Em
crítica sempre dirigi minha atenção para escritos de artistas,
onde julgo ser um palco mais apropriado, mais próximo da criação.
Nesse sentido, reli um texto de Virginia Woolf - A room of one's own - traduzido
por "Um teto todo seu". Além de algumas questões ainda
relevantes, mesmo passados setenta e quatro anos de sua publicação,
estas duas imagens, a do quarto e do teto, me chamaram atenção.
(...)É
necessário ter quinhentas libras por ano e um quarto com fechadura na porta
se vocês quiserem escrever ficção ou poesia."
Assim
resume Woolf o dilema material da liberdade poética. Mais que um ambiente
nutrido e doméstico, a autora reivindica a autonomia do espaço interior,
espiritual, e finalmente discursivo. Fico tentado a pensar que essa noção
de um quarto para si pudesse ser estendida a um domínio discursivo próprio,
livre das temáticas e abordagens tradicionais. Tão antigo quanto
a escrita, a temática da mulher em ficção é prolífica
em personagens arquetípicos que, ao encarnarem vícios e virtudes
arcaicos, reproduzem um estereótipo freqüente, e não menos
ofensivo. Perguntar a esta literatura " o que é uma mulher" pressupõe
nos depararmos com um ser vacilante, sentimental, ingênuo, ou ainda monomaníaco,
frio e perverso.
"Nela,
aliás, nada desmentia as idéias que de início inspirava.
Como quase todas as mulheres que têm cabelos muito compridos, era pálida
e perfeitamente branca. A pele, duma finura prodigiosa, sintoma raramente enganoso,
denunciava uma verdadeira sensibilidade, justificada pela natureza de suas feições,
que tinham esse acabamento maravilhoso que os pintores chineses dão às
suas figuras fantásticas. Seu pescoço talvez fosse um pouco longo;
mas esses são os mais graciosos, e dão às cabeças
de mulheres vagas afinidades com as ondulações magnéticas
das serpentes. Se não existisse um só dos inúmeros indícios
pelos quais os caracteres mais dissimulados se revelam ao observador, bastaria
examinarmos atentamente os movimentos da cabeça e as torções
do pescoço, tão variadas, tão expressivas, para julgarmos
uma mulher."
Especificar uma condição a um autor é impor uma negatividade
à sua prática de forma arbitrária. Definir o próprio
e o alheio, eis a necessidade moral atrelada às ciências e às
filosofias, numa dinâmica de estruturação social complexa
em papéis, hierárquica em poder, abundante em restrições.
Restringir se tornou uma estratégia para condicionar o convívio
coletivo à partir de uma administração econômica, onde
prefigura como valor de maior importância o capital. A capitalização
referencia os processos sociais de significação e valoração
pelo suposto "a mais" encontrado numa relação de lucro,
ou de produção de vantagens.
Que as ciências; desde
uma certa antropologia contemporânea, ou ainda, a velha crítica,
possam ter algum ganho em reproduzir as repartições da sociedade
em todos os seus campos de análise, é fato compreensível,
no entanto, não vejo proveito nenhum em sobrepor tais secções
quando se fala de arte e poesia. A crescente pressão por uma profissionalização
da arte fez com que tivéssemos menos artistas que arremedos de acadêmicos.
São teses, categorias e instrumentais analíticos tentando ser validados
à custa de uma certa simplicidade necessária. Surgem poetas-isso,
poetas-aquilo, uma turbilhão de identidades (eis o jargão da moda),
como se esse "a mais" tornasse a poesia mais relevante em sua tão
sucateada função social.
Tradicionalmente entende-se o mister
do crítico como o exercício da distinção legitimada,
apoiada e necessária na produção de um certo capital simbólico.
Para não insistir num solipcismo diletante e romper definitivamente a resistência
dessa matéria lingüística subjetiva, com desdobramentos sociais,
mas com enorme tendência a cair no psicologismo; dita "a poesia",
o crítico deve repensar o hábito científico e econômico
de estabelecer classificações e tipologias em direção
a uma vizinhança mais aberta de hipóteses.
Se já era
tão difícil escrever como um ofício interno de desconstrução,
agora as "leis naturais" da academia e do mercado exigem que representemos
um grupo abstrato qualquer. Nesse contexto os grupos que possam se constituir
de forma mais "óbvia e indiscutível" levam vantagens.
Quanto se caminhou para que as distinções raciais e de gênero
perdessem ênfase, para que agora sejam reivindicadas com status político
renovadamente reacionário.
"Tudo
pode acontecer quando a feminilidade tiver deixado de ser uma ocupação
protegida."
Mas há fundamento no que se convencionou chamar de poesia feminina ? Seria
esse "feminino" uma vivência universal, como uma decantação
do humano ? Ou apenas uma constatação da influência da anatomia
na produção poética, uma espécie de teoria histérica
da literatura ?
"O
espelho devolvia-lhe uma imagem cercada de luzes plúmbeas. Aproximou-se.
Não olhava nem os ombros, nem os seios. Não gostava do corpo. Olhou
seu ventre, usa ampla bacia fecunda. Sete anos antes - Mathieu passara a noite
com ela pela primeira vez - ela se chegara ao espelho com esse mesmo espanto hesitante.
"Então é verdade que podem gostar de mim ?" Contemplara
então a carne polida e sedosa, um tecido quase, e seu corpo era apenas
uma superfície feita para refletir os jogos estéreis de luz a tremer
sob as carícias como a água ondulava ao vento. Agora não
era mais a mesma carne. Olhava o ventre e se descobria como diante da abundância
tranqüila de férteis pastagens alimentadoras, uma impressão
semelhante à que sentia no Luxemburgo, em pequena, ante os seios das mulheres
que aleitavam: para além do medo e do nojo, uma espécie de esperança.(...)"
Generalizar
sobre poesia feita por mulheres é passar de um olhar fisiológico
para um fisiologista. Compreensível, porém injustificável,
é o que poderíamos chamar de estética do ressentimento na
chamada poesia feminina. Mais do que auto-piedade levada ao extremo, tal estética
é o outro lado da moeda de um cânone machista. Redondilhas repletas
de "eu" e "você" reproduzem a neurose doméstica
de um caráter feminino informe, conscientemente mal-formado por um imaginário
de família que não existe mais, senão nas propagandas de
margarina. Qual é a distância entre o "eu" da redondilha
e o relato autobiográfico ? A apropriação da primeira pessoa
do poema pela projeção de uma subjetividade de existência
real aproxima a ficção do sintoma. Não se pode negar que
as sociedades que basearam sua estrutura num modelo patrimonial e excludente tendem
a fazer das mulheres alvo predileto. "Sexo frágil" é mais
que uma descrição equivocada, senão uma perversa gestão
da imagem feminina - por homens e mulheres. Da mesma forma a apropriação
invertida desse imaginário pelas feministas, atualmente acabou sendo incorporado
ao esteticismo de consumo.
Honestamente, penso não ser necessária,
até totalmente dispensável, uma análise sociológica
sobre qualquer produção poética. Nenhuma metáfora
se elucida comparando-se estatísticas. Ou mesmo construindo identidades.
Hoje, se sobrepõem à questão do feminino diversas agendas
sexuais; vozes solitárias confundidas com projetos mal-sucedidos de donas-de-casa,
ou ainda rapazes de índole duvidosa. Sim, pois o feminino há muito
tempo deixou de ser exclusividade das mulheres, tornou-se um ponto de fuga, um
devir;
"O
casal feminino-passivo/ masculino/ativo permanece assim uma referência tornada
obrigatória pelo poder, para permitir-lhe situar, localizar, territorializar,
controlar as intensidades do desejo. Fora dessa bipolaridade exclusiva, não
há salvação: ou então é a caída no absurdo,
o recurso à prisão, ao asilo, à psicanálise, etc.
O próprio desvio, as diferentes formas de marginalismo são codificadas
para funcionar como válvulas de segurança. Em suma, as mulheres
são os únicos depositários autorizados do devir corpo sexuado.
Um homem que se desliga das disputas fálicas, inerentes a todas as formações
de poder, se engajará, segundo diversas modalidades possíveis, num
tal devir mulher."
O
fato de não podermos mais recorrer a universais como Sociedade, Homem,
Mulher, introduzem uma dose extra de desconfiança em relação
a essas vozes. Útil, nesse caso, é uma certa tradição
marginal de pseudônimos na literatura como um campo de experimentação
válido, senão necessário, para percebermos que não
se trata de construir um bunker sectário, guetos de fácil reconhecimento.
"Se
a sexualidade se constituiu como um domínio a se conhecer, foi a partir
de relações de poder que a instituíram como objeto possível;
e em troca, se o poder pôde tomá-la como alvo, foi porque se tornou
possível investir sobre ela através de técnicas de saber
e de procedimentos discursivos."
Onde
uma mulher pode chegar no interior de seu gueto, esse aprazível recanto
doméstico de um intelecto particular ? Deduzo ser esse o teto a que a tradutora
de Virginia Woolf se refere. Não se vai muito longe no interior de um cânone.
(...)
matou-se numa noite de inverno, e está enterrada em alguma encruzilhada
onde agora param os ônibus em frente ao Elephant and Castle. É mais
ou menos assim que se daria a história, penso eu, se uma mulher na época
de Shakespeare tivesse tido a genialidade de Shakespeare.
Não
penso que as mulheres, assim como os homens, devam se furtar ao embate político,
às analises sociológicas e filosóficas; no entanto, a poesia
tem suas próprias motivações. Sua legitimidade não
se pauta fora dela mesma. Distante de um purismo esquizofrênico, a poesia
se justifica num contínuo exercício de de-significar a linguagem,
expô-la ao mundo, testá-la, re-significá-la em novas práticas
sensíveis e éticas. Tal prática poética avança
para fora das barreiras e definições estabelecidas; lança
um ponto de fuga, externo aos territórios demarcados da semântica,
do ego, do poder; interno na busca de uma integridade que não signifique
o enrijecimento do ser em classificações e imagens.
"Sua
simplicidade penetrava no que as pessoas hábeis falsificavam. A sinceridade
de seu espírito a fazia dirigir-se às pessoas tão diretamente
como um fio de prumo, e pousar sobre seu objetivo com a exatidão de um
pássaro, dando-lhe normalmente uma versatilidade quanto à verdade
que deleitava, tranqüilizava, sustentava - falsamente talvez."
Texto
publicado na Revista de Poesia, Tradução e Crítica BABEL
- n 3 - setembro a dezembro 2000
1
- Um teto todo seu./ Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 137 (Rio de Janeiro:Nova
Fronteira,1985)
2
- A mulher de trinta anos./ Honoré de Balzac;trad. Casimiro Fernandes e
Wilson Lousada. Pg 109 (São Paulo: Círculo do Livro, 1995)
3
- Um teto todo seu./ Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 54 (Rio de Janeiro:Nova
Fronteira,1985)
4
- A idade da razão./ J.P. Sartre; trad.Sérgio Milliet.. Pg 86 (São
Paulo: Abril Cultural, 1981)
5
- Revolução molecular: pulsações políticas
do desejo./ Félix Guattari; trad. Suely Belinha Rolnik. Pg 35 (São
Paulo: Abril Cultural, 1985)
6
- História da sexualidade I A vontade de saber ./ Michel Foucault; trad.
Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Pg. 93.(Rio de
Janeiro: Graal, 1985)
7-
Um teto todo seu. Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 64 (Rio de Janeiro:Nova
Fronteira,1985)
8
- Passeio ao farol. Virginia Woolf; trad. Luiza Lobo. Pg 33 (Rio de Janeiro:Rio
Gráfica,1987)