1-
Reabrindo Marcuse: a importância da crítica
materialista da alienação
Um
dos primeiros livros que me marcaram profundamente
e acabaram por demarcar meu percurso intelectual foi
One-dimensional man de Herbert Marcuse, publicado
em 1964 nos EUA. Certa vez, nos tempos de graduação,
passando por uma estante numa biblioteca com um colega,
abri por acaso esse livro, onde se podia ler:
"Uma
falta de liberdade confortável, suave, razoável
e democrática prevalece na civilização
industrial desenvolvida, um testemunho do progresso
técnico" (O homem unidimensional
- publicado no Brasil como "Ideologia da sociedade
industrial". Doravante abreviado como: HU, p.23).
Surpreendidos
pela ironia desse texto, começamos a rir. Algumas
linhas à frente, ele já destronava o
sujeito burguês do trabalho e da concorrência:
"A
liberdade de empreendimento não foi de modo
algum, desde o início, uma bênção.
Quanto à liberdade de trabalhar ou morrer à
míngua, significou labuta (toil), insegurança
e medo (fear) para a grande maioria da população.
Se o indivíduo não mais fosse compelido
a se demonstrar no mercado como um sujeito econômico
livre, o desaparecimento desse tipo de liberdade seria
uma das maiores conquistas da civilização"
(HU, p.24).
Um
discurso materialista radical portanto, bem diferente
dos chavão revolucionário ou social-democrata
da esquerda partidária. Marcuse cativa justamente
pela qualidade de sua escrita, a criatividade de suas
indagações e interpretações,
pela força dos exemplos reveladores do absurdo
da sociedade da mercadoria: por isso não economizaremos
citações que o demonstrem. Não,
Marcuse não envelheceu tanto assim, como supõem
os modistas epistemológicos. Em certos pontos,
inclusive, como diz Paulo Arantes, parece que só
hoje, mais de 70 anos depois de seus primeiros artigos
na Zeitschrift für Sozialforschung, poderá
ser realmente lido e apreendido.
Tal como todos os frankfurtianos, ele partia de uma
questão simples - mas a mais radical:
"A
sociedade estabelecida dispõe de uma quantidade
e uma qualidade determináveis de recursos intelectuais
e materiais. Como podem ser esses recursos utilizados
para o máximo desenvolvimento e satisfação
de necessidades e faculdades individuais com um mínimo
de labuta e miséria ?" (HU, p.15).
De
saída, portanto, Marcuse pensaria a redefinição
das modalidades de liberdade, para além da
economia, da política e da indústria
cultural, face ao progresso técnico alcançado
pelas sociedades industriais do pós-guerra:
"Essas
novas modalidades só podem ser indicadas em
termos negativos porque levariam à negação
das modalidades prevalecentes. Assim, liberdade econômica
significaria liberdade de economia - de ser controlado
por forças e relações econômicas;
liberdade em relação à luta cotidiana
pela existência, de ter de ganhar a vida. Liberdade
política significaria a libertação
do indivíduo da política sobre a qual
ele não tem controle efetivo algum. Do mesmo
modo, liberdade intelectual significaria a restauração
do pensamento individual, ora absorvido pela comunicação
e doutrinação de massa, abolição
da ´opinião pública´ juntamente
com os seus forjadores" (HU, pp.25-6).
Superar
o sujeito liberal e suas alienações
materiais: eis a grande necessidade do acerto dos
ponteiros do relógio histórico.
*
*
2- Da ontologia à crítica do trabalho
Claro
está que Marcuse pensava assim certa superação
da economia, da política e da cultura como
esferas objetivadas e alienadas, fora do controle
social e individual. Tais formulações,
que obviamente têm muitas implicações
práticas, podem variar bastante no tempo interno
de sua filosifa e entrar em conflito entre si, o que
pode dar a impressão de falta de rigor conceitual.
A crítica da alienação, contudo,
é a viga mestra da crítica marcuseana.
Seria de pouco interesse, entretanto, ater-se negativamente
a estas variações conceituais sem considerar
o contexto onde se apresentam e o seu sentido fundamentalmente
libertário, que ainda hoje contêm força
prática, para além do realismo político
das esquerdas que sobraram. Em certo sentido elas
se adiantam a todo o debate atual sobre a obsolescência
da sociedade do trabalho. É possível
demonstrar como o primeiro Marcuse parte de uma ontologia
antropológica do trabalho, fundada em Hegel
e no jovem Marx, marcada ainda pelo vocabulário
heideggeriano, para chegar a um questionamento materialista
cada vez mais intenso das conseqüências
sociais e psíquicas efetivas do trabalho social
abstrato e totalmente alienado, donde se porá
a questão da crítica de uma ontologia
e de uma antropologia negativas do trabalho, das necessidades
e dos desejos por ele configurados, pois são
ao mesmo tempo sua condição e o seu
resultado.
Um dos textos fundamentais para o jovem Marcuse foram
os Manuscritos econômico-filosóficos
de 1844 de Marx. No início da década
de 30 ele escreve pelo menos dois textos fortemente
ligados aos Manuscritos, então recentemente
publicados, tentando extrair uma fundamentação
filosófica - antropológica e
ontológica - para o materialismo histórico.
Em ambos os textos, Marcuse aceita a caracterização
hegeliana e marxiana do trabalho como a essência
ontológica do homem: posto que o homem é
um ser materialmente sensível, sofredor e carente,
um ser de paixões e de necessidades, então
o "trabalho" em geral será sua forma
de objetivação e exteriorização
necessárias, para suprir tais necessidades.
O homem, com seu fazer consciente, transformará
produtivamente a natureza externa, seu "corpo
inorgânico", e nesse processo também
o seu próprio ser (sua natureza interna). O
homem se autoforma pelo trabalho. Assim, segundo o
autor, "o trabalho é a verdadeira expressão
da liberdade do homem" ("Novas fontes para
a fundamentação do materialismo histórico"
[1932] in: Idéias sobre uma teoria crítica
da sociedade, p.32).
O trabalho será erigido ao patamar de um conceito
filosófico muito mais amplo do que o da ciência
econômica. De forma curiosa, Marcuse diz que
haveriam "modos não-econômicos de
trabalho", e assim, este "de maneira alguma
é um fenômeno da dimensão econômica,
pois se encontra enraizado no curso da própria
existência (Dasein) humana" ("Sobre
os fundamentos filosóficos do conceito de trabalho
da ciência econômica" [1933] in:
___. Cultura e sociedade, vol.2, p.22 e 18).
Aplicando isso literalmente, diferenciando-o do jogo,
o autor dirá que o homem estará num
"contínuo estar-trabalhando e estar-no-trabalho",
numa "disposição e um tensionamento
de toda a existência nos termos do trabalho"
(ibid. p.17). Trabalho é tanto autoconservação
("continuidade e permanência do ser"),
como sua negação determinada: "modo
de fazer-acontecer da existência humana como
um todo; apropriação, superação,
transformação e continuação
da existência..." (ibid., p.19). Identifica-se
assim o conceito de trabalho ao "fazer"
(Tun) em geral, ao conceito de "práxis"
(ibid., p.13 e 19), recusando o conceito econômico
como "redutor": seria possível pensar,
assim, as naturalizações feitas pela
economia política, que assume o presente trabalho
alienado atual como sendo eterno. Tal como no jovem
Marx, a realidade efetiva poderia ser medida por um
conceito ideal de trabalho como "essência
humana". O trabalho alienado seria apenas uma
das dimensões de sentido do trabalho. Mas neste
ponto Marcuse já se pergunta no primeiro texto
de 32:
"se
a facticidade histórica mostra a total inversão
de todos os contextos dados na determinação
da essência humana, não será que
essa determinação se torna sem sentido
e consistência, simples abstração
idealista, violação da realidade histórica?"
(Marcuse, "Novas fontes"..., p.34).
O
filósofo tem consciência de que o "ser
do homem" não poderá ser determinado
"primariamente como orgânico-natural",
mas como "ser histórico" ("Sobre
os fundamentos"..., p.22). O trabalho será,
portanto, uma "categoria especificamente histórica"
(ibid., p.32) - ou, para ser mais exato, melhor seria
dizer aqui, sem trair o autor: uma categoria transhistórica,
válida para todos os momentos da história
do homem. Mas já aqui, porém, ele tem
de encarar a experiência histórica da
alienação pelo trabalho. Neste sentido,
as "populações primitivas"
- onde não se poderia falar em trabalho
como centro da vida, no sentido estrito do termo -
seriam, segundo ele, "pré-históricas"
(ibid., p.34). De todo modo, ele percebe bem que:
"o
trabalho enquanto tal não é a ´finalidade
em si mesma´, não se completa em si mesmo
e não é a ´meta´. Pois em
si mesmo o trabalho é imperfeito, negativo:
orientado para algo que ainda não existe, que
o trabalho deve gerar e que também ainda não
se encontra no próprio trabalho" (ibid.,
p.35).
Neste
segundo texto, assim, o trabalho ganhará duas
dimensões, tal como Marx as nomeou em O
Capital: o da atividade produtiva determinada
pelo "reino da necessidade", que é
simples meio material e não pode ter um fim
em si mesmo, e o "trabalho livre", que surge
sob a base do anterior, constituindo o "reino
da liberdade". Este, diz Marx, "começa
apenas onde cessa o trabalho determinado por necessidade
e finalidade exterior; portanto, conforme a sua natureza
ele se situa além da esfera da produção
material propriamente dita" (O Capital, Livro
3). Para Marcuse, este reino seria "a práxis
propriamente dita (...) o livre desdobramento da existência
em suas verdadeiras possibilidades" (ibid., p.37).
Nosso autor é obrigado a pensar num mundo livre
além do trabalho, "o modo específico
da práxis existencial além da produção
e reprodução material" (ibid.,
p.36), vale dizer, "livre dessa necessidade".
Com isso, a esfera do trabalho, mesmo quando não
alienada e não coisificada, quando não
é fardo e tormento, está sujeita à
"lei da coisa (Sache), que é preciso
fazer", "a um outro distante de seu ser
próprio, ele sempre está "algo
outro e para outros" (ibid. p.18).
Cerca de dez anos mais tarde, em Razão e Revolução
(1941), Marcuse irá retomar os textos da Ideologia
Alemã, em que Marx e Engels determinam a "abolição
do proletariado" como "superação
do trabalho como tal", como conquista da "auto-atividade".
Segundo Marcuse, Marx
"prefigura
um modo futuro de trabalho tão diferente do
modo predominante, que ele hesita em usar a mesma
palavra, ´trabalho´, para designar o processo
material da sociedade capitalista e o da sociedade
comunista" (ibid., p.266).
A "associação de homens livres"
de que fala Marx, assim a entende Marcuse, é
uma "sociedade na qual o processo material de
produção não mais determina a
configuração total da vida humana"
(ibid., p.267), pois Marx "contempla uma sociedade
que dá a cada um não segundo seu trabalho,
mas segundo suas necessidades" (ibid.). E com
isso, deduz ele ainda, o materialismo marxista trocava
a idéia idealista de razão pela
de felicidade como essência da emancipação
(ibid.). Assim,
"O
materialismo histórico aparece, de início,
como uma denúncia contra o materialismo que
domina a sociedade burguesa (...) A idéia da
realização livre e universal da felicidade
individual, per contra, caracteriza um materialismo
afirmativo, isto é, uma afirmação
da satisfação material do homem"
(ibid., p.268).
Propõe-se
assim uma crítica do trabalho e do desempenho
produtivista como centro ontológico da vida
social. A questão que emerge, então,
é: como poderá o materialismo ser assim
afirmativo se, conforme vimos, a sociedade do trabalho
se apoia justamente em necessidades e desejos fetichistas
que reproduzem a dominação social no
interior da vida subjetiva dos indivíduos ?
*
*
3-
Crítica do produtivismo como antropologia negativa
Nesse
caso, a noção de felicidade torna-se
suspeita e então já não
pode ser assumida inocentemente no interior da ordem
estabelecida (cf. Marcuse, "Para a crítica
do hedonismo" [1938] in:__. Cultura e Sociedade,
vol.1). É assim que Marcuse cada vez mais irá
associar as necessidades existentes à dominação
social, através da mediação do
trabalho social e de sua racionalidade tecnológica
e produtivista. Trata-se agora de pensar uma espécie
de antropologia negativa do homem contemporâneo:
do homem posto, mas posto como negado.
Na verdade, já adentraríamos no "reino
da liberdade", embora numa forma negativa, limitada,
deformada, caricatural. Na introdução
de 1964 ao volume 1 de Cultura e Sociedade
pode-se ler:
"Não
teria a sociedade industrial tardia superado de modo
perverso a idéia do socialismo - tal como no
mau planejamento, no mau desdobramento das forças
produtivas, na má organização
da classe trabalhadora, no mau desenvolvimento das
necessidades e da satisfação ? (...)
A sociedade industrial desenvolvida conquistou para
si uma grande parcela do território sobre o
qual deveria florescer a nova liberdade: apropriou-se
de dimensões até então ainda
relativamente intactas da consciência e da natureza;
até mesmo configurou sua contra-imagem conforme
sua própria imagem e suavizou a contradição,
tornando-a insuportável. Por meio dessa ocupação
totalitário-democrática do homem e da
natureza, também foi ocupado o espaço
subjetivo e objetivo para aquele reino da liberdade"
(p.43).
E
mais adiante:
"A sociedade totalitária submete o reino
da liberdade além do reino da necessidade à
sua administração, adaptando-o à
sua própria imagem" (ibid., p.45).
Ocorre,
assim, um embaralhamento de pré-história
e história, utopia e realidade. O Welfare
State é uma "extravagância histórica
(historical freak) entre capitalismo organizado
e socialismo, servidão e liberdade, totalitarismo
e felicidade" que continua a se
"defrontar
com o conflito entre o crescente potencial de pacificação
da luta pela existência e a necessidade de intensificar
esta luta; entre a ´abolição do
trabalho´ progressiva e a necessidade de preservar
o trabalho como fonte de lucro" (HU, p.66).
Isso
exige uma crítica mais radical. A mudança
para um enfoque negativo do conceito de trabalho é
evidente nos trabalhos posteriores. Assim, no socialismo
estalinista, Marcuse aponta-nos como o trabalho e
a produtividade tornaram-se ali uma nova moral senão
uma religião usurpadora geral da vida social
e individual, determinando todos os seus momentos
vitais (Le marxisme soviétique [1963],
cap. 12). "Para Marx e Engels", diz Marcuse,
"o objetivo do comunismo era a ´supressão
do trabalho´, na concepção marxista
soviética, todos os homens serão trabalhadores
da sociedade comunista" (ibid., pp.251-2). Nesta
concepção, a "prostituta",
por exemplo, é considerada imoral por "´desertar
das fileiras do trabalho produtivo´"(ibid.,
p.344). E assim, conclui:
"No
momento em que o tempo livre é transformado
em tempo de educação para a formação
politécnica, e que a moral do trabalho é
ancorada nos instintos do ser humano, o controle estatal
está salvaguardado, e o passado é transferido
com toda segurança para o futuro" (ibid.,
p.252).
O
"marxismo soviético" abandona qualquer
visão crítica do trabalho alienado e
da técnica capitalista:
"não
só o trabalho em si é uma honra e uma
glória e a ´emulação socialista´
um dever, mas todo trabalho, sob o socialismo,
tem um caráter criador, e todo rebaixamento
do trabalho manual insulta a educação
comunista" (ibid, p.322).
De
forma suspeita, a mesma ética burguesa do trabalho,
derivada do protestantismo, encontra-se nos dois lados
do sistema produtor de mercadorias. A crítica
marcuseana atacará, assim, o imaginário
da sociedade produtivista forjada segundo o modelo
prometéico do "homo laborans". Essa
é a base para compreender o que mais tarde
ele denominará como "o homem unidimensional".
Tal modelo produtivista infecta até mesmo a
esquerda radical que "sucumbe, freqüentemente,
a um fetichismo do trabalho - um novo aspecto
do fetichismo da mercadoria (afinal, a força
de trabalho é uma mercadoria)." (Marcuse,
Contra-revolução e Revolta [doravante:
CRR], 1972, p.45). Para Marcuse - e na contramão
do marxismo dominante - isso leva inclusive à
mudança do conceito de revolução:
"ao
passo que as revoluções anteriores acarretaram
um desenvolvimento mais amplo e mais racional das
forças produtivas, nas sociedades superdesenvolvidas
de hoje, porém, revolução significaria
a inversão dessa tendência: eliminação
do superdesenvolvimento e de sua racionalidade repressiva"
(Marcuse, Prefácio Político 1966 - Eros
e Civilização [1955], p.18).
Uma
espécie de reversão do progresso no
sentido de uma "pacificação da
existência" e mesmo "regressão"
a formas de gratificação pulsional pré-genitais,
polimórficas etc. como se poderá ler
no final de Eros e Civilização
(cap. 10 e 11). Mas, face à possibilidade real
da "eliminação do trabalho"
(Cultura e sociedade, vol. 1, "Prefácio",
p.44), o incompreensível é justamente
essa maldição da continuidade da dominação,
reproduzida agora no interior dos homens.
*
*
4-
(Des)aceleração histórica, o
irreal, o intempestivo
Curiosa atualidade a de Marcuse - certamente a atualidade
do intempestivo, no sentido integral do termo: o de
uma força insurgente, que só pode advir
de forma imprevista, inesperada, inaudita, contingente,
descontínua, extraordinária. Neste ponto,
Nietzsche será uma referência central
(como em Benjamin aliás), chegando a prevalecer
sobre Hegel e Marx. A luta é por um Real
(para usar um termo caro aos lacanianos) que é
possível, mas aparece na realidade existente
como o mais improvável, senão como loucura
impossível. Marcuse percebia bem esse caráter
intempestivo da "revolução"
em seu tempo. Tal como o próprio autor já
sugeria à época:
"O
tom irrealístico dessas proposições
não indica seu caráter utópico,
mas o vigor das forças que impedem (prevent)
sua realização. A mais eficaz e resistente
forma de guerra contra a libertação
é a implantação das necessidades
materiais e intelectuais que perpetuam formas obsoletas
da luta pela existência (struggle for existence)"
(HU, p.26, grifo meu).
Trata-se
do "fim da utopia", que
"também pode ser entendido como o `fim
da história´ no sentido muito preciso
de que as novas possibilidades de uma sociedade humana
e seu ambiente já não podem ser pensadas
como continuação do velho, nem mesmo
como existindo no mesmo continuum histórico
com elas. Antes, elas pressupõem uma ruptura
com o continuum histórico" (Marcuse,
End of utopia, [1967], p.62).
Mas
ele é sempre lúcido quanto à
conseqüência política da dominação
enraizada subjetivamente:
"Na
fase suprema do capitalismo, a revolução
mais necessária parece ser a mais improvável."
[CRR, p.16]
Pois
mesmo que reunidas as condições materiais
e objetivas para a emancipação, diz
ele, é evidente que "o fator subjetivo
fica para trás" (CRR, p. 17).
O que foi se colocando para Marcuse, então,
desde o diálogo com os frankfurtianos nos anos
30, era a questão do sujeito histórico,
de sua subjetividade, dos processos de sua formação
e subjetivação. O pano de fundo objetivo
do pós-guerra era desolador. O capitalismo
competitivo era em grande parte suplantado pelo capitalismo
monopolista e estatalmente administrado: neste, os
processos de trabalho se automatizavam cada vez mais,
subsumindo e alienando ainda mais os trabalhadores,
já controlados pelos grandes partidos sociais-democratas
e sindicatos burocráticos totalmente engajados
na ordem do capital; o Estado forte, a começar
pelo totalitarismo fascista e estalinista, como mais
tarde o Welfare State, regulava e entrava produtivamente
na economia nacional, reduzindo as possibilidades
de crise econômico-social e produzindo um espaço
social urbano estratégico para a reprodução
geral do sistema; a massificação do
consumo e a mega-indústria cultural completavam
o circuito da dominação pelo alto; no
quadro internacional, o capitalismo ia se mundializando,
controlando seus espaços "neocoloniais"
(regimes ditatoriais e industrializantes na América
Latina, Sudeste Asiático etc.); a Guerra Fria
constituía, mesmo em sua ameaça irracional,
uma forte alavanca de crescimento interno para os
dois blocos de poder, fornecendo, além do mais,
a legitimação tecno-ideológica
de um sistema produtivista absurdo. De modo que aquilo
que os marxistas saudosistas hoje chamam de "os
anos dourados do capitalismo", para Marcuse,
eram, na realidade, os anos de uma alienação
potencializada, de congelamento e malogro da revolução
emancipatória - ou duma outra perspectiva,
os anos da "contra-revolução"
mundial que no Ocidente é "inteiramente
preventiva", diz Marcuse, fora do tempo real,
pois é claro que:
"aqui,
não existe qualquer revolução
recente a ser desmantelada", continua ele, "nem
alguma num futuro próximo" (CRR, p.11,
trad. modif.).
Num
clima de irrealidade e loucura objetiva como este,
a revolução possível e a contra-revolução
real tornam-se intempestivas. É como se o mundo
da razão clássica saísse fora
dos eixos, exigindo novos conceitos para expor seu
dinamismo incontrolável. Marcuse teve plena
consciência disso, e esta é a sua melhor
lição ainda hoje: a necessidade de interrogação
radical do presente, sem prevenções,
sem dogmatismos conceituais - principalmente lá
onde tudo parece continuar como sempre foi. Refinando
o olhar encontra-se o acontecimento sob a estrutura
repetitiva, como se lê no An Essay on liberation
[1969]:
"Súbita
recusa [brusque refus] da disciplina do trabalho,
relaxamento do esforço individual, desobediência
generalizada às regras e leis , greves selvagens,
boicotes e sabotagens, insubmissão gratuita,
tais poderiam ser as expressões da dissolução
da moralidade social. A violência que está
inscrita no sistema repressivo pode subitamente escapar
ao controle ou fazer necessários controles
mais e mais totalitários" (Marcuse, Vers
la liberation, 1969, p.154, grifos meus).
Mesmo
na estabilidade das relações de dominação,
o imprevisto, o aparentemente impossível vai
se sucedendo, sejam os fatos mais terríveis
e irracionais da violência e da barbárie
totalitária dos países democráticos
(Vietnã etc.), que mesmo no inferno não
tinham sido imaginados, sejam os resíduos de
novas possibilidades inesperadas. O movimento de 68
foi, para Marcuse, um desses grandes resíduos:
a história (a continuidade fundamental,
o já velho e conhecido, o anacrônico)
dava mostras de que não esgotava todas as possibilidades
do devir (da descontinuidade, do novo). O pensamento
de Marcuse move-se neste tempo acelerado, estranho,
transtornado, onde as certezas do tempo linear e do
determinismo já valem somente como fé
metafísica. "A idéia de socialismo",
diz o autor, "perde o seu caráter científico
se a sua necessidade histórica for a de um
futuro indefinido (e duvidoso)" (CRR, p.61).
Desde cedo ele preparou o seu acerto de contas com
a teleologia e o necessitarismo da lógica hegeliana.
Nesta, diz ele,
"Proclama-se
o desenvolvimento, embora o desenvolvimento verdadeiro
seja ´não uma transformação,
um tornar-se algo diferente´ [Hegel, Vorlesungen
über die Geschichte der Philosophie]. Ao
final, chega a nada que já não existisse
verdadeiramente ´em si´ desde o início
(...) Precisamente em sua fase madura, a estática
interior de todos os seus conceitos aparentemente
tão dinâmicos torna-se clara" (Marcuse,
"Filosofia e Teoria Crítica" [1937]
in:___. Cultura e Sociedade, vol. 1, p.142).
Hegel dilata a imanência da sociedade burguesa
até nada poder surgir fora e além dela.
Mas face ao excesso de carga temporal do século
XX, a história se revela como um tempo inquieto,
plenamente contraditório, movimentando-se entre
o peso esmagador da realidade e o Real possível
intempestivo, rodopiando entre o atraso da emancipação,
o adiantamento contra-revolucionário dos poderes
vigentes e a irrupção espontânea
das pulsões de vida, vacilando entre a prevenção
dominadora do futuro e o acontecimento insurgente,
inesperado, antagônico a qualquer Weltgeist
hegeliano.
* *
5-
As vicissitudes viciadas do sujeito histórico:
o entrelaçamento produtivo-repressivo do princípio
do prazer com a forma-mercadoria
Questão
central para o Marcuse do pós-guerra, no período
da hegemonia americana, será a forma de produção
de legitimação da ordem obsoleta do
trabalho:
"A
produção e a distribuição
em massa reivindicam o indivíduo inteiro e
a psicologia industrial deixou há muito de
limitar-se à fábrica. Os múltiplos
processos de introjeção [da dominação]
parecem ossificados em reações quase
mecânicas. O resultado não é o
ajustamento, mas a mímese: uma identificação
imediata do indivíduo com a sua sociedade e,
através dela, com a sociedade em seu todo"
(HU, p.31).
Uma
mímese regressiva, falsa - a "mímese
do que está morto", diriam Adorno e Horkheimer
(na Dialética do Esclarecimento [1944-47],
p.62). Na verdadeira, na esfera da arte, "a mímese
é distanciamento, subversão da consciência"
- diz Marcuse noutro texto (A Dimensão Estética,
[1977] p.48), diferente também da "mímese
sem transformação" da antiarte
(ibid. p.53), que, dissolvendo a forma estética,
dessublima a arte sem realizá-la como tal.
Como mecanismo geral de identificação
e adaptação do sujeito à realidade,
Marcuse traduz esta falsa mímese na idéia
de "dessublimação repressiva"
(HU, cap.3). Ele pensava, assim, a condição
generalizada de desdiferenciação cultural
e permissividade superegóica das chamadas "sociedades
de consumo de massa". Por um lado, através
desta dessublimação, os focos possíveis
de antagonismo na cultura eram neutralizados, convivendo
numa falsa harmonia, indiferença relativista
e tolerância indiscriminada (cf. Marcuse, "Tolerância
Repressiva", 1965). Não só a cultura
superior é banalizada e integrada ao circuito
mercantil, mas também a estrutura pulsional
do indivíduo:
"O
Princípio de Prazer absorve o Princípio
de Realidade; a sexualidade é liberada (ou
antes, liberalizada) sob formas socialmente construtivas"
(HU, p.82).
Este
raciocínio parece contemplar o de Michel Foucault
(História da sexualidade, vol.1, "A
Vontade de Saber" [1976]) - a exposição
sistemática do sexo em discurso na sociedade
moderna, injustificando assim a "hipótese
repressiva", tal como defendida por W.Reich (que
não percebe que esta mesma hipótese
é peça de um processo histórico
de normalização sexual). Poderia contemplar
também a idéia foucauldiana da "biopolítica
da população", de que "a velha
potência da morte em que se simbolizava o poder
soberano é agora, cuidadosamente, recoberta
pela administração dos corpos e pela
gestão calculista da vida" (ibid., p.131).
Ao mesmo tempo, Marcuse não vê necessidade
em se desfazer do termo "repressão"
para nomear esta forma de recuperação
e normalização da estrutura pulsional,
pois vê nessa liberação exatamente
o controle produtivo, a geração daquilo
que Foucault havia chamado um "corpo dócil".
Para Marcuse,
"Esta
sociedade transforma tudo o que toca em fonte potencial
de progresso e de exploração, de servidão
e satisfação, de liberdade e de opressão.
A sexualidade não constitui exceção"
(HU, p.87).
Neste
sentido, a própria pulsão de morte poderia
ser socialmente administrada:
"O conceito de dessublimação controlada
implicaria a possibilidade de uma libertação
simultânea da sexualidade e da agressividade
reprimidas (...) Supondo-se que a pulsão de
destruição (em última análise
a pulsão de morte) seja um grande componente
de energia que alimenta a conquista técnica
do homem e da natureza, parece que a crescente capacidade
da sociedade para manipular o progresso técnico
também aumenta sua capacidade para manipular
e controlar esta pulsão, isto é, para
satisfazê-lo ´produtivamente´. Então,
a coesão social seria fortalecida nas mais
profundas raízes pulsionais. O supremo risco
e até o fato de uma guerra teriam não
apenas a aceitação inapelável
como também aprovação pulsional
por parte das vítimas. Teríamos aqui
também a dessublimação controlada."
(HU, pp. 87-88).
Assim,
por um lado, há uma
"libertação
da sexualidade (e da agressividade)", que reduz
"muito da infelicidade e descontentamento"
sociais (HU, p.86).
Bem
pesadas as coisas, então, o princípio
do prazer pode parecer sobredeterminar o princípio
de realidade.
"No
mecanismo psíquico, a tensão entre o
que é desejado e o que é permitido parece
consideravelmente reduzida e o princípio de
realidade não mais parece exigir uma transformação
arrasadora e dolorosa das necessidades pulsionais.
O indivíduo deve adaptar-se a um mundo que
não parece mais exigir a negação
de suas necessidades mais íntimas - um mundo
que não é essencialmente hostil"
(HU, p.83).
Mas
a hipótese de Marcuse é que,
"o
ambiente do qual o indivíduo podia obter prazer
- que ele podia investir como agradável quase
como uma zona estendida do corpo - foi rigidamente
reduzido. Conseqüentemente, [na sociedade tecnológica],
o ´universo´ de investimento libidinal
é do mesmo modo reduzido. O efeito é
uma localização e contração
da libido, a redução da experiência
erótica à experiência e satisfação
sexuais", ou seja, "a libido se torna menos
´polimorfa´, menos capaz de eroticismo
além da sexualidade localizada, e esta última
é intensificada" (HU, p.83).
E
assim, reduzido o polimorfismo da libido, o princípio
de prazer seria reduzido e subsumido:
"O
âmbito da satisfação socialmente
permissível e desejável é grandemente
ampliado, mas o Princípio de Prazer é
reduzido por meio dessa satisfação -
privado das exigências que são irreconciliáveis
com a sociedade estabelecida. O prazer, assim ajustado,
gera submissão" (HU, p.85).
O
princípio de realidade historicamente vigente
tornara-se ainda mais um "princípio de
desempenho", tal como Marcuse já o havia
denominado em Eros e Civilização
[1955] (E&C, p. 51). Com tal nome ele caracterizava
os "controles adicionais acima e além
dos indispensáveis à associação
civilizada humana", isto é, através
de mecanismos de "mais-repressão"
(E&C, p.53).
Face a esse assujeitamento "biopolítico"
do inconsciente pulsional ao sistema racional de objetos-mercadoria
de toda ordem, a sublimação estética
e intelectual, mantendo o sentido da "Grande
Recusa", seria mais libertária (cf. HU,
p.85; CRR, cap. "Arte e Revolução").
Neste horizonte rebaixado, onde grassam as "formações
de compromisso" entre desejo e aceitação
cínica do existente, é toda a esfera
da ideologia que muda de caráter.
*
*
6-
A factualidade cínica da nova ideologia
A
sociedade unidimensional tende a reprimir e eliminar,
junto com a subjetividade, a própria consciência
da alienação - o sujeito conquista,
assim, sua "consciência feliz" (HU,
p.85), reconciliando-se como que lucidamente com seu
modo de vida alienado e corrompido. Da mesma forma
as ideologias, em seu sentido clássico, mudam
de caráter. Ideologia não é mais
um discurso autônomo e relativamente separado
em relação à realidade econômica,
mas a práxis discursiva colada à forma-de-mercadoria
total do mundo. E que, de tão colada a esta,
já não aparece distingüível
como ideologia. A dominação torna-se
"racional", uma questão de eficácia
técnica para a conservação da
vida. Mesmo o pior antagonismo, o "risco de destruição
evitável" da dissuasão nuclear,
"não mais pode servir para denunciar ou
recusar o sistema estabelecido" (HU, p.87). A
ideologia tornava-se a inevitabilidade de escapar
ao modo de vida atual: rebaixada a uma só dimensão,
a do modo de vida da "sociedade industrial"
mundial (com o que Marcuse designava a identidade
sistêmica entre capitalismo e socialismo real),
a ideologia torna-se uma espécie de materialismo
vulgar:
"O
aparato produtivo e as mercadorias e serviços
que ele produz ´vendem´ ou impõem
o sistema como um todo. Os meios de transporte e comunicação
em massa, as mercadorias casa, alimento e roupa, a
produção irresistível da indústria
de diversões e informação trazem
consigo atitudes e hábitos prescritos, certas
reações intelectuais e emocionais que
prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente
aos produtores e, através destes, ao todo.
Os produtos doutrinam e manipulam; promovem uma falsa
consciência que é imune à sua
falsidade. E, ao ficarem esses produtos benéficos
à disposição de maior número
de indivíduos e de classes sociais, a doutrinação
que eles portam deixa de ser mera publicidade; torna-se
um estilo de vida. É um bom estilo de vida
- muito melhor do que antes - e, como um bom estilo
de vida, milita contra a transformação
qualitativa. Surge assim um padrão de pensamento
e comportamento unidimensionais no qual as idéias,
as aspirações e objetivos que por seu
conteúdo transcendem o universo estabelecido
da palavra e da ação são repelidos
ou reduzidos a termos desse universo" (HU, p.32).
A
unidimensionalidade dessa práxis, porém,
legitima-se tenuamente, como um véu transparente,
de meia-confecção:
"Por
trás do véu tecnológico, por
trás do véu político da democracia,
surge a realidade, a servidão universal, a
perda da dignidade humana em uma liberdade de escolha
pré-fabricada. E a estrutura do poder já
não é ´sublimada´ no estilo
de uma cultura liberal, já não é
sequer hipócrita (quando retinha, pelo menos,
as ´formalidades´, a concha da dignidade),
mas brutal, despida de todas as falsas aparências
de verdade e justiça" (CRR, p.23).
A
ideologia, como aparece no debate frankfurtiano do
período, já não é, portanto,
mero discurso, mas a materialidade esmagadora de um
modo de vida cotidiano administrado. A partir do chão
da fábrica, da realidade mundial do trabalho
abstrato, a práxis ideológica cimenta
o todo. Não haveria mais propriamente ideologia,
senão o próprio fetichismo das relações
mediadas pela mercadoria, secretando uma "religião
da vida cotidiana" (Marx). A legitimação
ideológica da dominação se dissolvia,
segundo Marcuse, em questões meramente técnicas,
na funcionalidade e normalidade do aparato tecnológico
ligado em sistema. A dominação se torna
"racional" sob o "véu tecnológico".
Enquanto o sistema consegue "funcionar",
"entregar as mercadorias", em seu movimento
inerte, ele parece se justificar. A necessidade de
libertação é assim reprimida;
surge um novo tipo antropológico adaptado e
conformado à "sociedade tecnológica".
Claro que os homens só poderão se libertar
"se
viverem com a necessidade de modificar o seu estilo
de vida, de negar o positivo, de recusar. É
precisamente essa necessidade que a sociedade estabelecida
consegue reprimir com a intensidade com que é
capaz de ´entregar as mercadorias´ em
escala cada vez maior, usando o domínio da
natureza para dominar o homem cientificamente"
(HU, p.17).
O
mais interessante de destacar é que Marcuse
anteviu tal degradação da esfera da
ideologia nos anos 40, no discurso nazista:
numa espécie de politização integral
que era também desmistificação
integral:
"o
cinismo que permeia esta filosofia também envolveu
aqueles que deveriam acreditar no que seus líderes
lhes dizem. O povo alemão acredita na filosofia
nacional-socialista porque esta filosofia prova ser
uma arma eficiente de defesa e agressão - mas
nada além disso" (Marcuse, "A nova
mentalidade alemã", [1942] in:___. Tecnologia,
guerra e fascismo, p.197).
Marcuse
caracteriza tal mentalidade, entre outros traços,
pela "factualidade cínica"(ibid.).
Já em Spengler, nos anos 20, se via essa atitude
desiludida, cínica e pragmática. A "mobilização
total" impregnou a consciência da população
alemã:
"com
uma racionalidade que mede todos os assuntos em termos
de eficiência, sucesso e eficácia. O
´sonhador´ e ´idealista´ alemão
tornou-se o ´pragmático´ mais brutal
do mundo. Vê o regime totalitário somente
sob o aspecto de suas vantagens materiais imediatas.
Ajustou seus pensamentos, sentimentos e comportamento
à racionalização tecnológica,
que o nacional-socialismo transformou na mais formidável
arma de conquista. Pensa em quantidades: em termos
de velocidade, habilidade, energia, organização,
massa. O terror que o ameaça a qualquer momento
provoca esta mentalidade: aprendeu a ser desconfiado
e astuto, a pesar cada passo num piscar de olhos,
a esconder seus pensamentos e objetivos, mecanizar
suas ações e reações e
adaptá-las ao ritmo da arregimentação
universal. Essa factualidade é o próprio
cerne da mentalidade nacional-socialista e o fermento
psicológico do sistema nacional-socialista"
(ibid., p.197).
É
essa mentalidade que se cristalizaria na "linguagem
da administração total" da democracia
de massas americana:
"Os
elementos de autonomia, descoberta, demonstração
e crítica recuam diante da designação,
asserção e imitação. Elementos
mágicos, autoritários e rituais invadem
a palavra e a linguagem. A locução é
privada das mediações que são
as etapas do processo de cognição e
avaliação cognitiva. Os conceitos que
compreendem os fatos, e desse modo transcendem estes,
estão perdendo sua representação
lingüística autêntica. Sem tais
mediações, a linguagem tende a expressar
e a promover a identificação imediata
da razão e do fato, da verdade e da verdade
estabelecida, da essência e da existência,
da coisa e de sua função" (HU,
p.93).
Mas,
na própria debilidade deste véu transparente
e dilacerado, Marcuse vê as condições
da recusa do sistema, com a emergência de uma
"nova sensibilidade" e uma nova "racionalidade
sensual":
"O
fetichismo do mundo das mercadorias está-se
dissipando: as pessoas enxergam a estrutura de poder
subentendida na tecnocracia e suas alegadas bênçãos.
Fora das pequenas minorias radicais, essa consciência
é apolítica, espontânea; repetidamente
reprimida; ´ideológica´ - mas
também encontra expressão na própria
base da sociedade. Na propagação de
greves não-autorizadas, na estratégia
militante da ocupação de fábricas,
na atitude e exigências dos jovens operários,
o protesto revela uma rebelião contra a totalidade
das condições de trabalho impostas,
contra a totalidade do desempenho a que o indivíduo
está condenado" (CRR, p.29)
*
*
7)
O fundamento intempestivo da crítica: em busca
de uma base não-subjetivista para a subjetividade
emancipatória
Retomemos
o caminho de Marcuse até aqui. Abandonado o
projeto dos anos 30 de fundamentação
da práxis materialista através de uma
ontologia antropológica do trabalho,
encetando a crítica ao produtivismo capitalista
e marxista nos anos 50, configurando uma antropologia
negativa com o desvendamento da emergência
de um novo tipo de "homem unidimensional"
(que recalca inconscientemente e mesmo suprime com
consciência cínico-esclarecida as possibilidades
objetivas da superação), Marcuse passa
à tentativa de encontrar uma nova base - pulsional
como veremos - para a emancipação social.
Desde pelo menos os anos 50 ele irá procurá-la
em Nietzsche e na psicanálise freudiana.
O que Marcuse intui, mesmo em fenômenos coisificados
ou que podem ter parentesco com a "dessublimação
repressiva", é, dialeticamente, um profundo
mal-estar:
"As
manifestações de um comportamento não-competitivo,
a rejeição da virilidade brutal, o desmascaramento
da produtividade capitalista do trabalho, a afirmação
da sensibilidade, a sensualidade do corpo, o protesto
ecológico, o desprezo pelo falso heroísmo
no espaço exterior e nas guerras coloniais,
o Movimento de Libertação das mulheres
(à medida que não encare a mulher libertada
como aquela que tem, meramente, um quinhão
igual nas características repressivas das prerrogativas
masculinas), a rejeição do culto puritano,
antierótico, da beleza e do asseio plásticos
- todas essas tendências contribuem para o enfraquecimento
do Princípio de Desempenho. Elas articulam
o profundo mal-estar, que prevalece, em geral, entre
as pessoas" (CRR, pp.38-9).
Nesses surpreendentes fenômenos de vitalidade
e espontaneidade, Marcuse divisava o anseio social
por uma "civilização sem repressão".
Sua estratégia de releitura filosófica
de Freud em Eros e Civilização
inicia-se pela desnaturalização de seu
princípio de realidade repressivo, chocando-o
com a atual obsolescência da economia de escassez:
as novas tecnologias já são suficientes
para tornar possível a "pacificação
da luta pela existência" e superar o reino
severo de Ananke (carência), ou seja,
superar o reino do trabalho (alienado), que exige
o contínuo desempenho econômico dos corpos.
A maior parte do trabalho já poderia ser reduzida
a um mínimo, enquanto a outra tornar-se-ia
próxima à auto-atividade e ao jogo.
Segundo a interpretação de Marcuse,
boa parte do recalcamento - isto é, da "mais-repressão"
determinada por este "princípio do desempenho"
- poderia, assim, ser abolida. Até que ponto
Marcuse confunde "recalque originário"
(Urverdrängung), "recalque"
(Verdrängung) e "repressão"
(ou "supressão") (Unterdrückung)
entre si, e estas formas de defesa subjetiva com a
repressão social no sentido mais amplo (que
segundo os lacanianos teriam pouco a ver com processos
imanentes à linguagem) - não se pode
ter idéia exata, pois o livro, escrito em inglês,
aplaina tais distinções (sob o termo
geral 'repression'). Em todo caso, trata-se
de abolir sobretudo a "mais-repressão"
e não simplesmente a "repressão"
em si para "libertar o desejo". Aceito esse
ponto, a partir daí, então, teríamos
condições de construir um novo princípio
de realidade, moldado livremente pela busca do prazer
não-violento, sob forma de "sublimação
não-repressiva", com a produção
de uma nova subjetividade relativamente autônoma;
enfim, teríamos o horizonte utópico
da "transformação da sexualidade
em Eros" (a eroticização do corpo
e da vida social para além do tempo e espaço
funcionais do mercado), a constituição
de um corpo vivo, de uma nova racionalidade e sensibilidade,
com uma "sexualidade polimórfica"
etc. (cf. E&C, cap. 10) - e é algo disso
o que se presume estar irrompendo nas manifestações
dos anos 60, nas greves selvagens, no movimento feminista,
negro, ecológico, hippie etc.
Mas no "Prefácio" de 66 ao livro,
Marcuse faz uma autocrítica:
"Eros
e civilização: o título expressou
um pensamento otimista, eufemístico, mesmo
positivo, isto é, que as realizações
da sociedade industrial avançada habilitariam
o homem a inverter o rumo do progresso (...) Esse
otimismo baseava-se no pressuposto de que deixara
de prevalecer o fundamento lógico para
a contínua aceitação da dominação,
que a carência e a necessidade de trabalho só
´artificialmente´ eram perpetuadas - no
interesse de preservar o sistema de dominação.
Negligenciei ou minimizei o fato desse fundamento
lógico ´obsoleto´ ter sido amplamente
reforçado (senão substituído)
por formas ainda mais eficientes de controle social"
(E&C, p.13).
Ou
seja, o fundamento "lógico" não
era tão lógico e previsível assim.
A racionalidade marxista da história, sua fé
no progresso encarnado no progresso unilateral das
forças produtivas e na organização
do proletariado, é questionada. Aqui, também,
o autor está pensando exatamente nos termos
da atual "dessublimação repressiva"
e da "factualidade cínica" da nova
ideologia propostos em O homem unidimensional,
ou seja, na instrumentalização estatal-capitalista
de Eros e Thanatos para a reprodução
do sistema dominante:
"Na
sociedade afluente, as autoridades raramente se vêem
forçadas a justificar seu domínio. Fornecem
os bens; satisfazem a energia sexual e agressiva
de seus súditos. Tal como o inconsciente,
cujo poder destrutivo representam com tanto êxito,
estão aquém do bem e do mal, e o princípio
de contradição não tem lugar
na sua lógica" (E&C, p.13, g.m.).
É
como se o "inconsciente" unidimensional
dos homens-mercadoria modelasse a história
por inteiro com suas leis compulsivas de repressão
do novo. (Talvez poder-se-ia falar aqui de uma forma
de "intempestividade do poder contra-revolucionário",
como formulamos acima, que não precisa de grandes
razões ou princípios para legitimar
sua violência).
Agora, porém, apoiado nos Grundrisse
de Marx, recém-publicados, Marcuse tem mais
motivos "objetivos" ainda para pensar que
uma forte crise sistêmica estaria pressuposta:
com a crescente automatização da produção
fabril, a lei do valor tenderia a ser radicalmente
negada (cf. E&C, p.21 e HU, pp.51-2). É
claro, porém, que tais motivos não levam
por si só à quebra da lógica
férrea do sistema de acumulação,
dadas as forças de reprodução
política do momento.
O autor busca, doravante, uma nova base subjetiva
para a emancipação que não seja
classicamente racionalista ao modo marxista tradicional
(como está pressuposto no jovem Marx, nos Manuscritos
e n´A Ideologia Alemã, p.ex.,
ou em História e Consciência de Classe
de Lukács), nem idealista ao modo hegeliano,
com toda a sua carga logicista, entrelaçando
teleologia metafísica, otimismo resignado e
happy end garantido. Ambos partem do paradigma tradicional
da filosofia do sujeito iluminista pré-freudiano.
Para Marcuse, por isso, não há mais
"fundamento lógico" que garanta a
emancipação.
Nem sempre, porém, nosso filósofo é
feliz nas formulações críticas
pós-freudianas a esse paradigma. No
Ensaio sobre a libertação, veremos
ele perguntar, assim, sobre os "fundamentos biológicos
do socialismo":
"Anterior
a toda conduta ética fundada sobre critérios
morais específicos, a moralidade é uma
´disposição´ do organismo,
cuja base é talvez a tendência
erótica a combater a agressividade, a criar
e proteger ´unidades sempre maiores´ de
vida. Teremos então, antes de todos os ´valores´,
um fundamento pulsional para uma solidariedade da
espécie humana - esta solidariedade eficazmente
reprimida até hoje pelos imperativos da sociedade
de classes e que aparece agora como condição
pressuposta da libertação" (Vers
la liberation, pp.26-27, grifos meus).
Se
é evidente para nós, hoje, após
Lacan, que o desejo e as pulsões devem muito
pouco à biologia ou à noção
de instinto natural (antes a estruturas simbólico-culturais
cristalizadas em "segunda natureza" na subjetividade
singular), mesmo assim, o interesse da questão
marcuseana permanece: é válido pensar
quais forças reprimidas (não necessariamente
assim "rousseauístas") seriam a base
(como um mero pressuposto) para uma crítica
ao sistema e sua razão dominadora. Marcuse
é ambíguo quanto à historicidade
dessa base:
"Na
medida em que esse fundamento é ele mesmo histórico
e a maleabilidade da ´natureza humana´
alcança as profundezas da estrutura pulsional
do homem, uma transformação da moralidade
poderia ´submergir´ na dimensão
biológica e modificar a conduta orgânica"
(ibid., p.27, grifos meus).
Já
em Eros e Civilização o autor,
no rastro de Schiller, Schopenhauer e Nietzsche, eleva
o Eros freudiano (o conjunto das pulsões
de vida) à posição ontológica
predominante sobre o Logos, mas também
sobre Thanatos:
"A
ontologia tradicional é contestada; contra
a concepção de ser em termos de Logos
ergue-se a concepção de ser em termos
a-lógicos: vontade e prazer. Essa contra-tendência
esforça-se por formular seu próprio
Logos: a lógica da gratificação.
// Nas suas posições mais avançadas,
a teoria de Freud compartilha dessa dinâmica
filosófica. A sua metapsicologia, tentando
definir a essência do ser, define-o como Eros
- em contraste com a sua definição tradicional
como Logos. A pulsão de morte afirma
o princípio do não-ser (a negação
do ser) contra Eros (o princípio essente) (...)
Ser é, essencialmente, lutar pelo prazer. Essa
luta converte-se num ´anseio´ da existência
humana: o impulso erótico para combinar a substância
viva em unidades cada vez maiores e mais duradouras
constitui a fonte impulsiva da civilização"
(E&C, p.118).
Assim
interpretadas, Marcuse adere claramente às
especulações metapsicológicas
(de cunho ontológico) de Freud, como críticas
ao logocentrismo da moderna filosofia do sujeito.
Mas aqui também haveria como se objetar uma
grande dificuldade téorica de tal releitura
de Freud: o vício hegeliano do telos
da reconciliação projetado sobre o dinamismo
imprevisível e infinito do inconsciente
freudiano, isto é, sobre os alvos e os objetos
não coincidentes e fundamentalmente anárquicos
das pulsões, conforme apontou Bento Prado Jr.
- o que se traduziria afinal na esperança ainda
altamente hegeliana (e pouco freudiana) de uma "psicanálise
infinitamente bem-sucedida" ("Entre o alvo
e o objeto do desejo: Marcuse, crítico de Freud"
in: __. (org.) Filosofia da psicanálise,
1991, p.40).
Tal crítica é justa também na
medida em que Marcuse não distingue enfaticamente
necessidade (que visa a um objeto específico
e satisfaz-se com ele) e desejo (sempre inconsciente
e ligado a uma fantasia etc.), nivelando muitas vezes
esse último à plena "satisfação
de necessidades humanas básicas" (E&C,
p.141); ou, no mínimo pensa, sob o nome de
satisfação de necessidades (need),
em geral, as diferentes formas de gratificação
da pulsão ou da libido, sem distinguir formas
de prazer e gozo (como fazem os lacanianos); daí
as dificuldades de se distinguir platonicamente e
a priori "falsas" e "verdadeiras"
necessidades ou desejos (como aparece em "Para
a crítica do hedonismo" in:__. Cultura
e Sociedade, vol.1), principalmente num período
de "dessublimação repressiva".
Por outro lado, ainda, na sociedade emancipada o "Eros
reforçado" como que reduziria e neutralizaria
Thanatos (ou, pelo menos, suas manifestações
destrutivas), isto é, segundo o próprio
Marcuse ele "absorveria o objetivo da pulsão
de morte" (E&R, p.202). De um ponto de vista
lacaniano isso torna-se rigorosamente impossível:
"(...)
o sujeito se realiza na perda em que ele surgiu como
inconsciente, pela falta que ele produz no Outro,
segundo o traçado que Freud descobre como a
pulsão mais radical e que a denomina: pulsão
de morte. (...) toda pulsão é virtualmente
pulsão de morte" (Lacan, Ecrits,
1966, pp.843 e 848).
Ou
seja, com Lacan a ontologia muda de sinal e sentido:
trata-se de uma ontologia monista da pulsão
de morte (cf. Vladimir Safatle - A paixão
do negativo: Lacan e a Dialética, 2006)
a ontologia da cisão estrutural do sujeito
pelo significante, que desfila em séries contínuas
pela atividade repetitiva da pulsão (de morte),
numa cadeia infinita de inadequação
aos objetos empíricos. Como interpreta o filósofo
lacaniano Vladimir Safatle:
"se [em Marcuse] a pulsão de morte é
apenas mais uma figura do princípio de anulação
de tensão advindo da carência vital,
então nada nos impede de transformá-la
em uma simples figura distorcida de Eros no interior
de uma sociedade repressiva, figura que se dissolverá
assim que Eros instaurar uma sociedade não
repressiva. Ou seja, é Eros que tem dignidade
ontológica, e não Thanatos, pois, tal
como para Kant, Marcuse não acredita em uma
realidade ontológica da negação.
Isto faz com que sejam simplesmente perdidas todas
as questões fundamentais trazidas pela pulsão
de morte freudiana, como a irredutibilidade da repetição
aos processos de rememoração e a inadequação
da pulsão aos objetos empíricos, inadequação
muito bem lembrada por Bento Prado ao insistir que
Marcuse simplesmente ignora a necessidade da distinção
freudiana entre alvo e objeto da pulsão. Assim,
para que a pulsão seja pensável no interior
do projeto marcusiano faz-se necessário ignorar
a relevância dos problemas trazidos pela repetição
e pela negatividade implícita na variabilidade
estrutural do objeto da pulsão (que indica
uma inadequação fundamental entre pulsão
e objeto empírico)". (Safatle, "Auto-reflexão
ou repetição: Bento Prado Jr. e a crítica
ao recurso frankfurtiano à psicanálise",
2004).
Isso
pressuporia, então, como parece estar implícito
no raciocínio de Marcuse, a ênfase na
cura psicanalítica pela mera rememoração
intersubjetiva do passado e neutralização
da repetição destrutiva da pulsão
(que seria fundamentalmente pulsão de morte)
(ibid.).
Essas críticas, porém, parecem-me válidas
com algumas importantes ressalvas: primeiro, porque
Marcuse não pensa em termos de mera "dissolução"
da pulsão de morte (como bem percebeu Joelton
Nascimento, "Apontamentos à margem de
Eros e Civilização", 2007). Segundo,
porque Marcuse pensa a rememoração não
exatamente em termos clínicos, muito menos
numa "psicanálise infinitamente bem sucedida"
em meio à sociedade da mercadoria, estruturalmente
neurotizada, mas antes pensa explicitamente nos termos
das Teses sobre o Conceito de História
de Walter Benjamin - a rememoração aqui
é uma questão de "ação
histórica" (E&C, p.201): trata-se
da explosão e da paralisia do continuum
da história, isto é, do tempo cumulativo
do capital e de seu modo de vida repressivo, com base
na superação do trabalho e na redefinição
radical do tempo da produção e do tempo
livre. Assim, se há um revisionismo de
Freud trata-se de um revisionismo a ser feito pela
práxis, e não nos termos racionalistas,
idealistas, ou seja, na simples mudança na
esfera de um paradigma teórico (cf. E&C,
p.113).
Mais ainda, para Marcuse de fato a rememoração
do "melhor passado e do melhor futuro" (E&C,
p.200) é, simultaneamente um "esquecimento
ativo", tal como o conceituava Nietzsche na Genealogia
da Moral - ou ainda, um "sentir a-historicamente"
como o definiu nas Considerações
Intempestivas ("Da utilidade e desvantagem
da história para a vida", 1874, §1):
"quem
não se instala no limiar do instante, esquecendo
todos os passados, quem não é capaz
de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vitória,
sem vertigem e medo, nunca saberá o que é
felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que
torne outros felizes".
A
menor felicidade é maior felicidade quando
"é ininterrupta e faz feliz ininterruptamente".
Interromper o continuum da história
para o jovem Nietzsche era afirmar o ser, sem medo
do outro e do vir-a-ser. (A virada "heracliteana"
do último Nietzsche o coloca noutro horizonte:
para Heidegger, por exemplo, num horizonte ultrametafísico,
o da vontade de potência como último
avatar da lógica subjetiva do domínio,
do "esquecimento do ser"). Creio que para
Marcuse, tal como para Adorno da Dialética
Negativa, não se trata de ontologizar
qualquer tipo de negativo, mas de vê-lo como
historicamente determinado pela coerção
do princípio de identidade. A reconciliação,
a convivência com o diverso, um "viver
sem angústia" - isso parece-nos estar
pressuposto no raciocínio de Marcuse e de Adorno
(cf. E&C, p.139; em Adorno, para a crítica
do desvario produtivista do espírito e da práxis
burguesa, vide, por exemplo, Minima Moralia,
§ 100). Na seqüência do texto citado
das Intempestivas Nietzsche reforça:
"Pensem
o exemplo extremo, um homem que não possuísse
a força de esquecer, que estivesse condenado
a ver por toda parte um vir-a-ser: tal homem não
acredita mais em seu próprio ser, não
acredita mais em si, vê tudo desmanchar-se em
pontos móveis e se perde nesse rio do vir-a-ser"
(ibid.).
Em
terceiro lugar, e mais importante, o caminho mais
interessante para mostrar como Marcuse ainda se mantém
nalguma medida freudiano, injetando materialismo em
sua dialética, seria recuperar o que aparece
aqui e ali como a intempestividade da recusa,
que ao mesmo tempo põe a negação
objetivamente, mas sem ontologizá-la como o
faz Lacan (e seus discípulos) - algo que tem
a ver com a "intemporalidade" do inconsciente
e o caráter repetitivo da pulsão, tal
como identificado por Freud e reafirmado por Marcuse
em muitos pontos:
"o
princípio de prazer que governa o id é
´intemporal´ também no sentido
em que milita contra o desmembramento temporal do
prazer, contra a distribuição em pequenas
doses separadas. Uma sociedade governada pelo princípio
de desempenho deve necessariamente impor tal distribuição,
visto que o organismo tem de ser treinado para a sua
alienação em suas próprias raízes:
o ego de prazer. Deve aprender a esquecer a reivindicação
de gratificação intemporal e inútil,
de ´eternidade de prazer´" (E&C,
pp.59-60).
Os
processos do inconsciente freudiano são "intemporais",
afirmam-se negando a lógica do tempo linear
e o princípio da contradição,
no sentido de que "não são ordenados
no tempo, não se alteram com a passagem do
tempo; não têm absolutamente qualquer
relação com o tempo" (Freud, O
inconsciente, [1915], p.214). Apesar de historicamente
formado, seu caráter é, segundo Freud,
fundamentalmente repetitivo e resistente à
mudança. O mesmo vale para a pressão
constante e indestrutível das pulsões.
Assim rompe-se a unidade ilusória do sujeito,
que neurotizado pela manutenção de repressões
anacrônicas. Em Marcuse, a quebra da rígida
ordem do tempo-espaço do capital, a superação
da rotina quotidiana comandada pelo trabalho mercantil,
que marca todo outro como seu negativo e como sua
contradição, é o fundamento de
qualquer "emancipação erótica"
da civilização, pois abalaria também
a estrutura da subjetividade historicamente formada,
já que na hipótese marcusiana "as
pulsões do indivíduo são controladas
através da utilização social
de sua capacidade de trabalho"(E&C, p.92).
Marcuse lembra que o retorno ou a reativação
imprevisível do material recalcado,
"os
acontecimentos e experiências que podem ´despertar´
o material reprimido - são, no nível
social, os que se nos deparam nas instituições
e ideologias que o indivíduo enfrenta cotidianamente
e que reproduzem, em sua própria estrutura,
tanto a dominação como o impulso
para a destruir (família, escola, fábrica
e escritório, o Estado, a Lei, a filosofia
e moral predominantes). (E&C, p.80, grifos meus)
A
rememoração marcusiana tem algo da seleção
benjaminiana dos momentos alegres da infância
insurgindo-se no "tempo do agora". Daí
também a idéia dialética de "regressão"
em Marcuse:
"a
reativação dos desejos e atitudes pré-históricos
e infantis não significa, necessariamente regressão:
pode muito bem ser oposto - a proximidade de uma felicidade
que sempre foi a promessa reprimida de um futuro melhor.
Em uma de suas formulações mais avançadas,
Freud definiu certa vez a felicidade como a 'consumação
subseqüente de um desejo pré-histórico.
É por isso que a riqueza dá tão
pouca felicidade: o dinheiro não era um desejo
da infância'" (E&C, p.178-9).
O
Eros ontológico marcuseano afirma continuamente
a vida, negando aquilo que a nega. Neste sentido preciso,
aproximar-se-ia da "vontade de potência"
nietzscheana (devidamente criticada esta em seu aspecto
de "mau infinito", quando celebra repetindo
as mesmas "características da moralidade
que ela se esforça por superar", E&C,
p.117). Como lembra o autor, no "eterno retorno"
nietzscheano o "prazer quer a eternidade"(E&C,
p.117), a repetição do que produz diferença.
Orfeu e Narciso (devidamente interpretado para além
das patologias narcísicas) seriam, nesta versão,
os arquétipos culturais mais próximos;
sua imagem é
"da
alegria e da plena fruição; a voz que
não comanda, mas canta; o gesto que oferece
e recebe; o ato que é paz e termina com as
labutas de conquista; a libertação do
tempo que une o homem com deus, o homem com a natureza"
(E&C, p.148).
Aqui
não se trata, diz o autor, do "Eros normal"
- embebido nas fantasias metafísicas da negatividade
infinita e produtividade prometéica do espírito
e da moderna práxis burguesa - mas de um Eros
diverso, "mais pleno":
"O
Eros órfico e narcisista é, fundamentalmente,
a negação dessa ordem - a Grande Recusa.
No mundo simbolizado pelo herói-cultural Prometeu
trata-se da negação de toda a
ordem" (E&C, p.155). "A recusa visa
à libertação - à reunião
do que ficou separado" (ibid., p.154).
Marcuse
parece, assim, recusar a transcendentalização
lacaniana do desejo como falta: nesse sentido,
ainda, não estaria aparentemente mais próximo
do desejo maquínico de Deleuze e Guattari
(O Anti-édipo, 1971), concebido como
sempre afirmativo, excedente e criador ? - pois enfim,
mais próximo da "virtude dadivosa"
de Zaratustra. Com o triunfo da moralidade cristã,
diz Marcuse,
"A
pressão e a privação foram, pois,
justificadas e afirmadas; converteram-se nas forças
dominantes e agressivas que determinavam a existência
humana" (E&C: 114).
Marcuse
certamente desconfiaria também do caráter
infinitamente produtivo (ou melhor, negativo-destrutivo),
ontologicamente transcendente da pulsão lacaniana,
que, noutros moldes, está presente no Idealismo
Alemão e no "nada" sartriano do Ego
sempre transcendente de O Ser e o Nada (vide
p.ex. os comentários críticos de Marcuse
a esse respeito nas conferências "O progresso
à luz da psicanálise" e "Teoria
das pulsões e liberdade", 1974) - que
são os evidentes modelos filosóficos
importados por Lacan (Cf. Safatle, A Paixão
do Negativo). Isso não anula o dinamismo
das pulsões, mas apenas seu caráter
compulsivo, fruto da mais-repressão. O Eros
freudiano é classicamente interpretado por
Marcuse como "criador de cultura", como
o esforço para
"conservar
o ser numa escala cada vez mais ampla e mais rica,
a fim de satisfazer as pulsões de vida, protegê-las
da ameaça da não-consumação,
de extinção. É o malogro
de Eros, a falta de satisfação das finalidades
vitais, que aumenta o valor pulsional da morte"
(E&C, p.106).
Assim,
coloca-se um texto fundamental do livro. É
num sentido dialético que Marcuse interpretará
a pulsão de morte:
"As
múltiplas formas de regressão constituem
um protesto inconsciente contra a insuficiência
da civilização, contra o predomínio
da labuta sobre o prazer, do desempenho sobre a gratificação.
Uma tendência recôndita no organismo
milita contra o princípio que tem governado
a civilização e insiste em afastar-se
da alienação. Os derivativos
da pulsão de morte unem-se às manifestações
neuróticas e pervertidas de Eros, nessa rebelião.
A teoria freudiana da civilização assinala
repetidamente essas tendências contrárias.
Por destrutivas que possam parecer, à luz da
cultura estabelecida, são testemunhos da destrutividade
daquilo que se esforçam por destruir: a
repressão. Visam não só ao
ataque ao princípio de realidade, ao não-ser,
mas ainda além do princípio de realidade
- a um outro modo de ser. Denunciam o caráter
histórico do princípio de realidade,
os limites de sua validade e necessidade" (E&C,
p. 106, grifos meus).
Digamos
que o "além do princípio do prazer",
para Marcuse, visa à posição
de um novo modo de ser - uma nova identidade "flexível"
para o sujeito -, não à negação
simples, indeterminada, e no fundo, destrutiva, da
realidade externa e interna a ele. O que se estabelece,
então, é uma luta contra o tempo social
e historicamente alienado:
"A
forma tradicional da razão é rejeitada
na base da experiência do ser-como-fim-em-si
- como gozo (Lust) e fruição.
A luta contra o tempo desencadeia-se a partir dessa
posição: a tirania do devir sobre o
ser deve ser quebrada se o homem quiser tornar-se
ele mesmo num mundo que seja realmente seu" (E&C,
p.115).
Por
último, cabe constatar que uma tal "ontologia
pulsional" do homem, que poderia ser estendida
aliás ao espinozismo de Marx dos Manuscritos
de 1844 (que concedia um estatuto ontológico
às "paixões"), não
tem um papel fundante do social em Marcuse,
mas é um mero pressuposto para uma práxis
materialista de emancipação social.
Uma espécie de ontologia fraca (determinada
pelo materialismo fundamental das pulsões e
do inconsciente, afinal indestrutível e resistente
ao tempo) que poderia ser contraposta à "ontologia
negativa" do capital, suas formas de "abstração
real", incluindo as do sujeito mônada-mercadoria.
É claro que a espontaneidade e os fenômenos
intempestivos de recusa do desejo radical, clamando
pelo Real impossível, por si só
não têm o poder de se afirmar e negar
o princípio de desempenho. A repetição
em si não é redentora, facilmente capturável
que é pelas fantasias narcísicas e sado-masoquistas
imantadas pelo imaginário social capitalista.
Neste ponto, Marcuse permanece marxista. Eros se converte
em força material eficaz quando se integra
num movimento social mais amplo: não há
forças ativas de contrapoder sem educação
e prática política correspondentes,
o que pressupõe a discussão intersubjetiva,
mas como algo que não se cria e nem se esgota
nela - e neste ponto Marcuse vai além de Habermas:
"O
slogan ´sentemo-nos e vamos raciocinar juntos´
tornou-se justamente uma piada. Poder-se-á
argumentar com o Pentágono sobre qualquer outra
coisa a não ser a eficiência relativa
dos engenhos de matança - e o seu preço
?" (CRR, p.128).
O
"elemento anarquista", diz Marcuse, "é
um fator essencial da luta contra a dominação,
fator que é preciso integrar na ação
política imediata, mas o disciplinando",
pois este seria libertado e aufgehoben (isto
é, "superado" em sua imediatez) no
seio do combate social mais amplo (Vers la liberation,
p.165). Assim, por exemplo:
"A
libertação sexual pode ir muito longe
sem pôr em perigo o sistema capitalista em sua
fase avançada (...). Para além dessa
fase a libertação das pulsões
converte-se numa força de libertação
social somente no grau em que a energia sexual se
transformar em energia erótica, lutando por
mudar o modo de vida numa escala política e
social (...) A rebelião das pulsões
ter-se-á convertido numa força política
somente quando for acompanhada e guiada pela rebelião
da razão (...)"(CRR, p.126).
Tais
momentos vitais de Eros (e, como vimos, também
contidos no aspecto rebelde das pulsões de
morte) apontam para algo não capturado na imanência
do sistema produtor de mercadorias, um exterior,
que permanece dentro - mas também já
além - deste sistema. É assim que Marcuse
redefine a crítica imanente pela integração
de um elemento externo intempestivo: indeterminado,
"não-dialético", no sentido
de não-previsto no todo imanente repressivo:
"Na
medida em que a sociedade antagônica se transforma
em uma totalidade repressiva terrível, por
assim dizer, se desloca o lugar social da negação.
O poder do negativo surge fora dessa totalidade repressiva,
a partir de forças e movimentos que ainda não
estão manietados pela produtividade agressiva
e repressiva da chamada 'sociedade da abundância',
ou que já se libertaram desse desenvolvimento
(...) E a essa oportunidade corresponde a força
de negação no interior da 'sociedade
da abundância', força essa que se revela
contra esse sistema como um todo. A força da
negação, como sabemos, não está
hoje concentrada em classe alguma. Ela hoje ainda
é uma oposição caótica
e anárquica, política e moral, racional
e instintiva: a recusa a participar e colaborar,
o nojo diante de toda prosperidade; o impulso de
protesto é uma oposição débil
e não organizada. Mas, creio, ela se baseia
em impulsos e objetivos que se encontram em contradição
inconciliável com o todo existente."
(Marcuse, "Sobre o conceito de negação
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