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O martírio do cânone

Marcelo Chagas


 

Uma angústia acompanha aquele que toma um lápis e decide escrever. Esse sentimento se manifesta sempre que se quer expressar algo. Um fantasma que ronda as profundezas da imaginação criativa, transformando-a num labirinto de corredores já percorridos. O que deveria ser um platô privilegiado para observação acaba se tornando um cadafalso. Para os que seguem em busca da poesia, sua peregrinação, em caminhos tortuosos e exaustivos, procura reproduzir o martírio das grandes figuras que elencam os altares literários, e que, ao mesmo tempo, inspiram e desafiam a fé na livre criação poética.
Aliás, fé é uma palavra contraditória no que diz respeito à prática poética. Ali não é lugar de saberes absolutos e de crenças, ao contrário, um percurso poético se origina e termina em dúvida, um espaço aberto ao devir. Ao mesmo tempo, a poesia é um exercício de fé cega, transpondo dificuldades colossais movida apenas pela esperança de transformação das condições de vida material e ética. Um discurso não tem sua importância a priori. Sua relevância se dá na medida em que reproduz as ansiedades de um determinado grupo da sociedade e de alguma forma aglutina e orienta as reações e mudanças de postura destes grupos frente a determinadas questões.
O choque foi um importante instrumento na ação poética da modernidade. Essa foi a via da desestruturação do pensamento vigente necessária para o estabelecimento de um novo olhar sobre o indivíduo e para a sociedade. O choque como instrumento político e artístico foi utilizado por todos os movimentos de vanguarda do século XX. Mesmo correndo o risco de se tornar mais um braço de facções panfletárias, a arte moderna não se furtou aos debates mais importantes do século, sem abrir mão de uma distância crítica necessária. Crítica que não poupou sequer a própria modernidade, movimentos como o dadaísmo ridicularizaram a seriedade que alguns ideólogos atribuíram aos "borrões e caricaturas" que esses artistas produziram. Nesse sentido a relevância do discurso poético na modernidade se atrelava a uma operação de desmonte de um modelo autoritário de sociedade, onde o choque exercia grande poder de persuasão.
Hoje, o que se pode constatar nos debates acadêmicos é a formação de guetos culturais. Fruto das demandas sociais do século XX, esses grupos procuram reconstruir suas identidades a partir de uma releitura histórica da ideologia burguesa. Feministas, gays, indígenas, negros, imigrantes, todos aqueles que o discurso do poder vigente não contempla e não inclui como parte da construção da sociedade. Esses grupos se organizaram e hoje pressionam os órgãos de cultura e ciência para incluí-los de maneira igualitária. Por conta disso, o que se vê nas universidades é a criação de centros de estudos literários dirigidos a uma agenda cultural específica - algo como dividir a produção intelectual em cotas. Para esses grupos a literatura deixa de ser uma entidade única e passa a ser palco de um confronto ideológico. No entanto, a grande maioria dos discursos que surgem a partir dessas agendas não conseguem se desvencilhar de um imaginário estabelecido, como num retrato de circo onde basta colocar a cabeça no buraco para aparecer num cenário idealizado.
E onde mora o cânone em tudo isso? Ele é o cenário idealizado, onde não há dúvida, onde tudo está resolvido e tudo é belo e bom. Basta construir o seu próprio, à sua imagem e semelhança. Cada um com seu mártir. Neste caso, a quantidade acaba se tornando uma qualidade, a enxurrada de novas teorias críticas, algumas de cunho sexista, outras raciais, chega a dar a sensação de que estamos num contexto sem preconceitos. Pura ilusão, acredito que o atual perfil da crítica, assim como o da poesia, seja o de uma individuação conservadora muito distante de uma pluralidade democrática tão desejada.
Ainda não totalmente compreendido, o Modernismo provoca suspiros nostálgicos naqueles que aprenderam a admirar poesia, principalmente a coragem da chamada poesia de vanguarda. Hoje a desistência do projeto poético moderno nos fez herdar uma falta de critérios e nos brinda com uma avalanche de lamúrias, recalques e chateações de todo o tipo de deprimidos, desajustados e neuróticos. Resultado: uma poesia-sintoma, uma poesia-dor-de-cabeça - todos reclamam o que sentem sem saber a causa- uma poesia analgésico - alívio imediato.
Panacéia dos medíocres, a tão cantada pós-modernidade mais parece uma roleta russa de tendências, algumas ultrapassadas, outras sectárias, outras ainda delirantes. Essa nova demanda cosmopolita abriu caminho para que uma nova indústria de massa suprisse a opinião pública de todo tipo de barbárie e non-sense, gerando uma concorrência entre, por um lado, o discurso legitimado por instituições, galerias e pela mídia e, por outro, o fazer artístico. Em alguns momentos, como na arte pop, e mais criticamente na arte conceitual, ambos se confundem, causando um curto-circuito nas intenções de artistas e publicitários. Atualmente o discurso artístico mais parece nutrir o choque pelo choque, estratégia aliás que deixa a arte sempre em uma posição de desvantagem em relação aos meios jornalísticos. O que não se previa até meados do século é que a burguesia se acostumaria e até exigiria ser chocada.
O que os artistas pós-modernos parecem ter perdido de vista é que o desnaturalizar da poesia deve estar a serviço de um dilema ético mais profundo. O uso de uma estratégia como a violência serve apenas para desautomatizar o raciocínio das rotinas programadas, em seguida o artista deve propor uma questão a ser debatida e não parar na ofensa. Não pretendo me alongar no que seria uma pedagogia do violência em arte, dizendo apenas que interessa mais a ética de um poema do que a mais polêmica ou desconcertante imagem. Se quero fanfarronices ligo a TV.
A quem atinge a poesia ? Quem ela desafia, para quem ela se destina, e a quem ela chega são perguntas que devem estar na mente do poeta de uma maneira clara e objetiva. Não se trata de produzir por encomenda "espelhos com molduras", a questão está em desenvolver algo fundamental, não apenas para a poesia, mas para a humanidade como um todo: a compaixão - e aqui me alinho ao pensamento de Schopenhauer 1 quando este, na busca do fundamento da moral, contraria o princípio metafísico da razão pura e vai além, em busca de uma moral mais próxima da vida cotidiana. Alguns se eximem, proclamando a retórica da não-função da arte - argumento rotineiro para apaziguar as consciências pseudo-liberais. No entanto, os mesmos não hesitam em defender o valor social dos seus escritos, sem ao menos explicar qual seja - além o de promover a auto-imagem de artistas "engajados". A arte está para as pessoas, não como um remédio, ou como um analgésico, mas como um despertar. Poesia não é feita para ser caridade e muito menos um produto de consumo barato, "acessível", ela é destinada a tocar os corações, questionar a mente e aquecer o espírito. A poesia não está para transformar a vida de poucos eleitos, mas de todos. Mesmo que todos sejam vários.
Concordo em dizer que a poesia motivada ideologicamente sempre acaba em má sociologia, mas assim como não se pode generalizar sobre a poesia, nada se pode afirmar sobre a sociedade - e neste momento abro mão definitivamente de pensar ambas cientificamente 2. Em poesia, o conceito de algo não é puramente abstrato, ou filosófico, mas uma vivência posta eticamente à prova na linguagem. Ela experimenta termos éticos mais amplos do que os dogmas de comportamento aceito. A valoração das coisas ficam em suspenso e nos permite entrar em contato com a experiência estética sem a pressão das definições enciclopédicas. No caso da vida em sociedade, nada é definitivo, tudo está para ser demolido e reconstruído. E se as duas têm algo em comum é o fato de que através da linguagem a vivência de algo pode ser reconstruído.
Não sinto falta da poesia de antigamente, aquela boa poesia sem sombra de dúvida. Essa certeza que o cânone representa é muito útil àqueles que usurpam a honestidade de um texto e o transforma numa afirmação da distância entre as pessoas. Esses textos passam a ser apenas citados e não mais lidos. Como pode um leitor desenvolver sua sensibilidade tendo que se confrontar com a imagem de espantalho que a mídia cria do autor dito canônico? Como pode um jovem poeta aprender seu ofício de um modelo preenchido de palha, olhar fixo e distante, fincado num chão seco de resenhas?
Sempre me atraíram os artistas cuja obra seja considerada incompleta, ali mora uma angústia difícil de representar por truques estilísticos. Sinto suas dúvidas mais perto das minhas. Um sentido de ser humano incompleto, sem destino traçado, com o peso do tempo esmagando a esperança de ser semelhante a Deus. A criação é um enigma, pois ali, antes, não há nada. Não vemos nada em que possamos nos fiar. É a nossa atitude que cria a abertura para que algo possa acontecer. E que atitude é essa ? Esta atitude criativa tem a ver com a projeção do ser, em toda sua sensibilidade e humanidade, em um situação reflexiva. O artista deve se descolar da imagem que fazem dele e da imagem que faz de si mesmo para conhecer o "eu" que se faz a cada ato de criação. O desafio de deixar de lado o conhecido, o que se costuma chamar de arte.
A pedra no caminho existe para todo poeta, esteja onde estiver, fale a língua que for. O estado da poesia sempre será o de crise. Podemos dizer que são sinônimos: poesia e crise - a busca do semelhante no incomum. Neste caso, a afirmação de uma identidade aparece na poesia; não é uma intenção, e sim uma conseqüência da honestidade de um olhar. Um olhar nunca é coletivo; talvez a fala. Da fala, o poema é o soluço, o arrependimento.

Texto publicado na Revista de Poesia, Tradução e Crítica BABEL - n 3 - setembro a dezembro 2000

1 "(...) Por isto desejo, em oposição à forma referida do princípio moral kantiano, estabelecer a seguinte regra: com cada pessoa com que tenhamos contato, não empreendamos uma valorização objetiva da mesma conforme valor e dignidade, não consideremos portanto a maldade da sua vontade, nem a limitação do seu entendimento, e a incorreção dos seus conceitos; porque o primeiro poderia facilmente ocasionar o ódio, e a última, desprezo; mas observemos somente seus sofrimentos, suas necessidades, seu medo, suas dores. Assim, sempre teremos com ela parentesco, simpatia, e, em lugar do ódio ou do desprezo, aquela compaixão que unicamente forma a ágape, pregada pelo evangelho. Para não permitir o ódio e o desprezo contra a pessoa, a única adequada não é a busca de sua pretensa "dignidade", mas, ao contrário, a posição da compaixão.(...)" Schopenhauer, "Acerca da Ética" em Parerga e Paralipomena, trad. Wolfgang Leo Maar (São Paulo: Ed. Abril,1974)
2 nunca gostei de dissecações, elas me fizeram perder toda a fantasia que nutria, até então, em relação à vida. E o que é a poesia senão uma fantasia que torna a vida mais aceitável ?

 

 

 

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