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Nelson Rodrigues: poética do excesso e tragédia moderna

Adriano de Paula Rabelo

 

Autor de dezessete peças teatrais, Nelson Rodrigues se realizou como o grande dramaturgo brasileiro, compondo uma obra que revolucionou o fazer teatral no Brasil, elevou nossa dramaturgia ao nível das melhores realizações dos outros gêneros na literatura brasileira e abriu caminho para o surgimento e o desenvolvimento de outros importantes dramaturgos.
A verdadeira revolução no teatro brasileiro promovida por Nelson Rodrigues processou-se no âmbito da técnica, dos temas, da linguagem, dos personagens postos em cena. Subvertendo as comédias de costumes representadas com dicção portuguesa, os vaudevilles, os melodramas piegas, as peças pseudo-filosóficas que dominavam o teatro brasileiro à época da estréia do dramaturgo e compunham nossa tradição teatral, Nelson Rodrigues realizará tardiamente a modernização do teatro no Brasil.
Em contraposição à verbosidade e à literatice que grassavam nos palcos de seu tempo, a dramaturgia de Nelson se realiza através de uma linguagem simples, direta e ágil, colocando na boca de seus personagens o linguajar brasileiro, geralmente em sua forma coloquial e mais despojada. Recursos técnicos de natureza expressionista, naturalista ou mesmo surrealista são empregados com freqüência, provocando surpresa e estranhamento diante da atmosfera melodramática de base. Cenas curtas, rápida progressão da ação dramática, divisão predominante das peças em três atos sem intervalo temporal entre eles indicam procedimentos técnicos peculiares ao teatro moderno. A constante tragicidade dos enredos mescla-se com o humor decorrente dos nomes ridículos de alguns personagens, da desmedida e do exagero melodramático, dos jogos de palavra, do grotesco de situações e personagens, do deslocamento de pessoas reais para a ficção, dos elementos farsescos.
Os personagens de Nelson Rodrigues são seres obsessivos, apaixonados, neuróticos, abissais, sempre postos em situações-limite, levando suas taras e suas psicopatias às últimas conseqüências. Daí quase sempre encontrarem um final violento através da morte por homicídio ou suicídio, da loucura, da fuga, da solidão absoluta. A pequena burguesia e a classe baixa dos subúrbios do Rio de Janeiro predominam em sua dramaturgia. Vez ou outra surge a figura de um magnata, algum dono da vida, desses para quem o dinheiro tudo pode comprar. A ambiência, os tipos, a gíria carioca, no entanto, não impedem a universalidade da obra, que focaliza os problemas fundamentais da condição humana. A realidade apresentada é constantemente cruel, aniquiladora dos ideais dos personagens, que se marcam quase sempre pela frustração, a baixa auto-estima, a desumanização.

Dramaturgo brasileiro de expressão universal

O ponto de partida dos temas de Nelson Rodrigues é a sexualidade reprimida e verdadeiramente deformada pelo preconceito, a hipocrisia, o cinismo das práticas e costumes de natureza social, religiosa e moral. Pessimista, ele vê como extremamente corrupta a forma como a sociedade está estruturada, sendo as ações humanas regidas pelo irracionalismo, decorrendo da falta de comunicação entre as pessoas. Abominando a dissolução do indivíduo na massa informe, preza a dignidade dos que resistem à mediocridade da visão de mundo e das formas de comportamento mais generalizadas. A trajetória do homem na Terra é vista como essencialmente solitária. Há sempre uma clara noção de Destino a determinar os rumos da existência humana. A tragédia do homem consiste no fato de, sendo finito e limitado, carregar o anseio pelo infinito e a perenidade como uma condenação. Assim, o mundo é um palco de angústia e sofrimento em que seus personagens buscam se dignificar pela realização ou ao menos a esperança do amor eterno, pela conquista de uma morte gloriosa que os resgate da mediocridade da vida que levam, pela resistência às tentações do dinheiro sujo e do sexo desvinculado do amor, pela decisão de assumir sua natureza e suas vocações a despeito da coerção dos costumes e códigos de moral hipócritas. Sábato Magaldi sintetiza com acuidade o pensamento existencial de Nelson Rodrigues:

Tendo recebido a formação cristã da classe média urbana brasileira, o dramaturgo preservou até o fim da vida a crença na divindade e em preceitos morais básicos. A dificuldade de observar esses preceitos aguça a loucura. Na terra, o homem vive o desgarramento de uma unidade perdida, inconsolável órfão de Deus. Há um deblaterar insano em terreno hostil. Resta o sentimento permanente do logro - a vida prega uma peça em todo mundo. (...) Contrabalança a vocação para o mal a certeza de uma norma superior, que regeria o universo. Acreditando-se na divindade, tudo não é mais permitido - o homem participa de uma ordem, obedece a preceitos éticos, acredita numa hierarquia de valores que disciplinam o convívio. A moral dá sentido à conduta. (...) Por incontáveis sintomas, é fácil concluir que Nelson não recebia de bom grado a realidade. Na melhor das hipóteses, ela o incomodava, pelo séquito de desagrados que a acompanham. Comumente as pessoas têm varizes e a gordura deforma. O ônus do prosaísmo compromete as possíveis sortidas românticas. (...) O encontro de um casal não obedece a circunstâncias fortuitas - está prenhe de verdadeira maquinação do Destino, a comandar dois seres tateando no escuro. Não há dúvida de que essa crença de Nelson deriva de entranhado romantismo, que luta contra os incontornáveis desacertos do cotidiano. Admirável observador da realidade, o dramaturgo registra os numerosos desencontros, o desgarramento que determina para o homem uma trajetória permanentemente solitária. O que não o impede de acreditar na possibilidade do amor eterno, ou ao menos pretender que ele exista. (MAGALDI, 1992, pp. 66-77)

As tragédias pessoais e familiares que marcaram a própria vida do dramaturgo, bem como as que cobriu como jornalista, compõem o substrato das concepções de Nelson Rodrigues em relação à vida, refletindo-se nas idéias expressas em suas obras e em seus enredos. Quanto aos aspectos formais de seu teatro especificamente, assomam três fontes principais: as leituras realizadas pelo autor, o cinema e o melodramático em suas mais diversificadas manifestações.
Nelson foi um leitor compulsivo. Especialmente na juventude, leu toda sorte de almanaques, revistas infantis e de curiosidades, folhetins de jornal e, em larga escala, a subliteratura melodramática do século XIX. Ruy Castro aponta alguns dos autores e obras a que o futuro escritor de folhetins teve acesso em sua adolescência:

Você chamaria essas leituras de subliteratura, e das mais cabeludas: Rocambole, de Ponson du Terrail; Epopéia de amor, Os amantes de Veneza e Os amores de Nanico, de Michel Zevaco; Os mistérios de Paris, de Eugène Sue; A esposa mártir, de Enrique Pérez Escrich; As mulheres de bronze, de Xavier de Montepin; O conde de Monte Cristo e as infindáveis Memórias de um médico, de Alexandre Dumas pai; os fascículos de Elzira, a morta-virgem, de Hugo de América; e ponha subliteratura nisto.
Variavam os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o sexo punindo a morte - ou as duas coisas de uma vez, no caso de amantes que resolviam morrer juntos. A forma é que era sensacional: tramas intrincadas envolvendo amores impossíveis, pactos de sangue, pais sinistros, purezas inalcançáveis, vinganças tenebrosas e cadáveres a granel. Um ou outro autor dava uma pitada a mais de perversidade condenando a heroína à lepra ou à tuberculose, males tão vulgares nesses romances quanto corizas. (CASTRO, 1992, pp. 29-30)

Mais tarde Nelson Rodrigues conheceria os grandes escritores universais, adquirindo o hábito de citar freqüentemente em suas crônicas autores como Dante Alighieri, Shakespeare, Dostoievski, Tolstoi, Ibsen, Balzac, Zola, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Pirandello, O'Neill. Dentre estes, aquele de quem se sentia um verdadeiro irmão espiritual era Dostoievski, por causa de seus personagens patéticos, seu temperamento obsessivo e atormentado, seu estilo lapidar.
A fonte das grandes ousadias e inovações formais do teatro de Nelson Rodrigues está seguramente no cinema da primeira metade do século XX, do qual o jornalista foi assíduo espectador. Com parca educação formal, nunca tendo freqüentado a universidade, desconhecendo a tradição literária e teatral do Ocidente à época de sua estréia como dramaturgo, foi no cinema que Nelson tomou contato com as narrativas em ritmo acelerado, os cortes de cena inusitados, os flashbacks e flashforwards, o desenvolvimento não linear da ação no tempo, os espaços multifacetados da realidade moderna, o diálogo próximo da fala natural do dia-a-dia, o psicologismo decorrente da apropriação da vulgata psicanalítica pela arte.
Quanto ao melodramático, os autores e obras acima citados por Ruy Castro não deixam margem a dúvidas sobre a atração de Nelson Rodrigues por esse gênero cujos procedimentos são presença constante em suas obras ficcionais. Fiel espectador de óperas, de que chegou a ser crítico no jornal O Globo, nelas mesmas tomava contato freqüente com o universo melodramático. É ainda seu biógrafo quem nos conta sobre o estrambótico gosto musical do dramaturgo: "Beniamino Gigli ou Tito Schipa cantando árias de ópera italiana, Vicente Celestino em 'O ébrio' e 'Ontem rasguei o teu retrato', Cauby Peixoto em 'Conceição' e daí para baixo, até cantores francamente de churrascaria. Gostava de operetas, canções napolitanas, boleros, tangos, fados - enfim, o que você entenda por ritmos e melodias dramáticos e exagerados" (CASTRO, 1992, p. 267). Quanto a essas manifestações do melodramático na literatura, na música, no teatro, no cinema, Nelson Rodrigues não somente sofreu grande influência de um gênero que iria subverter, criando obras de real valor estético, como encontrou nelas elementos que ajudaram a enformar sua notória morbidez. Além disso, o melodramático está na base de seu "mau gosto" - de que ele se orgulhava -, de boa parte de seu "teatro desagradável", de seu destemor do ridículo e de seu elogio da sinceridade do canastrão.
Por fim, há o problema da divisão da dramaturgia de Nelson Rodrigues em blocos temáticos, com objetivos didáticos e de compreensão de seu conjunto. Na fortuna crítica do autor, duas classificações se consagraram, a de Hélio Pellegrino e a de Sábato Magaldi.
Em 1965, Hélio Pellegrino publicou o artigo "A obra e O beijo no asfalto", em que aponta a existência de duas vertentes na obra do dramaturgo. A primeira, denominada "ciclo mitológico", compõe-se pelas peças Vestido de noiva, Álbum de família, Anjo negro e Senhora dos afogados. Para Pellegrino, essas obras "pertencem a esse ciclo inaugural, genesíaco, onde o autor, voltado para as raízes mais profundas do seu inconsciente, busca encontrar a sua mitologia pessoal, fundante, ao mesmo tempo que, nesta pesquisa, exprime problemas e situações essenciais da espécie" (PELLEGRINO in Teatro Completo, 1994, p. 155). Nessa fase, o dramaturgo, descompromissado com a verossimilhança realista e objetiva, tematiza poética e intuitivamente o mito, expondo aspectos primitivos e fundamentais da natureza humana:

O homem, na sua marcha para a consciência, ou melhor, na sua busca do logos, arranca sempre do mito, no chão fecundo e obscuro de sua alma, onde fervem as situações fundantes em toda a sua ingênua e terrível crueldade. É esse mundo, esse húmus pré-lógico que Nelson Rodrigues, no seu esforço de estruturação de si mesmo e de sua obra, procura trabalhar e transcrever. (...) A linguagem é solene, poética, encantatória. O verbo do mito participa de sua condição supra-racional. As imagens e os símbolos verbais estão carregados de sentido intuitivo, iluminante, supra-coloquial. Não há nada, nessas peças, da banalidade cotidiana, do prosaísmo sufocante que, depois, na sua segunda fase criativa, será a matéria de trabalho do grande dramaturgo. (PELLEGRINO, id., pp. 156-7)

A segunda fase do teatro de Nelson Rodrigues, para Hélio Pellegrino, terá como foco não o homem mítico e atemporal mas o homem histórico e finito, "mergulhado na sua ecologia específica, morador do subúrbio, crivado de contradições, envenenado de banalidade, mas vivo, vivo na sua condição trágica de ser marcado pelo pecado e pela morte, tal será o barro a partir do qual Nelson Rodrigues, após A falecida, passará a esculpir a sua obra teatral" (PELLEGRINO, id., p. 157). Para o crítico, esta segunda fase decorreria da primeira, e este homem histórico seria um desdobramento do homem mítico das primeiras peças. Ao poético da vertente anterior, sucederia o prosaico; à linguagem solene, a expressão coloquial; à divina comédia dos seres heróicos, a comédia humana de seres mortais e cotidianos.

Cena de Bonitinha mas ordinária

Tais concepções de Hélio Pellegrino estão na base dos estudos de Sábato Magaldi acerca do teatro de Nelson Rodrigues. Aprofundando, desdobrando e enriquecendo as idéias de Pellegrino, que se mantiveram no âmbito de um artigo, Magaldi agrupa as obras do dramaturgo em três blocos, denominados "peças psicológicas", "peças míticas" e "tragédias cariocas" (MAGALDI, 1994), tentando, na medida do possível, estar atento à ordem cronológica das obras.
As peças psicológicas apresentam personagens que atuam "sob grande tensão", "prestes a romper a censura do consciente" ou que de fato "rasga(m) a fronteira da consciência e se realiza(m) na maior parte como projeção exterior do subconsciente" (MAGALDI, 1994, p. 11), enfrentam dilemas morais decorrentes do conflito entre suas volições e o controle repressivo de uma moralidade hipócrita. Neste grupo, Magaldi inclui as peças A mulher sem pecado, Vestido de noiva, Valsa nº 6, Viúva, porém honesta e Anti-Nelson Rodrigues.
As peças míticas compõem um ciclo de obras - escritas nos anos 40 - que realizam um projeto estético ao qual o dramaturgo denominou "teatro desagradável" (RODRIGUES, in Dyonisos, 1949, pp. 16-21). Rompendo definitivamente as barreiras do consciente, Nelson Rodrigues realiza um "mergulho na inconsciência primitiva do homem. (...) Na exploração das verdades profundas do indivíduo, o passo seguinte se dirigiria para o estabelecimento dos arquétipos, dos mitos que se encontram na origem das nossas forças 'vitais'" (MAGALDI, 1994, p. 37-8). Os personagens destas peças - situados fora do tempo histórico e de um lugar definido - agem ao sabor dos impulsos radicais de suas paixões, dilacerando-se na expressão de uma sexualidade que não conseguem resolver no plano da natureza nem no plano da cultura. Desse grupo, fazem parte Álbum de família, Anjo negro, Senhora dos afogados e Dorotéia.
Por fim, as tragédias cariocas tratam da realidade do homem histórico - mais do que isso, cotidiano - situado num tempo e num lugar bem definidos - a contemporaneidade do autor e os subúrbios do Rio de Janeiro. Criando enredos, personagens e ambientação semelhantes àqueles de seus contos na coluna de jornal "A vida como ela é...", inspirados nos faits divers que o ex-repórter de polícia conhecia muito bem, Nelson retrata o prosaico, a existência ordinária das classes populares do Rio, sem abdicar dos aspectos universais que sempre caracterizaram suas obras e sem nenhuma pretensão de transmitir uma mensagem de cunho social ou político. A propósito, Sábato Magaldi enfatiza: "O psicológico e o mítico impregnaram sua dura seiva social. Dramaturgo que evitou o panfleto político, por conhecer os maus resultados literários do proselitismo de qualquer espécie, ele acabou por realizar um doloroso testemunho sobre as precárias condições de sobrevivência das classes desfavorecidas financeiramente" (MAGALDI, 1994, p. 68). Compõem esse conjunto as peças A falecida, Perdoa-me por me traíres, Os sete gatinhos, Boca de Ouro, O beijo no asfalto, Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, Toda nudez será castigada e A serpente.
Sábato Magaldi chama a atenção para a forma como estão imbricadas todas as obras de Nelson Rodrigues, formando um universo coeso: "...as características nunca se mostram isoladas, sob pena de empobrecer o universo do ficcionista. As peças psicológicas absorvem elementos míticos e da tragédia carioca. As peças míticas não esquecem o psicológico e afloram a tragédia carioca. Essa tragédia carioca assimilou o mundo psicológico e o mítico das obras anteriores." (MAGALDI, 1994, p. 12)
Assim como na classificação de Pellegrino, a de Magaldi identifica duas vertentes na obra do dramaturgo: uma de caráter mais universalista, composta pelas peças psicológicas e míticas; e outra de caráter histórico, local e cotidiano, constituída pelas tragédias cariocas.
Ambas as vertentes do teatro de Nelson Rodrigues se marcam por uma poética do excesso e por uma reatualização da tragédia conforme os parâmetros modernos e as peculiaridades de seu universo ficcional.

Na essência da visão de mundo do autor, encontra-se um acentuado sentimento trágico da vida. Sua biografia nos mostra que ele teve uma existência extraordinária, cheia de peripécias e reviravoltas do destino, transcendendo em ação os enredos de suas próprias peças. Assim, toma sua experiência de vida como substrato para toda a literatura que elaborou. Ele mesmo dizia com freqüência que toda vez que ocorria um assassinato em seu teatro, ali estava uma reatualização da morte de seu irmão Roberto, assassinado por uma mulher da alta sociedade carioca ofendida por uma notícia do jornal de seu pai, fato que deixou marcas indeléveis no espírito do dramaturgo. Outra marca peculiar de Nelson é seu costume de trazer para o palco pessoas reais ou fazer com que seus personagens citem em cena alguns de seus amigos, desafetos ou órgãos de imprensa com intenções humorísticas ou lançando-lhes uma farpa crítica. Chega ao ponto de citar a si mesmo. Tal é o caso, por exemplo, da peça intitulada Anti-Nelson Rodrigues, em que um dos personagens é seu amigo jornalista Salim Simão; de O beijo no asfalto, em que seu colega repórter policial Amado Ribeiro, de Última Hora, é posto em cena como um jornalista absolutamente sem escrúpulos; de Viúva, porém honesta, em que o diretor do jornal A marreta, apresentado como "gângster da imprensa", chama-se Dr. J.B., clara alusão ao Jornal do Brasil; de Senhora dos afogados com seus pérfidos Drummonds; de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, em que o nome e uma frase famosa do escritor mineiro são citados à exaustão. Numa das casas onde a família Rodrigues morou, foi encontrado um baú com roupas antigas e um diário, episódio que foi parar em Vestido de noiva.
A experiência como jornalista na imprensa apaixonada de outrora, a formação no contexto dos costumes e da moralidade vigentes no início do século XX, a vivência no subúrbio, a freqüentação assídua de casas de prostitutas, o enfrentamento de graves enfermidades, o conhecimento do universo futebolístico e da fala carioca são importantes elementos autobiográficos que fundamentam a visão de mundo e a expressão peculiares ao dramaturgo.
As tragédias pessoais e familiares, além das que cobriu como repórter de polícia em idade precoce, calaram fundo na alma do jovem Nelson e ajudaram a enformar suas concepções. Entre os acontecimentos mais influentes na formação de sua visão de mundo, podem-se mencionar o assassinato de seu irmão Roberto Rodrigues, a morte de seu pai - três meses depois - por paixão, a absolvição da ré, a experiência de passar fome e toda sorte de privações, a descoberta de que estava tuberculoso e deveria ir para um sanatório, a morte de seu irmão Joffre pela mesma doença, o tabagismo, a perda de grande parte da visão aos 25 anos, a convivência com uma úlcera persistente. Mais tarde, a mão pesada do destino continuaria a se abater sobre o dramaturgo e sobre aqueles que amava. Por diversas ocasiões, suas doenças levaram-no à beira da morte. Sua filha Daniela nasceria com uma paralisia cerebral. Seu irmão Paulo Rodrigues encontraria uma morte terrível. Em 1972, durante o período mais violento da ditadura militar, Nelson Rodrigues Filho, militante da resistência armada, é preso e torturado por agentes da repressão governamental.
Como se sabe, o percurso de Nelson Rodrigues foi marcado por uma trágica série de paradoxos e de ironias que fazem lembrar a atividade da moira para os gregos. Considerado um conservador e autoproclamado "reacionário", produziu uma obra libertária e foi um dos autores mais censurados no Brasil. Moralista e cristão visceral, foi atacado por importantes intelectuais cristãos que emitiam precisamente juízos morais sobre suas obras. Defensor da ditadura militar em suas crônicas e entrevistas, amigo do terrível presidente Médici, teve seu filho Nelsinho preso e torturado durante o governo desse general. Apologista do capitalismo e dos Estados Unidos em tempo de Guerra Fria, interveio diversas vezes, utilizando-se de sua influência junto ao regime então vigente no país, para fazer com que amigos de esquerda presos fossem libertados. Propondo freqüentemente a castidade antes do casamento, atacando o sexo sem amor e dizendo que todo amor verdadeiro é eterno, teve muitas amantes, foi freqüentador de zonas de meretrício e casou-se três vezes.
Se o contexto autobiográfico e o turbilhão de infortúnios não explicam a obra do dramaturgo, que tem vida própria, não restam dúvidas de que eles compõem os fundamentos de sua típica visão de mundo, que encontrará formalização na tragicidade de seu teatro.

Trágico e moderno

Como o trágico se manifesta em suas obras?
Ressalta nas peças de Nelson Rodrigues uma clara presença de personagens e acontecimentos marcados por um destino inexorável do qual não se pode escapar. Diferentemente, porém, de ser conseqüência de desígnios divinos, o modo como o destino se manifesta nas peças do dramaturgo resulta de sua concepção pessimista do homem como um ser frágil, ignorante, incoerente, desesperado e um tanto enlouquecido perante a ilogicidade da vida, a indiferença da natureza, a falta de amor e o descontrole dos impulsos sexuais. A inevitável destruição para a qual o ser humano é levado - e que também provoca - traz em si a renovação da face do mundo, uma vez que se realiza numa espécie de mito do eterno retorno em que o fechamento de um ciclo pare dolorosamente o princípio de outro. Sobre esta questão, analisa Sábato Magaldi:

Nelson vê no dilaceramento humano o caos, a desordem, a morte. Por isso a maioria de suas peças desfila assassínios e suicídios. Tem razão Antunes ao observar que, terminado o ciclo de destruição, nova criação se impõe. Em Álbum de família, Heloísa, que fugiu da maldição da família de Jonas, une-se a outro homem e tem descendência. Não se pode esquecer que, embora Silene, a caçula destinada ao matrimônio com véu e grinalda, em Os sete gatinhos, não seja mais virgem, guarda no ventre o fruto do amor. Vendo a gata prenhe, ela a matou a pauladas, mas os sete gatinhos pularam de dentro dela, numa golfada de vida. E Arandir, de O beijo no asfalto, condenou-se à morte no momento em que desejou penhorar a aliança, para ter em mãos o dinheiro que permitiria à mulher praticar o aborto. Envolveu-se ele numa trama, de que resultou ser assassinado. Ironicamente, novo ciclo deve iniciar-se, quando Selminha der à luz o filho de Arandir. O nascimento responde à morte. (MAGALDI, 1992, p. 79)

Vítima da terrível conspiração do universo e da incapacidade humana, inserido na massa informe e medíocre, o personagem de Nelson Rodrigues consegue dignificar-se apenas ao passar por um processo de individuação que consiste em destacar-se da massa e resistir solitariamente. Tal seria o heroísmo possível ao homem da sociedade de massas. Daí advém a admiração reiteradamente manifestada pelo dramaturgo por homens como Oswaldo Cruz durante a campanha da vacinação obrigatória ou o general Charles de Gaulle durante os protestos estudantis de 1968. Além disso, tinha paixão pelo personagem Dr. Stockman - da peça O inimigo do povo, de Henrik Ibsen -, que tem razão contra toda a sua sociedade. Dentre as muitas frases famosas de Nelson, estão os pensamentos de que "toda unanimidade é burra" e de que "a opinião pública é uma doente mental" (RODRIGUES, 1999, p. 102). Em seu teatro, é freqüente o aparecimento do indivíduo que se destaca de sua comunidade ou de seu grupo social, seja por ter sido isolado, seja por algum atributo ou qualidade especial, enfrentando seu próprio destino, tal como Arandir em O beijo no asfalto, Edgard em Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, Boca de Ouro na peça homônima, Joice em Anti-Nelson Rodrigues.
Faz parte da tradição do gênero trágico a presença de protagonistas de condição elevada essencialmente marcados pela ambição de poder ou de glórias. No âmbito de suas vidas medíocres, os personagens de Nelson geralmente nutrem como grande ambição de sua existência o anseio pelo amor eterno num mundo que teria conspurcado o amor verdadeiro através da prática do sexo pelo sexo. Isso teria representado uma espécie de queda do paraíso que gerou toda a sorte de males que afligem a humanidade. Pactos de suicídio, mutilações, fugas realizam-se como tentativas desesperadas de perenizar, homenagear ou prolongar a plenitude amorosa, que geralmente é breve e escapa aos amantes pela ação de uma realidade fria, brutal e inepta a conspirar contra as aspirações românticas e os ideais do casal, provocando enorme sofrimento. Ainda no campo das ambições, não se pode deixar de lembrar de dois personagens patéticos e igualmente traídos pela vida como Zulmira, de A falecida, e Boca de Ouro. A primeira, tendo tido uma existência ordinária e vazia, ambiciona um tardio glamour na morte - sob a forma de um caixão luxuoso e uma impressionante cerimônia fúnebre. O segundo, nascido numa pia de gafieira, ambiciona vingar-se de sua vulgaríssima origem pela exibição de suas arcadas dentárias em ouro maciço como símbolo do poder econômico que conquistou através do crime. Além disso, planeja ser enterrado num caixão de ouro. O destino desses personagens rebaixados assemelha-se ao dos protagonistas tradicionais da tragédia: suas ambições se revelam vãs. Ao contrário, porém, daqueles protagonistas, que morrem condignamente, Zulmira e Boca de Ouro não conseguem atingir, na morte, a almejada transcendência. Ela é enterrada num caixão ordinário, num dia em que seu marido não deixa de comparecer ao Maracanã para assistir à esperada final do campeonato. Por sua vez, o bicheiro de Madureira é assassinado, e seu cadáver é levado para um necrotério qualquer - tendo sido roubados os seus dentes de ouro - sem ter tido tempo para ordenar e pagar a confecção de seu suntuoso esquife.
Como se sabe, maldições e condenações são elementos recorrentes nas antigas tragédias. Certos personagens de Nelson Rodrigues trazem em sua história, em seu corpo ou em sua psique a marca da maldição ou da condenação. Geni, em Toda nudez será castigada, foi amaldiçoada na infância pela própria mãe, acreditando estar inexoravelmente destinada a morrer de um câncer no seio. O estigma da doença e da incapacidade persegue caracteres como os de Glorinha, em A falecida, que de fato tem o seio atacado por um câncer; Dorotéia, na peça de mesmo nome, que se torna leprosa; e Décio, em A serpente, que vê seu casamento desmoronar devido a sua impotência sexual perante a própria esposa. Neste mundo caótico e corrupto, desponta uma série de amores malditos por subverterem os princípios fundamentais da civilização, como no caso das numerosas relações incestuosas de Álbum de família; por constituírem paixões homossexuais, como a de Aprígio por Arandir em O beijo no asfalto ou a de Glória e Teresa em Álbum de família; por originarem-se num processo de vingança, como o empreendido pelo Noivo em Senhora dos afogados; por serem expressas numa sexualidade mórbida e sem limites, como a de Peixoto por Maria Cecília em Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária; por envolverem alguém imbuído de uma rígida moralidade burguesa e uma prostituta, como no caso de Herculano e Geni em Toda nudez será castigada.
A exemplaridade da trajetória dos protagonistas de Nelson Rodrigues torna-os figuras marcantes que quase sempre são destruídas ao final de suas obras, cujos desfechos são pródigos em suicídios, assassinatos, alienações na loucura ou na fuga, abandonos à mais absoluta solidão. Esses acontecimentos, que usualmente recebem o qualificativo de trágicos, provocam, por parte daqueles que os presenciam nas peças, reações pífias e mesmo indiferentes, comprovando sua insensibilidade diante do sofrimento e da aniquilação alheia, bem como a visão pessimista do ser humano que é uma constante na obra do dramaturgo.

Bibliografia

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo, Companhia das Letras, 1992.
FARIA, João Roberto. "Nelson Rodrigues e a modernidade de Vestido de noiva". In: O teatro na estante. São Paulo, Ateliê Editorial, 1998.
FISCHER, Luís Augusto. "O indivíduo contra a massa: Nelson Rodrigues trágico". In: Filosofia e Literatura: o trágico. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
FRAGA, Eudinyr. Nelson Rodrigues expressionista. São Paulo, Ateliê Editorial, 1998.
MAGALDI, Sábato. Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações. São Paulo, Perspectiva, 1992.
MAGALDI, Sábato (Organização, introdução e notas). Teatro Completo. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994.
RODRIGUES, Stella. Nelson Rodrigues, meu irmão. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.
RODRIGUES, Nelson. "Teatro desagradável". In: Dionysos. Rio de Janeiro, SNT/MEC, n 1, Outubro de 1949, pp. 16-21.
__________________. Depoimento do autor. In: Depoimentos V. Rio de Janeiro, SNT/MEC, 1981, pp. 110-135.
__________________. A menina sem estrela: memórias. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.


Adriano de Paula Rabelo é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, tendo desenvolvido pesquisa sobre a tragédia moderna em Eugene O'Neill e Nelson Rodrigues. Traduziu para o português a peça The iceman cometh, de O'Neill. Atualmente trabalha como professor leitor na Universidad de la República, no Uruguai. E-mail: aprabelo@hotmail.com.



 

 

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