A
máquina poética re-inventada: As operações
e intervenções de Haroldo de Campos na tradução
José
Molina
A
idéia da tradução de Haroldo de Campos
Na
luz dos vários trabalhos que Haroldo de Campos realizou
sobre o tema da tradução, é relevante
mencionar, sobretudo, que ele pensou nesta como uma ferramenta
do aparato crítico da poesia. Desde os inícios
do grupo Noigandres em 1952, como parte do programa estabelecido
junto com o seu irmão Augusto e Décio Pignatari,
a tradução foi uma arma estratégica
da produção em colaboração,
aparecendo deste modo em português os emblemas ou
suportes poéticos do grupo, como os trechos do Finnegan's
Wake de James Joyce e coletâneas de poemas de
Stéphane Mallarmé, Vladimir Maiakovski e Ezra
Pound.
Trata-se
de uma seleção rígida que obedecia
a estritos padrões de inovação no campo
formal da poesia. O corolário desse primeiro período
foi a publicação de traduções
de poetas trovadores da Provença, com o objetivo
de conferir que não somente a vanguarda do século
vinte trazia inovações formais.
O
cancelamento do movimento da Poesia Concreta em 1965 permitiu
aos integrantes seguir os próprios caminhos na criação
poética. Para Haroldo representou uma liberdade que
lhe permitia observar, com o rigor crítico da herança
concreta, a evolução da arte da poesia em
vários períodos da história e continuar
a laborar como tradutor e teórico da literatura,
abrindo um espaço dialógico incessante em
diferentes línguas. Desde esta nova perspetiva o
poeta brasileiro traduziu para o português as cenas
finais do Segundo Fausto de Wolfgang Goethe, seis
cantos do "Paraíso" da Commedia
de Dante Allighieri, uma peça do teatro Nô
do Japão, o Hagoromo de Zeami, o poema Blanco
do poeta mexicano Octavio Paz, textos hebraicos como Bere'Shith
A Cena da Origem e Qohélet O que Sabe, Eclesiastes
e a Ilíada.
Esta
foi sem dúvida uma tarefa tradutora que se planejou
como um programa poético. O detalhado estudo lingüístico
culminava com o que Haroldo mais desejava, a destilação
duma gota de poesia, uma essência, seguindo a expressão
do seu grande mestre na tarefa poético-tradutora,
Ezra Pound.
Um
exemplo importante desta linha de pensamento foi o desenvolvimento
desta temática nos seus livros de ensaios A Arte
no Horizonte do Provável, publicado em 1969,
A Operação do Texto de 1976 e O
Arco-Íris Branco de 1997. Nestes estudos Haroldo
aborda as temáticas preferidas dele: a tradução,
a crítica literária e a poesia. O trabalho
que marca o início desta tarefa crítico-poético-tradutora
é sem dúvida o ensaio "Da Tradução
como Criação e como Crítica" publicado
originalmente em 1963 na revista Tempo Brasileiro
(nos. 4-5) e posteriormente incluído no livro Metalinguagem
(1967). Neste agora já clássico ensaio, Haroldo
visava a possibilidade dum "Laboratório de Textos"
onde poetas e lingüistas participassem da produção
de traduções de alto nível artístico:
Num
produto que só deixe de ser fiel ao significado
textual para ser inventivo, e que seja inventivo na medida
mesma em que transcenda, deliberadamente, a fidelidade
ao significado para conquistar uma lealdade maior ao espírito
do original transladado, ao próprio signo estético
visto como entidade total, indivisa, na sua realidade
material (no seu suporte físico, que muitas vezes
deve tomar a dianteira nas preocupações
do tradutor) e na sua carga conceitual. (47)
Interessado
pelas teorias da informação de Max Bense e
contagiado pelo espírito irreverente, e ao mesmo
tempo sacralizador, do poeta Ezra Pound, Haroldo publica
no seu segundo volume de ensaios, A Arte no Horizonte
do Provável, uma secção inteiramente
dedicada à tradução, sob o título
"A Poética da Tradução."
No prefácio a este livro ele já faz menção
explícita a um dos termos mais famosos da sua carreira
poética e tradutora, a "transcriação":
A
tradução aqui -
tradução criativa, recriação,
transcriação - é vista como forma
de crítica, e seu exercício manifesta, na
prática textual, a visada daquela poética
sincrônica, cuja consideração teórica
e metodológica encerra este volume. (10)
Na
secção do livro dedicada à tradução
incluem-se três ensaios. O primeiro deles "A
palavra vermelha de Hoelderlin", trata sobre a tradução
da obra Antígona de Sófocles pelo poeta
alemão Friedrich Hoelderlin. Haroldo documenta neste
texto as críticas e os escárnios que Schelling
e Goethe lançaram sobre essa tradução
devido ao fenômeno de tom helenizador, ou estrangeirante,
que Hoelderlin procurou introduzir na língua alemã.
O próprio Campos comenta como, um pouco mais de um
século depois, a mesma tradução se
tornaria um modelo tradutório quase perfeito para
Walter Benjamin. No percurso do ensaio é importante
observar a comparação que Haroldo estabelece
entre Hoelderlin e Pound:
Se
Hoelderlin é um tradutor exegeta, pratica uma espécie
de tradução litúrgica, transubstancia
a linguagem do original na linguagem da tradução
como o oficiante-hermeneuta de um rito sagrado que procurasse
conjurar o verbo primordial (e é assim que, no seu
"Hyperion", antes de Mallarmé, o poeta
suábio "lê" as estrelas como letras,
com as quais "o nome dos livros dos heróis está
escrito no céu"), Pound, ao contrário,
é um tradutor pragmático, laico, exercendo
a tradução como uma didática, como
uma forma crítico-criativa de reinventar a tradição.
Mas ambos se assemelham pelos resultados a que, por diverso
caminho, acabaram chegando. Traduzir a forma é,
para ambos, um critério básico. (98)
O
seguinte ensaio tem como título "Píndaro,
Hoje." Este ensaio serve como o registro do percurso
da tradução que Haroldo faz da primeira ode
pítica. No começo do texto o poeta brasileiro
comenta o objetivo do seu trabalho:
Naturalmente
esta tradução não é para filólogos
ensimesmados em suas especialidades como em tumbas de chumbo,
indesejosos de comércio com os vivos. É uma
tradução para os que se interessam por um
texto de poesia como poesia, e não como pretexto
para considerações sapientes em torno do autor
e de sua era, ou para escavações de paleologia
lingüística, coisas todas essas úteis
e necessárias, respeitáveis como as que mais
o sejam, mas que, em si mesmas, nada têm a ver com
a função poética do texto.
O
projeto tradutório visava à confrontação
com um texto áspero e, nessa medida, só Haroldo-poeta
podia atingir as necessidades expressivas da tradução.
No seguinte ensaio dentro desta seção, "A
quadratura do círculo", o autor torna explícita
esta missão ou tarefa:
É
da essência mesma da tradução de poesia
o estatuto da impossibilidade. Para quem aborda a arte de
traduzir poesia sob a categoria da criação,
essa superlativação das dificuldades que lhe
são intrínsecas só pode acrescer-lhe,
na medida proporcional, o fascínio. (121)
No
prefácio ao seu seguinte livro de ensaios, A Operação
do Texto, Haroldo menciona uma tese importante do seu
trabalho:
A
tradução percorre esta Operação
do Texto, como um dispositivo que a desencadeia ou uma
prática que a desdobra. Tradução como
transcriação e transculturação,
já que não só o texto, mas a série
cultural ... se transtextualizam no imbricar-se subitâneo
de tempos e espaços literários diversos. (10)
Neste
caso, o referente textual em confronto com o reclamo da
leitura do presente para entender o passado é, ao
mesmo tempo, a reprodução duma cadeia interminável
de traduções.
O primeiro ensaio deste livro, "Texto e História,"
trata sobre a abordagem sincrônica da literatura.
Sem refutar a perspectiva histórica, tal abordagem
tenta isolar certos casos dentro da história literária
para serem observados e estudados "parcialmente",
como Haroldo comenta que costumava dizer Baudelaire, e seguindo
a acepção de Benjamin: "Quem não
é capaz de tomar partido, deve calar" (9). Esta
premissa vai se desenvolver nas diferentes traduções
de Haroldo e "tomar partido" vai ser uma hipótese
chave no seu trabalho de tradutor.
O
segundo ensaio é "O Texto Espelho (Poe engenheiro
de avessos)." Neste texto abordam-se as diferentes
versões que se tem feito para o português do
poema The Raven, do poeta americano Edgar Allan Poe.
As considerações sobre a poesia do lingüista
Roman Jakobson servem como cenário para a avaliação
das traduções de Fernando Pessoa, Machado
de Assis, Oscar Mendes e Milton Amado. Destes trabalhos,
Haroldo elogia o trabalho de Pessoa e cita um fragmento
deste sobre a tradução:
A
primeira intenção de Pessoa foi obter uma
versão ritmicamente conforme com o original. "Um
poema" -escreve- "é uma impressão
intelectualizada, ou uma idéia convertida em emoção,
comunicada a outros por médio de um ritmo. Este ritmo
é duplo num só, como os aspectos côncavo
e convexo do mesmo arco: é constituído por
um ritmo verbal ou musical e por um ritmo visual ou de imagem
que lhe corresponde internamente. A tradução
de um poema deve, portanto, conformar-se absolutamente 1)
à idéia ou emoção que o constitui;
2) ao ritmo verbal em que essa idéia ou emoção
é expressa; deve conformar-se em relação
ao ritmo interno ou visual, aderindo às próprias
imagens quando possa, mas aderindo sempre ao tipo de imagem."
(30)
O
ensaio seguinte é intitulado "O Texto como Produção
(Maiakóvski)." Neste trabalho Haroldo mostra
o percurso da tradução do poema de Maiakóvski
à mémoria do poeta russo Serguei Iessenin.
Neste momento Haroldo só tinha estudado a língua
russa por três meses. Ele mesmo justifica o trabalho
de tradução com um rudimentar conhecimento
da língua do seguinte modo: "Traduzir poesia
há de ser criar - re-criar - , sob pena de
esterilização e petrificação,
o que é pior do que a alternativa de trair"
(43). Haroldo aproveita para mencionar as traduções
de Ezra Pound na língua chinesa, onde as falhas de
significado foram compensadas por uma "prodigiosa intuição
poética" (44).
A
teoria e a prática da tradução no trabalho
poético de Haroldo de Campos foi uma constante ao
longo da vida deste poeta, que o aproximou mais da interrogação
do fenômeno poético do que da tradução.
Neste sentido, a matéria poética extrapola-se
nas diferentes línguas sem impor uma ordem hegemônica
nem tentar subjugar a língua receptora, antes sempre
com uma ênfase experimental e reveladora das possibilidades
linguísticas. Desenvolver a tradução
como uma arte seria o enfoque que aproximaria a poética
programática de Haroldo do projecto dum poeta como
Ezra Pound.
Numa
entrevista a J. Jota de Moraes, publicada no livro O
Arco-Íris Branco, Haroldo explica como tem evoluido
o seu conceito de tradução por via da poesia:
A
terminologia hoje posso dizer que proliferou... Falei em
"transluminação" e "transparadização"
quanto a meu trabalho com os "Seis Cantos do Paraíso
de Dante" (Rio de Janeiro: Fontana, 1978). Agora, no
tocante às duas cenas finais do Segundo Fausto, aventurei-me
a cunhar o termo "transluciferação"...
A diferença entre a tradução referencial,
do significado (que muitos entendem literal ou servil),
e a prática semiótica radical que se enquadra
no paradigma regido pela idéia de trans/criação
é uma diferença, por assim dizer, ontológica.
A segunda, que defino também como tradução
icônica, é uma operação sobre
a materialidade do significante. O tradutor-transcriador,
nesse sentido, é um coreógrafo da dança
interna das línguas, valendo o sentido (o assim chamado
conteúdo) como bastidor semântico ou cenário
pluridesdobrável dessa coreografia móvel de
signos. (46)
No
texto de Else Ribeiro Pires Vieira, "Liberating Calibans:
readings of Antropofagia and Haroldo de Campos' Poetics
of Transcriation," o motor da argumentação
vem exposto como uma justificativa de apropriação
tentando um êxodo cultural mediante um processo que
ela denomina como a metáfora digestiva. No ensaio
"Transcriar, Transluzir, Transluciferar: a teoria da
tradução de Haroldo de Campos" de Lucia
Santaella, observa-se uma organização face
à diferença mas que permanece numa admirável
descrição do método do poeta como tradutor
sem tentar chegar a estabelecer conclusões. É
evidente também a problemática da diferença
num texto como "O tradutor Haroldo de Campos e a (des)
leitura da tradição", onde a autora,
Maria Clara Castellões de Oliveira, insiste na leitura
das traduções como um gesto antropofágico.
Embora os artigos citados descrevam brilhantemente os eixos
radiais dos conceitos nietzscheanos, derridianos, benjaminianos
e a clara influência de Oswald de Andrade do "Manifesto
Antropofágico" na prática tradutória
de Haroldo, ao mesmo tempo parecem deixar de lado o valor
poético ou esquecer a avaliação deste
projeto para a poesia brasileira, sobretudo tendo em consideração
que a teoria antropofágica fez parte do primeiro
momento da poesia concreta, isto é, da sua fase heróica.
Por conseguinte, o presente trabalho pretende abordar a
tarefa da tradução de poesia nas obras de
Haroldo de Campos e Ezra Pound, explorando as semelhanças
e distinguindo as diferenças entre estes dois autores.
Mais
próximo duma perspectiva de avaliação
tomando em conta a formação da poesia da década
de 50, resulta o ensaio "Make it New" de Inês
Oseki-Dépré, tradutora das Galáxias
de Haroldo de Campos para francês. Nesse trabalho
Oseki-Dépré compara, mediante o cotejo da
tradução da famosa canzone "Donna
mi prega" de Guido Cavalcanti, os sistemas tradutórios
de Pound e de Campos. Com esse contexto, ela estabelece
três etapas principais no método de Haroldo:
a primeira consiste na análise do texto original;
a segunda propõe uma recriação "através
das equivalências em nossa língua de toda a
elaboração formal (sonora, conceptual, imagística)
do texto original no intuito de se refazer as etapas criativas
originais" (219); e a terceira etapa consistirá
na "reivindicação de uma tradução
que oblitere o original" (220).
Evidentemente,
o tema da tradução dispara em muitas direções,
porventura até demasiadas. É importante, no
entanto, ter em conta que neste caso se trata da atividade
de um poeta traduzindo poemas, e por interessantes que resultem
as implicações filosóficas e culturais
deste projeto, antes de tudo será conveniente analisar
como é que a dita atividade transformou a obra do
poeta. Um estudo semelhante foi feito com a obra de Ezra
Pound no livro The Tale of the Tribe escrito por
Michael André Bernstein. Neste livro aborda-se a
ideia ambiciosa de Pound de escrever uma epopeia da civilização,
onde a tradução vai ser a ferramenta que incorpora
a História da humanidade dentro do poema. Certamente
será importante observar com atenção
a implicação mútua entre o projecto
tradutório e a evolução poética
quando a obra de tradução ultrapassa em quantidade
o dobro da obra criativa de um autor, como é o caso
de Haroldo de Campos. Possivelmente este será o anúncio
de uma transpoética da tradução e não
a famosa transcriação do poema.
A
transcriação foi o termo que Haroldo configurou
para se referir à sua tarefa como tradutor, numa
síntese do conceito poundiano que vê a tradução
como criação e como crítica. O slogan
"Make it new" foi compreendido por Campos literalmente
como "faça-o novo." Deste modo o objeto
poema é deslocado peça por peça e remontado
noutra língua como se fosse uma máquina. O
processo transpoético relaciona-se com a atitude
arqueológica de Haroldo de Campos para encontrar
poesia em qualquer língua como um substrato ou sedimento
onde se encontram as peças ou ruínas de pérolas
poéticas ou, como ele próprio o expressava
no titulo dum poema, "this planetary music for mortal
ears."
Consequentemente,
o peso da tradução descansa sobre as costas
do tradutor que, como o rei Midas, transforma em ouro o
que toca.
Para Gonzalo Aguilar, no capítulo dedicado a Haroldo
no livro Poesia Concreta Brasileira, o conceito de
"transpoética" tem outro significado:
Por
transpoética entendo a aplicação
de formas próprias do discurso poético em
um momento dado a outros terrenos (crítica literária,
pensamento filosófico, escritura religiosa), nos
quais age com um carácter transversal, disruptivo
e revelador. (311)
E
mais adiante: "Sua operação vai muito
mais além: não há nível do texto
em que o poético não desencadeie novas configurações
de sentido. Daí que a denominação de
transpoética sirva para iluminar a natureza de sua
intervenção" (312). Nessa intervenção
é justamente onde se aplica a ideia de transpoética
como processo, ou seja, o sucesso da operação
dependerá intrinsecamente da habilidade do cirurgião.
O caráter personalíssimo da intervenção
tradutora é descrito por Oseki-Dépré
da forma seguinte:
Esta
pragmática (da tradução) consistiria
ironicamente em "diabolizar" o tradutor, fazendo
dele um "usurpador", um "translúcifer"
num ímpeto derradeiro da hybris, portanto, na origem
de uma dupla revolução: as traduções
"mostruosas" como as de Hoelderlin tornam-se,
ironicamente, os originais de novas traduções.
(215)
O
fenômeno transpoético opera deste modo no resgate
do nous da poesia em qualquer das suas representações,
neste caso entre a diferença das línguas mediante
a tradução, mas é importante salientar
o seu caráter usurpador noutras áreas como
a filosofia e a critica literária.
Da Tradução ao Modernismo
Translation
and the Languages of Modernism: Gender, Politics, Language
de Steven G. Yao (2002) é um estudo inteiramente
dedicado à questão da tradução
e das linguagens do Modernismo. O Modernismo, para Yao,
compreende o período das obras de vanguarda na língua
inglesa, tendo em conta a obra do poeta americano Ezra Pound
como o eixo nuclear desta análise. Para Pound a vida
da literatura inglesa dependia das traduções,
já que, como ele afirmava, "every allegedly
great age is an age of translations." Yao toma o caso
de Pound como paradigmático para a sua explicação
de como a tradução veio ser um motor para
gerar os códigos artístico-lingüísticos
das obras literárias da vanguarda. A tradução
chegou a ser um dispositivo para desencadear processos de
escrita que não tinham sido explorados na história
das práticas literárias do Ocidente, como
o ideograma chinês e a ideia da justaposição.
A obra The Cantos é um exemplo importante
da mistura dos códigos lingüísticos e
culturais onde a tradução é uma das
raízes do poema. Contemporâneo de Pound é
o escritor James Joyce que também atingiu os experimentos
de criação por via da tradução
numa obra como Finnegan's Wake, o exemplo máximo
da exploração dos limites da língua
inglesa que incorpora cognatos lingüísticos
de quase 60 idiomas diferentes.
De
acordo com a distinção que Yao observa nas
traduções, ele propõe principalmente
dois tipos: a tradução que infeta ou transforma
a sua própria língua com características
da língua original e a tradução que
absorve a obra na bagagem cultural da própria língua
e muda o sentido original ao ponto de ser culturalmente
assimilado. Do primeiro caso temos como exemplo a tradução
clássica de Píndaro feita por Hoelderlin,
quem praticamente ganhou os primeiros escárnios de
loucura por esta obra. Haroldo de Campos dedica um ensaio
às traduções de Hoelderlin no livro
A arte no horizonte do provável. Dentro da
segunda categoria podem-se derivar vários modos de
transformar o original. Um deles é fazer o texto
responder ao momento presente, como nas traduções
do Rei Lear de Shakespeare feitas pelo poeta chileno Nicanor
Parra, onde as personagens falam com a gíria chilena
de hoje. Pound coincidia com este tipo de tradução:
nas suas primeiras traduções do japonês
ele tentava re-criar na voz das personagens femininas o
período em que ele vivia, na época da primeira
guerra mundial, utilizando as expressões saudosas
das mulheres causadas pela ausência dos homens em
casa durante a guerra. Neste segundo caso de tradução
também existe a prática que faz do original
uma extensão do estilo do tradutor. Como exemplo
deste tipo temos Jorge Luis Borges e a sua tradução
de William Faulkner, onde as características do estilo
deste se viram substituídas pelo estilo daquele.
Entre traduções deste tipo, Yao cita também
a poeta H.D. e as suas traduções de Safo.
O
ponto da análise de Yao não é somente
comentar a perícia ou a legitimidade da tradução
mas conferir como a tradução tem chegado a
ser um modo de produção literária.
A poesia é uma arte cujo estudo é complexo
e interminável e a tradução, neste
caso, opera como uma ferramenta de estudo. Para Pound, esta
operação interveio na elaboração
das máscaras que lhe permitiram desdobrar-se em várias
personalidades poéticas. Make it new!, o seu
slogan de combate na tradição literária,
veio muitas vezes a transformar-se num Make "me"
new! Pound procedia com os modelos clássicos
de ensino de poesia, traduzindo longas peças do latim
e do grego mas o período do artifício, ou
da elaboração das máscaras, teve início
quando descobriu a poesia provençal, principalmente
Arnaut Daniel e Peire Vidal, e publicou a sua primeira grande
descoberta de elaboração pessoal, "Donna
mi prega" do poeta italiano Guido Cavalcanti. O processo
de auto-descoberta continuou com a edição
do manuscrito de Ernst Fenollosa "The Chinese Ideogram
as a Medium for Poetry" que Pound publicou em 1912.
Após este contacto com o ideograma, Pound publicou
as suas primeiras traduções do chinês
no livro Cathay. A lista de acadêmicos e tradutores
profissionais que criticavam o trabalho de Pound como tradutor
crescia imensamente. Sem reparar nestas polémicas,
Pound parecia achar mais interessante continuar as suas
elaborações combinadas de tradução
e criação. O ponto culminante desta tarefa
talvez seja o poema "Homage to Sextus Propertius,"
considerado unanimemente uma adaptação criativa
das odes de Propércio ou um poema dum poema como
o classificou Donald Davie em Ezra Pound: Poet as Sculptor.
Para
Lawrence Venuti, na história da tradução
o tradutor tem sido frequentemente excluído da importância
que tem nesta operação. O seu nome sendo mesmo
muitas vezes omitido na altura da publicação,
o tradutor parece não ter nenhuma relevância
na língua receptora e o sucesso da obra parece sempre
depender da importância literária do autor.
Venuti encarrega-se de mostrar uma genealogia de tradutores
que tem reflectido na importância, ou colaborado no
processo, da arte tradutora. Na introdução
ao livro Translator's Invisibility ele comenta sobre
a tendência de tornar o tradutor transparente dentro
da língua receptora. Esta transparência obedece
principalmente às exigências do mercado para
fazer acessível a obra em questão: uma urgência
em comunicar o que o autor está tentando dizer, mesmo
que muitas vezes a obra não o diga.
Nas
vezes que o tradutor ousa introduzir elementos ou efeitos
da língua original no texto da tradução,
este é acusado de ser obscuro ou rebuscado. Neste
caso, o público parece ser o grande inimigo do tradutor.
Venuti comenta como o público ou leitores em língua
inglesa não se contentam apenas com uma tradução
implacavelmente legível mas, além disso, exigem
que esta seja explicatória das ideias da obra. Por
outras palavras, a tradução nesse contexto
deve ser interpretativa. Situar o trabalho do estudo da
tradução em língua inglesa obedece
ao ofício próprio de Venuti como tradutor
nesta língua, sobretudo pelo seu interesse em traduzir
poetas considerados marginais, como o italiano Milo D'Angelis.
Curiosamente,
na sua diatribe sobre a polarização entre
os métodos domesticantes e estrangeirantes de tradução,
Venuti cita mais um caso: o plagiador. Esse foi o caso do
autor italiano Iginio Ugo Tarchetti (1839-1869), que no
século XIX traduziu o conto The Mortal Immortal
de Mary Wollstonecraft Shelley e o publicou como trabalho
próprio. O facto, mesmo sendo reprovável,
propõe uma dimensão da tradução
que radicaliza a noção do original como a
fonte perdida porque, neste sentido, o texto do presente
repousa na língua que o comunica.
De
forma diferente das conclusões de Yao, Venuti vai
estudar as traduções de Pound desde outra
perspectiva, sobretudo baseando-se numa noção
que vai desarticular as opiniões totalitárias
ou idealistas da tradução: "The translation
of a poem having any depth ends by being one or two things:
Either it is the expression of the translator, virtually
a new poem, or it is as it were a photograph, as exact as
possible, of one side of the statue" (qtd. in Venuti
187). A tarefa tradutora desenvolvida por Pound, mesmo que
na maior parte dos casos opte por ser uma expressão
personalíssima do tradutor, envolve também,
segundo Venuti, ambos os polos do processo domesticador
e estrangeirizante. O poeta americano mistura nas suas traduções
estilos clássicos da poesia inglesa com expressões
coloquiais para obter um poema ao mesmo tempo doméstico,
partindo de materiais internos da língua receptora,
e estrangeiro, ao combinar diferentes estilos para sua composição.
Uma estratégia hiperpoundiana
No
livro A operação do texto de Haroldo
de Campos se destaca um ensaio sobre a tradução
duma peça japonesa do teatro Nô. O ensaio intitula-se
"Hagoromo: Plumas para o Texto" e nele Haroldo
comenta as traduções feitas por Pound e pelo
tradutor brasileiro Armando Martins Janeiro em 1954. A obra
Hagoromo tem sido comentada por vários escritores
e é sintetizada por Donald Keene, em Japanese
Literature, como um haicai amplificado. Neste ensaio,
publicado em 1960 no jornal "Correio Paulistano",
Haroldo elabora a tradução duma parte do coro
da peça Nô. Anos depois, em 1993, Haroldo publica
a peça inteira traduzida para português e com
um estudo da obra e do percurso textual da sua tradução.
Neste percurso ele manifesta ter seguido uma "estratégia
hiperpoundiana" que o levou a conseguir não
uma tradução mas um texto paralelo da obra
em português.
Haroldo
começou o estudo da língua japonesa em 1958
e a tradução do Hagoromo foi feita
com a ajuda duma "versão pedagógica"
do texto realizada pela professora Elza Taeko Doi. O texto
final só foi produzido com o estudo dos caracteres
japoneses e as possibilidades de interpretação
destes. A peça apresenta uma disposição
gráfica com intervalos brancos aproximando-se as
poéticas modernas. A ambição de Haroldo
compreendia a produção dum poema tirando ou
pondo de lado os rasgos exóticos do texto, isto é,
a sua imagem japonizante.
Esta ambição tem, sem dúvida, repercussões
em teorias da interpretação do Oriente, como
documenta e discute o livro clássico de Edward Said,
Orientalism. A imagem do Oriente tem recepção
no imaginário ocidental como uma série de
cores ou ambientação a ser representada. Esta
ideia é discutida num trabalho como "Go East,
Young Man: Or how two classical American song composers
used 'orientalism' to find an American voice" de Elvia
Puccinelli, onde se mostra como o compositor John Alden
Carpenter utilizava os rasgos, ou cores, orientais para
compor melodias ocidentais enquanto Charles Griffes aproximava
e adaptava sons orientais dentro duma nova perspectiva muito
próxima do Minimalismo.
Na
poesia um exemplo semelhante confirma-se ao comparar as
traduções japonesas de Haroldo de Campos e
de Octavio Paz. Duma maneira análoga Paz traduzia
certos rasgos ou cores (reflexos) orientais em poemas simbolistas
ocidentais com base nas traduções francesas,
enquanto Haroldo recriava a matéria verbal dentro
duma poética moderna. A tradução como
uma ferramenta do conhecimento foi uma constante tanto no
trabalho do escritor mexicano como no do brasileiro; aliás,
eles próprios simpatizavam um com o outro e Haroldo
traduziu o poema "Blanco" de Paz. Embora os dois
autores encontrassem uma aproximação em termos
literários, os seus respectivos métodos de
tradução os contrastam e colocam em extremos
opostos. Na abordagem do livro Transblanco será possível
observar como a amizade destes dois autores se devia mais
a interesses de política literária do que
a afinidades ou objetivos poéticos.
O próprio Haroldo de Campos fala do interesse pessoal
pelas línguas orientais numa entrevista com o poeta
brasileiro Claudio Daniel, publicada na revista virtual
Zunai em 2003:
No
meu caso específico, o contato com a poesia oriental
foi projetado: primeiro, com a admiração por
Pound; depois, com a idéia da poesia concreta e do
método ideogrâmico. E a um certo momento pensei:
se estou falando de ideograma, vamos ver como isso funciona
na prática. E aí coincidiu que 1956 foi o
ano da fundação do Centro Cultural Brasil-Japão,
cujo primeiro presidente foi, como já disse, o Guilherme
de Almeida. Aí, eu e minha mulher, Carmen, nos inscrevemos
em uma das primeiras turmas do curso de japonês, que
tinha como professor um baiano de Feira de Santana... Assim,
foi realmente uma aproximação com o Oriente
em termos programáticos: havia o fascínio
pelo ideograma chinês, o método ideogrâmico
do Pound, da poesia concreta, as primeiras traduções
de haikais, o contato com Kitasono, a tradução
do poema concreto que ele compôs, e assim por diante.
(Oriente/Ocidente)
E
ele mesmo comenta as diferenças nos programas tradutórios
dele e de Octavio Paz:
Realmente,
o caso de Paz é distinto. Ele teve um grande conhecimento
cultural sobre a China, o Japão e, principalmente,
a Índia. Escreveu sobre o erotismo, a religião,
a história, a cultura, com muita profundidade. É
um grande erudito nessas matérias. Sua abordagem
é mais culturalista, enquanto a minha é mais
concentrada no problema material do poema e da linguagem.
Para ele não é fundamental nesse projeto culturalista,
para a realização do qual ele manipula uma
larga e sofisticada bibliografia em francês, inglês,
espanhol, o estudo específico das línguas.
O Paz trabalha, para efeito de traduções de
poemas, sejam de origem chinesa, japonesa ou hindu e sânscrito,
com versões intermediárias. Mas como ele tem
um ótimo artesanato poético, é capaz
de transformar esses poemas dessas várias fontes
em poemas de muita qualidade em espanhol, que logo se integram
como partes componentes de sua própria poesia. A
única coisa que não é dado a ele fazer,
exatamente porque isso depende de um mergulho mais em profundidade
na própria materialidade da língua, é
o tipo de trabalho que faço, que é um trabalho
hiper-radical, que consiste em aproveitar efeitos e sugestões
dos próprios ideogramas originais. Isso não
quer dizer que ele não faça excelentes traduções.
Elas têm, inegavelmente, um resultado estético
muito eficiente em espanhol. São traduções
de alto nível, que compensam, digamos assim, a não
abordagem do poema em seu extrato material, já que
o Paz se vale de fontes intermediárias, com um profundo
conhecimento da cultura, da religião, etc, que o
ajuda a reinventar o poema em espanhol, seu idioma. (Oriente/Ocidente)
É
precisamente nessa apropriação da matéria
verbal, mencionada por Campos, que radica a grande transgressão
da norma. Como diz o famoso verso de Dante ao se referir
ao empenho de Odisseu em ultrapassar as colunas de Hércules
que representavam o fim do mundo na era antiga: "Per
voler veder/ traspassó il segno." Com a tradução,
tanto Pound como Campos ultrapassam os avisos, isto é,
eles estão arriscando o lugar (topos) convencional
do poeta interpondo a sua própria leitura, não
só da tradição mas do poema. O que
vem aderido substancialmente às traduções
destes dois autores é uma visão e experiência
da literatura que poetas-críticos-tradutores como
Octavio Paz ou Harold Bloom jamais lograriam atingir, principalmente
porque a idéia dogmática do cânone reage
contrariamente ao risco, aliás, esta impõe-se
antes às tarefas criativa e tradutória. Neste
ponto Maria Clara Castellões de Oliveira adiciona
que "segundo Haroldo de Campos, Bloom não se
deu conta de que a tradução/transcriação
é uma das principais modalidades através das
quais o artista pode tematizar a sua 'angústia da
influência'" (100). E, além disto, Castellões
de Oliveira defende a ideia de que Haroldo, antes que Bloom,
já tinha trabalhado a crítica junto com a
criação graças ao rumo estabelecido
por Pound. Brunno Vieira comenta o seguinte ao respeito
do processo tradutório no seu trabalho "Contribuições
de Haroldo de Campos para um programa tradutório
de latino-português":
Alguém
poderia questionar: "esta é a única forma
de se traduzir?" Realmente, não. Mas é
inegável que há, na reflexão tradutora
de HC e nas versões greco-latinas suas, um apuro
metalingüístico merecedor de resposta mais consistente
que a evocação de sectarismos acadêmicos
ou literários justificadores de tantas práticas
tradutórias inexpressivas. Verdade seja dita, por
vezes, HC, por sua beligerância estética, parece,
como bem notou Moreno: "apresentar seu projeto quase
como uma exclusividade em 'eficácia' poética,
praticamente não abrindo possibilidades a outras
opções estéticas" (2001: 144).
Convém, então, clarificar que minha perspectiva
aqui é a de chamar atenção para o programa
tradutório haroldiano como um projeto possível
de tradução latim-português (um dos
mais elaborados dos nossos tempos), mas certamente não
o único. (83)
A
pergunta que surge é se a falha no risco da tradução
se estabelece a nível acadêmico ou a nível
do programa artístico? Já Pound tinha respondido
com cartas jocosas aos seus detratores. Haroldo de Campos
teve melhores oportunidades para aprender línguas
e uma posição acadêmica, por assim dizer,
mais "responsável" do que Pound, isto é,
geralmente as traduções do poeta brasileiro
contavam com a assessoria de falantes nativos da língua
original ou professores peritos na matéria. As traduções
do poeta brasileiro cumprem o ideal "científico"
proposto por Pound nos primeiros escritos do ABC of Reading.
Mesmo assim, problemas não faltaram nos resultados
concretos do seu trabalho de tradução como
aponta Donaldo Schuler no trabalho "Um lance de nadas
na épica de Haroldo":
O
leitor atento observará que nadas abundam na tradução
de Haroldo mesmo em lugares em que o original não
o apóia. Acresce que Homero e o restante da literatura
grega não conhecem "nada" no sentido em
que Haroldo e Derrida o empregam. O nada absoluto -Haroldo
o sabe- foi desenvolvido pela exegese bíblica, e
levado pelo niilismo contemporâneo às últimas
conseqüências sem poupar Deus, mundo nem homem.
Haroldo nos oferece uma tradução helenizada
com forte sotaque moderno. Erro? De modo nenhum! Aconteceu
o inevitável. Todas as traduções trazem
a marca de sua época. Erro haveria se recebêssemos
Haroldo como novo Homero. Mas então o erro seria
dos receptores e não do tradutor que, ao lado de
Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, enriquece o acervo
das traduções de Homero.
A
força daquilo que Schuler chama "inevitável"
tem uma leitura diferente desde a perspetiva de Cristina
Monteiro de Castro Pereira que observa as soluções
do trabalho tradutório de Campos como "compensações"
nos becos do labirinto textual:
Assumir
a falta e transformá-la em trampolim para a criação
é a solução apontada e adotada por
Haroldo de Campos. O "impossível de se dizer"
do original se transforma em espaço para a criação
artística. Opondo-se à visão tradicionalista,
que colocava o tradutor e seu texto numa posição
secundária e subserviente em relação
ao autor e ao original, teóricos como Walter Benjamin
e Haroldo de Campos conquistam, para a tradução,
sua autonomia... As lacunas não têm mais, neste
caso, uma conotação negativa: a "falta",
que antes provocava a melancolia, transforma-se agora em
impulso criativo para o tradutor. Haroldo de Campos utiliza
esses vazios - potencialidades em latência - para
introduzir, na tradução, criações
poéticas que visam a uma nova obra (uma transcriação
da primeira) a partir da informação estética
do original.
E
sobre o próprio trabalho Haroldo de Campos comenta:
Tudo
isso o tradutor tem que transcriar, excedendo os lindes
de sua língua, estranhando-lhe o léxico, recompensando
a perda aqui com uma intromissão inventiva acolá,
a infratradução forçada com a hipertradução
venturosa, até que desatine e desapodere aquela última
húbris (culpa luciferina, transgressão semiológica?)
que é transformar o original na tradução
de sua tradução. (Pedra e Luz 82)
A
equação radical da anulação
da origem, ou o seu resgate mediante as "ruínas"
desta, idéia compartilhada com Derrida, sintetiza
em Haroldo não só a idéia da tradução
mas da poesia em geral. Na seqüência desta base,
o poema é uma expressão de uma força
antecipadora que pode achar expressão noutra língua
perante um trabalho, quase matemático, de reformulação
dos signos lingüísticos. Consequentemente, na
leitura de Schuler, um poema como Galáxias
responde a um impulso épico mas que se impacta com
a realidade da página e onde o único ato heróico
é precisamente o ato da escrita: "O tradutor
é crisálida que faz o texto renascer em outra
língua. Blanco é alvo, o alvo atingido.
Branco (síntese de todas as cores) é
alvo, a paz do orgasmo, paz nirvânica" (6).
E nessa conquista ou derrota caberia questionar, na primeira
citação de Schuler, se considerar Haroldo
um novo Homero seria realmente um erro?
As reencarnações de Odisseu
No
capitulo 3 de Translation and the Languages of Modernism,
Yao compara a figura de Pound com um "Odisseu literário",
isto é, com quem navega por mares alheios. A comparação
é feliz porque o próprio Pound começa
o poema The Cantos com traduções de vários
trechos da Odisséia. Não por coincidência
o poeta uruguaio Eduardo Milán publicou um ensaio
à memória de Haroldo de Campos titulado "El
Odiseo brasileño" no livro Justificación
Material: Ensayos de Poesía Latinoamericana.
As obras desses dois autores coincidem intensamente no programa
de tradução como modo de operação
artístico e na concepção da obra poética
como uma epopeia da história da humanidade:
En
la mitopoética de Haroldo de Campos el poeta es ese
Odiseo que viaja a través del lenguaje hacia una
meta que está siempre después, infinitamente
postergada, guiado por su propia hybris: la visión
del conocimiento que no da tregua y que constituye -ese
viaje, esa desmesura- nuestra gran metáfora civilizatoria.
(Milán 151)
Assim
para estes dois poetas a hybris virá sintetizada
na operação de tradução que
reflecte uma aura angelical, parafraseando Benjamin, entre
o espaço dos limites e da diferença das línguas.
No ensaio "The Ex-centric's Viewpoint: Tradition, Transcreation,
Transculturation," Haroldo refere:
Therefore
baroque, in Brazilian and in several Latin-American literatures,
means at the same time hybridism and creative translation:
translation as transgressive appropriation and cross-breeding,
as the dialogic practice of telling the other and telling
oneself through the other, under the sign of difference.
In this sense, Walter Benjamin's thoughts on "allegory"
have a special meaning for the Ibero-American baroque: "allegory"
in its etymological sense of an "alternate saying,"
a "saying something else;" a style in which, at
its extreme limits, anything can be expropriated in order
to symbolize anything else. (5)
E
justamente ali, na expressão entrópica do
barroco, que Haroldo acha a chave, ou alternativa, do que
ainda pode ser dito, isto é, o poema noutra língua:
"Trans-culturation,"
it is, rather, a "trans-valuation," a critical
reconsidering of history as a "negative function"
(in Nietzsche's sense). The whole past that is alien to
us deserves to be denied. It deserves to be eaten up, devoured,
Andrade would say. This is a non-reverential attitude toward
tradition: it implies expropriation, reversion, de-hierarchization.
(6)
A
metáfora antropofágica serve neste ponto não
somente como impulso dum discurso que pretende ser descolonizado.
A expropriação ao nível da influência
tenta obliterar as fontes, como Joyce pretendia com o principio-fim
de Finnegans Wake, dentro dum mesmo nível
da escrita. Deste modo a verdadeira tradução
só pode ser irmã ou gêmea do original.
Hence,
Mukarovski's conclusion: "Influxes are not expressions
of the essential superiority and subordination of one culture
in relation to another; their fundamental aspect is reciprocity"
(in the sense of a "mutually fruitful dialectic tension").
Present-day thinkers of "post-colonial" literatures,
as for instance Maria Tymoczko or the Kenyan writer Ngugi
Thiong'o, seem to sustain an analogous criterium: "Languages
should meet as equals;" "Through translations,
the different languages of the world can speak to one another;"
"Interlanguage communication through translation is
crucial." (7)
Na
diatribe pós-colonial o poeta brasileiro sabe que
nenhuma literatura pode ser menor enquanto entra em diálogo
com a tradição. Uma tradição
que não deve ser respeitada mas analisada e revitalizada
seguindo o conselho poundiano. Desde esta perspectiva só
o diálogo poderá resgatar o fim do Odisseu
ao impor uma nova ruta, um limite que não poderá
ser atingido se este não propõe no processo
uma nova miragem.
The
polytopical polyphonic planetary civilization is, I believe,
under the devouring sign of translation latu sensu.
Creative translation - "transcreation" - is the
most fruitful manner of rethinking Aristotelian mimesis
which has marked Western poetics so profoundly; of rethinking
this concept not as a passive-oriented theory of copy or
reflex, but as a usurping impulse in the sense of a dialectic
production of differences out of sameness. Old Goethe (whose
idea of a Weltliteratur resounds in Marx's "Communist
Manifesto" of 1848, in the passage proclaiming the
overcoming of "local narrowness and exclusiveness")
already warned: "Each and every literature, locked
up in itself, will eventually languish into tedium, if it
does not allow itself, again and again, to liven up by means
of foreign contribution." To face alterity is, above
all, a necessary exercise in self-criticism, as well as
a vertiginous experience of breaking the limits. (11)
Ultrapassar os límites, ou traspassar il segno
como foi proposto por Dante, será o objectivo da
empresa tradutora que se situa como uma revisão sem
pretensões de se impor como um cânone; pelo
contrário, transigir a norma e procurar ecos da alteridade
será a gloriosa hybris onde a tarefa poética
e tradutória descansam. A transgressão neste
caso não opera como contestatária a um certo
período ou períodos, senão como uma
aproximação cientifica, ou biológica
segundo Pound, às medulas e essências dum organismo,
o poema, e como este pode achar um referente mais direto
com a realidade mediante a tradução sem pôr
em causa a sua antiguidade. Por isso Pound, ao falar da
matéria verbal que os poetas elisabetanos forneceram
para a tradução de Guido Cavalcanti, expõe:
The
objections to such a method are: the doubt as to whether
one has the right to take a serious poem and turn it into
a mere exercise in quaintness; the "misrepresentation"
not of the poem's antiquity, but of the proportionate feel
of that antiquity, by which I mean that Guido's thirteenth-century
language is to twentieth century Italian sense much less
archaic than any fourteenth-, fifteenth-, or early sixteenth-century
English is for us. It is even doubtful whether my bungling
version of twenty years back isn't more "faithful,"
in the sense at least that it tried to preserve the fervor
of the original. And as this fervor simply does not occur
in English poetry in those centuries there is no ready-made
verbal pigment for its objectification.
In the long run the translator is in all probability impotent
to do all of the work for the linguistically lazy reader.
He can show where the treasure lies, he can guide the reader
in choice of what tongue is to be studied, and he can very
materially assist the hurried student who has a smattering
of a language and the energy to read the original text alongside
the metrical gloze. (92)
A
desesperada ambição de Pound para trazer a
luz e mostrar o tesouro só parece ser comparável
a empresa titânica dum Prometeu. O fim incerto de
Odisseu, que nasce literariamente como lenda, metaforicamente
impulsiona o espírito criador onde a poesia só
se pode comparar à viagem. "Não evoluo,
viajo" dizia também Fernando Pessoa. Odisseu,
Ulisses, Pound, Joyce, Pessoa, Haroldo, certamente o nome
sempre será outro -parafraseando o título
do livro de poemas de Eduardo Milán El nombre
es otro - nesta aventura que é nada sendo tudo.
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