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A poética de Humberto Freitas

Marcelo Chagas

 

 

Menos comuns que textos inúteis sobre artistas reconhecidos são textos úteis sobre artistas anônimos. Pretendentes a historiadores da arte se esqueçem - ou não primam por recordar aos leitores - que grande parte dos artistas mais ousados viveu no anonimato, colocando sua vida material e sua sanidade em risco, sem que apenas uma linha viesse antes do epitáfio. O grau de interpretabilidade de um texto poético, seja ele verbal, musical ou visual, depende de uma certa sedimentação de idéias e sensações, após o confronto com a novidade promovida pelo artista. Isso quer dizer que o crítico corre mais risco que o historiador, pois não pode contar com um consenso sobre algo ainda não decodificado totalmente por outros comentadores. Contra a percepção do crítico, o gosto, os estilos da moda, os conceitos estéticos vigentes, a ideologia política, ou mesmo a ignorância e o preconceito investem suas verdades para obscurescer a novidade e ironizar o risco.

De Edgar Allan Poe a Paul Klee, de Cezanne a Arthur Bispo do Rosário, de Orides Fontela a Bach, a história se repete. A busca de um sentido mais profundo dá lugar ao desdém. Embora nos confrontemos cada vez mais raramente com situações artísticas que nos tire do território seguro da citação, da referência ou do elogio, ainda existem artistas que nos chocam com sua sinceridade e estranhamento. Percorrer os caminhos tortuosos dessas mentes e seus traços é caminho arriscado para o crítico. São linhas maltraçadas, de palavras ainda não escolhidas. Mapas de territórios inexplorados ou de existência incompleta. Labirintos e calabouços que podem nos desorientar e fazer prisioneiros por décadas. E quando a derrota parece iminente pode ainda surgir coerência desse destino, um resgate das palavras desenhadas, um fechar de contornos desse mapa.

A arte de Humberto Freitas não segue a tendência de ilustrar teorias sociológicas ou mesmo do registro antropológico. Muito menos tenta reproduzir o gesto naïf daqueles que seguem no atalho do folclore ou do brutalismo descuidado. O que ela oferece é uma visão da vida cotidiana transformada poéticamente através do desenho e da cor. A originalidade de sua arte reside no estranhamento do seu olhar e o que confere o estatuto de objeto artístico à sua produção é o desvio da imagem comum que carregamos das coisas. O artista se abstém da naturalidade de um olhar enfadonho, cotidianamente cultivada, em direção a um universo colorido de bizarras engrenagens, circuitos, encrustrações e rizomas. Natureza, corpo, máquina se condensam num mundo imaginário vacilante em seus contornos.

Trata-se de uma produção de desenhos em bico de pena sobre acrílico em papel. A composição de suas imagens se constrói num emaranhado de linhas que antes de pretender margear a cor, que habita camada autônoma, reforça o caráter gráfico da poética do artista. Acompanhá-lo em seu métier é assistir um sujeito permanentemente insatisfeito. Fracasso iminente se reafirma para o artista a cada decisão. Humberto se defronta horrorizado com o que cria: "O que eu estou fazendo?". O destino híbrido de suas paisagens, cenas e personagens carrega o mal-estar de um tempo onde não existem mais os "bons-selvagens", os ingênuos.

Surpreende, nesta altura tardia da modernidade artística, que um artista tenha desenvolvido um olhar tão atento à natureza. O repertório das formas que aparecem nos trabalhos remetem aos livros de botânica, biologia marinha e anatomia humana. Não são transcrições literais, apenas sugerem processos de vida natural. Observações que parecem as de um homem da Idade Média, assim como suas invenções mecânicas, repletas de rodas dentadas, molas que propulsionam engenhosos dispositivos inúteis. Arcimboldo maquínico. Esse aspecto grotesco do olhar de Humberto Freitas não é simplesmente uma questão de ironia ou estilo, senão um desconforto existencial num mundo cada vez mais enigmático e sem sentido. Falta-lhe um lugar.

Ecos dos padrões decorativos da Art Noveau e da Sezession vienense aparecem lembrando os frisos de Beethoven ()de Klimt e os trabalhos de ferro da entrada do metrô de Paris (1899-1904)de Hector Guimard. O flerte de Humberto Freitas com a decoração vai mais longe na obra de mosaico que o artista desenvolve. Trata-se de um artista que não rejeita o artesanato, embora trazendo a ele elementos de experimentação na escolha e no tratamento de materiais e técnicas. Desse período precursor do modernismo o artista traz o espanto da arquitetura de Gaudí.

 

Depois de um longo processo de investigação formal e definição de temáticas, explorada largamente numa produção monocromática, Humberto se lança num desafio cromático, inédito para ele até então. Para o artista a cor é o elemento de improviso. Na sua paleta cabem azuis, amarelos e laranjas tensionados ao limite; e ainda dourados, prata e cobreados. Essa combinação dramática é depois domada por um traçado que o sobrepõe e determina. Juntos os elementos dinamizam o olhar em um movimento ininterrupto sobre a superfície sistêmica da composição. Cor e desenho energizam as engrenagens e as fazem girar.

Mas acima de tudo, se me restassem como crítico apenas as linhas de um epitáfio, diria que um artista com Humberto Freitas está destinado a virar semente; senão de outros na sua lavoura de influência artística, mas tão somente do semear de sensibilidade e angústia em suas obras.

 

 

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