como referências, não imitação,
por décadas afora? A fama? A Fome. Seria bom discutir-se sobre isso.
Pensamos que a atribuição ética e de autonomia das instituições
de ensino superior em fortalecer o espaço onde estão inseridas,
não apenas em termos científicos ou esportivos, mas, principalmente
culturais, pois numa visão mais dilatada já incluiria os primeiros,
dá a estas a legitimidade de fomentar o progresso humano através
dos mais variados meios de diálogo e esclarecimento, um deles, a Música,
repetimos, profundamente aviltada nas últimas décadas e necessitada
urgentemente de ponderações, pois sendo capaz, em suas características,
de estar envolvida com as mais diversas áreas do conhecimento é
por isso verdadeira alavanca da sensibilidade e princípios quando explorada
com sinceridade e talento, e não apenas como mero pretexto para entretenimento,
solução de carreira profissional, plataforma política, etc.
O compositor Frank Zappa sugerindo a seus filhos, nos anos 90, um part time
job (19) paralelo à carreira artística;
o trumpetista Miles Davis tocando de costas para a platéia; Walter Franco
incorporando vaias ensurdecedoras à performance de "Cabeça"
no FIC72 (20); Jards Macalé cuspindo maçã
com farinha em meio a "Princípio do prazer" no Abertura74 (21)ou
John Lennon usando o boné dos engajados padeiros franceses, são
eventos inconfundíveis na arte do juízo crítico inerente
à Música popular, como composto que excedeu música e letra
no século XX, que precisam ser soterrados por milhares de camisetas neoliberais
do "Che" à venda em boutiques de shoppings ou em calçadas
fétidas, não provocando o mínimo interesse de discussão
a agentes educadores.
O foco de atenção voltado para a Arte
musical como um fórum autônomo de debates desviando-se para um grande
circo movido a pão para alguns e vinho para muitos, chega próximo
ao ápice das conquistas da ordem econômica geradora da complacência
não-reflexiva, assim, cremos que, dado à importância que a
Música possui como manifestação da razão e sentimento
humanos, e, particularmente, de um século aos dias de hoje, a coleta, preservação
e análise de registros musicais reveste-se de papel fundamental na proposição
de caminhos, como arquivo dinâmico de referências aos cidadãos,
não simples atividade de preservação museológica ou
acervo sigiloso para rádiodifusão, proporcionando assim o acesso
da comunidade em geral, mas escolar especialmente, ao debate sobre o que de importante
e expressivo se produziu e vem sendo produzido nessa Arte, tornando sua análise
crítica uma ferramenta adicional das mais úteis à convivência
e busca do sentido de liberdade humana. Pensamos assim que a Universidade, conforme
a leitura social que venha fazendo e a sugestão de rumos que dissemina
ao redor, pode assumir uma tal ação, estrategicamente esquecida
em meio ao entretenimento musical e êxtase tecnológico, anestesiante
das ansiedades cotidianas, gerando um tanto mais de clareza sobre o forçoso
amanhã de todos, como "merecedores" culturais das obras de si
mesmos, daí, defendermos a idéia da apreciação, quanto
às ações interdisciplinares necessárias na busca da
viabilização de se instalar Centros de Pesquisa e Estudos de Registros
Musicais (22) no âmbito acadêmico, público
ou privado, coordenados por pessoal observador e pesquisador dessa Arte e seus
entrelaçamentos, por meio dos quais as comunidades encontrem acesso direto
a registros de obras musicais, obtidos através de estratégias e
segundo critérios e linhas de pesquisa a se debater, podendo, com isso,
analisar, tecer comparações, observar seus efeitos sobre o caminhar
histórico-social, conhecendo, ou reconhecendo, a produção
musical precedente, convivendo assim, com referências artísticas
dos mais distintos gêneros e subgêneros, e com a visão crítica
que estes forneceram e ainda fornecem, esquecida nas últimas décadas
pela ação eficiente da triste filosofia do imediatismo e obsolescência
planejados. Dessa forma, as inúmeras questões envolvendo criações
artísticas e registros musicais, que se deparam constantemente ao raciocínio
de tantos interessados, poderiam ao longo do tempo deixar de estar limitadas,
sob nosso ponto de vista, ao "aprender instrumentos" para estar-se contraditoriamente
mais distantes do movimento das ruas, da experiência do cidadão,
mas abrindo-se, sobretudo, à reflexão e compreensão da finalidade
de tais instrumentos, ao mesmo tempo tão simples e ricos em perspectivas
de utilização, por isso explorados exaustivamente nas últimas
décadas em sua vocação para promover a metamorfose social,
seja ela no rumo que queiram os grupos de interesse que demonstrem maior empenho
nesse objetivo.
1
Músico norte-americano de jazz, contratado da Minton's Play House, casa
noturna de Nova York do início dos anos 40 do séc. passado de propriedade
de Henry Minton, ex-funcionário do Sindicato dos músicos à
época. Local considerado berço do gênero "bop",
ou seja, o jazz caracterizado pelo improviso, amplas experiências de idéias
musicais e liberdade de expressão. Compositor de cerca de 60 músicas
(incluindo "Round Midnight", tornada referência para inúmeros
músicos e compositores em todo o mundo), notável pela capacidade
em criar arranjos diferenciados para composições de outros artistas
a ponto de torná-las novas músicas.
2 Na virada dos séculos XIX para XX na América do Norte o ragtime
(Centro-Oeste) e o jazz (New Orleans) caminham conjuntamente; o primeiro tocado
em qualquer ambiente pelas pianolas com bobinas de papel, sem necessidade do músico,
o segundo dependendo desde o início da capacidade de improvisação
do executante. Na década de 30 no Brasil, os netos dos negros baianos do
bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, sobem os morros, afastados pela valorização
do centro urbano, continuando a cultivar o samba batucado, o "samba de morro".
Por lá resistiu em sua forma mais pura, enquanto embaixo a maciça
importação de ritmos dá origem a misturas como o bolero,
o foxtrot e o chá-chá-chá.
3 Música isolada
e de êxito momentâneo. Caracterizada pela fácil assimilação
de música e letra, além do alto lucro financeiro provocado pela
estratégia de Marketing na vendagem do disco em que está inserida.
"Música de trabalho" é sinônimo. Não confundir
com "race records" (vide redhotjazz.com). O desenvolvimento do MP3,
compartilhamentos, downloads, hospedagem musical na Internet, etc. abre interessante
campo de estudo sobre o assunto.
4 A década de 60 foi pródiga em exemplos: Brasil, Argentina, Chile,
etc., também a França em 68. O governo da África do Sul baniu
de lojas e rádios do país, durante os anos 80, o álbum "The
Wall" (1979 - CBS) do grupo inglês Pink Floyd, alegando insurgência
do movimento estudantil, provocada pela canção "Another brick
in the wall".
5 Gravador de sons de instrumentos tradicionais para serem tocados por teclados
eletrônicos. Capaz de reproduzir qualquer som com absoluta fidelidade e
na dinâmica característica dos instrumentos. Gêneros musicais,
como o rap e o techno lançam mão dessa tecnologia, inclusive a música
eletroacústica erudita e alguns músicos de jazz. Facilita sobremaneira
aos arranjadores.
6 Moles, Abraham - "Sociodinâmica da Cultura" - Ed. Perspectiva
- 1967, Cap. III - "Transferência da Mensagem Cultural".
7 Gade, Christiane - "Psicologia do consumidor" - E.P.U. - 1980, Cap.
2 - "Motivação e personalidade".
8 Conceito que adaptamos a partir dos estudos dos autores e críticos de
Comunicação norte-americanos Noam Chomsky e Edward S. Herman in
"Manipulação do público" - Ed. Futura - 1988.
9 Vide nosso artigo "Disco é Cultura" (Revista "Critério"
n. 2).
10 Destacamos "Like a rolling stone" (1965) do compositor norte-americano
Bob Dylan, canção que integra o álbum "Highway 61 Revisited"
(1965 - Columbia/CBS):
".............
Costumava rir de todo mundo
que aparecia.
Agora já não fala tão alto.
Já
não parece tão orgulhosa ao ter de catar migalhas para a próxima
refeição.
Qual é a sensação de não
ter casa,
como um total desconhecido,
como uma pedra rolante?
.............
Princesa nas alturas e todas as pessoas que estão por cima,
bebendo,
pensando que conseguiram,
trocando todo tipo de presentes e coisas preciosas,
é melhor transar seu anel de diamantes,
é melhor botar ele no
prego.
............
Você está invisível agora,
sem segredos."
Quarenta anos após não somente o showbussines, do qual o próprio
Dylan faz parte, mas as Américas, Oriente Médio, Ásia, Europa,
as vítimas fraturadas pelo neoliberalismo na África, tantos cidadãos
perplexos, ainda são convidados a refletir sobre conteúdo simples
em aparência.
11 Para melhor entendimento poderíamos observar o caso brasileiro do long-play
"Tropicália ou Panis et circensis" (1968 - Philips) e do CD "Tropicália
2" (1993 - Polygram).
12 No texto "O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição"
de 1938 (Ed. Nova Cultural - 1991), T. W. Adorno argumenta: a) "Existe efetivamente
um mecanismo neurótico da necessidade no ato da audição;
o sinal seguro deste mecanismo neurótico é a rejeição
ignorante e orgulhosa de tudo o que sai do costumeiro. Os ouvintes, vítimas
da regressão, comportam-se como crianças. Exigem sempre de novo,
com malícia e pertinácia, o mesmo alimento que uma vez lhes foi
oferecido."; b) "Embora a audição regressiva não
constitua sintoma de progresso na consciência da liberdade, é possível
que inesperadamente a situação se modificasse, se um dia a arte,
de mãos dadas com a sociedade, abandonasse a rotina do sempre igual";
c) "Todavia, somente os indivíduos são capazes de representar
e defender com conhecimento claro, o genuíno desejo de coletividade face
a tais poderes."
13 As recentes discussões sobre a Reforma Político-partidária
no Brasil e os showmícios utilizados nas estratégias de Marketing
do setor é exemplo para futuras reflexões. Sobre outros desdobramentos
do tema vide nosso artigo "A trilha sonora do desvairar" em Revista
"Critério" n. 3.
14 Grandes indústrias internacionais de produção e distribuição
de discos, as quais congregam diversos selos musicais associados (labels), através
dos quais artistas e compositores são contratados para lançamento
de seus discos, formando um conjunto denominado cast. Exemplo: EMI Records (Major).
Odeon, Harvest, Parlophone, Capitol, Liberty, etc. (Labels). The Beatles, Pink
Floyd, Triumvirat, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, etc. e seus
respectivos trabalhos (Cast da EMI). O "catálogo", termo que
naturalmente se confunde com cast, refere-se aos discos lançados pelos
artistas e que estão à disposição ou não no
mercado.
15 Elemento diferenciador que fornece ao produto algo especificamente seu, individualizando-o.
Os Gerentes de Produto das empresas levam em consideração, ao lançar
mão desse elemento: Saber se é válido; conhecer sua aceitação
pelo mercado; ter consciência de que é real e não elemento
que iluda o consumidor e saber informá-lo convenientemente ao mercado.
16 Padrão utilizado por certos colecionadores de discos das décadas
de 60 e 70 do séc. XX na tomada de decisão de compra de long-plays
novos, escolha da loja de discos mais apropriada e outros detalhes que levassem
a essa média de preço.
17 Na antiga acepção: "Música re-arranjada e gravada
por artista que não aquele que a compôs ou gravou originariamente".
Na última década passou a significar "cópia" ou
imitador(a) consciente de outro(a) artista. As características de comodismo
e disseminação fácil dessa atitude levaram a mídia
a tirar proveito financeiro, e não crítico, através do lançamento
de programas voltados para a criação e incentivo ao surgimento de
pseudo-artistas. Neste sentido, a MTV é atualmente um exemplo radical dessa
facilitação com o programa Covernation.
18 Vide nosso artigo "Popular inaudito, na trilha do erudito" em Revista
"Critério" n. 4.
19 A TV Cultura-SP apresenta, via transmissão aberta, o programa de música
caipira e MPB "Viola, minha viola", de Inezita Barroso, há 25
anos aos sábados à noite; vem lançando em 2005 o programa
"Clipearte" de MPB e música instrumental às 5a feiras
ao final da tarde (Horário dificultoso para telespectadores que não
sejam crianças e donas-de-casa); já o programa "Ensaio",
famoso sob a direção de Fernando Faro durante décadas, sob
nosso ponto de vista cooptou à lógica mercantilista, trazendo a
público biografias e fatos superficiais, já tratados em abundância
pela Mídia, de representantes da música pop nacional, diluída
e reducionista, em meio a outros artistas qualificados.
20 Expressão norte-americana equivalente a: "Trabalho de meio período".
21 Festival Internacional da Canção realizado em setembro de 1972.
O compositor paulistano Walter Franco inscreveu a música mencionada na
fase nacional e recebeu apupos ensurdecedores da platéia, inconformada
com o misto de música e efeitos sonoros, obtidos pelo autor através
da gravação do ambiente urbano, e colados, uma aos outros.
22 Festival ocorrido em meados da década de 70, promovido pela Rede Globo,
no qual o compositor carioca Jards Macalé foi vaiado durante toda a apresentação
da música citada, pois a platéia apoiava a música "Farofafá",
do participante Celso Mauro. "Farofafá" foi uma das proto-composições
que iniciaram o processo de degradação musical mais acentuada da
MPB a partir de 1975. Vide nota n. 8 acima.
23 Denominação que sugerimos para um foco de reflexão sobre
o assunto, naturalmente aberta a questionamentos e adequação apropriados.
Outras designações podem surgir a partir dos critérios levados
a debate em torno de tal projeto e os caminhos necessários a seguir segundo
parâmetros científicos.