Banhar-se
no rio de memória de Benjamim. Teoria da História como suco de uvas.
Ler e escrever a mentalidade de um época com imagens, caligramas, fios
de Ariadne, fios de cabelo que a mãe persiste em pentear, arrancando os
sonhos ao amanhecer e transformando-os em desenho de letra. Pesa com a balança
da melancolia de Dürer as variáveis culturais da percepção,
como aquele fisionomista que cientificamente mede as alterações
entre um sorriso e uma lágrima. O diálogo indolente com autores
como Huxley, Hesse e Baudelaire costura a reflexão sobre esse estado alterado
de consciência através de aforismos, notas "clínicas"
e poesia. Esse tecido, fragmentado, polifônico, repetitivo, colcha de retalhos,
abre mão do lastro científico e filosófico tradicionais e
flana o fluxo das imagens captadas pela retina e pela mandíbula dormente
de comedor de haxixe. Coup des dents.
Arquitetura
oscila entre os fios orgânicos da arquitetura de ferro da nova Paris e o
arquivo das formas barrocas alemãs. Ornamento, concha, vagina, toca, subway.
Esse quase texto se faz em suas dobras, onde se vê dobrado, partido e espelhado.
Rosto-paisagem. Como o oscilar das cortinas pelo vento. Souffle. Parole. Verbo-vento.
Ruínas e projeto coabitam essa cidade mental. Rosto-cidade. Um narrador
fisionomista. Filósofo de multidões. Poesia épica num sorriso.
"por
trás da duração absoluta e do espaço imensurável,
persiste no sorriso beatífico um humor prodigioso, que se atiça
ainda mais diante da ilimitada ambigüidade de todas as coisas."1
"Fique
idêntico ao menos um instante!" suplica Benjamim, na despedida de si
mesmo. Por um fio. Esse fio que delineia o instante narcísico, rosto-ruína,
"rugas da renúncia", espelho moderno. Um mundo que transforma
o tabu em bits de informação: dados. "Tudo é dado"."...não
abolirá". "Deus não joga..."
"toda
a pessoa por um fio não se torna milionária"2
Filósofo
de multidões, toda a pessoa por um fio não se torna milhões.
Afasia ótica num friso."O passado não é fixo."
Benjamim percorre seus becos e alamedas com fome de espetáculo. O cair
dos dados da mão do jogador. "Eu pasmei de invejar tanta pobre criatura,
correndo ao hiante abismo, e de alma alucinada, que tem no próprio sangue
a embriaguez que procura..." Dados caem como gotas, inteligíveis por
si mesmas, pois todo pensamento as emitem. Filósofo das verdades do coração,
Benjamim não se esforça por generalizar o rio onde se banha. Rio
de saliva, do comedor de haxixe. Rio de memória.
Uma
memória que escreve o futuro com fios de sonhos transformados. Fios que
desenham um retângulo vazio habitável: folha. "Mas meus dedos
também escrevem em outras latitudes, e o ar que sopra através do
meu caderno e vira as páginas sem que eu perceba, quando caio no sono,
de maneira que o sujeito fica longe do verbo e o objeto aterrisa em algum lugar
vazio, não é o ar desta penúltimamorada, ainda bem. E quem
sabe, em minhas mãos, haja o murmúrio das sombras das folhas e das
flores e o fulgor de um sol esquecido."3 Uma memória
que escreve o futuro com fios de sonhos transformados. Fios que desenham um retângulo
vazio habitável: folha. Ecos do porvir: História como ruminação.
Escrever
em língua estranha, adormecida pelo haxixe, acende-se a luz: "São
as próprias cócegas." Rosto-muro: tela em branco. Deves ter
cuidado com as cores: acontecimento, despertar. Benjamimacorda no riocorrente
dialético das intencionalidades que delineiam um período da história.
Túmulo-glote: Grübler. Poço e pêndulo: Graben.
Escava o buraco-negro do rosto, reentrância, captura. Máquina de
captura. Rosto-corpo: rosto-legião.
René
Magritte: Violação - 1948
"Fique
idêntico ao menos um instante!" Fio que o enforca. Na fronteira entre
o totalitarismo e o barroco.
À
sua imortal saúde, Velho Bode!
1
- Benjamim, Walter - Haxixe.pg 22.trad. Flávio de Menezes e Carlos Nelson
Coutinho. apres. Olgária Chain Féres Matos. São Paulo: Brasiliense.1984.
2
- Benjamim, Walter - Haxixe.pg 15.trad. Flávio de Menezes e Carlos Nelson
Coutinho. apres. Olgária Chain Féres Matos. São Paulo: Brasiliense.1984.
3
- Beckett, Samuel-Malone Morre .pg 78.trad. Paulo Leminski. São Paulo:Círculo
do Livro.1990.