Nelson
Rodrigues: poética do excesso e tragédia moderna
Adriano
de Paula Rabelo
Autor
de dezessete peças teatrais, Nelson Rodrigues se realizou como o grande
dramaturgo brasileiro, compondo uma obra que revolucionou o fazer teatral no Brasil,
elevou nossa dramaturgia ao nível das melhores realizações
dos outros gêneros na literatura brasileira e abriu caminho para o surgimento
e o desenvolvimento de outros importantes dramaturgos. A verdadeira revolução
no teatro brasileiro promovida por Nelson Rodrigues processou-se no âmbito
da técnica, dos temas, da linguagem, dos personagens postos em cena. Subvertendo
as comédias de costumes representadas com dicção portuguesa,
os vaudevilles, os melodramas piegas, as peças pseudo-filosóficas
que dominavam o teatro brasileiro à época da estréia do dramaturgo
e compunham nossa tradição teatral, Nelson Rodrigues realizará
tardiamente a modernização do teatro no Brasil. Em contraposição
à verbosidade e à literatice que grassavam nos palcos de seu tempo,
a dramaturgia de Nelson se realiza através de uma linguagem simples, direta
e ágil, colocando na boca de seus personagens o linguajar brasileiro, geralmente
em sua forma coloquial e mais despojada. Recursos técnicos de natureza
expressionista, naturalista ou mesmo surrealista são empregados com freqüência,
provocando surpresa e estranhamento diante da atmosfera melodramática de
base. Cenas curtas, rápida progressão da ação dramática,
divisão predominante das peças em três atos sem intervalo
temporal entre eles indicam procedimentos técnicos peculiares ao teatro
moderno. A constante tragicidade dos enredos mescla-se com o humor decorrente
dos nomes ridículos de alguns personagens, da desmedida e do exagero melodramático,
dos jogos de palavra, do grotesco de situações e personagens, do
deslocamento de pessoas reais para a ficção, dos elementos farsescos. Os
personagens de Nelson Rodrigues são seres obsessivos, apaixonados, neuróticos,
abissais, sempre postos em situações-limite, levando suas taras
e suas psicopatias às últimas conseqüências. Daí
quase sempre encontrarem um final violento através da morte por homicídio
ou suicídio, da loucura, da fuga, da solidão absoluta. A pequena
burguesia e a classe baixa dos subúrbios do Rio de Janeiro predominam em
sua dramaturgia. Vez ou outra surge a figura de um magnata, algum dono da vida,
desses para quem o dinheiro tudo pode comprar. A ambiência, os tipos, a
gíria carioca, no entanto, não impedem a universalidade da obra,
que focaliza os problemas fundamentais da condição humana. A realidade
apresentada é constantemente cruel, aniquiladora dos ideais dos personagens,
que se marcam quase sempre pela frustração, a baixa auto-estima,
a desumanização.
Dramaturgo
brasileiro de expressão universal
O
ponto de partida dos temas de Nelson Rodrigues é a sexualidade reprimida
e verdadeiramente deformada pelo preconceito, a hipocrisia, o cinismo das práticas
e costumes de natureza social, religiosa e moral. Pessimista, ele vê como
extremamente corrupta a forma como a sociedade está estruturada, sendo
as ações humanas regidas pelo irracionalismo, decorrendo da falta
de comunicação entre as pessoas. Abominando a dissolução
do indivíduo na massa informe, preza a dignidade dos que resistem à
mediocridade da visão de mundo e das formas de comportamento mais generalizadas.
A trajetória do homem na Terra é vista como essencialmente solitária.
Há sempre uma clara noção de Destino a determinar os rumos
da existência humana. A tragédia do homem consiste no fato de, sendo
finito e limitado, carregar o anseio pelo infinito e a perenidade como uma condenação.
Assim, o mundo é um palco de angústia e sofrimento em que seus personagens
buscam se dignificar pela realização ou ao menos a esperança
do amor eterno, pela conquista de uma morte gloriosa que os resgate da mediocridade
da vida que levam, pela resistência às tentações do
dinheiro sujo e do sexo desvinculado do amor, pela decisão de assumir sua
natureza e suas vocações a despeito da coerção dos
costumes e códigos de moral hipócritas. Sábato Magaldi sintetiza
com acuidade o pensamento existencial de Nelson Rodrigues:
Tendo
recebido a formação cristã da classe média urbana
brasileira, o dramaturgo preservou até o fim da vida a crença na
divindade e em preceitos morais básicos. A dificuldade de observar esses
preceitos aguça a loucura. Na terra, o homem vive o desgarramento de uma
unidade perdida, inconsolável órfão de Deus. Há um
deblaterar insano em terreno hostil. Resta o sentimento permanente do logro -
a vida prega uma peça em todo mundo. (...) Contrabalança a vocação
para o mal a certeza de uma norma superior, que regeria o universo. Acreditando-se
na divindade, tudo não é mais permitido - o homem participa de uma
ordem, obedece a preceitos éticos, acredita numa hierarquia de valores
que disciplinam o convívio. A moral dá sentido à conduta.
(...) Por incontáveis sintomas, é fácil concluir que Nelson
não recebia de bom grado a realidade. Na melhor das hipóteses, ela
o incomodava, pelo séquito de desagrados que a acompanham. Comumente as
pessoas têm varizes e a gordura deforma. O ônus do prosaísmo
compromete as possíveis sortidas românticas. (...) O encontro de
um casal não obedece a circunstâncias fortuitas - está prenhe
de verdadeira maquinação do Destino, a comandar dois seres tateando
no escuro. Não há dúvida de que essa crença de Nelson
deriva de entranhado romantismo, que luta contra os incontornáveis desacertos
do cotidiano. Admirável observador da realidade, o dramaturgo registra
os numerosos desencontros, o desgarramento que determina para o homem uma trajetória
permanentemente solitária. O que não o impede de acreditar na possibilidade
do amor eterno, ou ao menos pretender que ele exista. (MAGALDI, 1992, pp. 66-77)
As
tragédias pessoais e familiares que marcaram a própria vida do dramaturgo,
bem como as que cobriu como jornalista, compõem o substrato das concepções
de Nelson Rodrigues em relação à vida, refletindo-se nas
idéias expressas em suas obras e em seus enredos. Quanto aos aspectos formais
de seu teatro especificamente, assomam três fontes principais: as leituras
realizadas pelo autor, o cinema e o melodramático em suas mais diversificadas
manifestações. Nelson foi um leitor compulsivo. Especialmente
na juventude, leu toda sorte de almanaques, revistas infantis e de curiosidades,
folhetins de jornal e, em larga escala, a subliteratura melodramática do
século XIX. Ruy Castro aponta alguns dos autores e obras a que o futuro
escritor de folhetins teve acesso em sua adolescência:
Você
chamaria essas leituras de subliteratura, e das mais cabeludas: Rocambole, de
Ponson du Terrail; Epopéia de amor, Os amantes de Veneza e Os amores de
Nanico, de Michel Zevaco; Os mistérios de Paris, de Eugène Sue;
A esposa mártir, de Enrique Pérez Escrich; As mulheres de bronze,
de Xavier de Montepin; O conde de Monte Cristo e as infindáveis Memórias
de um médico, de Alexandre Dumas pai; os fascículos de Elzira, a
morta-virgem, de Hugo de América; e ponha subliteratura nisto. Variavam
os autores, mas no fundo era uma coisa só: a morte punindo o sexo ou o
sexo punindo a morte - ou as duas coisas de uma vez, no caso de amantes que resolviam
morrer juntos. A forma é que era sensacional: tramas intrincadas envolvendo
amores impossíveis, pactos de sangue, pais sinistros, purezas inalcançáveis,
vinganças tenebrosas e cadáveres a granel. Um ou outro autor dava
uma pitada a mais de perversidade condenando a heroína à lepra ou
à tuberculose, males tão vulgares nesses romances quanto corizas.
(CASTRO, 1992, pp. 29-30)
Mais
tarde Nelson Rodrigues conheceria os grandes escritores universais, adquirindo
o hábito de citar freqüentemente em suas crônicas autores como
Dante Alighieri, Shakespeare, Dostoievski, Tolstoi, Ibsen, Balzac, Zola, Machado
de Assis, Eça de Queiroz, Pirandello, O'Neill. Dentre estes, aquele de
quem se sentia um verdadeiro irmão espiritual era Dostoievski, por causa
de seus personagens patéticos, seu temperamento obsessivo e atormentado,
seu estilo lapidar. A fonte das grandes ousadias e inovações
formais do teatro de Nelson Rodrigues está seguramente no cinema da primeira
metade do século XX, do qual o jornalista foi assíduo espectador.
Com parca educação formal, nunca tendo freqüentado a universidade,
desconhecendo a tradição literária e teatral do Ocidente
à época de sua estréia como dramaturgo, foi no cinema que
Nelson tomou contato com as narrativas em ritmo acelerado, os cortes de cena inusitados,
os flashbacks e flashforwards, o desenvolvimento não linear
da ação no tempo, os espaços multifacetados da realidade
moderna, o diálogo próximo da fala natural do dia-a-dia, o psicologismo
decorrente da apropriação da vulgata psicanalítica pela arte. Quanto
ao melodramático, os autores e obras acima citados por Ruy Castro não
deixam margem a dúvidas sobre a atração de Nelson Rodrigues
por esse gênero cujos procedimentos são presença constante
em suas obras ficcionais. Fiel espectador de óperas, de que chegou a ser
crítico no jornal O Globo, nelas mesmas tomava contato freqüente com
o universo melodramático. É ainda seu biógrafo quem nos conta
sobre o estrambótico gosto musical do dramaturgo: "Beniamino Gigli
ou Tito Schipa cantando árias de ópera italiana, Vicente Celestino
em 'O ébrio' e 'Ontem rasguei o teu retrato', Cauby Peixoto em 'Conceição'
e daí para baixo, até cantores francamente de churrascaria. Gostava
de operetas, canções napolitanas, boleros, tangos, fados - enfim,
o que você entenda por ritmos e melodias dramáticos e exagerados"
(CASTRO, 1992, p. 267). Quanto a essas manifestações do melodramático
na literatura, na música, no teatro, no cinema, Nelson Rodrigues não
somente sofreu grande influência de um gênero que iria subverter,
criando obras de real valor estético, como encontrou nelas elementos que
ajudaram a enformar sua notória morbidez. Além disso, o melodramático
está na base de seu "mau gosto" - de que ele se orgulhava -,
de boa parte de seu "teatro desagradável", de seu destemor do
ridículo e de seu elogio da sinceridade do canastrão. Por fim,
há o problema da divisão da dramaturgia de Nelson Rodrigues em blocos
temáticos, com objetivos didáticos e de compreensão de seu
conjunto. Na fortuna crítica do autor, duas classificações
se consagraram, a de Hélio Pellegrino e a de Sábato Magaldi. Em
1965, Hélio Pellegrino publicou o artigo "A obra e O beijo no asfalto",
em que aponta a existência de duas vertentes na obra do dramaturgo. A primeira,
denominada "ciclo mitológico", compõe-se pelas peças
Vestido de noiva, Álbum de família, Anjo negro
e Senhora dos afogados. Para Pellegrino, essas obras "pertencem a
esse ciclo inaugural, genesíaco, onde o autor, voltado para as raízes
mais profundas do seu inconsciente, busca encontrar a sua mitologia pessoal, fundante,
ao mesmo tempo que, nesta pesquisa, exprime problemas e situações
essenciais da espécie" (PELLEGRINO in Teatro Completo, 1994, p. 155).
Nessa fase, o dramaturgo, descompromissado com a verossimilhança realista
e objetiva, tematiza poética e intuitivamente o mito, expondo aspectos
primitivos e fundamentais da natureza humana:
O
homem, na sua marcha para a consciência, ou melhor, na sua busca do logos,
arranca sempre do mito, no chão fecundo e obscuro de sua alma, onde fervem
as situações fundantes em toda a sua ingênua e terrível
crueldade. É esse mundo, esse húmus pré-lógico que
Nelson Rodrigues, no seu esforço de estruturação de si mesmo
e de sua obra, procura trabalhar e transcrever. (...) A linguagem é solene,
poética, encantatória. O verbo do mito participa de sua condição
supra-racional. As imagens e os símbolos verbais estão carregados
de sentido intuitivo, iluminante, supra-coloquial. Não há nada,
nessas peças, da banalidade cotidiana, do prosaísmo sufocante que,
depois, na sua segunda fase criativa, será a matéria de trabalho
do grande dramaturgo. (PELLEGRINO, id., pp. 156-7)
A
segunda fase do teatro de Nelson Rodrigues, para Hélio Pellegrino, terá
como foco não o homem mítico e atemporal mas o homem histórico
e finito, "mergulhado na sua ecologia específica, morador do subúrbio,
crivado de contradições, envenenado de banalidade, mas vivo, vivo
na sua condição trágica de ser marcado pelo pecado e pela
morte, tal será o barro a partir do qual Nelson Rodrigues, após
A falecida, passará a esculpir a sua obra teatral" (PELLEGRINO,
id., p. 157). Para o crítico, esta segunda fase decorreria da primeira,
e este homem histórico seria um desdobramento do homem mítico das
primeiras peças. Ao poético da vertente anterior, sucederia o prosaico;
à linguagem solene, a expressão coloquial; à divina comédia
dos seres heróicos, a comédia humana de seres mortais e cotidianos.
Cena
de Bonitinha mas ordinária
Tais
concepções de Hélio Pellegrino estão na base dos estudos
de Sábato Magaldi acerca do teatro de Nelson Rodrigues. Aprofundando, desdobrando
e enriquecendo as idéias de Pellegrino, que se mantiveram no âmbito
de um artigo, Magaldi agrupa as obras do dramaturgo em três blocos, denominados
"peças psicológicas", "peças míticas"
e "tragédias cariocas" (MAGALDI, 1994), tentando, na medida do
possível, estar atento à ordem cronológica das obras. As
peças psicológicas apresentam personagens que atuam "sob grande
tensão", "prestes a romper a censura do consciente" ou que
de fato "rasga(m) a fronteira da consciência e se realiza(m) na maior
parte como projeção exterior do subconsciente" (MAGALDI, 1994,
p. 11), enfrentam dilemas morais decorrentes do conflito entre suas volições
e o controle repressivo de uma moralidade hipócrita. Neste grupo, Magaldi
inclui as peças A mulher sem pecado, Vestido de noiva, Valsa
nº 6, Viúva, porém honesta e Anti-Nelson Rodrigues. As
peças míticas compõem um ciclo de obras - escritas nos anos
40 - que realizam um projeto estético ao qual o dramaturgo denominou "teatro
desagradável" (RODRIGUES, in Dyonisos, 1949, pp. 16-21). Rompendo
definitivamente as barreiras do consciente, Nelson Rodrigues realiza um "mergulho
na inconsciência primitiva do homem. (...) Na exploração das
verdades profundas do indivíduo, o passo seguinte se dirigiria para o estabelecimento
dos arquétipos, dos mitos que se encontram na origem das nossas forças
'vitais'" (MAGALDI, 1994, p. 37-8). Os personagens destas peças -
situados fora do tempo histórico e de um lugar definido - agem ao sabor
dos impulsos radicais de suas paixões, dilacerando-se na expressão
de uma sexualidade que não conseguem resolver no plano da natureza nem
no plano da cultura. Desse grupo, fazem parte Álbum de família,
Anjo negro, Senhora dos afogados e Dorotéia. Por fim, as tragédias
cariocas tratam da realidade do homem histórico - mais do que isso, cotidiano
- situado num tempo e num lugar bem definidos - a contemporaneidade do autor e
os subúrbios do Rio de Janeiro. Criando enredos, personagens e ambientação
semelhantes àqueles de seus contos na coluna de jornal "A vida como
ela é...", inspirados nos faits divers que o ex-repórter de
polícia conhecia muito bem, Nelson retrata o prosaico, a existência
ordinária das classes populares do Rio, sem abdicar dos aspectos universais
que sempre caracterizaram suas obras e sem nenhuma pretensão de transmitir
uma mensagem de cunho social ou político. A propósito, Sábato
Magaldi enfatiza: "O psicológico e o mítico impregnaram sua
dura seiva social. Dramaturgo que evitou o panfleto político, por conhecer
os maus resultados literários do proselitismo de qualquer espécie,
ele acabou por realizar um doloroso testemunho sobre as precárias condições
de sobrevivência das classes desfavorecidas financeiramente" (MAGALDI,
1994, p. 68). Compõem esse conjunto as peças A falecida, Perdoa-me
por me traíres, Os sete gatinhos, Boca de Ouro, O beijo no asfalto, Otto
Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, Toda nudez será castigada
e A serpente. Sábato Magaldi chama a atenção
para a forma como estão imbricadas todas as obras de Nelson Rodrigues,
formando um universo coeso: "...as características nunca se mostram
isoladas, sob pena de empobrecer o universo do ficcionista. As peças psicológicas
absorvem elementos míticos e da tragédia carioca. As peças
míticas não esquecem o psicológico e afloram a tragédia
carioca. Essa tragédia carioca assimilou o mundo psicológico e o
mítico das obras anteriores." (MAGALDI, 1994, p. 12) Assim como
na classificação de Pellegrino, a de Magaldi identifica duas vertentes
na obra do dramaturgo: uma de caráter mais universalista, composta pelas
peças psicológicas e míticas; e outra de caráter histórico,
local e cotidiano, constituída pelas tragédias cariocas. Ambas
as vertentes do teatro de Nelson Rodrigues se marcam por uma poética do
excesso e por uma reatualização da tragédia conforme os parâmetros
modernos e as peculiaridades de seu universo ficcional.
Na
essência da visão de mundo do autor, encontra-se um acentuado sentimento
trágico da vida. Sua biografia nos mostra que ele teve uma existência
extraordinária, cheia de peripécias e reviravoltas do destino, transcendendo
em ação os enredos de suas próprias peças. Assim,
toma sua experiência de vida como substrato para toda a literatura que elaborou.
Ele mesmo dizia com freqüência que toda vez que ocorria um assassinato
em seu teatro, ali estava uma reatualização da morte de seu irmão
Roberto, assassinado por uma mulher da alta sociedade carioca ofendida por uma
notícia do jornal de seu pai, fato que deixou marcas indeléveis
no espírito do dramaturgo. Outra marca peculiar de Nelson é seu
costume de trazer para o palco pessoas reais ou fazer com que seus personagens
citem em cena alguns de seus amigos, desafetos ou órgãos de imprensa
com intenções humorísticas ou lançando-lhes uma farpa
crítica. Chega ao ponto de citar a si mesmo. Tal é o caso, por exemplo,
da peça intitulada Anti-Nelson Rodrigues, em que um dos personagens
é seu amigo jornalista Salim Simão; de O beijo no asfalto, em que
seu colega repórter policial Amado Ribeiro, de Última Hora, é
posto em cena como um jornalista absolutamente sem escrúpulos; de Viúva,
porém honesta, em que o diretor do jornal A marreta, apresentado
como "gângster da imprensa", chama-se Dr. J.B., clara alusão
ao Jornal do Brasil; de Senhora dos afogados com seus pérfidos
Drummonds; de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, em
que o nome e uma frase famosa do escritor mineiro são citados à
exaustão. Numa das casas onde a família Rodrigues morou, foi encontrado
um baú com roupas antigas e um diário, episódio que foi parar
em Vestido de noiva. A experiência como jornalista na imprensa apaixonada
de outrora, a formação no contexto dos costumes e da moralidade
vigentes no início do século XX, a vivência no subúrbio,
a freqüentação assídua de casas de prostitutas, o enfrentamento
de graves enfermidades, o conhecimento do universo futebolístico e da fala
carioca são importantes elementos autobiográficos que fundamentam
a visão de mundo e a expressão peculiares ao dramaturgo. As tragédias
pessoais e familiares, além das que cobriu como repórter de polícia
em idade precoce, calaram fundo na alma do jovem Nelson e ajudaram a enformar
suas concepções. Entre os acontecimentos mais influentes na formação
de sua visão de mundo, podem-se mencionar o assassinato de seu irmão
Roberto Rodrigues, a morte de seu pai - três meses depois - por paixão,
a absolvição da ré, a experiência de passar fome e
toda sorte de privações, a descoberta de que estava tuberculoso
e deveria ir para um sanatório, a morte de seu irmão Joffre pela
mesma doença, o tabagismo, a perda de grande parte da visão aos
25 anos, a convivência com uma úlcera persistente. Mais tarde, a
mão pesada do destino continuaria a se abater sobre o dramaturgo e sobre
aqueles que amava. Por diversas ocasiões, suas doenças levaram-no
à beira da morte. Sua filha Daniela nasceria com uma paralisia cerebral.
Seu irmão Paulo Rodrigues encontraria uma morte terrível. Em 1972,
durante o período mais violento da ditadura militar, Nelson Rodrigues Filho,
militante da resistência armada, é preso e torturado por agentes
da repressão governamental. Como se sabe, o percurso de Nelson Rodrigues
foi marcado por uma trágica série de paradoxos e de ironias que
fazem lembrar a atividade da moira para os gregos. Considerado um conservador
e autoproclamado "reacionário", produziu uma obra libertária
e foi um dos autores mais censurados no Brasil. Moralista e cristão visceral,
foi atacado por importantes intelectuais cristãos que emitiam precisamente
juízos morais sobre suas obras. Defensor da ditadura militar em suas crônicas
e entrevistas, amigo do terrível presidente Médici, teve seu filho
Nelsinho preso e torturado durante o governo desse general. Apologista do capitalismo
e dos Estados Unidos em tempo de Guerra Fria, interveio diversas vezes, utilizando-se
de sua influência junto ao regime então vigente no país, para
fazer com que amigos de esquerda presos fossem libertados. Propondo freqüentemente
a castidade antes do casamento, atacando o sexo sem amor e dizendo que todo amor
verdadeiro é eterno, teve muitas amantes, foi freqüentador de zonas
de meretrício e casou-se três vezes. Se o contexto autobiográfico
e o turbilhão de infortúnios não explicam a obra do dramaturgo,
que tem vida própria, não restam dúvidas de que eles compõem
os fundamentos de sua típica visão de mundo, que encontrará
formalização na tragicidade de seu teatro.
Trágico
e moderno
Como
o trágico se manifesta em suas obras? Ressalta nas peças de Nelson
Rodrigues uma clara presença de personagens e acontecimentos marcados por
um destino inexorável do qual não se pode escapar. Diferentemente,
porém, de ser conseqüência de desígnios divinos, o modo
como o destino se manifesta nas peças do dramaturgo resulta de sua concepção
pessimista do homem como um ser frágil, ignorante, incoerente, desesperado
e um tanto enlouquecido perante a ilogicidade da vida, a indiferença da
natureza, a falta de amor e o descontrole dos impulsos sexuais. A inevitável
destruição para a qual o ser humano é levado - e que também
provoca - traz em si a renovação da face do mundo, uma vez que se
realiza numa espécie de mito do eterno retorno em que o fechamento de um
ciclo pare dolorosamente o princípio de outro. Sobre esta questão,
analisa Sábato Magaldi:
Nelson
vê no dilaceramento humano o caos, a desordem, a morte. Por isso a maioria
de suas peças desfila assassínios e suicídios. Tem razão
Antunes ao observar que, terminado o ciclo de destruição, nova criação
se impõe. Em Álbum de família, Heloísa, que fugiu
da maldição da família de Jonas, une-se a outro homem e tem
descendência. Não se pode esquecer que, embora Silene, a caçula
destinada ao matrimônio com véu e grinalda, em Os sete gatinhos,
não seja mais virgem, guarda no ventre o fruto do amor. Vendo a gata prenhe,
ela a matou a pauladas, mas os sete gatinhos pularam de dentro dela, numa golfada
de vida. E Arandir, de O beijo no asfalto, condenou-se à morte no momento
em que desejou penhorar a aliança, para ter em mãos o dinheiro que
permitiria à mulher praticar o aborto. Envolveu-se ele numa trama, de que
resultou ser assassinado. Ironicamente, novo ciclo deve iniciar-se, quando Selminha
der à luz o filho de Arandir. O nascimento responde à morte. (MAGALDI,
1992, p. 79)
Vítima
da terrível conspiração do universo e da incapacidade humana,
inserido na massa informe e medíocre, o personagem de Nelson Rodrigues
consegue dignificar-se apenas ao passar por um processo de individuação
que consiste em destacar-se da massa e resistir solitariamente. Tal seria o heroísmo
possível ao homem da sociedade de massas. Daí advém a admiração
reiteradamente manifestada pelo dramaturgo por homens como Oswaldo Cruz durante
a campanha da vacinação obrigatória ou o general Charles
de Gaulle durante os protestos estudantis de 1968. Além disso, tinha paixão
pelo personagem Dr. Stockman - da peça O inimigo do povo, de Henrik Ibsen
-, que tem razão contra toda a sua sociedade. Dentre as muitas frases famosas
de Nelson, estão os pensamentos de que "toda unanimidade é
burra" e de que "a opinião pública é uma doente
mental" (RODRIGUES, 1999, p. 102). Em seu teatro, é freqüente
o aparecimento do indivíduo que se destaca de sua comunidade ou de seu
grupo social, seja por ter sido isolado, seja por algum atributo ou qualidade
especial, enfrentando seu próprio destino, tal como Arandir em O beijo
no asfalto, Edgard em Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, Boca
de Ouro na peça homônima, Joice em Anti-Nelson Rodrigues. Faz
parte da tradição do gênero trágico a presença
de protagonistas de condição elevada essencialmente marcados pela
ambição de poder ou de glórias. No âmbito de suas vidas
medíocres, os personagens de Nelson geralmente nutrem como grande ambição
de sua existência o anseio pelo amor eterno num mundo que teria conspurcado
o amor verdadeiro através da prática do sexo pelo sexo. Isso teria
representado uma espécie de queda do paraíso que gerou toda a sorte
de males que afligem a humanidade. Pactos de suicídio, mutilações,
fugas realizam-se como tentativas desesperadas de perenizar, homenagear ou prolongar
a plenitude amorosa, que geralmente é breve e escapa aos amantes pela ação
de uma realidade fria, brutal e inepta a conspirar contra as aspirações
românticas e os ideais do casal, provocando enorme sofrimento. Ainda no
campo das ambições, não se pode deixar de lembrar de dois
personagens patéticos e igualmente traídos pela vida como Zulmira,
de A falecida, e Boca de Ouro. A primeira, tendo tido uma existência ordinária
e vazia, ambiciona um tardio glamour na morte - sob a forma de um caixão
luxuoso e uma impressionante cerimônia fúnebre. O segundo, nascido
numa pia de gafieira, ambiciona vingar-se de sua vulgaríssima origem pela
exibição de suas arcadas dentárias em ouro maciço
como símbolo do poder econômico que conquistou através do
crime. Além disso, planeja ser enterrado num caixão de ouro. O destino
desses personagens rebaixados assemelha-se ao dos protagonistas tradicionais da
tragédia: suas ambições se revelam vãs. Ao contrário,
porém, daqueles protagonistas, que morrem condignamente, Zulmira e Boca
de Ouro não conseguem atingir, na morte, a almejada transcendência.
Ela é enterrada num caixão ordinário, num dia em que seu
marido não deixa de comparecer ao Maracanã para assistir à
esperada final do campeonato. Por sua vez, o bicheiro de Madureira é assassinado,
e seu cadáver é levado para um necrotério qualquer - tendo
sido roubados os seus dentes de ouro - sem ter tido tempo para ordenar e pagar
a confecção de seu suntuoso esquife. Como se sabe, maldições
e condenações são elementos recorrentes nas antigas tragédias.
Certos personagens de Nelson Rodrigues trazem em sua história, em seu corpo
ou em sua psique a marca da maldição ou da condenação.
Geni, em Toda nudez será castigada, foi amaldiçoada na infância
pela própria mãe, acreditando estar inexoravelmente destinada a
morrer de um câncer no seio. O estigma da doença e da incapacidade
persegue caracteres como os de Glorinha, em A falecida, que de fato tem o seio
atacado por um câncer; Dorotéia, na peça de mesmo nome, que
se torna leprosa; e Décio, em A serpente, que vê seu casamento desmoronar
devido a sua impotência sexual perante a própria esposa. Neste mundo
caótico e corrupto, desponta uma série de amores malditos por subverterem
os princípios fundamentais da civilização, como no caso das
numerosas relações incestuosas de Álbum de família;
por constituírem paixões homossexuais, como a de Aprígio
por Arandir em O beijo no asfalto ou a de Glória e Teresa em Álbum
de família; por originarem-se num processo de vingança, como o empreendido
pelo Noivo em Senhora dos afogados; por serem expressas numa sexualidade mórbida
e sem limites, como a de Peixoto por Maria Cecília em Otto Lara Resende
ou Bonitinha, mas ordinária; por envolverem alguém imbuído
de uma rígida moralidade burguesa e uma prostituta, como no caso de Herculano
e Geni em Toda nudez será castigada. A exemplaridade da trajetória
dos protagonistas de Nelson Rodrigues torna-os figuras marcantes que quase sempre
são destruídas ao final de suas obras, cujos desfechos são
pródigos em suicídios, assassinatos, alienações na
loucura ou na fuga, abandonos à mais absoluta solidão. Esses acontecimentos,
que usualmente recebem o qualificativo de trágicos, provocam, por parte
daqueles que os presenciam nas peças, reações pífias
e mesmo indiferentes, comprovando sua insensibilidade diante do sofrimento e da
aniquilação alheia, bem como a visão pessimista do ser humano
que é uma constante na obra do dramaturgo.
Bibliografia
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Companhia das Letras, 1992. FARIA, João Roberto. "Nelson Rodrigues
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Sábato. Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações. São
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José Olympio, 1986. RODRIGUES, Nelson. "Teatro desagradável".
In: Dionysos. Rio de Janeiro, SNT/MEC, n 1, Outubro de 1949, pp. 16-21. __________________.
Depoimento do autor. In: Depoimentos V. Rio de Janeiro, SNT/MEC, 1981, pp. 110-135. __________________.
A menina sem estrela: memórias. São Paulo, Companhia das Letras,
1999.
Adriano
de Paula Rabelo é mestre e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade
de São Paulo, tendo desenvolvido pesquisa sobre a tragédia moderna
em Eugene O'Neill e Nelson Rodrigues. Traduziu para o português a peça
The iceman cometh, de O'Neill. Atualmente trabalha como professor leitor na Universidad
de la República, no Uruguai. E-mail: aprabelo@hotmail.com.