"
Quando se faz muito explicitamente esta pergunta a Maelzel: "O Autômato
é ou não uma pura máquina ?", ele dá invariavelmente
a mesma resposta: "Não tenho de dar explicações a tal
respeito." O Jogador de Xadrez de Maezel, de Edgar Allan Poe (1809
-1849)
Não é por acaso que as tecnologias de simulação prosperam
de tal forma, pelo menos há 156 anos , sob forma de jogos, de entretenimento.
Não apenas pelo fato de ser a primeira instância social de aprendizado,
onde na infância aprendemos os nomes das coisas, suas classificações,
características, poderes e hábitos, mas também por se tratar
de um lugar onde podemos imaginar sem limites e não nos preocuparmos em
dar explicações conseqüentes. Esse lugar poderia conter a promessa
de um paraíso de felicidade, onde imaginar é igual a poder, e imaginar
a si é revestir-se das propriedades das fantasias pensadas. Talvez por
isso, desde que a memória pode lembrar, esse é o lugar mais temido,
vigiado e colonizado da vida humana em sociedade.
O jogo como miniatura do
mundo reconstitui suas principais facetas históricas e míticas,
trazendo aos tabuleiros os personagens e paixões das mais variadas culturas
em todos os tempos. Cada personagem age conforme uma regra, um conjunto abstrato
de poderes e movimentos, de acordo com a geometria do jogo e com a geometria da
pirâmide social. No entanto, a lógica dos jogos extrapola a miniatura
do tabuleiro quando o objetivo é o convencimento e o poder. Ela avança
sobre o mundo vivido sob a forma de retórica e de representações
verossímeis que carreguem o vínculo das causalidades.
Talvez
a mais clara característica do momento histórico atual seja a de
que suas estruturas sociais, pensadas como matrizes de identidade e poder, conjuguem
a regra retórica de uma lógica de tabuleiro, sem as explicações
necessárias, imanentes. A idéia de que o tabuleiro tem sua lógica,
e de que um ser autômato ( o social) a performa, vai ao encontro do conceito
de sociedade de controle e ao das tecnologias de simulação que sur-realizam
as mídias. Tendo como referente a simulação tecnológica,
a ação no universo político se reduz à interatividade
programada entre desejos obsolescentes e objetos de consumo, nostálgicos
de seu vínculo ontológico.
Podemos hoje superar, enfim, o terror
mítico incutido em todas as culturas. Superamos o tabu. Podemos assistir
um filme sobre a Ira de Deus, ver seus dilúvios, suas colunas de fogo,
com as cores mais brilhantes e verídicas, sobreviver a tudo e saber que
tais coisas nãos passam de efeitos especiais. Podemos ver um filme sobre
a escravidão, chorar com o sofrimento nos porões dos navios e respirar
aliviados no final sabendo que isso não existe mais. Luz e sombras. Zero
e um. O início em verbo, sopro que modula o pó criador, nuvem elétrica,
caverna eletrônica. Cada ruptura parece querer reencenar o drama da gênese,
da diferenciação no continuum, entidades. Dos simuladores de guerras
para soldados aos simuladores de guerras para crianças, existe alguma diferença
? Nada no mundo do verbo é neutro, menos ainda no mundo dos números,
menos ainda no mundo binário.
Alguns teóricos contextualizam
as novas tecnologias de processamento de informação como meios para
novos padrões de interação social. Isso iria desde novas
formas de comunidades, apropriação da linguagem, substituição
de hábitos por outros. Vivendo nesta época de deslumbramento telemático,
de eflúvios sentimentais televisivos, da mais pura crença no futuro
das ciências robóticas e genéticas. Que florescimento maravilhoso
de tão ordenadas engrenagens sociais ! Pitágoras tinha esse sonho,
de que pudéssemos reduzir o mundo a pequenas unidades e relações
numéricas e geométricas, e assim, recombinando-as, teríamos
o mundo de volta em toda a sua complexidade compreendidas. E para ele esse era
o conhecimento verdadeiro, não uma simples impressão ou expressão
da língua. Que gozo seria para ele testemunhar a maravilha de cálculo
dos computadores. Que simulações verdadeiras engendram essas máquinas
de calcular ! Onde não se mede apenas a aparência das coisas, mas
o cerne de um objeto, seu princípio ordenador.
"Nenhuma
exibição do mesmo gênero terá talvez jamais excitado
tanto a atenção pública como a do Jogador de Xadrez de Maelzel.
Em toda parte onde ele se apresentou, foi, para todas as pessoas que raciocinam,
objeto de intensa curiosidade. Contudo, a questão do modus operandi ainda
não se acha resolvida. Nada foi escrito acerca desse assunto que possa
ser considerado decisivo. Com efeito, encontramos por todo lado homens dotados
do gênio da mecânica, de perspicácia geral muito grande e discernimento
raro, que não hesitam em declarar que o autômato em questão
é uma pura máquina, cujos movimentos não têm qualquer
relação com as ações humanas, e que é consequentemente,
sem qualquer comparação, a mais espantosa de todas as invenções
humanas." 1
O
poder de síntese de modelos matemáticos aplicados a visualizações
simuladas tem como objetivo a veridicção, o convencimento de que
as narrativas que delas se utilizam sejam verdadeiras. A articulação
entre representações digitais, sistemas de comunicação,
produção, distribuição e consumo, tem sua coerência
garantida por um empobrecimento humano vinculado ao poder ideológico dos
impérios políticos, financeiros e militares. Pode parecer absurdo
estando sentados em nossos sofás que tamanha força bruta de repetição
e coação seja destinada a que repitamos as mesmas gírias
e para que continuemos consumindo batatinhas-fritas. Agindo no microcosmo da vida
cotidiana, na mais pálida feição da subjetividade, que as
micro-engrenagens discursivas põem em movimento todo um sistema, simulado
e virtualizado, que se confirma "dente por dente" e constrói
sentido para as massas, órfãs de um espelho que lhes devolva uma
imagem inteira. Como antigamente, quando nos víamos através da nacionalidade,
da lei, da língua, do sotaque, da gagueira.
O poder político
dado aos jogos de simulação histórica só é
possível pela desmobilização política de grande contingente
de populações em todo o mundo. A chamada hegemonia cultural que
pretende "significar" o planeta age de forma incompreensível
para alguns analistas, pois ela não afirma com todas as letras e de forma
clara um modelo, a essa hegemonia parece mais funcional confundir, apresentando
diversas situações ficcionais ou históricas, portando as
mais diversas idéias éticas, no entanto é no final do filme
que podemos vê-las frustradas ou não de acordo com o senso comum
disseminado.
Há uma grande diferença entre pensar um universo
existindo enquanto interações simulacro digitais e mecânico-sistêmicas
quando falamos de uma sociedade plenamente industrializada, com seus mecanismos
de redistribuição de renda e oportunidades e quando falamos de sociedades
empobrecidas, totalitárias e com hordas de famintos e analfabetos. Já
desde meados do século passado entram em crise os valores etnocentricos
e secularizados europeus. Fim dos colonialismos históricos não foram
sucedidos pela integração à comunidade internacional, gerando
periferias continentais vergonhosas. Porfim, onde paira a figura do intelectual
globalizado nesse contexto ? Poderíamos citar Tom Wolfe, quando diz:
"Resta
uma questão. A que os intelectuais visam com suas acrobacias mentais ?
Alguma mudança para os pára-proletários de quem eles são
os benfeitores ideológicos? Claro que não ! Mudança real
implicaria uma trabalheira incômoda. Mas o que eles querem ? No fundo, é
simples: tudo o que o intelectual quer é se manter apegado ao que lhe foi
magicamente concedido por um esplendoroso momento, um século atrás;
como disse Revel, ele só quer manter a soberba, distante da plebe, dos
"filisteus", da classe média". 2
Tudo
isso para que nos perguntemos de onde vem nossos valores. Talvez devêssemos
nos perguntar quais os regimes de significados que fornecem a base da sociabilidade
contemporânea ? Com tranqüilidade podemos afirmar que os regimes de
consumo e de opinião massificados pelas mídias dão sentido
de continuidade social nas comunidades por elas colonizadas - desde os centros
industriais, pós-industriais ou mesmo nas periferias emergentes.
O
espaço público mais habitado é a sua simulação
nas redes de TV ou internet. E a sua ação mais freqüente é
o voto simples: sim ou não, este ou aquele. Simulacro de democracia sob
a égide da interatividade. Como na época romana onde a população
judia escravizada podia "democraticamente " escolher" entre Jesus
ou Barrabás. Mesmo a onda recente de ativismo político na internet
representa na maioria das vezes panfletarismo caduco e inócuo ou na melhor
das hipóteses uma boa publicidade (mais valia) sobre eventos sociais concretos.
Essa potência simuladora, que renderiza um real mais verossímil e
cheio de sentido, não se resume a um acontecimento isolado, depende de
um sistema de transmissão (broadcast) que, em suas vias de acesso projeta
uma conexão com as vontades, desejos, com a fé e com a esperança.
Como um sonho que quer se sonhar acordado. Os efeitos tornam-se afectos, estados
de alma, paixões pornográficas, expondo nossa frágil existência
num lance de olhos catódicos. Mais que um estado de sincronia coletiva,
ou de mediunidade globalizada, essa via de aceso que nos atravessa não
nos permite censura, intimidade, claustro, pecado, nada que interrompa o permanente
fluxo da informação.
Por outro lado, os movimentos convulsivos
das periferias aparecem em meio a uma completa invisibilidade de seus atores .
Essa convulsão chama atenção quando ameaça as fronteiras
do mundo industrializado. Revisitando o medo medieval de que as hordas de bárbaros
e descrentes invadissem o feudo, os países tentam fechar suas fronteiras
físicas abrindo fronteiras virtuais e inaugurando os deliveries globais
de vida fast-food. As marcas de produtos chegam como vocabulário "civilizatório"
de um império nada civilizado. Afinal, o que poderia ameaçar esta
possibilidade real de uma democracia verdadeira? Que bobagem religiosa, utópica
ou étnica ainda sobrevive para nos aborrecer com tamanho rancor e ignorância
? Quem em pleno uso da boa vontade poderia desdenhar da construção
universal desse relógio do espírito, desse espelho universal que
tanto faz para diminuir as diferenças entre as pessoas ? A mão-de-obra
que trabalha em centros urbanos industriais não mais se identifica como
classe internacional, se é que um dia tivemos espaço para esse sentimento
legítimo em meio aos totalitarismos comunistas, e substitui o sentimento
de justiça por uma caridade globalizada e virtual. Caridade à distância,
que não compreende a experiência do sofrimento, mas que alimenta
a reflexão intelectual dos grandes centros. Numa espécie de provincianismo
global, só possível pela redução operada pelas redes
de informação como afirma Susan Sontag em entrevista:
"Essa
idéia de que vivemos num mundo pós-moderno em que nada é
real, só espetáculo, é provincianismo. Pessoas como Baudrillard
ou Noam Chomsky ficam em seus escritórios e suas confortáveis casas
de campo e nunca viram o horror de perto, nunca viram a terrível condição
em que vive a maioria das pessoas do mundo. Por isso não acredito no que
dizem." 3
No conto de Poe, o Sr. Maelzel faz questão de abrir todos os compartimentos
do Autômato, expor seus engenhos mecânicos, para que fique claro ao
público de que se trata de uma máquina. Ainda assim restam dois
problemas para o narrador, deixando em aberto a possibilidade de uma farsa. O
primeiro é de que ainda restariam lugares discretos para que se escondesse
alguém dentro da máquina que pudesse operar seus movimentos. E o
segundo, e mais crucial, é o fato de que a máquina de xadrez de
Maelzel não vence todas as partidas.
"Se
a máquina fosse uma pura máquina, não seria assim; deveria
ganhar sempre.(...) Se, pois, encararmos o jogador de xadrez como uma máquina,
devemos supor (o que é especialmente improvável) que o inventor
preferiu deixá-la incompleta a fazê-la perfeita - suposição
que parece ainda mais absurda se refletirmos que, ao deixá-la incompleta,
forneceria um argumento contra a suposta possibilidade de ser uma pura máquina."
4
Uma dúvida parecida ronda as simulações midiáticas,
quando deixam entrever o sofrimento real em meio à tão maciça
promessa de felicidade e consolo. Como ficaremos se não pudermos confiar
na ciência e na tecnologia ? Quem é esse Doutor Frankenstein que
deixa sua invenção incompleta ? De que adianta realizar tal prodígio
com bites, telas de alta definição e banda larga se o autômato
cotidiano não ganha sempre ? Quem é esse corcunda que puxa os cordames
desse frágil presépio ? Poderia esse anão auspicioso chamar-se
Hedonismo ? Vale aqui lembrar a síntese de Maffesoli quando afirma:
"O
que queremos sublinhar sucintamente é o mecanismo da neutralidade das relações
sociais que é a negação do coletivo. O devir econômico
da sociedade racionaliza o egoísmo, e, por conseguinte, o coletivo, no
qual a tendência coletiva , como funcionamento ordenado da diferença,
é qualificada de irracional ou primitiva."5
Será
que ao abrirmos os compartimentos da chamada sociedade de controle e das simulações
midiáticas encontraremos a nós mesmos com todo nosso egoísmo
? Sem ser tão rigoroso em relação aos nomes das coisas e
sem pedir maiores explicações a respeito, lembramos apenas que essas
imagens, independentes do "estatuto ontológico", deixam um rastro
de apagamento do real. Ao contrário de um silêncio, ou de um arco-íris
branco, esse apagamento se dá por um excesso do visível, uma plena
exterioridade, tão longe e tão perto. Um lago espelhado que olha
para mim de volta. E que preciso cálculo para criar as ondas que desfazem
meu rosto em tão fina superfície.
Essa promessa de felicidade
encarnada em um duplo faz lembrar Platão em seu Banquete quando Zeus, para
quebrar o orgulho humano, então encarnado em ser andrógino, corta-o
em dois e cria homem e mulher, faz Apolo repuxar-lhes a pele e arrematar a costura
no umbigo, selando o destino de ambos num sentimento perdido de reunião.
O amor, causa de todos os demais, criado por Zeus para que o humano não
ameaçasse o Olimpo, cria ao mesmo tempo a poesia e a tragédia.
Cria esse humano então um totem, que o faz reviver o corte, que regula
sua intimidade a partir da semelhança, não mais com uma natureza
ausente, mas com seu entorno tecnológico. Que regula seu desejo a partir
da homologia homem-máquina. Que exorciza seus fantasmas perscrutando com
luz de vela o interior vazio do seu duplo autômato.
"Contudo, seu primeiro introdutor, o Barão Kempelen, não sentia
escrúpulos em declará-la "uma peça mecânica muito
ordinária, uma bugiganga cujos efeitos só parecem tão maravilhosos
devido à audácia da concepção e à escolha feliz
dos meios adotados para favorecer a ilusão". É, no entanto,
inútil demorarmo-nos nesse ponto. É absolutamente certo que as operações
do Autômato são reguladas pelo espírito, e não por
outra coisa. Pode-se até dizer que essa afirmação é
suscetível de demonstração matemática, a priori. A
única coisa em questão é, portanto, a maneira como se produz
a intervenção humana." 6
1
Poe, "O Jogador de Xadrez de Maelzel". Histórias extraordinárias.
Ed. Círculo do Livro. pp.355-379. Trad. Breno Silveira.
2 Wolfe, "Império do marxismo rococó". Folha de S.Paulo
- 16/07/2000. Pp 12. Trad. Samuel Titan Jr.
3 Sontag , entrevista "Susan Sontag vê a dor". Folha de S.Paulo
- 24/08/2003. Pp 4. Trad. Flávio Moura
4 Poe, "O Jogador de Xadrez de Maelzel". Histórias extraordinárias.
Ed. Círculo do Livro. pp.355-379. Trad. Breno Silveira.
5 Maffesoli, "Poder potência". Violência totalitária.
Zahar editores. Pp56. Trad. Nathanael C. Caixeiro.
6 Poe, "O Jogador de Xadrez de Maelzel". Histórias extraordinárias.
Ed. Círculo do Livro. pp.355-379. Trad. Breno Silveira.