Imagem,
discurso e representação do poder em 'Vidas Secas'
Patrícia
Camargo, Fernanda F. Maria Pinheiro, Josédima A. Mérida
dos Santos, Neusilene M.X. Montenegro Borges.
RESUMO: Nesse artigo, pretendemos analisar criticamente a relação
entre literatura e cinema através da obra Vidas Secas,
de Graciliano Ramos, adaptada para o cinema por Nelson Pereira
dos Santos. Comparando as duas obras, realizaremos uma leitura
de "O soldado amarelo".Destacando a relação
entre discurso indireto livre, construção da imagem,
transposição de signo literário para fílmico
e representação do poder.
Resumen:
En este artículo, buscamos hacer un analisis crítico
de la relación entre literatura y cinematografía
a través de la obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos,
adaptada para el cine por Nelson Pereira dos Santos. Comparando
las dos obras, haremos una lectura de"El soldado amarillo",
destacando la relación entre discurso indirecto libre,
construcción del imagen, trasposición de signo literário
hasta el cinematográfico y representación del poder
PALAVRAS-CHAVE:
Literatura Brasileira, Cinema, Representação do
Poder.
PALABRAS LLAVE: Literatura Brasileira, Cine, Representación
do Poder.
A
imagem, o movimento e o som são habitualmente considerados
materiais inerentes ao cinema. Porém, tais elementos já
integravam o fenômeno literário, graças
à capacidade da palavra em descrever e sugerir aspectos
que acionam o mecanismo da imaginação. Embora a
literatura se sustente na expressão verbal e o cinema na
visual, possuindo ambas uma linguagem própria, o cinema
e a literatura se traduzem através de imagens, tornando-se
difícil estabelecer-lhes as fronteiras.
Calvino afirma que:
No
cinema, a imagem que vemos na tela também passou por um
texto escrito, foi primeiro "vista" mentalmente por
um diretor, em seguida reconstruída em sua corporeidade
num set para ser finalmente fixada em fotogramas de um
filme. (Calvino, 1993)
O
autor esclarece, dessa forma, o natural entrelaçamento
existente entre a literatura e o cinema. Para ele esses processos
se realizam de duas maneiras: "O que parte da palavra para
chegar à imagem visiva e o que parte de imagem visiva para
chegar à expressão verbal." (Idem, Ibidem,
p.99)
Na
realidade, enquanto a literatura possibilita a projeção
da imagem, do movimento e do som na mente do leitor, interiorizando-as,
os meios tecnológicos facultam a exteriorização
desses elementos, pois é por meio da projeção
de imagens em uma tela que se leva o espectador à contemplação
do olhar e à apreensão dos sentidos, como afirma
Avellar (1994, p.98): "Um filme, quando passa na tela, e
um livro, no instante em que está sendo lido, não
são apenas esses objetos que aparecem diante dos olhos.
São também e principalmente o que começa
a se criar no imaginário a partir do estímulo que
vem da imagem e da letra."
Na opinião de McLuhan (1964, p. 328):
A
tarefa do escritor e do cineasta é a de transpor o leitor
e o espectador, respectivamente de seu próprio mundo para
um mundo criado pela tipografia e pelo filme. (...) O homem tipográfico
adaptou-se logo ao cinema, porque o filme, como o livro, oferece
um mundo interior de fantasia e sonho. O espectador de cinema
senta-se em solidão psicológica como o leitor de
livros.
O
processo de aproximação entre linguagens diversas
não é fato recente. Logo, o surgimento dos artefatos
técnicos - e conseqüentemente do cinema - é
responsável pelas profundas transformações
artísticas em nosso século uma vez que promoveu
significativas alterações nas formas de sentir,
de pensar, de ver o mundo, compreendê-lo e traduzi-lo em
palavras e imagens.
Através
dos sofisticados processos de reprodução trazidos
pela técnica, os objetos estéticos- antes restritos
ao conhecimento e à contemplação de poucos-
tornaram-se acessíveis a um número cada vez maior
de pessoas, criando-se assim um processo de dessacralização,
denominado por Walter Benjamin como "perda da aura".
A entrada, no panorama social, dos meios tecnológicos -
dotados de linguagens diversas das esteticamente consagradas -
provocou uma reestruturação não só
do modo de recepção mas também do próprio
fazer artístico, frente a um mundo dominado pela técnica,
que demanda novas respostas aos seus anseios, angústias
e questionamentos.
O
cinema representa, de forma privilegiada, o resultado desse casamento
entre arte e técnica uma vez que revelou a limitação
do olhar humano e desvendou segredos de que nem ao menos se suspeitava:
"O olhar frio da câmera veio revelar-nos um mundo novo,
que nossos olhos em geral não enxergavam, habituados que
estavam a ver cada objeto segundo a utilidade e o sentido que
tomava em cada momento da vida." (Perrone- Moisés,1966,
p.22)
A
arte cinematográfica, por conseguir apresentar a imagem
em movimento, alcançou o efeito da impressão de
realidade, fazendo com que as imagens projetadas na tela se assemelhassem
de forma quase perfeita ao espetáculo oferecido aos nossos
sentidos pelo mundo real, atingindo assim o ápice da verossimilhança,
buscada até então pela literatura.
A
adaptação de obras literárias para o cinema
não se tem feito sem conflitos. Enquanto muitos afirmam
que esse processo é um mecanismo de facilitação
e acesso para o grande público, em detrimento da qualidade
estética da obra original, outros afirmam que, por causa
da diferença de linguagens, essas adaptações
resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.
É
importante observar que cada arte tem sua própria estrutura
interna, porém, mantém constantes relações
umas com as outras em um esquema complexo de relações
dialéticas, de maneira a tornar-se difícil, senão
impossível, delimitar em que ponto uma influencia e determina
a evolução da outra. Portanto, cada arte pode ser
inteiramente transformada dentro daquela em que se ingressa.
Interessante
salientar que o cinema pode ser considerado como a mais eclética,
completa e rica dentre as formas de expressão para a qual
convergem as demais artes. Transformando e adaptando recursos
pertencentes a outras linguagens, o cinema pôde permitir
a reapropriação de elementos - tais como a cena,
a montagem e o monólogo interior - originariamente inerentes
aos domínios de outras artes. Após a migração
para o mundo do filme esses elementos adquiriram novos aspectos,
ganhando feições tão peculiares que passaram
a ser associados prioritariamente à cinematografia.
Tanto
a arte cinematográfica quanto a literária constrói
a imagem através da linguagem. Sob o olhar bakhtiniano,
na construção de um romance ou de um filme, além
de dominar a linguagem específica, é necessário
ao artista ter conhecimento das linguagens do plurilinguismo social,
uma vez que a linguagem é vista como:
Interação
social, em que o Outro desempenha papel fundamental na constituição
do significado, integra todo ato de enunciação individual
num contexto mais amplo, revelando as relações mais
intrínsecas entre o lingüístico e o social.
(Brandão, 2004, p.8 )
Graciliano Ramos, autor de Vidas Secas, utiliza-se desse
plurilinguismo, fazendo com que as linguagens sociais sejam "mais
aludidas que citadas, mais referidas que representadas, mais analisadas
e avaliadas que estilizadas" (Marinho, 2000, p 45). usando
a multiplicidade dessas linguagens "não apenas como
elemento de composição de um universo social diversificado,
mas principalmente como um dos temas de seus romances: aquele
que se pergunta como a linguagem funciona na prática social"
(Idem, Ibidem, p.99), dominando assim a representação
do plurilinguismo através do espaço social focalizado
em seus romances.
A
percepção das diferenciações sociolingüísticas
está presente em toda a produção de Graciliano,
como pode ser observado em Vidas Secas, onde o autor aborda
não só a vida subumana dos sertanejos, mas também
a própria consciência que essas pessoas têm
da situação de miséria e dominação
em que vivem. Tal abordagem é realizada através
de monólogos interiores, demonstrados principalmente pelo
discurso indireto livre, transmitindo o que vai na mente dessas
personagens.
Além
de ser um dos clássicos da Literatura Brasileira, Vidas
Secas também se consagrou como um dos clássicos
do Cinema Nacional pelas mãos do diretor Nelson Pereira
dos Santos, em 1963. Todo filmado em preto e branco, essa escolha
estética permitiu-lhe que pudesse trabalhar as agruras
do nordeste sob uma perspectiva de mostrar as dores internas das
personagens, explorando a subjetividade em uma analogia ao romance,
evidenciando a falta de vida e a falta de possibilidades.
Comparando
obra a literária à fílmica, Vidas Secas
oferece diversas possibilidades de leitura e, dentre elas, a relação
entre discurso indireto livre, a construção da imagem,
a transposição de signo literário para fílmico
e a representação do poder.
Na obra de Graciliano, o uso do discurso indireto livre conserva
particularidades existentes na elocução da personagem,
estilizando o efeito vívido e concreto da enunciação.
Tal efeito recupera de modo mais direto a reação
de Fabiano e de sua família à realidade que os cerca.
Essas personagens são caracterizadas por um limitado desenvolvimento
verbal, o que faz com que seus discursos precisem ser auxiliados
pela narração sob pena de parecerem artificiais
ou inconsistentes.
O
discurso de Fabiano é perpassado pelo silêncio, por
sua carência de palavras e por sua "querência":
De pouca fala, mas de muito desejo, o sertanejo é incitado
a olhar para longe, para além de si. Porém, quando
seu discurso é colocado em estilo direto - sugerindo uma
fala autônoma, não tutelada pelo narrador - revela-se
mais limitado em termos de expor as idéias do que quando
é expresso por meio do indireto livre.
A
representação dessa carência de palavra foi
conseguida por Nelson Pereira através de imagens focalizando
o olhar e as expressões faciais dos personagens, com nítida
influência do cinema expressionista alemão. A fim
de demonstrar a importância do discurso indireto livre e
das imagens para a exteriorização do que Fabiano
sentia e ainda a relação entre discurso, imagem
e representação de poder, passaremos agora a uma
análise comparativa do capítulo "O soldado
amarelo" e das cenas que o representam.
Na obra literária, Graciliano narra o encontro de Fabiano
com o soldado amarelo da seguinte maneira:
Seguiu
a direção que a égua havia tomado. (...)
Deteve-se percebendo o rumor de garranchos, voltou-se e deu de
cara com o soldado amarelo, que, um ano antes, o levara à
cadeia, onde ele agüentara uma surra e passara a noite. Baixou
a arma, aquilo durou um segundo. Menos: durou uma fração
de segundo. Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído
esperneado na poeira, com o quengo rachado. Como o impulso que
moveu o braço de Fabiano foi muito forte, o gesto que ele
fez teria sido bastante para um homicídio se outro impulso
não lhe dirigisse o braço em sentido contrário.
A lâmina parou de chofre, junto à cabeça do
intruso, bem encima do boné vermelho. A princípio
o vaqueiro não compreendeu nada. Viu apenas que estava
ali um inimigo. De repente notou que aquilo era um homem e, coisa
mais grave, uma autoridade.(...)
Afastou-se, inquieto. Vendo-o acanalhado e ordeiro, o soldado
ganhou coragem, avançou, pisou firme, perguntou o caminho.
E Fabiano tirou o chapéu de couro.
- Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e ensinou o caminho
ao soldado amarelo. (Graciliano, 1977, p.107)
No
filme o soldado, que procurava o caminho para a cidade, é
surpreendido por Fabiano com um facão em riste. Há
nesse momento uma disputa de olhares e expressões corporais,
acentuadas pelo recuo e avanço de imagens e pelo movimento
circular que demonstra uma alternância de poder, poder este
que em um primeiro momento está nas mãos de Fabiano,
detentor do facão (símbolo de poder).
O soldado recua, amedrontado, mas com olhar desafiador, como que
impelindo Fabiano a refletir sobre suas atitudes. Fabiano então
pára o facão no ar, provavelmente fazendo uma digressão
do momento em que no passado fora preso e insultado por aquele
soldado.
Após breve reflexão, Fabiano abaixa lentamente aquela
arma, pois afinal, estava diante de um ser humano, uma autoridade.
Nesse momento, o soldado passa da condição de "ser
impotente" para "indivíduo", mudando o olhar
e o comportamento.
Há novamente o recuo e o avanço de imagens para
demonstrar a disputa pelo poder. Eles se entreolham em um nível
linear e voltam seu olhar para o céu nordestino, numa relação
de igualdade, por conta de serem ambos sertanejos.
Há
novamente o movimento circular, Fabiano ouve o grunhido do gado,
guarda o facão, passa as mãos sobre a barba e numa
postura reflexiva olha para o gado.
Nesse
momento, através do uso da palavra, símbolo maior
de poder, o soldado amarelo retoma sua posição de
poder em relação a Fabiano. O sertanejo abaixa olhar,
tira o chapéu, balbucia a frase "governo é
governo" e aceita sua posição de submissão
frente à figura representativa de poder, dando a informação
que o soldado havia exigido.
Antes de partir, o soldado lança um olhar de desdém
e superioridade para aquele que havia deixado submeter-se.
Se na obra literária Graciliano dispõe de um capítulo
inteiro para narrar o encontro entre os dois personagens, encontro
este pautado pelo discurso indireto livre, Nelson Pereira dos
santos dispõe de poucos quadros condensados em uma única
cena para realizar tal empreitada.
Há
uma grande diferença entre as duas narrativas. Na fílmica,
a relação de poder é acentuada, pois, quando
o soldado depara-se com Fabiano, este já tem o facão
em riste, numa atitude de revolta, revelando uma disputa para
a detenção do poder, uma alternância entre
papel de dominado e dominador.
Na obra literária, Fabiano levanta o facão instintivamente,
pensando que fora um animal qualquer. Ao dar-se conta de que era
o soldado, titubeia, amedronta-se, assume sua posição
de dominado, permitindo que o soldado (símbolo do poder)
seja novamente o detentor de poder.
Em
ambas as obras, a atitude tomada por Fabiano e a frase proferida
por ele (governo é governo) revelam-se como uma constatação
de que não há fuga diante as relações
de poder. Ainda que se queira, que se sonhe, que se deseje o contrário,
o poder deve ser respeitado e temido.
Referências Bibliográficas:
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BRANDÃO, Helena H. Negamine. Introdução à
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SANTOS, Nelson Pereira dos. Vidas Secas. Brasil, 1963.