Uma
angústia acompanha aquele que toma um lápis e decide escrever. Esse
sentimento se manifesta sempre que se quer expressar algo. Um fantasma que ronda
as profundezas da imaginação criativa, transformando-a num labirinto
de corredores já percorridos. O que deveria ser um platô privilegiado
para observação acaba se tornando um cadafalso. Para os que seguem
em busca da poesia, sua peregrinação, em caminhos tortuosos e exaustivos,
procura reproduzir o martírio das grandes figuras que elencam os altares
literários, e que, ao mesmo tempo, inspiram e desafiam a fé na livre
criação poética.
Aliás, fé é uma
palavra contraditória no que diz respeito à prática poética.
Ali não é lugar de saberes absolutos e de crenças, ao contrário,
um percurso poético se origina e termina em dúvida, um espaço
aberto ao devir. Ao mesmo tempo, a poesia é um exercício de fé
cega, transpondo dificuldades colossais movida apenas pela esperança de
transformação das condições de vida material e ética.
Um discurso não tem sua importância a priori. Sua relevância
se dá na medida em que reproduz as ansiedades de um determinado grupo da
sociedade e de alguma forma aglutina e orienta as reações e mudanças
de postura destes grupos frente a determinadas questões.
O choque
foi um importante instrumento na ação poética da modernidade.
Essa foi a via da desestruturação do pensamento vigente necessária
para o estabelecimento de um novo olhar sobre o indivíduo e para a sociedade.
O choque como instrumento político e artístico foi utilizado por
todos os movimentos de vanguarda do século XX. Mesmo correndo o risco de
se tornar mais um braço de facções panfletárias, a
arte moderna não se furtou aos debates mais importantes do século,
sem abrir mão de uma distância crítica necessária.
Crítica que não poupou sequer a própria modernidade, movimentos
como o dadaísmo ridicularizaram a seriedade que alguns ideólogos
atribuíram aos "borrões e caricaturas" que esses artistas
produziram. Nesse sentido a relevância do discurso poético na modernidade
se atrelava a uma operação de desmonte de um modelo autoritário
de sociedade, onde o choque exercia grande poder de persuasão.
Hoje,
o que se pode constatar nos debates acadêmicos é a formação
de guetos culturais. Fruto das demandas sociais do século XX, esses grupos
procuram reconstruir suas identidades a partir de uma releitura histórica
da ideologia burguesa. Feministas, gays, indígenas, negros, imigrantes,
todos aqueles que o discurso do poder vigente não contempla e não
inclui como parte da construção da sociedade. Esses grupos se organizaram
e hoje pressionam os órgãos de cultura e ciência para incluí-los
de maneira igualitária. Por conta disso, o que se vê nas universidades
é a criação de centros de estudos literários dirigidos
a uma agenda cultural específica - algo como dividir a produção
intelectual em cotas. Para esses grupos a literatura deixa de ser uma entidade
única e passa a ser palco de um confronto ideológico. No entanto,
a grande maioria dos discursos que surgem a partir dessas agendas não conseguem
se desvencilhar de um imaginário estabelecido, como num retrato de circo
onde basta colocar a cabeça no buraco para aparecer num cenário
idealizado.
E onde mora o cânone em tudo isso? Ele é o cenário
idealizado, onde não há dúvida, onde tudo está resolvido
e tudo é belo e bom. Basta construir o seu próprio, à sua
imagem e semelhança. Cada um com seu mártir. Neste caso, a quantidade
acaba se tornando uma qualidade, a enxurrada de novas teorias críticas,
algumas de cunho sexista, outras raciais, chega a dar a sensação
de que estamos num contexto sem preconceitos. Pura ilusão, acredito que
o atual perfil da crítica, assim como o da poesia, seja o de uma individuação
conservadora muito distante de uma pluralidade democrática tão desejada.
Ainda não totalmente compreendido, o Modernismo provoca suspiros nostálgicos
naqueles que aprenderam a admirar poesia, principalmente a coragem da chamada
poesia de vanguarda. Hoje a desistência do projeto poético moderno
nos fez herdar uma falta de critérios e nos brinda com uma avalanche de
lamúrias, recalques e chateações de todo o tipo de deprimidos,
desajustados e neuróticos. Resultado: uma poesia-sintoma, uma poesia-dor-de-cabeça
- todos reclamam o que sentem sem saber a causa- uma poesia analgésico
- alívio imediato.
Panacéia dos medíocres, a tão
cantada pós-modernidade mais parece uma roleta russa de tendências,
algumas ultrapassadas, outras sectárias, outras ainda delirantes. Essa
nova demanda cosmopolita abriu caminho para que uma nova indústria de massa
suprisse a opinião pública de todo tipo de barbárie e non-sense,
gerando uma concorrência entre, por um lado, o discurso legitimado por instituições,
galerias e pela mídia e, por outro, o fazer artístico. Em alguns
momentos, como na arte pop, e mais criticamente na arte conceitual, ambos se confundem,
causando um curto-circuito nas intenções de artistas e publicitários.
Atualmente o discurso artístico mais parece nutrir o choque pelo choque,
estratégia aliás que deixa a arte sempre em uma posição
de desvantagem em relação aos meios jornalísticos. O que
não se previa até meados do século é que a burguesia
se acostumaria e até exigiria ser chocada.
O que os artistas pós-modernos
parecem ter perdido de vista é que o desnaturalizar da poesia deve estar
a serviço de um dilema ético mais profundo. O uso de uma estratégia
como a violência serve apenas para desautomatizar o raciocínio das
rotinas programadas, em seguida o artista deve propor uma questão a ser
debatida e não parar na ofensa. Não pretendo me alongar no que seria
uma pedagogia do violência em arte, dizendo apenas que interessa mais a
ética de um poema do que a mais polêmica ou desconcertante imagem.
Se quero fanfarronices ligo a TV.
A quem atinge a poesia ? Quem ela desafia,
para quem ela se destina, e a quem ela chega são perguntas que devem estar
na mente do poeta de uma maneira clara e objetiva. Não se trata de produzir
por encomenda "espelhos com molduras", a questão está
em desenvolver algo fundamental, não apenas para a poesia, mas para a humanidade
como um todo: a compaixão - e aqui me alinho ao pensamento de Schopenhauer
1 quando este, na busca do fundamento da
moral, contraria o princípio metafísico da razão pura e vai
além, em busca de uma moral mais próxima da vida cotidiana. Alguns
se eximem, proclamando a retórica da não-função da
arte - argumento rotineiro para apaziguar as consciências pseudo-liberais.
No entanto, os mesmos não hesitam em defender o valor social dos seus escritos,
sem ao menos explicar qual seja - além o de promover a auto-imagem de artistas
"engajados". A arte está para as pessoas, não como um
remédio, ou como um analgésico, mas como um despertar. Poesia não
é feita para ser caridade e muito menos um produto de consumo barato, "acessível",
ela é destinada a tocar os corações, questionar a mente e
aquecer o espírito. A poesia não está para transformar a
vida de poucos eleitos, mas de todos. Mesmo que todos sejam vários.
Concordo em dizer que a poesia motivada ideologicamente sempre acaba em má
sociologia, mas assim como não se pode generalizar sobre a poesia, nada
se pode afirmar sobre a sociedade - e neste momento abro mão definitivamente
de pensar ambas cientificamente 2. Em poesia,
o conceito de algo não é puramente abstrato, ou filosófico,
mas uma vivência posta eticamente à prova na linguagem. Ela experimenta
termos éticos mais amplos do que os dogmas de comportamento aceito. A valoração
das coisas ficam em suspenso e nos permite entrar em contato com a experiência
estética sem a pressão das definições enciclopédicas.
No caso da vida em sociedade, nada é definitivo, tudo está para
ser demolido e reconstruído. E se as duas têm algo em comum é
o fato de que através da linguagem a vivência de algo pode ser reconstruído.
Não sinto falta da poesia de antigamente, aquela boa poesia sem
sombra de dúvida. Essa certeza que o cânone representa é muito
útil àqueles que usurpam a honestidade de um texto e o transforma
numa afirmação da distância entre as pessoas. Esses textos
passam a ser apenas citados e não mais lidos. Como pode um leitor desenvolver
sua sensibilidade tendo que se confrontar com a imagem de espantalho que a mídia
cria do autor dito canônico? Como pode um jovem poeta aprender seu ofício
de um modelo preenchido de palha, olhar fixo e distante, fincado num chão
seco de resenhas?
Sempre me atraíram os artistas cuja obra seja
considerada incompleta, ali mora uma angústia difícil de representar
por truques estilísticos. Sinto suas dúvidas mais perto das minhas.
Um sentido de ser humano incompleto, sem destino traçado, com o peso do
tempo esmagando a esperança de ser semelhante a Deus. A criação
é um enigma, pois ali, antes, não há nada. Não vemos
nada em que possamos nos fiar. É a nossa atitude que cria a abertura para
que algo possa acontecer. E que atitude é essa ? Esta atitude criativa
tem a ver com a projeção do ser, em toda sua sensibilidade e humanidade,
em um situação reflexiva. O artista deve se descolar da imagem que
fazem dele e da imagem que faz de si mesmo para conhecer o "eu" que
se faz a cada ato de criação. O desafio de deixar de lado o conhecido,
o que se costuma chamar de arte.
A pedra no caminho existe para todo poeta,
esteja onde estiver, fale a língua que for. O estado da poesia sempre será
o de crise. Podemos dizer que são sinônimos: poesia e crise - a busca
do semelhante no incomum. Neste caso, a afirmação de uma identidade
aparece na poesia; não é uma intenção, e sim uma conseqüência
da honestidade de um olhar. Um olhar nunca é coletivo; talvez a fala. Da
fala, o poema é o soluço, o arrependimento.
Texto
publicado na Revista de Poesia, Tradução e Crítica BABEL
- n 3 - setembro a dezembro 2000
1
"(...) Por isto desejo, em oposição à forma referida
do princípio moral kantiano, estabelecer a seguinte regra: com cada pessoa
com que tenhamos contato, não empreendamos uma valorização
objetiva da mesma conforme valor e dignidade, não consideremos portanto
a maldade da sua vontade, nem a limitação do seu entendimento, e
a incorreção dos seus conceitos; porque o primeiro poderia facilmente
ocasionar o ódio, e a última, desprezo; mas observemos somente seus
sofrimentos, suas necessidades, seu medo, suas dores. Assim, sempre teremos com
ela parentesco, simpatia, e, em lugar do ódio ou do desprezo, aquela compaixão
que unicamente forma a ágape, pregada pelo evangelho. Para não permitir
o ódio e o desprezo contra a pessoa, a única adequada não
é a busca de sua pretensa "dignidade", mas, ao contrário,
a posição da compaixão.(...)" Schopenhauer, "Acerca
da Ética" em Parerga e Paralipomena, trad. Wolfgang Leo Maar (São
Paulo: Ed. Abril,1974)
2 nunca gostei de dissecações, elas
me fizeram perder toda a fantasia que nutria, até então, em relação
à vida. E o que é a poesia senão uma fantasia que torna a
vida mais aceitável ?