Menos
comuns que textos inúteis sobre artistas reconhecidos são textos
úteis sobre artistas anônimos. Pretendentes a historiadores da arte
se esqueçem - ou não primam por recordar aos leitores - que grande
parte dos artistas mais ousados viveu no anonimato, colocando sua vida material
e sua sanidade em risco, sem que apenas uma linha viesse antes do epitáfio.
O grau de interpretabilidade de um texto poético, seja ele verbal, musical
ou visual, depende de uma certa sedimentação de idéias e
sensações, após o confronto com a novidade promovida pelo
artista. Isso quer dizer que o crítico corre mais risco que o historiador,
pois não pode contar com um consenso sobre algo ainda não decodificado
totalmente por outros comentadores. Contra a percepção do crítico,
o gosto, os estilos da moda, os conceitos estéticos vigentes, a ideologia
política, ou mesmo a ignorância e o preconceito investem suas verdades
para obscurescer a novidade e ironizar o risco.
De
Edgar Allan Poe a Paul Klee, de Cezanne a Arthur Bispo do Rosário, de Orides
Fontela a Bach, a história se repete. A busca de um sentido mais profundo
dá lugar ao desdém. Embora nos confrontemos cada vez mais raramente
com situações artísticas que nos tire do território
seguro da citação, da referência ou do elogio, ainda existem
artistas que nos chocam com sua sinceridade e estranhamento. Percorrer os caminhos
tortuosos dessas mentes e seus traços é caminho arriscado para o
crítico. São linhas maltraçadas, de palavras ainda não
escolhidas. Mapas de territórios inexplorados ou de existência incompleta.
Labirintos e calabouços que podem nos desorientar e fazer prisioneiros
por décadas. E quando a derrota parece iminente pode ainda surgir coerência
desse destino, um resgate das palavras desenhadas, um fechar de contornos desse
mapa.
A
arte de Humberto Freitas não segue a tendência de ilustrar teorias
sociológicas ou mesmo do registro antropológico. Muito menos tenta
reproduzir o gesto naïf daqueles que seguem no atalho do folclore ou do brutalismo
descuidado. O que ela oferece é uma visão da vida cotidiana transformada
poéticamente através do desenho e da cor. A originalidade de sua
arte reside no estranhamento do seu olhar e o que confere o estatuto de objeto
artístico à sua produção é o desvio da imagem
comum que carregamos das coisas. O artista se abstém da naturalidade de
um olhar enfadonho, cotidianamente cultivada, em direção a um universo
colorido de bizarras engrenagens, circuitos, encrustrações e rizomas.
Natureza, corpo, máquina se condensam num mundo imaginário vacilante
em seus contornos.
Trata-se
de uma produção de desenhos em bico de pena sobre acrílico
em papel. A composição de suas imagens se constrói num emaranhado
de linhas que antes de pretender margear a cor, que habita camada autônoma,
reforça o caráter gráfico da poética do artista. Acompanhá-lo
em seu métier é assistir um sujeito permanentemente insatisfeito.
Fracasso iminente se reafirma para o artista a cada decisão. Humberto se
defronta horrorizado com o que cria: "O que eu estou fazendo?". O destino
híbrido de suas paisagens, cenas e personagens carrega o mal-estar de um
tempo onde não existem mais os "bons-selvagens", os ingênuos.

Surpreende,
nesta altura tardia da modernidade artística, que um artista tenha desenvolvido
um olhar tão atento à natureza. O repertório das formas que
aparecem nos trabalhos remetem aos livros de botânica, biologia marinha
e anatomia humana. Não são transcrições literais,
apenas sugerem processos de vida natural. Observações que parecem
as de um homem da Idade Média, assim como suas invenções
mecânicas, repletas de rodas dentadas, molas que propulsionam engenhosos
dispositivos inúteis. Arcimboldo maquínico. Esse aspecto grotesco
do olhar de Humberto Freitas não é simplesmente uma questão
de ironia ou estilo, senão um desconforto existencial num mundo cada vez
mais enigmático e sem sentido. Falta-lhe um lugar.

Ecos
dos padrões decorativos da Art Noveau e da Sezession vienense aparecem
lembrando os frisos de Beethoven ()de Klimt e os trabalhos de ferro da entrada
do metrô de Paris (1899-1904)de Hector Guimard. O flerte de Humberto Freitas
com a decoração vai mais longe na obra de mosaico que o artista
desenvolve. Trata-se de um artista que não rejeita o artesanato, embora
trazendo a ele elementos de experimentação na escolha e no tratamento
de materiais e técnicas. Desse período precursor do modernismo o
artista traz o espanto da arquitetura de Gaudí.


Depois
de um longo processo de investigação formal e definição
de temáticas, explorada largamente numa produção monocromática,
Humberto se lança num desafio cromático, inédito para ele
até então. Para o artista a cor é o elemento de improviso.
Na sua paleta cabem azuis, amarelos e laranjas tensionados ao limite; e ainda
dourados, prata e cobreados. Essa combinação dramática é
depois domada por um traçado que o sobrepõe e determina. Juntos
os elementos dinamizam o olhar em um movimento ininterrupto sobre a superfície
sistêmica da composição. Cor e desenho energizam as engrenagens
e as fazem girar.
Mas
acima de tudo, se me restassem como crítico apenas as linhas de um epitáfio,
diria que um artista com Humberto Freitas está destinado a virar semente;
senão de outros na sua lavoura de influência artística, mas
tão somente do semear de sensibilidade e angústia em suas obras.

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