>visuais............

 

A primeira impressão de uma nova experiência urbana

Manoela Afonso

 

Introdução

A vivência de uma nova cidade pode ser fonte de resignificações e/ou de produção de novos sentidos. A cidade, caleidoscópica por natureza, é percebida através de fragmentos e "esses fragmentos criam analogias, produzem inusitados entrelaçamentos." (Peixoto, 2003, p.13). Essa capacidade de produção de percepções diversificadas é que alimenta a existência - física e simbólica - das cidades, pois à medida que elas geram suas próprias representações, essas mesmas representações recriam-na, numa reciprocidade sem começo nem fim.

Em 12 de outubro de 2003 desembarquei na capital federal e dela fiz minha morada por praticamente três anos. Na tentativa de conhecer melhor a nova configuração espacial que a mim, aos poucos, se apresentava, passei inconscientemente a construir minha própria cidade. Lugar especial de cruzamentos diversos - culturais, sociais, políticos, econômicos, artísticos - Brasília me fez compreender que a produção artística precisa extrapolar suas questões técnicas: uma pesquisa em arte exige um projeto poético que só se torna possível quando espaços de intersecção e de trânsitos intersemióticos são configurados.

Este ensaio trata brevemente de alguns aspectos relacionados aos processos de criação da primeira gravura da série gráfica desenvolvida a partir de uma nova experiência de cidade. Ao conhecer algumas das várias facetas de Brasília - a Brasília-arquitetura, a Brasília-epopéia, a Brasília-poder, a Brasília-poema, a Brasília-monumento, a Brasília-arte - fui induzida à produção de mais um fragmento para esse seu caleidoscópio: Brasília Gravada, minha cidade gráfica.


Brasília Gravada

 

Brasília Gravada é uma série composta por gravuras produzidas a partir de pequenas matrizes gravadas em relevo (figura 1) e carimbadas repetidamente sobre a superfície do papel. Essa produção gráfica surgiu concomitantemente à vivência de um espaço urbano atípico e até então por mim desconhecido: Brasília. A nova experiência espacial - e também temporal - foi incorporada quase que imediatamente ao meu fazer e pensar gravura. Não pude ficar imune, num primeiro momento, ao ritmo arquitetônico, aos grandes espaços vazios, à horizontalidade e à monumentalidade dessa cidade. Além dos aspectos formais de sua arquitetura e de seu urbanismo, os feitos e escritos de figuras como Juscelino Kubitschek, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Nicolas Behr e Athos Bulcão também influenciaram minhas escolhas poéticas.

 


Figura 1. Matrizes: carimbos de borracha nas dimensões 3,5 x 5,5cm.

 

A produção dessas gravuras foi a maneira - e a forma - que encontrei para expressar meu mapa mental inicial de Brasília. Procurei, assim, deixar impressas minhas impressões sobre as primeiras relações afetivas, estéticas, históricas e culturais que estabeleci com essa cidade e que, de certa forma, podem somar algo à sua história. "Por meio da gravação, gerando signos, reorganizando-os como linguagem poética, o artista procura o sentido. A técnica empregada é um canal de comunicação entre o ser e a matéria" (Buti; Letycia, 2002, p.13). Eu utilizei a gravura - enquanto técnica e linguagem - para conhecer melhor a nova realidade que a mim se apresentou. Esse fazer transformou-se em conhecer, pois os processos de produção nos quais mergulhei exigiram um constante confronto sensível, investigativo e direto com o viver a cidade e com o viver na cidade.
Apresento, a seguir, um breve relato a respeito dos processos de criação que envolveram a produção da primeira gravura criada para essa série gráfica.

 

Só dois candangos?

Brasília Gravada começou a tomar corpo quando gravei a sua primeira matriz (Figura 2) que, assim como todas as outras produzidas posteriormente, foram feitas a partir de borrachas plásticas nas dimensões 3,5 x 5,5 cm, fabricadas à base de PVC, da marca Faber-Castell, referência TK - Plast. A opção por utilizar dimensões tão mínimas surgiu certamente devido à praticidade em manusear esse material, uma vez que com a mudança de cidade, meu espaço de produção se encontrava inicialmente reduzido.



Figura 2. A primeira matriz.


A primeira matriz teve origem na escultura Os Guerreiros, de Bruno Giorgi (1905/1993), uma escultura em bronze com 8 m de altura, localizada em frente ao Palácio do Planalto, na Praça dos Três Poderes. Tais guerreiros de armas em riste fizeram-me pensar, naquele momento, muitas coisas a respeito do povo brasileiro como um todo e do cidadão enquanto indivíduo. Ali, diante de Os Guerreiros, eu pensava "Brasília" e também "Brasil". Foi nesse lugar que aos poucos me dei conta de que a aventura estético-urbana na qual eu mergulhara certamente continha significados que eu desconhecia. Além da arte presente em forma de esculturas, painéis, murais e na composição arquitetônica e urbanística de Brasília, a cidade também apontava, a cada metro quadrado, para detalhes da epopéia de sua construção e do momento político no qual ela ocorreu. Um desses apontamentos surgiu quando, mais tarde, descobri que a escultura Os Guerreiros é conhecida popularmente pelo nome Dois Candangos. Como eu desconhecia o significado da palavra "candangos", iniciei uma pesquisa que não apenas elucidou tal termo, mas também me conduziu à fascinante história da construção de Brasília e me levou à produção da primeira gravura da série Brasília Gravada, a qual batizei com o nome "Só Dois Candangos?" (Figura 3).

Essa gravura carrega no nome uma pergunta que tem o objetivo de chamar a atenção para os construtores anônimos de Brasília, ou seja, aqueles que ficaram à parte das glórias individuais no processo do registro histórico dessa epopéia. Candangos foram aqueles que, sedentos por trabalho, se deslocaram de outros cantos do país para, com seu suor, dar concretude ao sonho mais ousado de Juscelino Kubitschek: construir Brasília, a nova capital federal, em pouco mais de quatro anos.



Figura 3. Só 2 Candangos? 38 x 55,5 cm. Carimbo de borracha sobre papel Torchon, Van Gelder Zonen 190g

 

A leitura de depoimentos e a observação de vídeos e fotografias dos trabalhadores nos canteiros de obra, somadas à impregnação da repetição presente na arquitetura e no urbanismo de Brasília em minha memória, produziram uma necessidade urgente e compulsiva de multiplicar a imagem que eu havia gravado na borracha. Devido às suas pequenas dimensões, a decisão de usá-la como carimbo foi automática, fato que agregou à produção uma ação simbólica muito significativa: o ato de carimbar.

O carimbo, símbolo da burocracia, representa uma das facetas de Brasília: a de máquina pública extremamente burocrática e lenta. De certa forma, burocrático (porque uso o carimbo) e lento (porque preciso de extrema concentração), também é o processo de confecção das gravuras da série Brasília Gravada. A diferença é que procuro fazer de tais qualidades estagnantes um exercício lúdico de produção criativa em gravura.

É verdade que a paciência se tornou um fator importante durante os processos de impressão, assim como para aqueles que utilizam o serviço público, paciência também é fundamental. Se numa das carimbadas a pressão da mão sobre o módulo de borracha somada à quantidade de tinta utilizada na sua entintagem não estiverem de acordo com as exigências particulares de cada uma das matrizes, provavelmente a imagem resultará em erro, a gravura terá que ser descartada e a impressão recomeçada do zero. É preferível que o erro seja resultado de uma impressão com pouca pressão ou pouca tinta, pois nesse caso é possível corrigir as falhas na imagem através de retoques. Caso o erro seja resultado de excessos, a única alternativa é recomeçar toda a impressão numa nova folha de papel. Não é possível resgatar imagens estouradas, a não ser que sejam detalhes mínimos, os quais podem ser corrigidos através da raspagem suave do papel com estilete. Nesse processo monotípico, erro representa erro de fato, ou seja, dificilmente um erro conduzirá a um acerto ou a uma nova solução satisfatória. Então, é preciso muita calma durante a impressão dessas gravuras, pois o trabalho é demorado e exige um "prender a respiração" para que a mão não hesite.

O ato de carimbar se transformou numa deliciosa brincadeira de repetição modular a qual, de quando em quando, proporcionava soluções visuais diferentes a partir de uma mesma matriz. Esses exercícios fizeram com que eu deixasse de me preocupar com certas características da gravura tradicional, tais como a produção de tiragens assinadas e numeradas e as impressões uniformes controladas por registros. Compreendi então que, mais importante que o exercício da técnica dentro da tradição da gravura, era a forma de utilizar o pensamento gráfico e transportá-lo para uma produção contemporânea. Muitos gravadores deixaram de se preocupar, há tempos, com certos cânones. Marco Buti, por exemplo, chama a atenção para esse aspecto ao afirmar que

a gravura não é uma linguagem estagnada: novas possibilidades foram e continuam sendo incorporadas. Ela é testemunho não só de um desenvolvimento técnico, mas também sócio-cultural. Existem registros de maneiras de gravar usadas especificamente para a cópia e multiplicação de imagens, antes do advento da fotografia. Esta função é hoje secundária. O sentido de fazer uma imagem potencialmente múltipla agora, quando a reprodução e o simulacro se tornaram regra, é inteiramente distinto de épocas em que a gravura era a única imagem com tais características (Buti; Letycia, 2002, p.12).

Na série Brasília Gravada, uma matriz não pressupõe apenas a multiplicação de uma mesma imagem, mas também, a ampliação de possibilidades visuais a partir dessa imagem única. O múltiplo não compõe uma tiragem, mas uma imagem. Talvez represente até mais que isso: não apenas uma imagem, mas uma idéia. A multiplicação do módulo dá forma a uma idéia, de maneira que ela pode ser, em sua lógica, também multiplicada independentemente do tipo ou tamanho do seu suporte. Ou seja, a gravura Só 2 Candangos?, por exemplo, carrega uma lógica compositiva que pode ser reproduzida em qualquer outra superfície. Sendo assim, Só 2 Candangos? não corresponde ao título de uma gravura, mas a uma idéia compositiva. O múltiplo se transformou numa espécie de mecanismo de pensamento capaz de dar forma aos conhecimentos visuais, corporais, sensoriais, históricos, enfim, que adquiri com e sobre Brasília.

 

*Mais imagens e informações sobre a série de gravuras Brasília Gravada podem ser encontradas em http://www.manoelaafonso.wordpress.com

Bibliografia recomendada sobre o assunto
BRAGA, Andréa da Costa. Guia de urbanismo, arquitetura e arte de Brasília. Brasília: Fundação Athos Bulcão, 1997.
BUTI, Marco; LETYCIA, Anna (Orgs). Gravura em Metal. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado, 2002.
BUTI, Marco. Caros artistas, pesquisem. É suficiente. In Ars: publicação do Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. vol. 3. no 6. São Paulo: O Departamento, 2005. p. 88-97.
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
CENTRO DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS DE ARQUITETURA. Lúcio Costa: sôbre arquitetura. 1 volume. Porto Alegre: Imprensa Universitária, 1962.
COELHO NETTO, J. Teixeira. A construção do sentido na arquitetura. São Paulo: Perspectiva, 2007.
CRULS, Luiz. Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil: relatório Cruls. Brasília: Codeplan,1992.
FREITAS, Grace de. Brasília e o projeto construtivo brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
FUNDAÇÃO ATHOS BULCÃO. Athos Bulcão. São Paulo: Fundação Athos Bulcão, 2001.
GORELIK, Adrián. Das vanguardas a Brasília: cultura urbana e arquitetura na América Latina. Belo Horizonte: UFMG, 2005.
GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL. Arquivo Público do Distrito Federal. Companhia do Desenvolvimento do Plano Central. Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal. Relatório do Plano Piloto de Brasília. Brasília: GDF, 1991.
KUBITSCHEK, Juscelino. Meu caminho para Brasília. Vol. 1. Rio de Janeiro: Bloch, 1974.
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens urbanas. 3ª ed. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004.
REY, Sandra. Da prática à teoria: três instâncias metodológicas sobre a pesquisa em poéticas visuais. In PORTO ARTE. v. 7, n. 13. Porto Alegre, 1996. p. 81-95.
SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. 2 ed. São Paulo: FAPESP: Annablume, 2004.
_____________. Redes da criação: construção da obra de arte. São Paulo: Horizonte, 2006.
SINDICATO DA INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL DO DISTRITO FEDERAL. Do imaginário ao concreto: Brasília, uma narrativa da construção civil. Brasília: Teixeira Gráfica e Editora, 2004.
SOUSA, Nair Heloísa Bicalho de. Construtores de Brasília: estudo de operários e sua participação política. Petrópolis: Vozes, 1983.
TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.

 

 

 

Comente esse artigo

Adicione esse artigo

Pactos sinistros, crimes delicados de Adalberto Müller

Pastiches, paródias, paráfrases: Machado de Assis e a tradição de literatura no século XiX de Diego Rodrigues Flores

Sociedade de controle e capitalismo rizomático de Marcos Guilherme de Araújo

 

...

 

 

 

 

Get this widget!

 

 

 

 

C..divulgação...envie originais...quem somos...OPML...newsletter...expediente