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Sobre o teto feminino da ficção

Marcelo Chagas

Em crítica sempre dirigi minha atenção para escritos de artistas, onde julgo ser um palco mais apropriado, mais próximo da criação. Nesse sentido, reli um texto de Virginia Woolf - A room of one's own - traduzido por "Um teto todo seu". Além de algumas questões ainda relevantes, mesmo passados setenta e quatro anos de sua publicação, estas duas imagens, a do quarto e do teto, me chamaram atenção.

(...)É necessário ter quinhentas libras por ano e um quarto com fechadura na porta se vocês quiserem escrever ficção ou poesia."

Assim resume Woolf o dilema material da liberdade poética. Mais que um ambiente nutrido e doméstico, a autora reivindica a autonomia do espaço interior, espiritual, e finalmente discursivo. Fico tentado a pensar que essa noção de um quarto para si pudesse ser estendida a um domínio discursivo próprio, livre das temáticas e abordagens tradicionais. Tão antigo quanto a escrita, a temática da mulher em ficção é prolífica em personagens arquetípicos que, ao encarnarem vícios e virtudes arcaicos, reproduzem um estereótipo freqüente, e não menos ofensivo. Perguntar a esta literatura " o que é uma mulher" pressupõe nos depararmos com um ser vacilante, sentimental, ingênuo, ou ainda monomaníaco, frio e perverso.

"Nela, aliás, nada desmentia as idéias que de início inspirava. Como quase todas as mulheres que têm cabelos muito compridos, era pálida e perfeitamente branca. A pele, duma finura prodigiosa, sintoma raramente enganoso, denunciava uma verdadeira sensibilidade, justificada pela natureza de suas feições, que tinham esse acabamento maravilhoso que os pintores chineses dão às suas figuras fantásticas. Seu pescoço talvez fosse um pouco longo; mas esses são os mais graciosos, e dão às cabeças de mulheres vagas afinidades com as ondulações magnéticas das serpentes. Se não existisse um só dos inúmeros indícios pelos quais os caracteres mais dissimulados se revelam ao observador, bastaria examinarmos atentamente os movimentos da cabeça e as torções do pescoço, tão variadas, tão expressivas, para julgarmos uma mulher."


Especificar uma condição a um autor é impor uma negatividade à sua prática de forma arbitrária. Definir o próprio e o alheio, eis a necessidade moral atrelada às ciências e às filosofias, numa dinâmica de estruturação social complexa em papéis, hierárquica em poder, abundante em restrições. Restringir se tornou uma estratégia para condicionar o convívio coletivo à partir de uma administração econômica, onde prefigura como valor de maior importância o capital. A capitalização referencia os processos sociais de significação e valoração pelo suposto "a mais" encontrado numa relação de lucro, ou de produção de vantagens.
Que as ciências; desde uma certa antropologia contemporânea, ou ainda, a velha crítica, possam ter algum ganho em reproduzir as repartições da sociedade em todos os seus campos de análise, é fato compreensível, no entanto, não vejo proveito nenhum em sobrepor tais secções quando se fala de arte e poesia. A crescente pressão por uma profissionalização da arte fez com que tivéssemos menos artistas que arremedos de acadêmicos. São teses, categorias e instrumentais analíticos tentando ser validados à custa de uma certa simplicidade necessária. Surgem poetas-isso, poetas-aquilo, uma turbilhão de identidades (eis o jargão da moda), como se esse "a mais" tornasse a poesia mais relevante em sua tão sucateada função social.
Tradicionalmente entende-se o mister do crítico como o exercício da distinção legitimada, apoiada e necessária na produção de um certo capital simbólico. Para não insistir num solipcismo diletante e romper definitivamente a resistência dessa matéria lingüística subjetiva, com desdobramentos sociais, mas com enorme tendência a cair no psicologismo; dita "a poesia", o crítico deve repensar o hábito científico e econômico de estabelecer classificações e tipologias em direção a uma vizinhança mais aberta de hipóteses.
Se já era tão difícil escrever como um ofício interno de desconstrução, agora as "leis naturais" da academia e do mercado exigem que representemos um grupo abstrato qualquer. Nesse contexto os grupos que possam se constituir de forma mais "óbvia e indiscutível" levam vantagens. Quanto se caminhou para que as distinções raciais e de gênero perdessem ênfase, para que agora sejam reivindicadas com status político renovadamente reacionário.

"Tudo pode acontecer quando a feminilidade tiver deixado de ser uma ocupação protegida."


Mas há fundamento no que se convencionou chamar de poesia feminina ? Seria esse "feminino" uma vivência universal, como uma decantação do humano ? Ou apenas uma constatação da influência da anatomia na produção poética, uma espécie de teoria histérica da literatura ?

"O espelho devolvia-lhe uma imagem cercada de luzes plúmbeas. Aproximou-se. Não olhava nem os ombros, nem os seios. Não gostava do corpo. Olhou seu ventre, usa ampla bacia fecunda. Sete anos antes - Mathieu passara a noite com ela pela primeira vez - ela se chegara ao espelho com esse mesmo espanto hesitante. "Então é verdade que podem gostar de mim ?" Contemplara então a carne polida e sedosa, um tecido quase, e seu corpo era apenas uma superfície feita para refletir os jogos estéreis de luz a tremer sob as carícias como a água ondulava ao vento. Agora não era mais a mesma carne. Olhava o ventre e se descobria como diante da abundância tranqüila de férteis pastagens alimentadoras, uma impressão semelhante à que sentia no Luxemburgo, em pequena, ante os seios das mulheres que aleitavam: para além do medo e do nojo, uma espécie de esperança.(...)"

Generalizar sobre poesia feita por mulheres é passar de um olhar fisiológico para um fisiologista. Compreensível, porém injustificável, é o que poderíamos chamar de estética do ressentimento na chamada poesia feminina. Mais do que auto-piedade levada ao extremo, tal estética é o outro lado da moeda de um cânone machista. Redondilhas repletas de "eu" e "você" reproduzem a neurose doméstica de um caráter feminino informe, conscientemente mal-formado por um imaginário de família que não existe mais, senão nas propagandas de margarina. Qual é a distância entre o "eu" da redondilha e o relato autobiográfico ? A apropriação da primeira pessoa do poema pela projeção de uma subjetividade de existência real aproxima a ficção do sintoma. Não se pode negar que as sociedades que basearam sua estrutura num modelo patrimonial e excludente tendem a fazer das mulheres alvo predileto. "Sexo frágil" é mais que uma descrição equivocada, senão uma perversa gestão da imagem feminina - por homens e mulheres. Da mesma forma a apropriação invertida desse imaginário pelas feministas, atualmente acabou sendo incorporado ao esteticismo de consumo.
Honestamente, penso não ser necessária, até totalmente dispensável, uma análise sociológica sobre qualquer produção poética. Nenhuma metáfora se elucida comparando-se estatísticas. Ou mesmo construindo identidades. Hoje, se sobrepõem à questão do feminino diversas agendas sexuais; vozes solitárias confundidas com projetos mal-sucedidos de donas-de-casa, ou ainda rapazes de índole duvidosa. Sim, pois o feminino há muito tempo deixou de ser exclusividade das mulheres, tornou-se um ponto de fuga, um devir;

"O casal feminino-passivo/ masculino/ativo permanece assim uma referência tornada obrigatória pelo poder, para permitir-lhe situar, localizar, territorializar, controlar as intensidades do desejo. Fora dessa bipolaridade exclusiva, não há salvação: ou então é a caída no absurdo, o recurso à prisão, ao asilo, à psicanálise, etc. O próprio desvio, as diferentes formas de marginalismo são codificadas para funcionar como válvulas de segurança. Em suma, as mulheres são os únicos depositários autorizados do devir corpo sexuado. Um homem que se desliga das disputas fálicas, inerentes a todas as formações de poder, se engajará, segundo diversas modalidades possíveis, num tal devir mulher."

O fato de não podermos mais recorrer a universais como Sociedade, Homem, Mulher, introduzem uma dose extra de desconfiança em relação a essas vozes. Útil, nesse caso, é uma certa tradição marginal de pseudônimos na literatura como um campo de experimentação válido, senão necessário, para percebermos que não se trata de construir um bunker sectário, guetos de fácil reconhecimento.

"Se a sexualidade se constituiu como um domínio a se conhecer, foi a partir de relações de poder que a instituíram como objeto possível; e em troca, se o poder pôde tomá-la como alvo, foi porque se tornou possível investir sobre ela através de técnicas de saber e de procedimentos discursivos."

Onde uma mulher pode chegar no interior de seu gueto, esse aprazível recanto doméstico de um intelecto particular ? Deduzo ser esse o teto a que a tradutora de Virginia Woolf se refere. Não se vai muito longe no interior de um cânone.

(...) matou-se numa noite de inverno, e está enterrada em alguma encruzilhada onde agora param os ônibus em frente ao Elephant and Castle. É mais ou menos assim que se daria a história, penso eu, se uma mulher na época de Shakespeare tivesse tido a genialidade de Shakespeare.

Não penso que as mulheres, assim como os homens, devam se furtar ao embate político, às analises sociológicas e filosóficas; no entanto, a poesia tem suas próprias motivações. Sua legitimidade não se pauta fora dela mesma. Distante de um purismo esquizofrênico, a poesia se justifica num contínuo exercício de de-significar a linguagem, expô-la ao mundo, testá-la, re-significá-la em novas práticas sensíveis e éticas. Tal prática poética avança para fora das barreiras e definições estabelecidas; lança um ponto de fuga, externo aos territórios demarcados da semântica, do ego, do poder; interno na busca de uma integridade que não signifique o enrijecimento do ser em classificações e imagens.

"Sua simplicidade penetrava no que as pessoas hábeis falsificavam. A sinceridade de seu espírito a fazia dirigir-se às pessoas tão diretamente como um fio de prumo, e pousar sobre seu objetivo com a exatidão de um pássaro, dando-lhe normalmente uma versatilidade quanto à verdade que deleitava, tranqüilizava, sustentava - falsamente talvez."

Texto publicado na Revista de Poesia, Tradução e Crítica BABEL - n 3 - setembro a dezembro 2000

1 - Um teto todo seu./ Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 137 (Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1985)

2 - A mulher de trinta anos./ Honoré de Balzac;trad. Casimiro Fernandes e Wilson Lousada. Pg 109 (São Paulo: Círculo do Livro, 1995)

3 - Um teto todo seu./ Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 54 (Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1985)

4 - A idade da razão./ J.P. Sartre; trad.Sérgio Milliet.. Pg 86 (São Paulo: Abril Cultural, 1981)

5 - Revolução molecular: pulsações políticas do desejo./ Félix Guattari; trad. Suely Belinha Rolnik. Pg 35 (São Paulo: Abril Cultural, 1985)

6 - História da sexualidade I A vontade de saber ./ Michel Foucault; trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Pg. 93.(Rio de Janeiro: Graal, 1985)

7- Um teto todo seu. Virginia Woolf; trad. Vera Ribeiro. Pg 64 (Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1985)

8 - Passeio ao farol. Virginia Woolf; trad. Luiza Lobo. Pg 33 (Rio de Janeiro:Rio Gráfica,1987)

 

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