Na
poesia de William Butler Yeats encontram-se os seguintes aspectos
fundamentais: a presença do ocultismo, a influência
do folclore céltico, o retorno às origens de sua
família e às localidades onde passara grande parte
da juventude, o nacionalismo que visava, por exemplo, contribuir
para que a Irlanda alcançasse uma maior identidade cultural,
a paixão não correspondida por Maud Gonne e o envelhecimento.
Assim, neste trabalho, será feito um recorte a respeito
da presença do ocultismo, da postura anti-racionalista
na construção da trajetória poética
de Yeats, entendendo ocultismo enquanto investigação
dos fenômenos que parecem não se poder explicar pelas
leis naturais e que apenas seriam passíveis de compreensão
mediante digressões metafísicas voltadas, em muitos
casos, para iniciados em ordens herméticas. Pois, na esteira
de muitos poetas da época, Yeats demonstrou a necessidade
de escapar do domínio da perspectiva científica.
Suas novas concepções sobre teosofia e espiritualidade,
bem como seu culto da nacionalidade e dos mitos irlandeses, desenvolvem-se
de modo a encerrar seus conhecimentos de história e filosofia
numa espécie de teoria mística da história,
da personalidade humana e da teologia. "Sem dúvida,
tudo isso influenciou-lhe a poesia", diz dele Frank Kermode
(1973, p. 30). Contudo, não é possível falar
aqui de originalidade. "A maioria dos contemporâneos
de Yeats interessava-se pela magia. Yeats, aliás, associava
suas idéias ao simbolismo europeu, a que chamava 'a revolta
contra a exterioridade científica'", acrescenta Kermode
(1973, p. 39). Na opinião do poeta,
Os
movimentos científicos trouxeram consigo uma literatura
que estava sempre tendendo a se perder em externalidades de todos
os tipos, em opinião, em declamação, em escrita
pitoresca (...) ou no que o senhor Symons chamou de uma tentativa
de "construir em tijolo e argamassa dentro das capas de um
livro"; e agora os escritores começaram a freqüentar
o elemento de evocação, de sugestão, acerca
do que chamamos de simbolismo nos grandes escritores 1
(YEATS, 2000, p. 271).
Ademais, ele passou a maior parte de sua vida adulta cultivando
a crença de que vivia numa era onde revelação
- ou apocalipse - era iminente, e ele se dedicou ao estudo do
oculto desde sua juventude, acreditando que um poeta deveria ser
apto a utilizar-se da procura pelo contato com o transcendente,
para fazer a linguagem evocar realidades espirituais mais elevadas
(PETHICA, 2000). No entanto, com o avanço da idade, veio
a resvalar na idéia de que seus esforços haviam
sido em vão.
James Pethica (2000, p. xii) observa que o trabalho poético
de Yeats passa por várias fases. Primeiramente, "os
primeiros escritos, culminando nos poemas de The Wind Among
the Reeds (1899) e na peça The Shadowy Waters,
são tipicamente rebuscados, visionários e escapistas"
2. Reagindo contra o racionalismo científico, o
poeta concedeu lugar de grande destaque à imaginação,
afirmando constantemente que as artes seriam fundadas na vida
para além deste mundo.
Yeats
de fato estava consciente dos perigos de sua tendência
para a abstração mística no primeiro momento,
queixando-se a Katherine Tynan, cedo como em 1888, que seu trabalho
tendia para "nuvem e espuma". Muita de sua melhor
poesia inicial, na verdade, apresenta o que se tornaria e se
manteria como uma tensão yeatsiana característica
derivativa dessa consciência: uma tensão entre
o desejo pelo visionário ou não-visto e o impulso
de responder à sua insubstancialidade com o terreno defeituoso,
mas vital, do plano físico 3(PETHICA, 2000, p.
xii).
Realmente
trata-se de uma poesia escapista, conforme pode ser visto no poema
"The Lake Isle of Innisfree", primeiramente publicado
em 1890. Esse texto expõe o anseio de Yeats por evadir-se
da cinzenta Londres e partir para um refúgio irlandês
onde poderia viver numa paz natural e restauradora. O local almejado
é retratado como um âmbito mágico.
And
I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.
I
will arise and go now, for always night and day
I hear lake water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements grey,
I hear it in the deep heart's core (YEATS, 1994, p. 31).
Os
versos denotam um anseio que não se resolverá, já
que o autor ainda se descreve sobre o pavimento cinza, e o delineamento
da localidade almejada apresenta-se consideravelmente idealizado.
O
poema termina, assim como começa, com uma expressão
de vigoroso intento de alcançar Innisfree - "vou levantar-me
e partir agora" - ainda que o poeta tenha visivelmente falhado
nesse movimento, embora não exista indicação
declarada de algo o impedindo de fazê-lo. O poema, assim,
consegue sugerir que o leitor sabe, em algum grau, que a visão
pela qual ele anseia é idealizada, e que realmente ir para
Innisfree seria uma forma de evasão, e talvez não
tão satisfatória na realidade quanto no devaneio
4(PETHICA, 2000, p. xiii).
O volume In the Seven Woods marca o início de um
trajeto que se estenderá até por volta de 1917,
quando Yeats buscará extirpar de sua poesia o ornamento
e a abstração. "A Coat", trazido a lume
em 1914, expõe concisamente seus novos propósitos.
O poema diz que seu antigo estilo, tendo se tornado muito elaborado,
como um casaco coberto com bordados, devia ser posto na trilha
da sinceridade e da simplicidade. "O poema possui forma que
deliberadamente modela a mudança desejada" 5(PETHICA,
2000, p. xiii). Ele é concluído com a resolução
de que maior feito reside em andar nu (YEATS, 1994). "Adam's
Curse", de 1902, também é um texto representativo
das contradições e desafios dessa renovação
estilística e estética. Esse texto representa uma
continuação da dinâmica emocional pertencente
à lírica amorosa de Yeats. Porém, o escritor
traz um novo realismo diante de um mundo indiferente à
sua poesia e trabalha de maneira a fazer com que os versos ressoem
mais espontâneos e simples em comparação à
sua produção anterior (PETHICA, 2000).
Assim, por volta de 1907, a poética yeatsiana passa a adotar
um tom cada vez mais amargo e o autor inicia mudanças acerca
de sua concepção de arte. Devido a uma viagem pela
Itália, com sua amiga e patrona Lady Gregory, ele imergiu
na arte e na cultura da Renascença.
E
ele retornou à Irlanda profundamente convencido de que
para a arte lá prosperar, era preciso uma tradição
aristocrática na qual ricos patronos seguissem seus próprios
gostos e cultivassem gênios de acordo com os últimos,
ou uma cultura rural não materialista 6(PETHICA,
2000, p. xv),
na qual os homens do campo pudessem gerar belas narrativas e crenças
por não terem nada a perder. "A importância
da ousadia aristocrática, da tradição (...)
e o materialismo de mentalidade estreita do mercado se tornaram
seus temas constantes nesse período, e assim permaneceriam
por toda sua carreira" 7 (PETHICA, 2000, p. xv). Essas
mudanças ideológicas se registrarão fortemente
na produção do poeta entre 1908 e 1913, na forma
de engajamento direto com a política que lhe foi contemporânea.
Mesmo assim, as tensões que o animaram em termos imaginativos
nesses poemas posteriores não são diferenciadas
das questões iniciais ao ponto que os novos temas sugerem.
Um
mundo ideal - agora a Irlanda de sua juventude ou as cortes cultas
da renascença italiana, em vez do terreno das fadas ou
uma imaginada Innisfree - é ainda estabelecido como uma
imagem desejável contra a qual o mundo concreto - agora
a Irlanda contemporânea - é insuficiente 8 (PETHICA,
2000, p. xv).
A Páscoa de 1916 trouxe a ascensão de uma nova etapa.
Trata-se de ocasião em que uma força de aproximadamente
setecentos nacionalistas proclamou uma república irlandesa
e tomou pontos estratégicos em Dublin. Foi travada uma
luta de seis dias contra soldados britânicos, antes da rendição.
Para Yeats, que acreditava encontrar-se a par da vida política
de seu país, a rebelião se deu como uma grande surpresa.
Juntamente a muitos observadores irlandeses, ele inicialmente
não se apresentou receptivo quanto à rebelião
e deplorou o uso de meios violentos. Porém, a execução
de quinze líderes pelos britânicos na véspera
da rendição transmutou radicalmente sua perspectiva
do ocorrido. O poema "Easter, 1916" incorpora extraordinária
e conflituosa resposta poética: um senso de perda relativo
à morte dos líderes, entre os quais muitos eram
conhecidos pessoais do autor, uma excitação apocalíptica
devido à "beleza terrível" que tal sacrifício
gerou; o relato do desejo de se tornar o intérprete dos
eventos e entregar-se à criação de novos
grandes mitos nacionais; a admiração pelo heroísmo
dos líderes e dúvidas concernentes à real
necessidade da rebelião, tangencialmente a se ela afetaria
ou não o curso histórico da Irlanda (PETHICA, 2000).
O casamento também resultaria numa "experiência
incrível". Tendo muitas vezes seus pedidos de matrimônio
rejeitados pela entusiástica nacionalista Maud Gonne, Yeats
se casou, em 1917, com Miss George Hyde Lees. Algum tempo antes,
havia adquirido Thoor Balylee - torre com casa adjacente, onde
tencionava engendrar sua residência principal e que se encontrará
presente em seu trabalho literário, inclusive na posição
de âmbito que Yeats verá como próprio para
o exercício da escritura. "Chamá-la de casa
de verão, nesse caso, é não se ater ao que
realmente refere-se, desde que, obviamente, a primeira função
da torre não era doméstica. Aqui ele estava no lugar
da escritura" 9(HEANEY, 2000, p. 431). Logo após
o casamento, Yeats convenceu-se de que sua consorte possuía
capacidade mediúnica e escrevia automaticamente. "Através
dela, 'os instrutores' enviavam mensagens destinadas a organizar
a filosofia mística do poeta em um sistema e a fornecer-lhe
'metáforas para a poesia'" (KERMODE, 1973, p. 44).
Pelo resto de sua vida, ele explorou esses mistérios -
na pesquisa psíquica e no espiritualismo -, envolvendo-se
com sociedades secretas e filosofias herméticas. Escreveu,
segundo a letra de Kermode (1973), que, sob o disfarce do simbolismo,
disse diversas coisas cuja chave apenas ele teria meios de acessar.
Mediante os símbolos, o poeta considerava que a imaginação
recria o mundo que a razão destrói. Por conseguinte,
não
era somente o caráter absoluto das ciências e a estreiteza
da arte, cópia da realidade, que o perturbavam. Era total
o seu horror ante a aniquilação da personalidade
e a frieza, que emanavam do ceticismo, o dessecamento da imaginação
e da vida emotiva em um mundo sem outra fé que não
a do progresso coletivo e automático orientado na direção
da terra sagrada de Cocanha (HALLSTRÖM, 1973, p. 19).
Falar sobre a alma das coisas, dentro da concepção
de Yeats, não é algo frívolo. O panteísmo
céltico - a crença no existir de forças sobrenaturais
personificadas, vivas, "apoderou-se de sua imaginação
e alimentou suas aspirações religiosas inatas e
profundas" (HALLSTRÖM, 1973, p. 18). Além disso,
o espectro da Irlanda, de sua arte e raízes culturais,
da busca de maior consciência nacional para seu povo, pairava
onde quer que ele passasse.
Na
agitação da vida intelectual de Londres, tudo que
se relacionasse à nação irlandesa tocava
o coração de Yeats, e esse sentimento era alimentado
pelos estudos aprofundados do folclore irlandês, a que se
entregava durante as férias em seu país natal. (...)
A alta estima que esses poemas adquiriram de imediato na Inglaterra
era devido ao fato de que essa matéria nova, com seu poderoso
apelo à imaginação, havia recebido uma forma
que, apesar das particularidades, era estreitamente ligada às
mais nobres tradições da poesia inglesa. A fusão
dos elementos celtas e ingleses, que não pudera realizar-se
com êxito no domínio da vida política, tornava-se
uma realidade no mundo da imaginação poética
(HALLSTRÖM, 1973, p. 19).
Nos poemas da década de 1920, a vacilação
se torna matéria predominante; não há a opção
por uma fuga dos assuntos mundanos a favor da disciplina espiritual
nem um total engajamento no plano físico. Em "Crazy
Jane Talks with the Bishop", a personagem condena toda forma
de espiritualidade que possa negar a vitalidade do corpo e de
seus desejos. Ocorre também a presença da aspiração
por lutar contra o declínio do corpo - do ressentimento
em presença de tal processo - e da capacidade imaginativa
(PETHICA, 2000). "O seu conceito de poesia está intimamente
ligado à idéia de conflito. E, no seu caso particular,
o maior conflito interior provinha dos choques entre a imagem
que fazia de um mundo de perfeição e beleza e as
exigências que lhe impunha a vida cotidiana" (VIZIOLI,
1992, p. 9). O mote era colocar-se no conflito entre a realidade
e o sonho.
Notadamente autobiográfico, Yeats costumava citar Sligo,
cidade do condado homônimo que presenciou muitos momentos
de sua juventude. A família do escritor se deslocou entre
Londres, Dublin e Sligo, que se estabeleceu como residência
principal, durante os primeiros dez anos da vida de Yeats (ELLMANN,
1999). Fala-se da região em que se encontra a montanha
de Ben Bulben, citada em "The Tower" e presente n'outro
grande poema denominado "Under Ben Bulben", dos Last
Poems (1936-1939), onde ele se desvincula do mundo da razão
para perscrutar o âmbito espiritual, incorporando, assim,
o traço metafísico que o caracteriza.
Many
times man lives and dies
Between his two eternities,
That of race and that of soul,
And ancient Ireland knew it all.
Whether man die in his bed
Or the rifle knocks him dead,
A brief parting from those dear
Is the worst man has to fear.
Though grave-diggers' toil is long,
Sharp their spades, their muscles strong.
They but thrust their buried men
Back in the human mind again.
(...)
Under bare Ben Bulben's head
In Drumcliff churchyard Yeats is laid.
An ancestor was rector there
Long years ago, a church stands near,
By the road an ancient cross.
No marble, no conventional phrase;
On limestone quarried near the spot
By his command these words are cut:
Cast
a cold eye
On life, on death.
Horseman, pass by (Yeats, 1994, p. 302-303)!
Desse
modo, o poeta demonstra sua esperança no contato com a
transcendência, onde encontraria a eternidade da alma, e
realiza um movimento de exploração d'uma idéia
desvinculada do racionalismo científico que exercia grande
papel na sociedade européia em sua época.
Em 1908, o escritor irlandês conheceu o poeta norte-americano
Ezra Pound, "que lutava por um novo estilo de poesia, fundamentado
no ritmo significativo, nas imagens vívidas e no vocabulário
simples e direto" (VIZIOLI, 1992, p. 14), princípios
estes que levariam à construção do imagismo
e constituíram as linhas mestras do modernismo poético
em língua inglesa (VIZIOLI, 1992).
A Primeira Guerra Mundial (eclodida em 1914), inicialmente, não
afetaria muito Yeats. Kermode (1973) ressalta que os irlandeses
obtinham e criavam seus próprios conflitos. Então,
o autor de The Tower passou o primeiro inverno relativo
à Grande Guerra na "companhia de Ezra Pound, que lhe
servia de secretário. É, sem dúvida, sob
a influência de Pound que Yeats, como dramaturgo, entra
em uma nova fase de sua vida literária; ignora-se, no entanto,
a que ponto influenciou a técnica de sua versificação".
Todavia, Ira B. Nadel (2005, p. IX) assinala o fato de ele ter
colocado o labor poético em jogo nas conversas com Pound.
"W. B. Yeats lembrou-se que 'conversar sobre um poema com
ele' era 'como colocar uma sentença em dialeto. Tudo se
torna claro e natural'" 10. Nadel (2005) afirma também
que Pound redirecionou a poesia yeatsiana. Parece ter sido o próprio
Yeats (1994, p. 10) quem esclareceu a questão ao falar
daquele escritor "cuja arte está nos antípodas
da minha, cujo labor crítico louva aquilo que eu mais condeno,
o homem com quem mais altercações teria se não
nos unisse a amizade...". Ao passo que, no tocante à
relação de Yeats com sua doutrina do imagismo, Pound
(2000, p. 323) explana que ele não pode ser rotulado como
imagista.
Não,
o senhor Yeats é um simbolista, mas ele escreveu des Images
como muitos bons poetas antes dele; então, não é
nada contra ele, e ele não tem nada contra eles (les Imagistes),
ao menos dentro dos limites de meu conhecimento - exceto o que
ele chama de "suas métricas do diabo" 11.
Ainda, em plano de uma consideração mais sólida,
concernente à poética do escritor em questão,
é de interesse destacar a seguinte afirmativa sobre o último
feita por Pound (2005, p. 276), correlacionando-o com o nome de
Dante Alighieri:
é
verdadeiro que desde a época de Dante (...) música
e poesia se separaram, e nós temos uma terceira coisa que
é chamada "música da palavra". Quero dizer
que temos poemas que são lidos ou até, de algum
modo, entoados, e são "musicais" em alguma espécie
de senso completo ou inclusivo que torna impossível ou
desaconselhável "colocá-los em música".
Falo, obviamente, de tais poemas como (...) grande parte da lírica
do senhor Yeats. As palavras possuem uma música própria
e a música de um segundo músico é uma impertinência
ou uma intrusão 12.
Já T. S. Eliot (2000, p. 330) adotou, no tocante a Yeats,
um posicionamento dúplice: descreveu-o como um daqueles
cuja história é a história de seu próprio
tempo, que são parte da consciência de uma geração
que não pode ser compreendida sem eles. "Esta é
uma posição muito alta para atribuí-lo: mas
eu acredito que se trata de uma posição segura"
13. Todavia, no campo religioso, devido à queda
pelo cristianismo e, mais especificamente, no que perpassa sua
obra, sobretudo a partir de Ash Wednesday, pelo anglo-catolicismo
(JUNQUEIRA, 2000), Eliot faz ressalva a Yeats apontando que o
folclore da pequenina Irlanda e a temática ocultista representam
uma mitologia periférica e menor (FRYE, 1998). Fala-se
de uma ótica reducionista a respeito das pesquisas místicas
de Yeats. No dizer de Richard Ellmann (1999), encontra-se que
houve grande profusão de estudos místicos e aparecimentos
de sociedades herméticas por toda Europa, especialmente
na França, durante a passagem do século XIX para
o XX. Yeats não se encontrava sozinho em sua busca ou falando
apenas para um reduzido número de interessados. O velho
continente, em grande parte, voltava-se para o combate ao materialismo
e a novas perspectivas no campo da sondagem transcendental.
Deve-se, para promover incurso em muitas metáforas yeatsianas,
também considerar seu interesse pela alquimia, denunciado
em diversos escritos, com especial destaque na narrativa Rosa
Alchemica:
eu
descobri, cedo em minhas pesquisas, que sua doutrina não
era meramente fantasia química, mas uma filosofia que eles
aplicavam ao mundo, aos elementos e ao próprio homem; e
que eles procuraram formar ouro a partir de metais comuns meramente
como parte de uma transmutação universal de todas
as coisas em alguma substância divina e imperecível;
e isso me capacitou a fazer de meu pequeno livro um extravagante
devaneio sobre a transmutação da vida em arte e
um grito de desejo incomensurável por um mundo totalmente
feito de essências 14(YEATS, 2002, p. 1).
A narrativa, construída na primeira pessoa, mostra o encontro
de um estudioso dos mistérios alquímicos com um
personagem de importância para a obra que estudamos, Michael
Robartes, que irá iniciá-lo em tais questões
por meio de um ritual em que sonho e realidade se misturam, formando
textualidade hermética povoada por mitos e símbolos
advindos das mais variadas culturas.
Outro lugar importante está cedido à influência
da filosofia oriental presente com intensidade, por exemplo, no
opúsculo Crossways, através de poemas como
"Anashuya and Vijaya", "The Indian upon God"
e "The Indian to His Love". Aqui se torna importante
realçar que aproximadamente seis anos de teosofia levaram
o autor de The Tower a adentrar num sistema baseado na
oposição ao materialismo e voltado para uma sabedoria
tida como restrita e antiga. Ele foi encorajado a acreditar que
estaria apto a agregar à mencionada doutrina os contos
de fadas e o folclore que vislumbrou na infância, assim
como a poesia lida durante a adolescência. Os teosofistas
concederam-no apoio porque ele aceitou e incorporou, no sistema
dos últimos, fantasmas e fadas, além de ter visto
sonhos e símbolos como manifestações sobrenaturais
(ELLMANN, 1999). Yeats se impressionou com muitos aspectos da
teosofia: seu ar de segredo, o misterioso Livro de Dyzan,
que sempre era mencionado na Doutrina Secreta, mas ao qual
ninguém, exceto Madame Blavatsky, obteve acesso. O poeta
viu na porta de Madame figuras pobremente desenhadas de seus mestres,
Kooti-Hoomi e Morya, e sentiu-se compelido a celebrar os mestres
tibetanos em versos memoráveis:
Anashuya.
Swear by the parents of the gods,
Dread oath, who dwell on sacred Himalay,
On the far Golden peak; enormous shapes,
Who still were old when the great sea was young;
On their vast faces mystery and dreams;
Their hair along the mountains rolled and filled
From year to year by the unnumbered nests
Of aweless birds, and round their stirless feet
The joyous flocks of deer and antelope,
Who never hear the unforgiving hound.
Swear (YEATS, 1994, p. 8)!
O poema permite ver o entusiasmo de Yeats em relação
à teosofia e a profusão simbólica de que
fazia uso para dar configuração a seus versos.
Ele adquiriu, supostamente, armas seguras para atacar o materialismo.
A teosofia equipou-o com escudo e espada e influiu para que seguisse
em frente, ao modo de Don Quixote, embora com alguma hesitação,
para enfrentar os moinhos de vento da modernidade (ELLMANN, 1999).
Yeats povoou seus poemas com elementos turvos, pálidos,
e ansiou por uma ilha qual Innisfree, afinal, uma ilha não
é continente nem água, mas apresenta elementos dos
dois (ELLMANN, 1999). Assim, encontramos as seguintes asserções
em texto de 1892: "A vida mística é o centro
de tudo que eu faço, penso e escrevo (...) eu sempre me
considerei uma voz do que acredito ser uma renascença maior
- a revolta da alma contra o intelecto - agora começando
no mundo" 15(YEATS apud ELLMANN, 1999, p. 98). Mas
não se trata de se manter predominantemente no âmbito
metafísico. Existe a visão antinômica que
Bornstein (2000, p. 382) define como uma postura inclusiva, baseada
na tensão entre o ideal e o real. Destarte, "a descida
à vida não significava abandono do ideal" 16(BORNSTEIN,
2000, p. 383).
Em Yeats, é plausível falar de símbolos que
evocam emoções e de símbolos intelectuais.
Também comparecem aqueles que aliam emoções
a idéias. A poesia pode muitas vezes formular-se de modo
obscuro e deve abarcar sutilezas que escapem à análise
e que possam receber novos significados a cada nova leitura (YEATS,
2000). Sendo assim, entrevemos uma textualidade na qual a presença
do ocultismo se dá especialmente mediante o uso dos símbolos;
de imagens e conceitos amalgamados no feitio das metáforas
e metonímias, enquanto o próprio estilo adotado
pelo autor se coliga a uma significação intelectual
ou afetiva injetada nos versos. Muitas vezes, na obra discutida,
os termos ocultismo, magia e simbolismo se confundem. "A
magia ofereceu aos simbolistas, muitos dos quais a estudaram,
um reforço de sua crença no poder da Palavra ou
do símbolo no sentido de evocar uma realidade de outra
maneira inacessível" 17(ELLMANN, 1999, p. 91).
Magia e ocultismo se envolvem com o estudo, a experimentação
e a utilização no discurso de conteúdos relativos
ao sobrenatural. Quanto a Yeats, vemos que "ocultismo, ou,
para usar uma expressão mais generalizada, idéias
espirituais, forma a base de todas suas primeiras peças
e de suas teorias acerca do que o teatro nacional deveria ser"
18(ELLMANN, 1999, p. 131). O próprio poeta assume
acreditar na prática e na filosofia "do que concordamos
em chamar de magia, no que eu devo chamar a evocação
de espíritos (...), nas visões do que é verdadeiro
nas profundezas da mente quando os olhos estão fechados"
19 (YEATS, 2000, p. 275). Na poesia, a referência
ao ocultismo - ou à magia - se dá pelos símbolos
que se distribuem e deixam suas marcas ao longo da textualidade.
Diz-se de um autor "cujo simbolismo abrange a Irlanda e o
mundo, o indivíduo e toda a humanidade" (VIZIOLI,
1992, p. 30), levando sempre em conta a "alegria trágica"
que permeia a condição humana. "O sofrimento
passivo não é um tema para a poesia" 20(YEATS,
2000, p. 297). Em todas as grandes tragédias, comparece
"uma alegria para o homem que morre; na Grécia, o
coro trágico dançava" 21(YEATS, 2000,
p. 297).
Notas
1
The scientific movements brought with it a literature wich was
always tending to lose itself in externalities of all kinds, in
opinion, in declamation, in picturesque writing (...) or in what
Mr. Symons has called an attempt 'to build in brick and mortar
inside the covers of a book'; and now writers begun to dwell upon
the element of evocation, of suggestion, upon what we call the
symbolism in great writers.
2 the early writings, culminating in the poems of The Wind Among
the Reeds (1899) and the play The Shadowy Waters, are typically
ornate, visionary, and escapist.
3 Yeats had in fact been aware of the dangers of his tendency
towards mystical abstraction from the first, fretting to Katherine
Tynan as early as 1888 that his work tended to 'cloud and foam'.
Much of his best early poetry indeed turns on what would become
and remain a characteristic Yeatsian tension deriving from this
awareness: a tension between desire for the visionary or unseen,
and the impulse to counter its insubstantiality with the flawed
but vital realm of the actual.
4 The poem closes, as it begins, with an expression of forceful
intent to reach Innisfree - "I will arise and go now"
- yet the poet has signally failed to move, even though there
is no overt indication of anything preventing him from doing so.
The poem thus manages to suggest the speaker knows on some level
that the vision he longs for is idealized, and that to actually
go to Innisfree would be a form of evasion, and perhaps not as
satisfying in reality as in reverie.
5 The poem's own form deliberately models the desired change.
6 And he returned to Ireland deeply convinced that for art to
flourish there required either an aristocratic tradition, in wich
wealthy patrons follow their own tastes and cultivate genius accordingly,
or a nonmaterialistic rural culture.
7 The importance of aristocratic daring and of rooted tradition
(...) and the narrow-minded materialism of the marketplace became
his constant themes in this period, and they should remain so
throughout his career.
8 An ideal world - now the Ireland of his own youth or the cultured
courts of the Italian Renaissance, rather than the realm of the
faeries or an imagined Innisfree - is still set as a desirable
image against wich the actual world - now contemporary Ireland
- falls short.
9 To call it a summer home, then, is really slightly off the mark,
since it is obvious that the tower's first function was not domestic.
Here he was in the place of writing.
10 W. B. Yeats recalled that to 'talk over a poem with him' was
'like getting you to put a sentence into dialect. All becomes
clear and natural.
11 No, Mr. Yeats is a symbolist, but he has written des Images
as have many good poets before him; so that is nothing against
him, and he has nothing against them (les Imagistes), at least
so far as I Know - except what he calls 'their devil's metres'.
12 it is true that since Dante's day (...) 'music' and 'poetry'
have drifted apart, and we have a third thing wich is called 'word
music'. I mean we have poems wich are read or even, in fashion,
intoned, and are 'musical' in some sort of complete or inclusive
sense that makes it impossible or inadvisable to 'set them to
music'. I mean obviously such poems as (...) many of Mr Yeats
lyrics. The words have a music of their own, and a second musician's
music is an impertinence or an intrusion.
13 This is a very high position to assign him: but I believe that
it is one wich is secure.
14 I had discovered, early in my researches, that their doctrine
was no merely chemical phantasy, but a philosophy they applied
to the world, to the elements and to man himself; and that they
sought to fashion gold out of common metals merely as part of
an universal transmutation of all things into some divine and
imperishable substance; and this enabled me to make my little
book a fanciful reverie over the transmutation of life into art,
and a cry of measureless desire for a world made wholly of essences.
15 the mystical life is the centre of all that I do and all that
I think and all that I write (...) I have allways considered myself
a voice of what I believe to be a greater renaesance [sic] - the
revolt of the soul against the intellect - now beginning in the
world.
16 the descent to life did not mean abandonment of the ideal.
17 Magic offered to the symbolists, many of whom studied it, a
reinforcement of theis belief in the power of Word or symbol to
evoke a reality otherwise inaccessible.
18 occultism, or, to use a more generalized expression, spiritual
ideas, underlie all his early plays and his theories of what the
national theatre should be.
19 of what we have agreed to call magic, in what I must call the
evocation of spirits (...), in the visions of truth in the depths
of the mind when the eyes are closed.
20 passive suffering is not a theme for poetry.
21 a joy to the man who dies; in Greece the tragic chorus danced.
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