Muito
se tem alardeado sobre a
morte das vanguardas. Contudo,
se os ideais iconoclastas
que embalam suas propostas
não mais parecem
condizer com as exigências
de nossa realidade pós-moderna,
é inegável
que a sombra das suas determinações
permanece, em certa medida,
instransponível.
As políticas vanguardistas
de experimentação
e superação
das normas pré-estabelecidas,
vinculadas a discursos metacríticos
que visam desvelar as próprias
e emaranhadas teias formais
que dão consistência
a qualquer objeto artístico,
embora tenham se tornado,
com o passar das últimas
décadas, alvo de
inúmeros ataques,
permanecem como fortes pontos
de referência no interior
do contexto vigente. Assim,
mesmo relutante em abraçar
o radicalismo inerente às
propostas estéticas
que vigoraram soberanas
ao longo do século
passado, a pós-modernidade,
embalada por seus discursos
de auto-fundamentação,
não parece ter encontrado
meios para rechaçar
de todo a herança
de que se valera. Entre
a tolerância irrestrita
e a ambígua sombra
do novo, conjecturamos sobre
o estatuto da arte em um
complicado período
de transição,
revisitando criticamente
tanto as vitórias
quanto as aporias e incongruências
dos modelos impostos anteriormente.
Analisar
o impacto histórico-cultural
causado pela eclosão
e os inevitáveis
desdobramentos das propostas
vanguardistas, contudo,
torna-se uma tarefa impossível
se não atentarmos,
antes, para algumas das
características fundamentais
do que se convencionou chamar
de modernidade. Estando
inseridas na tradição
moderna, as vanguardas dividem
com parte significativa
do século XIX uma
série de pontos de
contato, destacando-se,
dentre eles, a sede pela
inovação,
fruto de uma drástica
alteração
da percepção
do tempo pelo homem e do
decorrente surgimento da
noção de modernidade
como um período singular,
não mais subserviente
às imposições
da tradição
clássica. Essa visão
algo condescendente de si
mesma trouxe à modernidade
uma necessidade extremada
de auto-certificação.
Em O discurso filosófico
da modernidade, Jürgen
Habermas chama atenção
para o fato de que, em nenhum
outro momento, pensadores
de um dado contexto se empenharam
tanto em justificar as características
próprias da episteme
a qual pertenciam, sendo
todo o edifício moderno
reflexo de uma tomada de
consciência histórica
e de uma posterior teorização
acerca do presente. No transcorrer
de tal processo, o estatuto
da modernidade é
alçado a tema filosófico,
deixando marcas indeléveis
em todas as demais áreas
da Cultura - incluindo-se
aí, obviamente, a
Estética.
O
primeiro a pensar sua época
sob uma perspectiva francamente
filosófica foi Hegel.
De acordo com o filósofo
alemão, o mundo moderno,
fruto da cisão engendrada
pelo Iluminismo e pela Revolução
Francesa no final do século
XVIII e começo do
XIX, marca o "magnífico
despertar" das consciências
para o que viria a ser a
etapa final da história
como a compreendemos. Momento
de negação
das influências do
passado, como ponto de abertura
para os horizontes vindouros
e, conseqüentemente,
submetido a uma renovação
ininterrupta, a modernidade
"não pode e
não quer tomar dos
modelos de outra época
os seus critérios
de orientação"1,
arrancando sua normatividade
de seus próprios
elementos constituintes.
O fato de tomar a si mesma
como única fonte
de referências, "sem
a possibilidade de apelar
para subterfúgios",
explicaria, de acordo com
Habermas, "a suscetibilidade
da sua autocompreensão,
a dinâmica das tentativas
de 'afirmar-se' a si mesma"2.
No
território próprio
da Estética, tais
tentativas estimulariam
o surgimento de uma nova
forma de juízo de
valor, oposta àquela
legada pela tradição
clássica. Concebendo
o tempo não mais
como um ciclo inquebrantável
ou como uma linearidade
meramente tipológica,
os modernos passam a crer
na história como
um processo de ordem dialética,
sendo a arte do passado,
tão somente, a arte
de um presente vencido.
Nesse sentido, tornar-se-ia
necessário examinar
as produções
artísticas não
mais sob o crivo da adequação
a modelos transmitidos por
gerações anteriores,
mas de acordo com o nível
de originalidade que carregam.
O movimento dialético
das artes as constrange
naturalmente ao novo, sendo
o "gênio"
não apenas o mais
proficiente em termos técnicos,
mas aquele que, no interior
de sua arte, se mostra capaz
de destoar dos demais. Nasce
daí o que Octavio
Paz chamará de tradição
da ruptura:
Para
nós o valor de uma
obra reside em sua novidade:
invenção de
formas ou combinação
das antigas de uma maneira
insólita, descoberta
de mundos desconhecidos
ou exploração
de zonas ignoradas nos conhecidos.
(...) Desde o romantismo
a obra há de ser
única e inimitável.
A história da arte
e da literatura se desdobra
como uma série de
movimentos antagônicos:
romantismo, realismo, naturalismo,
simbolismo. Tradição
não é continuidade
e sim ruptura e daí
que não seja inexato
chamar à tradição
moderna: tradição
da ruptura
3.
Uma
tradição da
ruptura, em que o elemento
transmitido de geração
a geração
é, justamente, a
vontade de se rebelar contra
o paradigma anterior; uma
tradição voltada
contra si mesma, na qual
afirmação
e condenação
da arte convivem lado a
lado, ilustrando a cada
instante sua grandeza e
sua perpétua decadência;
uma tradição
que, ao se afirmar, nega
seu caráter destruidor
e, ao afirmá-lo,
inevitavelmente nega a si
mesma: eis a paradoxal tradição
na qual as vanguardas, como
exemplo máximo do
desejo programático
pelo novo, se inserirão.
Nesse
universo de constante renovação
e reatualização,
fortalece-se enormemente,
como não poderia
deixar de ser, a consciência
crítica dos artistas
acerca dos elementos constitutivos
da linguagem que dominam.
Sequiosos, em certo ponto,
por atingir uma autonomização
do discurso em relação
à realidade - não
mais compreendida como apta
a ser mimetizada -, românticos
e pós-românticos
trabalharam no afã
de, gradualmente, cindir
a forma do conteúdo
e, ao privilegiar a primeira,
fazer dela seu próprio
conteúdo. O ápice
de tal empreitada se dará
no século XX, sobretudo
no reino da pintura e da
música serial. Porém,
como bem nota Antoine Compagnon
em Cinco paradoxos da
modernidade, já
em Baudelaire é possível
perceber uma tendência,
que se intensificará
de modo cada vez mais forte
ao longo das décadas
subseqüentes, ao formalismo
e ao estabelecimento de
uma arte crítica,
muito mais voltada para
seus próprios mecanismos
do que para a contemplação
e representação
tradicional da realidade.
A situação
é exposta por Compagnon
da seguinte forma:
A
tradição moderna
(...) é a história
da purificação
da arte, de sua redução
ao essencial. É nesse
sentido que veremos muitas
vezes descrever a passagem
de uma geração
a outra e de um artista
a outro como uma superação
rumo à verdade, uma
tensão da arte em
direção a
seu limite ou, ainda, uma
redução da
ilusão, uma reapropriação
da origem. Para situar o
início desse formalismo,
cita-se com freqüência
a frase do pintor Maurice
Denis, em 1890: 'Lembrar-se
de que um quadro, antes
de ser um cavalo de batalha,
uma mulher nua ou uma cena
qualquer, é essencialmente
uma superfície plana,
recoberta de cores, reunidas
numa certa ordem.' Aí
está, na verdade,
uma evocação
significativa da auto-referencialidade
e da autonomia, doravante
consideradas como condições
da arte autêntica
4.
Desvelando
ao mundo suas propriedades
intrínsecas, emancipando-se
das imposições
de um dado referencial,
a arte moderna, incapaz
de reconhecer qualquer exterioridade,
se firma como exercício
crítico e contestatório.
A percepção
dessa cisão entre
mundo e discurso torna-se
mais clara mediante a análise
- ainda que generalizante
- das mais significativas
transformações
de paradigma pelas quais
passaram as artes ao longo
dos séculos. Partindo,
por exemplo, da pintura
hiper-realista desenvolvida
no Renascimento, rumo à
dimensão pictórica
da tela Barroca e à
sensação de
movimento cunhada no interior
do universo plástico
Impressionista (no qual
a questão da verossimilhança
começa a ser, deliberadamente,
posta em cheque), aportaremos
na concepção
de pintura não-figurativa,
abstrata, em que o expectador
é levado a construir
suas inferências não
mais a partir da interseção
entre o quadro e o que o
excede, mas segundo a análise
dos signos ali mesmo organizados.
Auto-suficiência transforma-se
em lema.
O
mesmo pode ser observado
em todos os demais gêneros
artísticos: quão
vasta é a distância
que separa a poesia, digamos,
de um Shakespeare, na qual
o alto grau de elaboração
formal jamais se comporta
como um fator de isolamento
- antes como de inclusão
-, daquela elaborada por
um Mallarmé. Em Mallarmé,
o hermetismo é empregado
como um veículo para
a própria carnadura
do poema, que decide concentrar
todos os seus interesses
sobre si mesmo. O "lance
de dados", que deu
vida até ao branco
da página, alojou-se
no conforto majestático
de um livro aberto e incomunicável.
O que nos leva a pensar
que, via de regra, o hermetismo,
empregado seja a fim de
aproximar a linguagem da
realidade irrepresentável,
seja como meio de se afastar
dessa mesma realidade, sintetiza,
como figura lingüística
privilegiada pela modernidade
e seus desdobramentos, as
preferências estilísticas
de toda uma série
de gerações
comprometidas com os ideais
de renovação
crítica da linguagem
artística e de perpetuação
de uma tradição
da ruptura. O primeiro a
incorporar no campo da literatura
essa práxis metalingüística
a seu trabalho foi, inegavelmente,
o autor das Fleurs du
mal, no qual "a
função poética
e a função
crítica se entrelaçam
necessariamente, numa self-consciousness"
5
que o artista deve ter daquilo
que engendra. Em Baudelaire,
ainda que menos perceptivelmente
do que em Mallarmé,
em Rimbaud ou, obviamente,
em Joyce, Eliot e boa parte
dos poetas de vanguarda,
a poesia se torna, pela
primeira vez, objeto da
própria poesia, sendo
o grande inventor do poema
em prosa o pai, em termos
literários, da modernidade.
Ao
lado dele (e em posição
diametralmente outra), surge
Nietzsche. Um dos mais influentes
filósofos da história
moderna e autor de uma vasta
produção dedicada
ao tema da Estética,
Friedrich Nietzsche firmou-se
ao longo dos últimos
séculos como, paradoxalmente,
uma das maiores inspirações
para os artistas modernos
(sobretudo certos vanguardistas)
e, provavelmente, o mais
inflamado crítico
que a modernidade já
enfrentou. Dotado de uma
sensibilidade incomum, o
filósofo não
apenas soube diagnosticar
com precisão a arte
de seu tempo, como, por
vezes, parece ter pressentido
o futuro dela e, ainda que
por questões de cronologia
não tenha sido defensor
ou crítico das vanguardas,
foi capaz de vaticinar uma
série de expedientes
cultivados ao longo do século
XX e prever aonde as aventuras
experimentais de seus contemporâneos
levariam.
Antes
de analisarmos sua apreciação
de tais experimentos, todavia,
convém ressaltar
o seguinte. Ainda que introjetadas
dentro da tradição
moderna, há, tanto
em óbvios termos
formais quanto em (bem menos
óbvios) termos de
constituição
teórica e de apreensão
da realidade, pontos de
divergência entre
as vanguardas e a modernidade,
tida como reunião
dos estilos de época
a qual convencionamos chamar
de romantismo, realismo,
decadentismo e simbolismo.
O discurso de negação
reivindicado pelos movimentos
vanguardistas do início
do século XX, que
visava à supressão
de todos os modelos anteriores
em prol de uma arte de Invenção,
pode ser lido como, mais
do que o reflexo da mera
intensificação
de procedimentos estéticos
modernos, decorrência
da transformação
de uma certa concepção
de tempo. Antes idealizado
enquanto uma espécie
de presente perpétuo
e autofágico (origem
do spleen baudelairiano,
misto de excitação
e desencantamento com a
condição decadente
do mundo), o tempo se apresenta
ao homem das vanguardas
como via única para
o futuro.
Dessa
forma, a vanguarda, "substituindo
o pathos do futuro pela
aceitação
do presente, torna ativo,
sem dúvida, um dos
paradoxos latentes da modernidade:
ela faz de sua pretensão
à auto-suficiência
e da sua auto-afirmação
uma autodestruição
e uma autonegação
necessárias"
6.
A iconoclastia toma, nesse
ponto, proporções
quase míticas, como
se a renovação
da linguagem - constantemente
recauchutada a partir de
um distanciamento em relação
ao receptor - simbolizasse,
no interior de um universo
em movimento contínuo
de gestação
e aniquilamento, uma verdadeira
renovação
do Espírito humano.
Mais
historicizada do que a arte
moderna, a arte de vanguarda
funda sua religião
do futuro sob a égide
do progresso. Nietzsche,
que sempre se opusera ao
projeto defendido pela modernidade
precisamente por pressentir
no desencanto desesperado
de muitos de seus contemporâneos
a origem de um perigosíssimo
niilismo, jamais concebeu
o progresso ou a história
como vias de superação
ou saída da decadência.
Ao contrário: constrangida
pelo idealismo místico
de uma história teleologicamente
elaborada, a humanidade
se veria, mais do que enquanto
submetida ao delírio
de um presente inesgotável,
fadada a uma condição
absolutamente anti-natural.
Inimigo da dialética
e opositor dos grandes sistemas
idealistas do século
XIX, o auto-proclamado "primeiro
filósofo trágico"
via apenas na arte dionisíaca,
em contato direto com a
Vida e com a realidade fenomênica,
o remédio para curar
o homem do mal da história.
O excesso de artifício,
de auto-referencialidade,
e o desequilíbrio
oriundo do abuso de racionalizações,
apenas esvaziariam a arte
de sua dimensão propriamente
experiencial, relegando-a
ao posto de mero exercício
lúdico com a linguagem
e inviabilizando o acesso
ao que Compagnon chamará
de "dupla natureza
do belo".
Os
julgamentos de Nietzsche
no que tange à obra
dos "Inventores"
7
de seu tempo, embasados
sempre a partir de uma profunda
desconfiança em relação
às propostas estéticas
vigentes naquele contexto,
foram extremamente rigorosos.
Para Curt Paul Janz 8,
as críticas feitas
pelo pensador ao impulso
iconoclasta de sua época
se devem ao fato desse ter
sido incorporado, em última
instância, exclusivamente
por seguidores de Richard
Wagner. Wagner, que, como
seu antípoda, não
pertenceu, por motivos de
ordem contextual, a qualquer
movimento de vanguarda,
tendo sido um dos últimos
grandes compositores do
século XIX, apresenta
em suas composições,
ao lado das do francês
Claude Debussy, o germe
da música erudita
contemporânea. Desafiando
as leis harmônicas
vigentes em seu tempo, o
músico expandiu o
centro tonal de suas peças,
criando uma ilusão
de continuidade comumente
associada ao seu conceito
de "melodia infinita".
A música wagneriana
não se limita ao
uso convencional da escala
de sete notas, tendo sido
composta como uma seqüência
modulante de temas. A recorrência
de tais modulações,
aqui empregada de modo não-ortodoxo
(Wagner utiliza em seus
"dramas" de sete
a doze notas, não
tendo, necessariamente,
que percorrer as doze),
concede aos seus agregados
sonoros uma impressão
de infinitude que jamais
pode ser alcançada
dentro dos paradigmas estruturais
da música tida como
"clássica".
Dessa forma, como Schöenberg
chegou a apontar, a prática
do Dodecafonismo, que consiste
precisamente no estabelecimento
de uma ortodoxia reguladora
que impõe a utilização
de todas as doze notas em
uma mesma peça, tem
como precursor a idéia
de "melodia infinita",
elaborada no interior da
obra wagneriana.
Essa
imagem de um Wagner pré-vanguardista,
um Wagner que, apesar de
guiado por motivos bastante
diferentes daqueles que
nortearam as produções
musicais elaboradas ao longo
do Século XX 9
(motivos, digamos, modernos),
subverteu diversas das noções
pré-estabelecidas,
criando uma arte "nova",
já é, em O
Caso Wagner, percebida
por Nietzsche, que chama
a atenção
exatamente para o fato -
ressaltando, porém,
como se é de esperar,
os aspectos negativos da
empreitada do artista. Senão
vejamos:
Wagner
não era músico
por instinto. Ele o demonstrou
ao abandonar toda lei e,
mais precisamente, todo
estilo na música,
para dela fazer o que ele
necessitava, uma retórica
teatral, um instrumento
da expressão, do
reforço dos gestos,
da sugestão, do psicológico-pitoresco.
Nisso podemos tê-lo
como inventor e inovador
de primeira ordem -
ele aumentou desmesuradamente
a capacidade de expressão
da música: ele é
o Victor Hugo da música
como linguagem".10
(grifo nosso)
Menos preocupado em criticar
o que há de propriamente
moderno na obra do compositor
(no caso, seu projeto nacionalista
de integração
da Alemanha através
de seus dramas musicais
e a óbvia influência
schopenhaueriana oculta
por detrás do conceito
de "melodia infinita"),
Nietzsche, em sua análise
formal, atenta para as características
que mais aproximam Wagner
do que ainda está
por vir. Como que pressentindo
as conseqüências
do estilhaçamento
da tonalidade empreendida
nas óperas do músico,
o filósofo antevê
a ampliação
da decadência moderna
em termos estéticos.
Em
outro trecho, o seu discurso
adquire um tom muito próximo
do profético, ao
abordar a questão
do gosto de Wagner pelo
"difícil"
- palavra esta que se tornará
uma constante dentro do
léxico vanguardista
a ser desenvolvido - e o
caráter de negação
que permeia sua obra. Diz
o filósofo:
"Um
novo espírito vigora
no teatro, desde que o espírito
de Wagner o governa: exige-se
o mais difícil, repreende-se
duramente, raramente se
louva - o bom, o excelente
é tido como regra.
Gosto não é
mesmo necessário;
nem mesmo a voz. Canta-se
Wagner apenas com voz arruinada:
o efeito disso é
'dramático'"
11
Ao
levantar tais características,
Nietzsche insere a obra
wagneriana na tradição
das obras da décadence.
É muito interessante
perceber a similitude entre
a concepção
nietzschiana de arte décadent
e os preceitos que caracterizam
a própria arte de
vanguarda. Desde seu livro
de estréia, O
Nascimento da Tragédia,
o filósofo defende
uma idéia de arte
afirmativa, expositora de
toda a intensidade inerente
à existência.
Para atingir o pólo
de força transcendente
- Nietzsche chega a considerar
a música dionisíaca
produzida entre os gregos
antes da imposição
do otimismo científico
socrático sobre a
Cultura, como um substrato
metafísico - a arte,
no entanto, deve, em termos
estruturais, desenvolver
um senso de equilíbrio
entre suas partes. Toda
a maravilha da Tragédia
Ática - sobretudo
esquiliana -, por exemplo,
revela-se através
do consórcio harmonioso
entre as duas pulsões
vitais que a nutrem: o poder
devastador de Dioniso e
a máscara apaziguadora
de Apolo. Como uma vidraça
que, simultaneamente, exibe
ao espectador a sublime
violência amoral da
existência e o protege
dela, a Tragédia
é, para Nietzsche,
o paradigma máximo
da arte afirmadora da vida.
Em relação
à arte décadent
- que possui em Wagner um
de seus mais admiráveis
representantes - esse equilíbrio
natural, essa harmonia entre
os elementos que a sustentam,
não se dá.
Tratar-se-ia, assim, de
uma "arte degenerada",
excessivamente voltada para
a própria forma,
uma arte do efeito, acima
de tudo.
Ainda
n'O Caso Wagner,
Nietzsche se pronuncia a
esse respeito de forma clara
e objetiva:
"Como
se caracteriza toda a décadence
literária? Pelo fato
de a vida não mais
habitar o todo. A palavra
se torna soberana e pula
fora da frase, a frase transborda
e obscurece o sentido da
página, a página
ganha vida em detrimento
do todo. Mas isto é
uma imagem para todo estilo
da décadence: a cada
vez, anarquia dos átomos,
desagregação
da vontade (...). O todo
já não vive
absolutamente: é
justaposto, calculado, postiço,
um artefato".12
A capacidade analítica
de Nietzsche é espantosa.
Corte-se a expressão
"décadence
literária" e
teremos, no período
acima, uma descrição
bastante satisfatória
dos procedimentos formais
empregados pelas vanguardas
- embora já no simbolismo
fosse possível percebê-los
em estágio mais ou
menos embrionário.
O asco do filósofo
por tais métodos
composicionais e pelas obras
que advêm deles é
patente e a justificativa
é, novamente, a pretensa
esterilidade ali subjacente.
Nesse
momento, alguém poderia
redargüir que essa
arte "desequilibrada"
que se cristalizou e atingiu
um lugar de destaque dentro
da Cultura no século
passado, ao propor uma cisão
com o referencial, voltando
sua lente, por intermédio
das mais variegadas técnicas
e artifícios, para
o próprio material
do discurso, expulsa de
vez a figura irradiadora
de Sócrates e as
regras insidiosas da Moral
do interior de seus domínios.
Portanto, ao se isolar do
mundo, ela perderia tanto
o caráter explicativo
da realidade quanto qualquer
possível dimensão
dogmática. Esse foi,
de certo modo, o argumento
encontrado por Duchamp a
fim de conceder validade
a seus ready-mades: objetos
que se querem neutros, destituídos
de valor em si, alçados,
em uma realidade esvaziada
ontológica e metafisicamente,
à posição
de obras-de-arte tão
somente em função
do modo como são,
a partir da interferência
das forças do mercado
e das convenções
sociais, captados pelos
espectadores, os ready-mades
duchampianos operacionalizam
uma reversão radical
das expectativas, buscando
respaldo em um discurso
de relativização
de todos os valores. Ainda
que conceitual, racionalista
e hermética, a arte
de Duchamp - como boa parte
da arte de vanguarda - visou,
ao se apartar do mundo,
torná-lo mais claro,
mais real, menos contaminado.
Ou seja: em sua pretensão
de busca pela essência,
pela pureza, pela depuração
máxima da linguagem,
essa forma negativa de discurso
artístico ousou,
cravando os dentes na própria
pele, tentar libertar o
mundo do fantasma obscuro
da Razão e da Metafísica,
objetivo comungado por parcela
extremamente significativa
de outros artistas pertencentes
àquela mesma episteme.
Entretanto,
a fim de atingir tal objetivo,
as vanguardas acabam por
injetar em seu próprio
organismo ambos os vírus
que procuraram - em tese
- erradicar. Nunca a produção
artística caminhou
tão unida à
epistemologia do que então.
O "terrorismo teórico"
que acompanhou tantas obras
artísticas, comprimindo-as
e salvaguardando-lhes tal
posto, tornou-se um procedimento,
ainda que ambivalente, comum.
O meta-discurso se converteu
em uma palavra-de-ordem.
E a vidraça, que
na Tragédia expunha
a Vida em sua mais profunda
forma e intensidade, apresenta
ao homem moderno a figura
árida de um novo
e indestrutível Deus,
um Deus auto-referencial,
auto-suficiente, um Deus-Código.
Assim
sendo, segundo uma possível
leitura nietzschiana, esse
universo conscientemente
regido pela linguagem, onde
o feio, o triste e o experimental
tentam chegar aos ossos
da "verdade",
onde a música perde
suas propriedades melódicas,
resumindo-se a simples jogos
formais, nesse universo,
Sócrates desvia seu
olhar das paisagens que
compõem seu campo
de visão e concentra
toda a sua furiosa determinação
sobre os braços atados
da única arma capaz
de lhe servir de rival.
Nesse universo, em que a
vontade de potência
e o desejo se tornam sinônimos
de alienação,
as palavras soerguem de
suas próprias superfícies
uma nova e inabalável
Moral. Nesse universo, consequentemente,
a arte nega a vida.
A
relevância de uma
análise da arte de
vanguarda à luz do
pensamento de Nietzsche
provém não
apenas do fato de ter sido
o filósofo um dos
grandes críticos
da tradição
na qual ela se insere e
um dos pensadores mais influentes
dos últimos séculos,
mas, sobretudo, por, em
tempos de pós-modernidade,
ele se mostrar mais vivo
do que nunca. Passados tantos
anos desde o apogeu do experimentalismo
vanguardista, encontrando-nos
aparentemente livres do
culto do novo e da ilusão
do progresso, temos hoje
condições
de reavaliar as principais
vitórias, aporias
e incongruências inerentes
ao projeto da modernidade.
Eticamente
falando, encontramo-nos
numa encruzilhada. Esteticamente,
seguimos divididos entre
a constatação
conformista da morte da
arte e a entusiástica
promessa de uma nova fase.
Uma fase em que a tolerância
seja capaz de substituir
a camisa-de-força
dos conceitos e a arte se
reaproxime da vida e do
homem.
Na
conclusão de seu
livro, Compagnon comenta
que, mais do que uma paradoxal
superação
da modernidade, a pós-modernidade
se firma diante de nossos
olhos como o apogeu da "verdadeira
modernidade", livre
dos grilhões da história
e das ambíguas construções
da metafísica. Entre
o coro dos descontentes,
daqueles que conjugam a
morte dos ideais e a morte
da esperança no homem,
e o coro dos entusiastas,
observamos o eterno retorno
das observações
nietzschianas adquirindo
um novo corpo e as pretensões
totalizadoras ambicionadas
pela modernidade se liquefazendo
aos poucos. É nesse
sentido que
o fim do nosso século
marca, também, um
retorno a Nietzsche, que
fazia a genealogia da tradição
clássica a partir
da constatação
de que o progresso não
tinha mais sentido para
o homem moderno, que a história
estava aberta para um vazio.
A arte, hoje, dá
testemunho desse vazio sem,
no entanto, se preocupar
em saber para onde ela vai.13
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São Paulo: Companhia
das Letras, 1999.
NIETZSCHE, Friedrich. Nascimento
da Tragédia, O. São
Paulo: Companhia das letras,
1992.
NIETZSCHE, Friedrich. Ecce
Homo. São Paulo:
Companhia das letras, 1995.
PAZ, Octavio. Signos em
rotação. São
Paulo: Perspectiva, 1976.
POUND, Ezra. ABC da Literatura.
São Paulo: Cultrix,
1986.
NOTAS:
1
HABERMAS, Jürgen, O discurso
filosófico da modernidade.
2002.
2Idem.
3 PAZ, Octavio. Signos em
rotação. 1976.
4 COMPAGNON, Antoine. Cinco
paradoxos da modernidade.
2003.
5 COMPAGNON, Antoine. Cinco
paradoxos da modernidade.
2003.
6 COMPAGNON, Antoine. Cinco
paradoxos da modernidade.
2003.
7 Alusão à terminologia
elaborada pelo poeta e crítico
literário norte-americano
Ezra Pound em seu livro
ABC da Literatura (Cultrix,
1986), no qual os autores
são agrupados em seis
diferentes categorias: Inventores,
Mestres, Diluidores, Bons
escritores sem qualidades
salientes, Beletristas e Lançadores
de moda.
8 NIETZSCHE, Friedrich. O
Caso Wagner - Um problema
para Músicos/ Nietzsche
contra Wagner - Dossiê
de um Psicólogo. 1999.
9 A intenção
do compositor alemão
sempre foi produzir uma "obra
de arte total", em que
música, texto e encenação
se complementassem, correlacionando-se
de forma o mais plena - quimera
que será, posteriormente,
refutada por seus próprios
seguidores, muito mais preocupados
em modernizar a linguagem
musical do que em estabelecer
diálogos intersemióticos
Para mais detalhes, ler: LARGE,
David C. et alii. A receptividade
à obra. In: MILLINGTON,
Barry (org.). Wagner: um compêndio.
1995.
10 NIETZSCHE, Friedrich. O
Caso Wagner - Um problema
para Músicos/ Nietzsche
contra Wagner - Dossiê
de um Psicólogo. 1999.
11 Idem, p.32.
12 In: O Caso Wagner - Um
problema para Músicos/
Nietzsche contra Wagner -
Dossiê de um Psicólogo,
p.32.
13 COMPAGNON, Antoine. Cinco
paradoxos da modernidade.
2003.
*
Fábio Feldman dos
Santos é mestrando
em Estudos Literários
pela FALE/UFMG. Desenvolve
pesquisa, sob orientação
da Profª. Drª.
Maria Cecília Bruzzi
Boechat sobre a obra do
poeta pernambucano João
Cabral de Melo Neto.