
Muitas
são as concepções, as definições
e os conceitos de cultura. Uma concepção descritiva,
apontada por John Thompson no livro "Ideologia e Cultura
Moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação",
caracteriza "a cultura de um grupo ou sociedade como o conjunto
de crenças, costumes, idéias e valores bem como
os artefatos, objetos e instrumentos materiais, que são
adquiridos pelos indivíduos enquanto membros de um grupo
ou sociedade". Refere ainda Thompson, a partir da antropologia,
uma outra maneira de se pensar a cultura. Ele a chama de concepção
simbólica, e distingue que a "(...) cultura é
o padrão de significados incorporados nas formas simbólicas,
que inclui ações, manifestações verbais
e objetos significativos de vários tipos, em virtude dos
quais os indivíduos comunicam-se entre si e partilham suas
experiências, concepções e crenças".
Nesta
acepção, as formas simbólicas são
expressões e criações de uma(s) pessoa(s)
para outra(s) pessoa(s). As formas de produção,
os aspectos de transmissão e recepção são
processos pautados na aplicação de regras, códigos
e convenções de vários tipos. E para manter
estas comunicações, algumas formas simbólicas
precisam estar estruturadas e articuladas em determinados contextos
e situações. Continua Thompson, "Elas exibem
uma estrutura articulada no sentido de que consistem, tipicamente,
de elementos que se colocam em determinadas relações
uns com os outros. Estes elementos e suas inter-relações
compõem uma estrutura que pode ser analisada formalmente,
da mesma maneira, por exemplo, que se pode analisar a justaposição
de palavras e de imagens em uma figura ou a estrutura narrativa
de um mito".
Thompson
observa também que, esta forma simbólica (no caso,
as imagens) contém em si o seu aspecto referencial, ou
seja, são construções que tipicamente representam
algo, referem-se a alguma situação acontecida, dizem
algo sobre alguma coisa. Num momento subseqüente este algo
criado, no plano do espaço e tempo, possui também
um aspecto contextual. Elas estão dentro de um processo
sócio-histórico humano dentro das quais e por meio
dos quais elas são produzidas, transmitidas, recebidas
e consumidas. Em torno da produção e transmissão
cultural destas formas simbólicas a sociedade se organiza
em suas várias atividades.
Neste
ponto de vista, qualquer que seja a leitura recorrente em relação
às imagens dentro de determinada cultura, elas confirmam
uma idéia central, como aponta no livro "A Imagem"
Jacque Aumont: "A imagem é sempre modelada por estruturas
profundas, ligadas ao exercício de uma linguagem, assim
como à vinculação a uma organização
simbólica (a uma cultura, a uma sociedade); mas a imagem
é também um meio de comunicação e
de representação do mundo, que tem seu lugar em
todas as sociedades humanas".
Com
a crescente industrialização e urbanização
experimentadas nos séculos 19 e 20, o advento do rádio,
fotografia, cinema e o desenvolvimento das várias técnicas
de reprodução destas mensagens simbólicas,
como demonstrou o pensador alemão Walter Benjamim, a noção
de cultura é por assim dizer "contaminada" com
o aparecimento de novas formas mediadoras nas relações
humanas.
Sistema
Policultural
Antes,
a igreja e a família, instâncias formadoras de condutas
sociais e morais para os indivíduos, eram os principais
lugares na criação e mediação dos
valores e mitos. Os equivalentes contemporâneos, como a
cidade, o shopping center, a ciência (as universidades e
as academias), os meios de comunicação, principalmente,
a imagem da televisão, agentes produtores de cultura, liberaram
a noção da cultura como um processo autônomo
para o seu antônimo, o processo fabricado, racionalizado
do ponto de vista tecnológico, cuja função
primordial é a integração deliberada.
Nos
EUA, após a Segunda Guerra Mundial consolida-se no campo
dos meios de comunicação de massa uma perspectiva
cultural funcionalista pautada nas fontes geradoras de informação
e imagens. O uso das técnicas de produção,
modelos formais e matemáticos representam a necessidade
de justificação de um mundo "moderno",
bem-acabado, que passa a ser um objeto de consumo. Ou seja, a
cultura fabricada fornece aos homens, num mundo pretensamente
caótico, alguns critérios para sua orientação.
Revelando-se aí seu caráter manipulador, esta cultura,
numa escala industrial, feita em série, para uma grande
demanda, passa a servir não como instrumento de crítica
e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro
e que deve ser consumido como se consome qualquer outra mercadoria.
Esta Indústria Cultural cria o seu novo produto, a cultura
de massa. Como propõe Dominic Strinati: "Podemos considerar
que cultura de massa é a cultura popular produzida pelas
técnicas de produção industrial e comercializada
com fins lucrativos para uma massa de consumidores. É uma
cultura comercial, produzida para o mercado".
Num
segundo momento, e numa outra concepção, levando-se
em conta a relação entre o consumidor e o objeto
de consumo, complementar aos pensamentos dos teóricos da
Escola de Frankfurt, os quais trabalhavam suas idéias principalmente
a partir e em torno do emissor do processo produtor de cultura
(uma concepção restritiva, segundo alguns pensadores
contemporâneos), Edgard Morin apresenta-nos a idéia
de que não se pode reduzir a cultura de massa a um ou alguns
dados essenciais. Numa leitura mais ampla, para Morin a cultura
de massa forma um sistema policultural agregando civilização
e história. Ela não é autônoma, e,
sim complexa, articulada, cheia de incertezas e desafios, e híbrida
ao congregar várias sociedades, pois se alimenta da cultura
nacional, religiosa, cultura do Oriente (Ásia), mitos,
imagens e sons vindas de todas as partes. Ela é caracterizada
por um sincretismo, o qual acarreta conseqüências inevitáveis
e importantes, como, por exemplo, a tendência para a homogeneização
entre os dois grandes setores da cultura de massa do mundo contemporâneo:
a informação e a ficção.
Mediador
por Excelência
No
estágio atual, enquanto a ficção se tinge
de realismo, este, nas suas retratações, versões,
histórias e intrigas do real, aproxima-se do imaginário
potencializando-o, principalmente através das imagens construídas,
e expostas nos meios de comunicação. A cultura de
massa deste início de milênio é o próprio
sincretismo entre o real e o imaginário. Segundo Morin,
um agregado de ordem/desordem/organização, um processo
e pensamento aptos a unir, contextualizar, globalizar um encontro
de vários saberes, várias culturas, onde o todo
está nas partes, e a parte no todo. Uma cultura de complementares
e interdependência de várias outras culturas.
Nesta
cultura interdependente, Eugênio Bucci, a partir das idéias
de Morin, demonstra que a narração pendular na televisão
aberta baseia-se num imenso sanduíche, onde os recheios
se superpõem, uma hora jornal local, depois uma telenovela,
em seguida o jornal nacional/internacional, depois, outra novela,
em seguida um programa do real, novamente algo ficcional, e por
assim vai. Um acompanha e segue o outro, fazendo-se pensar numa
lei não escrita (como propõe Buci), e que pauta
o regime das imagens na televisão brasileira. Entre estes
recheios temos outro tipo de imagem: as da publicidade, cuja base
são os anseios reais e naturais dos consumidores.
A partir dos aspectos observados anteriormente, começamos
a desenhar o que chamaremos de cultura da imagem. Partimos da
idéia central e indissociável que existe entre imagem,
televisão e a publicidade: elas se alimentam mutuamente.
A imagem é a mensagem, a publicidade, a linguagem e a televisão,
o suporte e veículo. O elemento central e gênese
dos outro dois são a imagem, o mediador por excelência.
Pois bem, elegemos a imagem publicitária como o alicerce
principal desta cultura de massa. Outrora no cinema, e, atualmente
alternando-se na televisão em blocos distintos, e em função
dos horários, jornais, novelas, filmes e programas fixos,
ela se faz presente em toda a grade de programação
das emissoras. Em relação aos noticiários,
a presença das imagens publicitárias é maciça
e contagiante.
Representação
do Mundo
Um
exemplo simples de sua atuação: após o bloco
internacional de um telejornal, focalizando guerras, atentados
e prisões, entra um comercial de cerveja, refrigerante
e sanduíches, atrizes e modelos, anunciando marcas da moda
conferindo o convencimento - aqui se faz presente à função
conatio, proposta por Jakobson -, o prazer e a alegria de consumo.
Demonstrando mais uma função da imagem: voyeurista,
de gozo e fetiche, organizando o padrão da oferta e demanda
em meio à caótica realidade do mundo, cheio de problemas
sociais, pobreza, miséria, crimes e catástrofes
"televisionados" para o público em geral, principalmente,
no horário nobre, normalmente na parte noturna (entre 19
e 23 horas).
Horário
em potencial, tendo a maioria dos trabalhadores recém-chegados
das suas atividades laboriais, no seu recolhimento privado, e
desfrutando das novidades anunciadas pelas diversas imagens oriundas
de seus aparelhos de TV. Perfazendo, já em 1944, as idéias
centrais de Adorno e Horkheimer em torno da publicidade e a Indústria
Cultural: "A cultura é uma mercadoria paradoxal. Ela
está tão completamente submetida à lei de
troca que não é mais trocada. Ela se confunde tão
cegamente com o uso que não se pode mais usá-la.
É por isso que ela se funde com a publicidade. Quanto mais
destituídas de sentido esta parece ser no regime do monopólio,
mais todo-poderoso ela se torna. Os motivos são marcadamente
econômicos. Quanto maior é a certeza de que se poderia
viver sem toda esta indústria cultural, maior a saturação
e a apatia que ela não pode deixar de produzir entre os
consumidores. Por si só ela não consegue fazer muita
contra essa tendência. A publicidade é seu elixir
da vida. Mas como seu produto reduz incessantemente o prazer que
promete como mercadoria a uma simples promessa, ele acaba por
coincidir com a publicidade de que precisa, por ser intragável.
(...) O abandono de uma prática publicitária corrente
por uma firma particular significa uma perda de prestígio,
na verdade uma infração da disciplina que a clique
dominante impõe aos seus. (...) O caráter de montagem
da indústria cultural, a fabricação sintética
e dirigida de seus produtos, que é industrial não
apenas no estúdio cinematográfico, mas também
(pelo menos virtualmente) na compilação das biografias
baratas, romances-reportagens e canções de sucesso,
já estão adaptados de antemão à publicidade:
na medida em que cada elemento se torna separável, fungível
e também tecnicamente alienado à totalidade significativa,
ele se presta as finalidades exteriores à obra. O efeito,
o truque, cada desempenho isolado e repetível foram sempre
cúmplices da exibição de mercadorias para
fins publicitários, e atualmente todo close de uma atriz
de cinema serve de publicidade, e de seu nome, todo sucesso tornou-se
um plug de sua melodia. Tanto técnica quanto economicamente,
a publicidade e a indústria cultural se confundem".
As teorias contemporâneas discutem as implicações
societárias da centralidade que as mídias adquiriram
na vida cotidiana alterando a sociabilidade humana e as formas
de representação do mundo.
Papel
Integrador
David
Harvey no livro "Condição Pós-Moderna"
observa que vivemos num tempo da "indústria da produção
de imagens", especializada na aceleração do
tempo de giro e consumo por meio da produção e venda
de imagens, criando uma competição no mercado de
construção de imagens, a qual passa a ser o aspecto
fundamental da concorrência entre as empresas, o foco central,
o seu próprio simulacro, a padronização da
identidade e o seu problema: "Os materiais de produção
e reprodução dessas imagens, quando estas não
estão disponíveis, tornam-se eles mesmos o foco
da inovação - quanto melhor a réplica da
imagem, tanto maior o mercado de massas da construção
da imagem pode tornar-se. Isso constitui por si só uma
questão importante, levando-nos de modo mais explícito
a considerar o papel do 'simulacro' no pós-modernismo.
Por 'simulacro' designa-se um estado de réplica tão
próxima da perfeição que a diferença
entre o original e a cópia é quase impossível
de ser percebida. Com as técnicas modernas, a produção
de imagens como simulacros é relativamente fácil.
Na medida em que a identidade depende cada vez mais de imagens,
as réplicas seriais e repetitivas de identidades (individuais,
corporativas, institucionais e políticas) passam a ser
uma possibilidade e um problema bem reais".
A
partir do mercado, o grande sustentáculo do mundo da cultura
da imagem atual, cabem às imagens publicitárias,
- principalmente às oriundas da TV, pautadas na força
do mau uso dos slogans, fazendo os apelos necessários aos
interesses individuais - o seu papel integrador, prendendo a atenção
dos consumidores, para logo em seguida de forma impactante, resumida
e incitativa "capturar a presa".
Aqui
a publicidade se alimenta dos slogans. O reino dos imperativos,
um "pensamento-pronto-para-vestir", segundo Olivier
Reboul ("O Slogan", escrito em 1975). Com uma certa
diferenciação: enquanto o "slogan comercial"
faz apelos individuais, o "slogan político",
contido nas propagandas, agrupam as pessoas num objetivo comum,
criando um laço horizontal entre elas. No final das contas,
a função do slogan na TV é não levar
as pessoas à reflexão.
Procura
da Coletividade
Podemos
concordar então que a imagem publicitária é
dirigida ao receptor, sendo este o elemento capaz de consumi-la
e consumá-la. Primeiro ao vê-la na TV, e, também
no cinema, na internet, no videocassete, no DVD, etc., para em
seguida no ato da compra das mercadorias em supermercados, locadoras
e shopping centers, consubstanciar assim a propriedade desta imagem
pelo seu produto exposto: a mercadoria.
Entretanto,
Eduardo Neiva Jr. observa: "O objetivo da imagem publicitária
seria simplesmente vender produtos? Certamente seriam insensatos
os volumosos gastos de produção e veiculação
de anúncios se não houvesse retorno de capital,
mas, ao mesmo tempo, a imagem publicitária enuncia uma
afirmação de natureza sociológica: a publicidade
ilustra algo mais do que um produto; torna visíveis idéias
tidas como consensuais pela coletividade; sua eficácia
dependerá do reconhecimento que receber. A imagem publicitária
é sustentada por uma forte mitologia que nos é comum;
assim, ser visível simplesmente exprime a verdade das representações.
O slogan oraliza máximas que a coletividade vive piamente
como verdadeiras".
A
imagem na publicidade é uma obrigação e meio
de sobrevivência. Em 99% dos casos não há
anúncios sem figuração e programas de TV
sem patrocinadores. A ilustração dos objetivos assume
os tipos fantasias, emblemas potencializados pela policromia,
composições, planos e edições que
hiperbolicamente clamam pela atenção, e sinalizam
um tipo de retórica visual, que poderemos invocar como
a imagem do comércio. Este é o cerne da cultura
da imagem e sua necessidade: a imagem feita para o consumo. Consumo
imediato, rápido, sem reflexão e com forte dose
de prazer. Neste reino as próprias imagens das novelas
e telejornais acabam virando uma mercadoria a mais: objeto de
consumo, deleite superficial de um tipo de leitura do mundo externo
já pronto, imagens do cotidiano.
Mas
é a publicidade quem comanda e leva os efeitos da imagem
ao extremo. Determinando horários, cenas e até índices
de audiência de determinados programas na TV. Fazendo a
operação inversa, ao invés de ser determinada
e comandada pelo nível, qualidade e demanda do programa
televisivo, é ela que governa e determina esta nova demanda
de imagens. A questão atual é tão intrincada
que às vezes vê-se televisão não só
por causa dos programas de auditório, entrevistas, novelas,
esportivos e jornais. O condicionamento é tamanho que o
espectador já se acostumou com a idéia dos blocos
de imagens publicitários. Eis a procura da coletividade,
como apontou Neiva anteriormente.
Ligeiramente
Insatisfeito
Este
respiradouro funciona como uma pílula de novidades contendo
as últimas descobertas da ciência. Todos com certificado
de garantia, posologias e atestados para o consumo. A imagem de
tão límpida e "pura", por si só
seduz, envolve e crava o seu poder na retina dos desejos dos espectadores.
E junto aos programas a imagem publicitária nele se integra.
Parecendo uma parte do todo, seu apêndice. Tornando-se,
por assim dizer, postular que é impossível fazer
uma análise mais ampla de qualquer programa de TV sem levar
em conta o seu patrocinador e a ordem das imagens publicitárias
na grade e blocos comerciais que sustentam o horário de
programação da emissora.
Sem
perder de vista a noção central da imagem como representação,
uma representação fabricada por algum objeto (uma
filmadora, uma câmera fotográfica, etc.), observamos
que ela deflagra a idéia da substituição
do objeto por sua função e não sua forma.
Ou seja, na sua emissão, que está diretamente ligado
ao destinatário, já contém os elementos que
devem ser percebidos e entendidos pelo seu público, dotando-a
com seus devidos valores, de comparação, troca e
uso. O mundo da cultura da imagem é uma construção,
principalmente, a partir da imagem publicitária, e contém
uma artificialidade peculiar. A figuração da cena
que será apresentada sedutoramente ao consumidor está
imbuída da condição de felicidade e prazer,
ocasionando ao espectador, sentado na sua poltrona em seu lar,
o desfrute do mundo externo, em meio à segurança
e o desejo de que ela o ajudará na compreensão e
organização de sua vida cotidiana.
A
cultura da imagem busca o empenho em transformar o eu e o próprio
estilo de vida, enriquecendo agradavelmente o âmbito privado.
É fundada na constante produção e reprodução
de imagens reconhecíveis por seus donos (emissores) e seu
público (receptores). Alimenta-se da imagem publicitária
não como uma celebração de um prazer em si.
Oferece-lhe, remetendo sempre ao futuro comprador, uma imagem
de si próprio tornada sedutora pelo produto ou pela oportunidade
que ele está tentado vender. Convém observar que
a publicidade gira em torno de relações sociais,
e não dos objetos. O seu objetivo é tornar o espectador
ligeiramente insatisfeito com seu atual modo de vida, encorajando-o
a comprar o que ela está oferecendo, uma opção
atualizada e melhorada, que tornará a sua vida melhor.
Como ressaltar no livro "Modos de Ver" John Berger,
"alternativamente, a ansiedade com que a publicidade joga
é o medo de que, nada tendo, uma pessoa nada é".
Dosagens
Narrativas
No
mundo da cultura da imagem, a publicidade é uma espécie
de sistema filosófico positivista. Explica tudo com sua
própria linguagem. Interpreta o mundo. Berger correlaciona
um outro tipo de função social, o efeito político,
advindo das imagens publicitárias: "A publicidade
tem outra importante função social. O fato de que
esta função não foi planejada como um objetivo
por aqueles que fazem e usam a publicidade não diminui
de maneira alguma sua significação. A publicidade
faz do consumo um substituto para a democracia. A escolha daquilo
que comemos (ou vestimos, ou dirigimos) toma o lugar de uma escolha
política significativa. Ela ajuda a mascarar e compensar
tudo o que não é democrático no interior
da sociedade. E também mascara o que está acontecendo
no resto do mundo."
Na
"Sociedade do Espetáculo", Guy Debord já
observava as mesmas coisas apontadas na citação
de Berger, ao caracterizar esta variedade de marcas e mercadorias
no mercado como um exemplo típico do "espetáculo
difuso" existente nas sociedades democráticas representativas.
Nesta
constante persuasão, a publicidade é a vida dessa
cultura da imagem, pois sem ela o capitalismo não poderia
sobreviver, e esta é, ao mesmo tempo, seu sonho. Ela pode
encorajar um certo conformismo passivo na escolha das mercadorias,
mas, complementa, procura a diversificação e dota
os indivíduos de um sentido especial: ver os diferentes
sinais e marcas, a decodificar as múltiplas diferenças
e detalhes existentes nas roupas, livros, alimentos, automóveis,
bebidas, ambientes, notícias, etc.; enfim faz com que seja
vista também como uma opção a mais e meio
relacional na hora das compras. Torna-se sinônimo de liberdade.
Novamente Berger: "A publicidade é geralmente explicada
e justificada como uma mídia competitiva que em última
instância beneficia o público (o consumidor) e os
fabricantes mais eficientes - e desse modo, a economia nacional.
É estreitamente relacionada a certas idéias sobre
liberdade: liberdade de escolha para o comprador; liberdade de
empreendimento, para os fabricantes. Os grandes tapumes cobertos
de cartazes e os néons publicitários das cidades
do capitalismo são o sinal visível imediato do 'Mundo
Livre'".
A
sociedade contemporânea é a sociedade da saturação
estética dos sinais e imagens. Todos os dias, nós
nos deparamos com centenas de imagens publicitárias e propagandas
(para efeito didático, adotamos aqui a distinção
clássica entre publicidade e propaganda. Enquanto a publicidade
é o reino da mercadoria - no pensamento marxista, a infra-estrutura
-, a propaganda é o institucional, a política e
campanhas sociais diversas - a superestrutura -; não quer
dizer um fechamento em torno da questão. Pois, os termos
se confundem, trabalhando ora objetivos mais mercadológicos,
ora institucionais, ou os dois ao mesmo tempo... em casamento
com o marketing, se fundem, ficando difícil dizer onde
começa um, e/ou acaba o outro; há autores que trabalham
as duas palavras como sinônimas). Ou seja, vivemos num mundo
concentrado de imagens e denso de mensagens visuais. Entretanto,
a sua cultura é uma cultura visual com diferentes dosagens
narrativas por parte do emissor, pois dois são os fatores
determinantes da concorrência: a seletividade por parte
do receptor e a multiplicidade de sinais e emissoras presentes
atualmente.
Grande
Agregado
A
cultura da imagem está pautada numa linha de montagem da
película ou filme, onde os sinais, cada vez mais nítidos,
informatizados e digitalizados são acrescidos à
vontade para cada unidade de imagens feitas pelo emissor. Ela
é um grande agregado tecnológico-estético.
Uma enorme adição, uma hipérbole sem fim
de sons, vozes, expressões corporais, cores previamente
escolhidas para a formatação dos cenários,
desenhos e enfoques feitos e regulados pelo computador gráfico
em seus aspectos e apelos visuais (planos, seqüências,
zoom, enquadramentos, etc.). Estes elementos, em conjunto com
a linguagem publicitária, o marketing, as lentes potentes,
os jogos de luzes e câmeras cada vez mais modernas e seus
cenários dotam a imagem de tal prestígio e poder
que ela acaba legitimando a própria realidade: "A
imagem não mais se restringe à transformação
do elemento representado em elementos representantes. Em suas
possibilidades, ela é metáfora, metáfora
purificada do real, por vezes inconfortável e mutante,
a ponto de ser uma representação pura que escapa
aos confins do corpóreo. Este não é mais
o limite. Aspira-se à apresentação imagética
de processos mentais. A imagem, agora, pode atingir o incorpóreo;
ela legitima o real". Eis a ponderação capital
apontada por Neiva.
No
mundo atual, o rumor das imagens é a própria Lei
da Gravidade. Uma alegoria que escapa os confins do corpóreo
e tangencia parte da memória. Naturais, artificiais e fragmentadas
deslocam-se sem parar. Hiperbólicas. Fazem vida mudar.
Legitimam a realidade. A cultura da imagem é um grande
agregado tecnológico-estético nos fios óticos
da TV a cabo e nas antenas parabólicas. Neste emaranhado,
o que importa é a evocação de uma ética
das imagens. Como escreveu Nelson Brissac Peixoto, uma ética
que dá tempo e lugar às pessoas e às coisas.