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Registros musicais e cidadania

Silvio Campos

 

"Trata-se apenas de usar as notas de maneira diferente. Exatamente isto: usar as notas de maneira diferente." Thelonius Sphere Monk (1920 - 1982)(1)

Desde 1887 que o registro musical em discos vem servindo ao Homem como preservação da memória e forma de estudo e transmissão referencial de suas produções artísticas, de maneira hábil e eficaz. Conquista humana resultante dos esforços de inúmeros pesquisadores como Thomas Young (Vibroscópio), Charles Cros (Proto-Fonógrafo), Edward L. S. de Martinville (Fonautógrafo), Thomas Edson (Fonógrafo-Cilíndrico), Graham Bell (Fonógrafo-Cilíndrico aperfeiçoado), Eldridge R. Johnson (Melhorias no Gramofone de Berliner), todos atuando durante o séc. XIX, mas, principalmente, das atividades do imigrante alemão EMILE BERLINER, radicado na América do Norte em parte daquele século, que, embora vendo sua idéia da criação e reprodução sonora registrada em formato plano-circular convivendo com a idéia de Thomas Edson em formato cilíndrico por certo tempo, acaba premiado pelo êxito do seu gramofone que supera o fonógrafo a partir de 1896, e tornando-se então a eletrola, vitrola e pick-up, firmam-se, cada qual há seu tempo, até a chegada do Compact Disc na década de 80 do século passado, resultado de pesquisas tecnológicas avançadas desenvolvidas pelos laboratórios da gravadora holandesa Philips.
Importante ressaltar que as possibilidades técnicas de registrar e catalogar Música, analisamos a popular, ofereceu, em mais de um século, a praticidade de levar a público de modo rápido e abrangente o que antes era apenas transmitido de forma oral, ou através de partituras, quando estas fossem preservadas; assim, o ato de deixar à posteridade o resultado dos esforços artísticos nessa área, por si só, acabou gerando grandes avanços para a Cultura artística num sentido geral, já que não só a Música passou a ser transportada ao futuro através de suportes cada vez mais fidedignos às intenções do artista, mas, parte da produção poética humana, e dos mais diversos ramos das Artes plásticas, passam a caminhar conjuntamente, agregados pela força atrativa que resultou do progresso daqueles esforços. No entanto, pensamos que a massificação proporcionada pelo avanço tecnológico e as estratégias de promoção e distribuição de música gravada vêem trazendo, constantemente, contradições e provocações à qualificação artística, o que vemos como desafio positivo, porém, depois de quase um século e meio de registro, com a instrução musical e discernimento tornando-se cada vez mais distanciados do aspecto tecnológico, sempre à frente, músicos e compositores nos parecem levados a situações confusas em matéria de objetivos e finalidades e o público envolvido pela Música a maneiras excludentes e simultâneas de abordá-la, ora, em grande maioria, numa aceitação passiva e quase fanática do que se produz, ora, alguns poucos, em reflexão mais apurada, contrária ao modo instantâneo que se estabeleceu para a criação e contemplação de tais obras, provando que o progresso sendo fatal, a equalização de suas conseqüências é permanente provocação (2). Ordem e desordem nessa esfera de ação estariam se definindo tecnologicamente sem nenhum questionamento, e com a colaboração dos próprios agentes da Arte musical, ao esquecerem sua busca de emancipação e relevante papel social?
Nos dias de hoje, quase vinte anos após a edição dos primeiros CD's (Compact-discs) na Europa, a partir de 1983, começamos a perceber, de maneira peculiar, a retomada crescente da fabricação dos discos em formato Long-play (os 12' de Peter Goldmark - Columbia/1949), bem como dos aparelhos de reprodução sonora (pick-ups), adequados a esse formato, nos principais mercados de Cultura musical (Oeste Europeu, EUA, Canadá, Japão). Entre diversas hipóteses prováveis para esse fenômeno poderíamos incluir uma resposta técnica à chamada "pirataria", que assim voltaria a ser inviável, causadora de grandes prejuízos à indústria e artistas, e os trabalhos artísticos e gráficos, ainda não superados na maneira criativa de integrar diversas manifestações num único artefato. Se ao menos uma das hipóteses se provasse estaríamos perante séria revisão de atitudes do modo de produção nos últimos vinte anos. Basta que se comparem os trabalhos desenvolvidos por múltiplos artistas para as capas de discos, durante as décadas de 50 a 80 passadas, e o que encontramos presentemente: diminuição drástica do espaço criativo, estojos e capas facilmente destrutíveis, cartazetes dobráveis pouco provocantes à reflexão, visibilidade dificultosa de letras e textos, somados à redução autoritária da oferta do formato Long-Play e o registro musical, como bem de consumo especial do Marketing, transformado em bem de conveniência, pequeno, plástico, rapidamente destrutível, etc. Quando o LD (Laser-disc) surgiu no fim da citada década de 80 pensávamos que as 12' que serviriam às imagens seriam plenamente adaptáveis às 12' da Música. Digitalização sonora, com certa assepsia questionável na transposição do sistema analógico, porém, com mesma área de extensão do domínio artístico-gráfico, e tempo de gravação sendo duplicado dos 40 para os 80 minutos. Qual interesse impediu o pensar e agir a caminho dessa solução técnica? Artistas e cidadão-ouvinte, não apenas o cidadão-consumidor das regalias materiais, foram consultados pelos gerenciadores de produção do suporte musical, em pesquisas qualitativas quanto a seus desejos e satisfações?
Com mudanças tão pontuais como a redução de espaço gráfico e tempo abundante para criação, isso não nos parece ter provado, nem provocado, nos últimos vinte anos da era musical em dígitos, a capacidade inventiva de tantos compositores populares, que retornam, com raras exceções, após a década compreendida entre 1965 e 1975, que consideramos a mais criativa, ao comodismo dos hits (3) e das fórmulas de canções curtas e facilmente memorizáveis, quando não, labutando pelo preenchimento do tempo contratual e tecnológico a qualquer custo. Têm-se passado por isso a cada nova descoberta ou avanço de instrumentos musicais e equipamentos de gravação (a virada das décadas de 70/80 do séc. passado é prova), quando estúdios ficam abarrotados desses acréscimos de possibilidade, e compositores ou intérpretes, sob a necessidade tecnológica de utilizá-los, mesmo que inúteis a suas propostas estéticas, com insólitas e estupendas exceções para trabalhos como do grupo multinacional de jazz "Weather Report", e os diversos teclados de seu líder Joe Zawinul ("Heavy weather" - CBS - 1977), ou das experiências do pianista e tecladista norte-americano Chick Corea ("The mad hatter" - Polydor - 1978), entre alguns que podemos citar. Poderíamos, assim, também questionar: A alta tecnologia, com suas praticidade compactada e ação coercitiva de consumo, seriam suficientes ao progresso do gênero humano via Arte musical?

"Da janela de um sobrado onde moravam dois adolescentes paulistanos que os pais deixaram na Baixada Santista, aos cuidados de governanta iletrada e rigorosa, saíam músicas que poucos dias depois se descobriu serem de um tal Jimi Hendrix. Sentados na sarjeta da calçada oposta, alguns garotos ouviam os sons e observavam a estante de discos que atingia o teto, sonhando que a autoridade da casa permitisse a entrada. Isso nunca ocorreu. Restaram a Música, as conversas pela janela e a amizade de alguns anos com o mais novo dos irmãos, que convencia um dos garotos a pedir discos 78 rpm a seu pai para trocar pelos 33 rpm com o zelador do edifício frente à praia mais próxima. Duas músicas por treze, mono por stéreo, envelopes de papelão por arte-gráfica... Quarenta anos depois, no edifício mais próximo, ouve-se a reclamação do síndico, aos berros, contra a mãe do garoto que toca CD de um ritmo eletrônico batizado "pô-pe-rô", ensurdecedor, invasivo e igual a tantos que se coloca em qualquer caixa de plástico trocada: -Para o bate-estaca! Para o bate-estaca! Eu vou multar!"

Podendo observar a caminhada da produção e edição musicais desde o início dos anos 60, e quanto houve em avanços tecnológicos e estratégias mercadológicas nesse período, acompanhados por triste degradação artística, que não é apanágio de nosso país, mas do mundo em geral, sentimos a necessidade de uma retomada da valorização da originalidade e inovação estética, talvez em síntese buscada pela autonomia artística na releitura de produções antecedentes combinada à liberdade de se utilizar, ou não, ditos avanços, que, se existem provocados pelo avançar da inteligência humana em busca de prazer e felicidade, precisam se justificar na prática. Nada de atitude assaz vanguardista, quase impossível nestes dias, mas de ouvidos humildes, de quem possa dizer a si mesmo: "Isto já foi feito. Que tal remexer os arquivos para encontrar possíveis vestígios de criatividade não explorados até 1975?" Esta postura, embora tentada por diversos músicos e compositores através da criação de selos musicais ou lançamentos independentes, ainda que dentro dos padrões de comercialização que caracterizam a Música como arte massificada há quase um século, via lojas especializadas, Internet e até bancas de jornal, ou projetos alavancados pelos Poderes público e privado, carece, sob nosso ponto de vista, de ações complementares que vão além das questões ligadas à cautela com ofertas tecnológicas à criação, distribuição de Música como objeto de prateleira e não produto do espírito ou soluções gráficas em menor escala já incorporadas ao design do séc. XXI pelo arbítrio da indústria, pois pensamos que tais ações são vinculadas direta e intimamente ao ambiente escolar, que deve se caracterizar, e um dia já o foi, como espaço essencial ao desenvolvimento do senso crítico e descoberta constante de produções musicais, dado à contínua troca de valores e experiências nesse meio, que serve a gerações que se sucedem e se interseccionam de maneira inequívoca e peculiar, muitas vezes brilhante ao contrariar normas de quem pretenda dirigi-lo de modo autocrático. Já tivemos em épocas arbitrárias, de múltiplas feições político-ideológicas, algo mais em criatividade e contestação artístico-musical popular brotando desse ambiente e disseminadas de forma ampla e pelos mais diferentes países (4). Teríamos esquecido ambas pela falta de compromisso com o diálogo e esclarecimento de base, quando, ao estímulo em dizer "não" às ditaduras do pensamento também o dissemos à visão analítica quanto a novo modelo ditatorial, resultante da incompreensão da relação Arte-tecnologia-ética? No ambiente familiar, há tempos exposto ao "olho mágico" da TV e seus ícones teatrais pagos por merchandising de bebidas alcoólicas em novelas, talvez não estejamos dialogicamente bem nesse aspecto e aptos a ouvir e responder à ânsia juvenil, camuflada musicalmente pelas propostas técnicas das raves e ecstazy, raps e revólveres, hardcore e pontapés, todos cooptados pela Mídia, e sua opinião emudecida a cada dia mais, sufocada por som alto, luz intensa e ritmo pobre, extraído muitas vezes de obras musicais primorosas através de samplers (5), num labor técnico comodista. Nos parece que a geração dos anos 60 e 70 da qual fazemos parte, hábil nas contestações e elaboração de utopias, atualmente formando diversos núcleos familiares e tornada público-alvo para a venda de registros musicais que carregam o discurso noveleiro ou hollywoodiano teria sido cooptada por sua vez à exploração da antecipação, rapidez e eficiência nas respostas, com extinção dos questionamentos. Talvez por isso esquetes filosóficos criados para a revista eletrônica dominical da TV Globo, ou alguns clones da programação desse mesmo veículo, sob codinome "Repórter", da Record, Bandeirantes, e dirigidos a esse público em especial, abordam, em escassos momentos e superficialmente, o papel da Música na construção do pensamento popular estandardizado e imerso nesse tumulto que só visa entreter, já que as instituições midiáticas parecem estar apenas preocupadas no envolvimento emocional e sensual do público, como garantia dos pontos frios que lhes apontem liderança nas pesquisas de audiência. Seriam: opção filosófica quantitativa, materializada na redução ótico-neuronal do Homem, mais Engenharia de emoções (6) fundamentada em estudos sobre as teorias Motivacionais de Maslow, Freud, Adler, Horney, etc.(7) , que baseiam essas programações?
Mesmo na produção musical independente, que só no Brasil já apresenta quase 400 selos, o que se percebe é a sensação de liberdade e sucesso que canais mais livres e criativos de produção e distribuição possam oferecer, mas, no fim, empresários competentes deverão cuidar das agendas dos botequins ou teatros supostamente adequados às apresentações ao vivo do "material" e talvez um dia ponham o dedo na própria criação, se já não o põem, na ânsia de se entenderem artífices de artistas. Já houve mais profundidade nessa tarefa filosófica, urdida com talento e visão estendida, mesmo de maneira dependente da grande indústria fonográfica, diríamos: com Chico Buarque por aqui e Bob Dylan por lá, entre outros, e Philips, CBS, BMG-Ariola, etc., pelo mundo. O velho argumento da "genialidade minoritária" tentará justificar a degradação promovida pela falta de novos grandes criadores, como alguns do passado, escondendo assim a responsabilidade de cada um de nós, criadores, distribuidores e assimiladores de Música no processo, assim, muitos artistas inseridos ao contingente nas três últimas décadas, já não crendo na longevidade e condição crítica de sua obra não poderão fazer leituras sutis do presente, como antes se fez, já que o próximo disco do compositor concorrente estando vizinho demais para enxergar-se com cuidado os efeitos do que se criou a pouco, só deixa a alternativa das resenhas jornalísticas e os shows (ou trilhas de novelas) como breve empatia com o público, explorada pelo Marketing e que passa a sustentação financeira da fidelidade de um ambiente assimilador precariamente reflexivo.
A convivência de trabalhos qualificados seja instrumental ou vocal, com outros, supostamente dirigidos a uma classe social "não merecedora" (8) de crédito em cultura musical, sempre existiu no período de nossa experiência pessoal, e mesmo antes, porém, o que se observa é a ação midiática direcionando e padronizando a cada dia o público, privando-o das oportunidades de acesso a algo que se conceituou preconceituosamente como "mais complexo", num processo que não deixando de ser do âmbito artístico e, a partir do início do séc. XX, também do mercadológico (Economia, Administração), adentra no pós-guerra aos da Comunicação, Psicologia, Filosofia, Pedagogia, além de outras especialidades que complementam os ramos instrucional e profissional do Homem, sua preparação para a cidadania, para as ruas, justificando-se, assim, sob nossa visão, a questão e pensamento anteriormente colocados (9) : "Mas qual o, ou um, critério para avaliar a Música? Defendemos que Música pode ser boa ou ruim. A boa, que leva ao questionar, ao avanço, ao apuro da escolha, à busca, acrescentando nova visão a quem produz, e a quem lhe introjeta no espírito. É da Cultura. A ruim, que realiza egoisticamente aquele que a concebe, como obra de pura troca monetária. É da Economia. Teríamos Música cultural e música econômica". Uma ciência se sobrepondo a tantas outras ao lidar com manifestação artística, em pleno século XXI, é no mínimo preocupante, assim estando na multidisciplinaridade, ou transdisciplinaridade, pensamos que as críticas, estudos, teses desenvolvidas nesse sentido pelo mundo acadêmico, deveriam também estar nas ruas, acessadas à comunidade em linguagem apropriada, justificadas e sustentadas pela coleta e manutenção de acervo discográfico aberto ao conhecimento, análise e discussão do público, das escolas, faculdades, centros comunitários, etc.
O cidadão transmitindo ao cidadão suas razões e sentimentos através da Música, ou, como possibilitaram os registros musicais do pós-guerra, da Música, Poesia, Pintura, Fotografia e outras artes conjugadas, cede lugar nos últimos trinta anos, à simples expedição de cópias frágeis de modelos pré-estabelecidos e à comercialização de "produtos" musicais competitivos entre si, num imenso supermercado global movido por gôndolas bem dispostas a impedir as visões diferenciadas de um mundo em constante dinâmica e, por isso, necessariamente transformável e aberto a releituras. A obra musical popular cujo ânimo fosse o expressar humano através das técnicas musicais conjugadas ou não ao poema, que encontrando ouvintes em lugar totalmente estranho àquele no qual vivia ou experimentava seu autor e alcançando universalidade (10) suficiente a ponto de levá-los ao debate sobre seu próprio ambiente, muitas vezes influindo na ação sobre este, degradou-se ao amor banalizado em ginástica e corpos suados, à tristeza dissimulada de ser milionário inculto e sem amor, aos ricos festivais globalizados para famintos das migalhas dos ícones erigidos por méritos questionáveis, ao aproveitamento, ou capitalização, de trabalhos populares já editados como fiança artística a outras obras caídas, por alguma estratégia, em rápido esquecimento, etc. É patente que, há pelo menos trinta anos, período que podemos vislumbrar com mais profundidade, a Música popular, como Arte de escopo fundamentalmente crítico da realidade, pelo próprio sentido questionador que retêm (ou deveria reter), se encontra deslocada de seus fins, encarcerada que ficou por índices e estatísticas, não desempenhando mais de forma nítida seu papel de veículo de cidadania, libertador das convenções humanas superficiais, sendo mero passaporte para sucesso efêmero de protótipos repetitivos em simples mudança de vestuário, e, logicamente, carreira profissional rentável, a priori. Nada de novo, então há tempos vamos copiando e mal copiando (11). Observamos que a produção musical do espírito se cristaliza, como o suporte necessário à Arte musical, olvidando-se que este é somente o intermediário concreto das idéias, interação e debate de criadores e contempladores, vórtices intencionais de progresso ou estagnação social. A Música já não estaria por demais aviltada em seu sentido criativo, e até profético, servindo a interesses baixos, pois submetida às mãos dos setores mais distintos do conhecimento humano? (12) A política de resultados e facilidades inerente à produção em série, que mesmo às voltas com contradições ofereceu grandes benefícios à criação musical, quando agindo em fusão progressista até um dado momento, vem possibilitando a produção de valores imateriais que emancipem o público em seu livre-arbítrio e juízo crítico por quem, para quem, e quais?
As diversas maneiras de facilitação que as novas tecnologias vem proporcionando aos ouvintes como: MD, DAT, CD, CDR, DVD, DVDR, mas, sobretudo, o HD (Hard-disc) e sua potencialidade vertiginosa (Internet, MP3, downloads, arquivamentos, compartilhamentos, iPod, Palm top, etc.) mais a chamada "pirataria" de beira de calçada, levaram ao fechamento de mais de 2.000 lojas do ramo de discos apenas no Brasil desde 2.001, provocando a substituição do atendimento cuidadoso oferecido ao público, pelo contato frio e exclusivamente monetário a serviço das chamadas majors (13) do ramo fonográfico, ou, dos traficantes de direitos autorais perdidos, que despejam seus "itens de produtos" através de hipermercados, E-commerce e bancas de rua, desmazeladas, sem qualquer prerrogativa ao debate, digo, sem condições humanas para serem debatidos. As estratégias do Marketing de consumo de produtos convencionais, com seus plus (14) periódicos na caça criativa à satisfação e fidelidade da clientela tornaram esse ambiente até mais interessante de se refletir sobre, pelas discussões democráticas provocadas por associações de consumidores em todo o mundo, luta por direitos constitucionais, Centros de defesa, Ipem, Inmetro, Idec, etc., já, músicos e audiência, se distanciando da autonomia crítica e inventividade artísticas, ficam alheios ao diálogo analítico, sujeitos apenas a opiniões de críticos da imprensa livre, impressa ou eletrônica, que em sua maioria não compram os discos comentados, negando a própria lógica do mercado que sustentam e o esforço necessário ao cidadão em adquirir um bem de consumo tão especial para ser criticado com mínima isenção; até a velha "pirataria", desobediente, e pouco censurada pelos artistas mais despojados do interesse financeiro, que se aplicava diuturnamente em produzir seus registros inéditos ao vivo e capas tantas vezes superiores às dos próprios discos oficiais, vira simples atestado de "bons tempos" e confundida nos julgamentos superficiais a outros afazeres desonestos. Que desumanidade... Shows musicais são apenas shows, aditivados pela cerveja, whisky ou cigarro que forem mais rápidos no gatilho publicitário; quando uma loja de distribuição de CD´s de Música independente é inaugurada já integra antecipadamente seu "barzinho", com palco de apresentações, ao novo modelo de comercialização e os LP´s viram alicerce visual e auditivo de boutiques e espaços temáticos, cercados pelo aroma de sanduíches e petisqueiras.
Afirmar que a troca particular de arquivos musicais passou a ser um fato concreto no campo virtual é o óbvio, a pornografia também, porém, a oferta universal e garantida de qualidade, seja a sonora, agora transformada em simples "zero e um", e sujeita a intempéries e quedas de voltagem, e especialmente a gráfica, empobrecida pela costumeira ausência de dados e informações, ainda não se estabeleceu nesse mundo livre de jeito convincente. Nesse sentido, e em breve especulação, veríamos as instituições educacionais dos anos 60 e 70 do séc. XX permitindo o prazer do compartilhamento musical cara-a-cara, as comparações poéticas, a busca das diferenças e dos entrelaçamentos com outras Artes já mencionadas, até mesmo a discussão e sugestão na escolha de lojas e vendedores mais competentes e conhecedores do assunto, e tal afirmativa não significa saudosismo, mas simples advertência a nós mesmos e a quem quiser abrir os ouvidos, para séria e legítima conquista de valores culturais obtida por gerações sucessivas no empenho dialético do Ser humano, daí, quem quiser estar próximo da vanguarda musical popular deve correr, cada vez mais veloz, para trás.
Tal fenômeno de facilitações, sempre bem acolhido, mas sem o conseqüente juízo crítico assimilado e exercitado, promoveu também o desqualificar profissional do setor, quando vendedores esforçados e instruídos nos meandros da Arte, vão sendo ao longo do tempo substituídos, nas lojas remanescentes ao impacto tecno-administrativo, por simples empacotadores de produtos, apoiados pelo mix de Comunicação das indústrias fonográficas, em campanhas mercadológicas agressivas. Gerentes já não compram registros musicais para lojas e magazines na tentativa de interpor qualificação e sensibilidade ao ramo comercial e de consumo, sequer para agradar ao público, mas se faz "X" em catálogos impressos ou eletrônicos, movidos a cotas na ânsia da conquista de discos de ouro, platina, etc. Além disso, os preços abusivos dos discos digitais, que passam a exceder de longe os tradicionais 10% do salário mínimo brasileiro (15), da chamada "era" analógica, causando inevitável redução no acesso público a tais instrumentos culturais, tanto de compositores nacionais como estrangeiros, mais políticas excludentes em todos os níveis, inclusive o rebaixamento excessivo do setor cultural nos orçamentos governamentais, acabam por culminar no domínio, via canais de TV de música ou programações de rádio subservientes, daqueles que, órfãos de referências, salvo as pré-estabelecidas, se inserem no conhecimento e práticas musicais sem ímpeto algum na busca de originalidade e competência, mesmo as mais relativas, aceitando os paradigmas propostos pelos regentes do mercado a cada frenesi ideológico, por mais inconsistentes que sejam, e ainda apoiados por parcela de músicos que acabam se autorizando professores, necessitados do pão-de-cada-dia que a pseudo-barbárie lhes dá, para tomar logo adiante.
Não contentes em viabilizar o grosseiro musical, os ditadores do mercado promovem a "cópia artística", cientes, nunca esquecidos, que o duplicar de discos é mecanismo de distribuição em larga escala, mas não fundamento criativo único, incentivando, inclusive, através de certos programas televisivos, os resistentes "fã-clubes", velhas usinas de afeto pelo trabalho e imagem de artistas, a se converterem em tristes laboratórios de apoio à clonagem, os tais covers (16), imitadores baratos de quem entregou a própria vida à Música. Isto não seria prazer aliado à expansão do senso crítico, mas simples condicionamento emocional permanentemente lucrativo. I. P. Pavlov talvez corasse de vergonha perante um quadro desses, de tamanho "reflexo condicionado", com o Teatro às (de)avessas, sujeitando a Música. Bem, ouvir ringtones como amostra grátis de identificação pessoal pública que certos laboratórios musicais vendem aos milhões é admitir, na prática, o café-de-cada-dia de músicos que se submetem a analistas (ordenadores) de sistemas eficientes, práticos e rápidos. Se na década de 30 passada o grave pensador alemão, sr. Theodor W. Adorno, apontava sua análise rigorosa para a dita "música ligeira", incluindo o jazz, gênero que trinta anos após geraria um selo musical popular (ECM)(17) em sua própria pátria, pautado até os dias de hoje pela caça ao incomum e confluência de distintas manifestações musicais, o que diria hoje quando chegamos a esse quadro no início do século XXI? Toalha jogada. A cidadania chega a knock-out de tanto comer guloseimas, na ausência de um bom arroz-com-feijão.
Acreditamos também que a degradação propositada da Música popular acaba servindo à relação cada vez mais tardia do público com a produção erudita, quando isto chega a existir, seja com a chamada Música clássica, ou a de Vanguarda, sempre guardadas exceções. Precisamos, nesse momento, repetir menção que já fizemos em outra oportunidade, quanto aos diversos graus de erudição, localizados no universo da Música popular, este habilmente dissociado do erudito e jogado em vala incomum, e concluir pelas restrições que boa parte desses artistas que buscaram diferenciação sofrem, nos dias de hoje, ao tentar apresentar suas obras sem fazer concessões. Alguns inclusive estão adquirindo com sacrifício seus próprios direitos para verem seus discos relançados. São raros os veículos de Comunicação no Brasil que expõem tais obras (TV Senado, Multi-Show, p. ex. (18)) e mesmo assim, através de Meio pago, segundo pensamos, ainda cultural e economicamente privilegiado, o que reflete a importância que tiveram, e têm, esses Meios e veículos de Comunicação em geral, no processo de manipulação e mercantilização da Música nas últimas décadas, não descuidados das funções informativa e opinativa, embora nem sempre esclarecedoras, mas entregues a evidente exploração comercial e em certos casos radicais tornados espaço "vale-tudo". Bom lembrar que, em meados da década de 70 passada, a transmissão FM surge (aqui no Brasil) como alternativa técnica e musical à rádio AM, que fez seu papel de democratização honrada ao combinar, com sacrifício, qualificação e mediocridade, no entanto, pouco tempo depois, ambas se tornam meios de Comunicação com rara diferença na objetividade que construiu a anemia cultural que observamos há tempos, salvo, mais ou menos ruídos em cada uma. Nesse setor são poucas as exceções que não se tornaram rádios com tempo vendido a bom preço para transmissões moralistas de seitas religiosas que proliferam a cada ano e que sustentam economicamente programações musicais profanas, numa contradição teológica e ética flagrante, embora para nós, nada surpreendente.
Porém, se, em síntese, considerarmos a degradação musical globalizada dos últimos 30 anos como efeito de conjuntura sócio-cultural forjada em cálculos ecônomico-financeiros, talvez influenciada pelo pensamento da "nova liberdade" proposto por certos economistas norte-americanos desde 1973, em profunda coincidência com medidas oportunistas de aumento dos preços dos barris de petróleo (leia-se Registro Musical) por parte de quem literalmente pisava sobre ele, esta seria reversível? Provavelmente, se levássemos em consideração, pelo menos como hipótese, a execução de ações que contemplem os ambientes acadêmicos e escolares regionais, legítimos cadinhos de produção artística quando explorados com perspicácia, possibilitando a informação e debate claro por seus públicos, quanto às produções musicais e seus registros, das mais diversas regiões do país e do planeta, e ao longo da História, que possui, embora este presente financeiramente lucrativo e, de certa maneira, musicalmente engessado e entregue à simples especulação tecnológica, um passado rico em talentos criativos e o futuro com os inevitáveis resultados que nos pertencerão. Poderíamos nessa conjuntura, como exemplo ainda que burocrático e emperrado, quando vítima da falta de dinâmica, invocar a manutenção do papel das bibliotecas e hemerotecas como instrumentos de cidadania nos âmbitos escolar e comunitário perante o avanço da Internet nas últimas décadas de globalização dos conhecimentos científicos, não sendo substituídas por esta, mas complementadas no aprofundamento de seu ofício e promovendo o acesso permanente e democrático àqueles que buscam os múltiplos ramos do saber sem a perda de tempo e nervos com imenso cortejo de futilidades, levando com liberdade, e direto ao assunto, a todos que lhes consultam.

"No início dos anos 70 só se conhecia Hermeto Paschoal por raríssimos discos que apareciam nas poucas lojas da cidade onde o velho e blindado sobrado ficava. Com um pouco de tempo, e dois cruzeiros, ouviam-se mais trabalhos musicais seus nas lojas de cidade pouco distante, onde mais chances eram oferecidas. Num dia qualquer a TV Bandeirantes resolve mostrar uma apresentação do artista. Após o jantar, um pai liberal abdica da paixão por sambas e tango, sugerindo que ele e seu filho assistam conjuntamente o show, em preto-e-branco: "-É um gênio filho. É um louco." Porcos, galinhas, cães e câmeras numa fazenda onde se construiu um palco tosco e absurdo. Não foram as músicas "Gaio da roseira", "Sereiarei", nem "Plim", nem os bichos andando de lá pra cá, no meio do improviso geral, que somente causaram conflitos à cabeça do jovem, mas a notícia sobre o inovado compositor e cantor João Gilberto, décadas após tal experiência, pisando num palco hi-tech de uma sala qualquer paulistana, implorando silêncio à platéia e recebendo vaias de quem pagou alto preço para beber durante a apresentação. Parece que ultimamente as platéias não vaiam, apenas sustentam apoios culturais."

Pensamos, assim, em diversidade musical discutida e transformadora brotando de micro-regiões, e harmonizada a instrumentos globalizados (discos, livros, revistas, vídeos, TV e rádio comunitárias, Internet, downloads, etc.), mesmo os provisoriamente exclusivos, como opção à padronização de composições musicais transmitidas por meios de Comunicação com intenções uniformizadoras, e quase totalitários, que ditam a oferta mais cômoda, sem descobrir talentos, a não ser os que lhes servirão posteriormente de forma apática. Nas recentes experiências de festivais promovidos por emissoras privadas de TV, e mesmo estatal, para os quais milhares de inscrições são propostas com filtragem de algumas poucas dezenas, tem-se demonstrado muita repetição banal, quando não, trazendo aquela chancela de "mais-do-que-referência", num apelo que denuncia oportunismo comercial, mesmo que inconsciente, não intencional, embora os cartazetes com nomes de compositores e músicas em meio à platéia, fato conservador e talvez pré-combinado. Covers de Djavan, Alceu Valença e Supertramp (estes vestidos de palhaço) há poucas semanas nos provocaram os ouvidos através do Festival da "Nova Música Popular Brasileira" da TV Cultura-SP, e, por isso, assistindo pouco das fases eliminatórias, encontramos ironicamente na final, entre doze escolhidos, e representando essa nossa "nova música", compositores e intérpretes como Marília Medalha, Celso Viáfora, Zé Renato, Toninho Horta e Luiz Tatit, gente do ramo há pelo menos trinta anos, mostrando composições interessantes e sem nenhum arroubo de novidade. Desnecessários comentários sobre apresentadores da MTV, vídeo-clips a serem produzidos e vaias para o resultado final, incluindo a Gilberto Gil, atual Ministro da Cultura, que veio a público no dia seguinte refletir sobre o cerceamento de sua palavra. Vemos marchando por outro caminho, e de forma bem diferente e calculada, os diretores musicais das novelas televisivas, experts no ramo, promoverem seus festivais particulares através de triagem musical objetiva, e gerando venda de milhões de discos que se tornarão material reciclável em poucos meses, triturando junto os hits de vida curtíssima, depois de atingir público considerável e de memória treinada para o esquecimento. The Beatles, e até Roberto Carlos, há quarenta anos, emplacavam canções curtas, durante 24 meses nos ouvidos do público, cada qual atuando à sua maneira e na amplitude conseqüente. Haveria motivo para legitimar-se, a cada dia mais, "criaturas" artísticas, se os registros já trazem os criadores, que poderiam ser ouvidos como referências, não imitação, por décadas afora? A fama? A Fome. Seria bom discutir-se sobre isso.
Pensamos que a atribuição ética e de autonomia das instituições de ensino superior em fortalecer o espaço onde estão inseridas, não apenas em termos científicos ou esportivos, mas, principalmente culturais, pois numa visão mais dilatada já incluiria os primeiros, dá a estas a legitimidade de fomentar o progresso humano através dos mais variados meios de diálogo e esclarecimento, um deles, a Música, repetimos, profundamente aviltada nas últimas décadas e necessitada urgentemente de ponderações, pois sendo capaz, em suas características, de estar envolvida com as mais diversas áreas do conhecimento é por isso verdadeira alavanca da sensibilidade e princípios quando explorada com sinceridade e talento, e não apenas como mero pretexto para entretenimento, solução de carreira profissional, plataforma política, etc. O compositor Frank Zappa sugerindo a seus filhos, nos anos 90, um part time job (19) paralelo à carreira artística; o trumpetista Miles Davis tocando de costas para a platéia; Walter Franco incorporando vaias ensurdecedoras à performance de "Cabeça" no FIC72 (20); Jards Macalé cuspindo maçã com farinha em meio a "Princípio do prazer" no Abertura74 (21)ou John Lennon usando o boné dos engajados padeiros franceses, são eventos inconfundíveis na arte do juízo crítico inerente à Música popular, como composto que excedeu música e letra no século XX, que precisam ser soterrados por milhares de camisetas neoliberais do "Che" à venda em boutiques de shoppings ou em calçadas fétidas, não provocando o mínimo interesse de discussão a agentes educadores.
O foco de atenção voltado para a Arte musical como um fórum autônomo de debates desviando-se para um grande circo movido a pão para alguns e vinho para muitos, chega próximo ao ápice das conquistas da ordem econômica geradora da complacência não-reflexiva, assim, cremos que, dado à importância que a Música possui como manifestação da razão e sentimento humanos, e, particularmente, de um século aos dias de hoje, a coleta, preservação e análise de registros musicais reveste-se de papel fundamental na proposição de caminhos, como arquivo dinâmico de referências aos cidadãos, não simples atividade de preservação museológica ou acervo sigiloso para rádiodifusão, proporcionando assim o acesso da comunidade em geral, mas escolar especialmente, ao debate sobre o que de importante e expressivo se produziu e vem sendo produzido nessa Arte, tornando sua análise crítica uma ferramenta adicional das mais úteis à convivência e busca do sentido de liberdade humana. Pensamos assim que a Universidade, conforme a leitura social que venha fazendo e a sugestão de rumos que dissemina ao redor, pode assumir uma tal ação, estrategicamente esquecida em meio ao entretenimento musical e êxtase tecnológico, anestesiante das ansiedades cotidianas, gerando um tanto mais de clareza sobre o forçoso amanhã de todos, como "merecedores" culturais das obras de si mesmos, daí, defendermos a idéia da apreciação, quanto às ações interdisciplinares necessárias na busca da viabilização de se instalar Centros de Pesquisa e Estudos de Registros Musicais (22) no âmbito acadêmico, público ou privado, coordenados por pessoal observador e pesquisador dessa Arte e seus entrelaçamentos, por meio dos quais as comunidades encontrem acesso direto a registros de obras musicais, obtidos através de estratégias e segundo critérios e linhas de pesquisa a se debater, podendo, com isso, analisar, tecer comparações, observar seus efeitos sobre o caminhar histórico-social, conhecendo, ou reconhecendo, a produção musical precedente, convivendo assim, com referências artísticas dos mais distintos gêneros e subgêneros, e com a visão crítica que estes forneceram e ainda fornecem, esquecida nas últimas décadas pela ação eficiente da triste filosofia do imediatismo e obsolescência planejados. Dessa forma, as inúmeras questões envolvendo criações artísticas e registros musicais, que se deparam constantemente ao raciocínio de tantos interessados, poderiam ao longo do tempo deixar de estar limitadas, sob nosso ponto de vista, ao "aprender instrumentos" para estar-se contraditoriamente mais distantes do movimento das ruas, da experiência do cidadão, mas abrindo-se, sobretudo, à reflexão e compreensão da finalidade de tais instrumentos, ao mesmo tempo tão simples e ricos em perspectivas de utilização, por isso explorados exaustivamente nas últimas décadas em sua vocação para promover a metamorfose social, seja ela no rumo que queiram os grupos de interesse que demonstrem maior empenho nesse objetivo.

1 Músico norte-americano de jazz, contratado da Minton's Play House, casa noturna de Nova York do início dos anos 40 do séc. passado de propriedade de Henry Minton, ex-funcionário do Sindicato dos músicos à época. Local considerado berço do gênero "bop", ou seja, o jazz caracterizado pelo improviso, amplas experiências de idéias musicais e liberdade de expressão. Compositor de cerca de 60 músicas (incluindo "Round Midnight", tornada referência para inúmeros músicos e compositores em todo o mundo), notável pela capacidade em criar arranjos diferenciados para composições de outros artistas a ponto de torná-las novas músicas.

2 Na virada dos séculos XIX para XX na América do Norte o ragtime (Centro-Oeste) e o jazz (New Orleans) caminham conjuntamente; o primeiro tocado em qualquer ambiente pelas pianolas com bobinas de papel, sem necessidade do músico, o segundo dependendo desde o início da capacidade de improvisação do executante. Na década de 30 no Brasil, os netos dos negros baianos do bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, sobem os morros, afastados pela valorização do centro urbano, continuando a cultivar o samba batucado, o "samba de morro". Por lá resistiu em sua forma mais pura, enquanto embaixo a maciça importação de ritmos dá origem a misturas como o bolero, o foxtrot e o chá-chá-chá.

3 Música isolada e de êxito momentâneo. Caracterizada pela fácil assimilação de música e letra, além do alto lucro financeiro provocado pela estratégia de Marketing na vendagem do disco em que está inserida. "Música de trabalho" é sinônimo. Não confundir com "race records" (vide redhotjazz.com). O desenvolvimento do MP3, compartilhamentos, downloads, hospedagem musical na Internet, etc. abre interessante campo de estudo sobre o assunto.

4 A década de 60 foi pródiga em exemplos: Brasil, Argentina, Chile, etc., também a França em 68. O governo da África do Sul baniu de lojas e rádios do país, durante os anos 80, o álbum "The Wall" (1979 - CBS) do grupo inglês Pink Floyd, alegando insurgência do movimento estudantil, provocada pela canção "Another brick in the wall".

5 Gravador de sons de instrumentos tradicionais para serem tocados por teclados eletrônicos. Capaz de reproduzir qualquer som com absoluta fidelidade e na dinâmica característica dos instrumentos. Gêneros musicais, como o rap e o techno lançam mão dessa tecnologia, inclusive a música eletroacústica erudita e alguns músicos de jazz. Facilita sobremaneira aos arranjadores.

6 Moles, Abraham - "Sociodinâmica da Cultura" - Ed. Perspectiva - 1967, Cap. III - "Transferência da Mensagem Cultural".

7 Gade, Christiane - "Psicologia do consumidor" - E.P.U. - 1980, Cap. 2 - "Motivação e personalidade".

8 Conceito que adaptamos a partir dos estudos dos autores e críticos de Comunicação norte-americanos Noam Chomsky e Edward S. Herman in "Manipulação do público" - Ed. Futura - 1988.

9 Vide nosso artigo "Disco é Cultura" (Revista "Critério" n. 2).

10 Destacamos "Like a rolling stone" (1965) do compositor norte-americano Bob Dylan, canção que integra o álbum "Highway 61 Revisited" (1965 - Columbia/CBS):
".............
Costumava rir de todo mundo que aparecia.
Agora já não fala tão alto.
Já não parece tão orgulhosa ao ter de catar migalhas para a próxima refeição.
Qual é a sensação de não ter casa,
como um total desconhecido,
como uma pedra rolante?
.............
Princesa nas alturas e todas as pessoas que estão por cima,
bebendo, pensando que conseguiram,
trocando todo tipo de presentes e coisas preciosas,
é melhor transar seu anel de diamantes,
é melhor botar ele no prego.
............
Você está invisível agora,
sem segredos."

Quarenta anos após não somente o showbussines, do qual o próprio Dylan faz parte, mas as Américas, Oriente Médio, Ásia, Europa, as vítimas fraturadas pelo neoliberalismo na África, tantos cidadãos perplexos, ainda são convidados a refletir sobre conteúdo simples em aparência.

11 Para melhor entendimento poderíamos observar o caso brasileiro do long-play "Tropicália ou Panis et circensis" (1968 - Philips) e do CD "Tropicália 2" (1993 - Polygram).

12 No texto "O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição" de 1938 (Ed. Nova Cultural - 1991), T. W. Adorno argumenta: a) "Existe efetivamente um mecanismo neurótico da necessidade no ato da audição; o sinal seguro deste mecanismo neurótico é a rejeição ignorante e orgulhosa de tudo o que sai do costumeiro. Os ouvintes, vítimas da regressão, comportam-se como crianças. Exigem sempre de novo, com malícia e pertinácia, o mesmo alimento que uma vez lhes foi oferecido."; b) "Embora a audição regressiva não constitua sintoma de progresso na consciência da liberdade, é possível que inesperadamente a situação se modificasse, se um dia a arte, de mãos dadas com a sociedade, abandonasse a rotina do sempre igual"; c) "Todavia, somente os indivíduos são capazes de representar e defender com conhecimento claro, o genuíno desejo de coletividade face a tais poderes."

13 As recentes discussões sobre a Reforma Político-partidária no Brasil e os showmícios utilizados nas estratégias de Marketing do setor é exemplo para futuras reflexões. Sobre outros desdobramentos do tema vide nosso artigo "A trilha sonora do desvairar" em Revista "Critério" n. 3.

14 Grandes indústrias internacionais de produção e distribuição de discos, as quais congregam diversos selos musicais associados (labels), através dos quais artistas e compositores são contratados para lançamento de seus discos, formando um conjunto denominado cast. Exemplo: EMI Records (Major). Odeon, Harvest, Parlophone, Capitol, Liberty, etc. (Labels). The Beatles, Pink Floyd, Triumvirat, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Egberto Gismonti, etc. e seus respectivos trabalhos (Cast da EMI). O "catálogo", termo que naturalmente se confunde com cast, refere-se aos discos lançados pelos artistas e que estão à disposição ou não no mercado.

15 Elemento diferenciador que fornece ao produto algo especificamente seu, individualizando-o. Os Gerentes de Produto das empresas levam em consideração, ao lançar mão desse elemento: Saber se é válido; conhecer sua aceitação pelo mercado; ter consciência de que é real e não elemento que iluda o consumidor e saber informá-lo convenientemente ao mercado.

16 Padrão utilizado por certos colecionadores de discos das décadas de 60 e 70 do séc. XX na tomada de decisão de compra de long-plays novos, escolha da loja de discos mais apropriada e outros detalhes que levassem a essa média de preço.

17 Na antiga acepção: "Música re-arranjada e gravada por artista que não aquele que a compôs ou gravou originariamente". Na última década passou a significar "cópia" ou imitador(a) consciente de outro(a) artista. As características de comodismo e disseminação fácil dessa atitude levaram a mídia a tirar proveito financeiro, e não crítico, através do lançamento de programas voltados para a criação e incentivo ao surgimento de pseudo-artistas. Neste sentido, a MTV é atualmente um exemplo radical dessa facilitação com o programa Covernation.

18 Vide nosso artigo "Popular inaudito, na trilha do erudito" em Revista "Critério" n. 4.

19 A TV Cultura-SP apresenta, via transmissão aberta, o programa de música caipira e MPB "Viola, minha viola", de Inezita Barroso, há 25 anos aos sábados à noite; vem lançando em 2005 o programa "Clipearte" de MPB e música instrumental às 5a feiras ao final da tarde (Horário dificultoso para telespectadores que não sejam crianças e donas-de-casa); já o programa "Ensaio", famoso sob a direção de Fernando Faro durante décadas, sob nosso ponto de vista cooptou à lógica mercantilista, trazendo a público biografias e fatos superficiais, já tratados em abundância pela Mídia, de representantes da música pop nacional, diluída e reducionista, em meio a outros artistas qualificados.

20 Expressão norte-americana equivalente a: "Trabalho de meio período".

21 Festival Internacional da Canção realizado em setembro de 1972. O compositor paulistano Walter Franco inscreveu a música mencionada na fase nacional e recebeu apupos ensurdecedores da platéia, inconformada com o misto de música e efeitos sonoros, obtidos pelo autor através da gravação do ambiente urbano, e colados, uma aos outros.

22 Festival ocorrido em meados da década de 70, promovido pela Rede Globo, no qual o compositor carioca Jards Macalé foi vaiado durante toda a apresentação da música citada, pois a platéia apoiava a música "Farofafá", do participante Celso Mauro. "Farofafá" foi uma das proto-composições que iniciaram o processo de degradação musical mais acentuada da MPB a partir de 1975. Vide nota n. 8 acima.

23 Denominação que sugerimos para um foco de reflexão sobre o assunto, naturalmente aberta a questionamentos e adequação apropriados. Outras designações podem surgir a partir dos critérios levados a debate em torno de tal projeto e os caminhos necessários a seguir segundo parâmetros científicos.

 

 

 

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