"Lancei
um piano ao mar para que se
convertesse em pianola. Acreditava que a
linguagem
dos homens coincidia com a
do universo".
(Pedro
Casariego)
Autodestruição, marginalidade e loucura são algumas das facetas
estimuladas pela angustiante metáfora existencial dos poetas suicidas.
A angústia inerente aos mortais, condenados desde o dia do nascimento à
figura imprecisa da morte, transforma estes autores em estilistas do desencanto,
em "mortais impacientes". Muitas vezes, a idéia ou metáfora
da morte aparece na obra como uma espécie de profecia ou ainda como uma
forma de exorcismo das verdades que não podem ser assumidas conscientemente,
mas que acabam por transparecer no discurso poético.
Ao buscar a palavra exata, ao deixar o silêncio imprescindível, elas
acabam por construir uma nova linguagem a partir de experiências não
exteriorizadas faticamente, o que Gilles Deleuze considera como uma sintomatologia
corporal repassada para a linguagem, tornando-a ativa, libertária, como
se o corpo deslizasse para a escrita e esta dramatizasse a expressão do
corpo, vivenciando-o. A alteridade, neste caso, pode ser vista não como
um alter antropológico ou filosófico, mas como conceito psicanalítico,
pelo confronto entre consciente e inconsciente, que revela os desdobramentos e
fissuras do ego por meio da linguagem e que foi interpretado por Lacan como sendo
"a entrada no plano do simbólico exterior" por meio do discurso.
A
maior parte destes autores apresenta características ciclotímicas,
comportando uma aquarela de sentimentos que vão das luzes às sombras.
São poetas que tendem a se desligar do ambiente opressor, fruto de inadaptações
e tensões, seja de ordem econômica ou social, seja pela incompreensão
familiar, doença ou falta de afetividade sexo-amorosa e tentam aplacar
suas memórias dolorosas por meio da poesia, sua memória-escrita,
como forma de sublimação, exteriorização e materialização
da dor.
O
século XX, era dos extremos na definição de Hobsbawm, período
acentuado por profundas transformações de caráter técnico-científico
e algumas inovações no campo humanístico (sim, porque mesmo
em pleno XXI, ainda há um enorme déficit nos campos social, ético
e de desenvolvimento humano) trouxe também o fantasma da guerra total e
da destruição maciça. Desenrolam-se, no panorama de algumas
décadas, movimentos tão díspares como os da emancipação
feminina e os critérios eugênicos de exclusão humana, a evolução
da psicanálise e a erradicação de males, convivendo com a
miséria extrema institucionalizada e a comoção social. A
angústia e o vazio existencial nunca estiveram tão acirrados.
Interlocutores
do seu tempo, os artistas, sensíveis às reverberações
do mundo que os cerca, por mais que insistam em pronunciar tão somente
juízos de valor estético, serão sempre as "antenas"
preconizadas por Pound. O artista, e o poeta em especial, são agentes naturalmente
angustiados, a própria escrita determina esta angústia. Jacques
Derrida menciona, em "A escritura e a diferença", que a angústia
da escrita consiste no fato de que, na criação poética, as
palavras atravessam por uma estreita passagem (Vontade) onde significações
possíveis se empurram e mutuamente se detêm.
Este
sacrifício ritual da palavra foi todavia entendido e vivenciado por alguns
poetas de maneira mais abrangente. Mas mais do que tentar explicar, em vão,
suas tragédias pessoais, este texto lança luzes especialmente sobre
a obra de um destes "artistas do desencanto", que mesmo tendo conseguido
a independência e o reconhecimento de seu trabalho artístico, recusou-os:
o espanhol Pedro Casariego Córdoba, para quem a poesia e a pintura foram
válvulas de escape de uma sensibilidade que tinha seus marcadores emotivos
desordenados, alguém que habitava "o reino dos vaga-lumes e dos sustos",
esse reino onde só se orientam os que não vêem.

PEDRO
CASARIEGO CÓRDOBA
(Madrid, 1955/1993)
Filho
de uma conceituada família de arquitetos de Astúrias, Pedro Casariego
Córdoba rompe com a tradição familiar ao licenciar-se em
ciências econômicas na Universidade Complutense de Madrid, profissão
esta que nunca chegou a exercer. A partir de 1974, passa a pintar com constância
e começa a escrever, como forma de "extrair música de palavras",
sem contudo se designar poeta ou pintor, e sim "um usurpador, que escrevia
e pintava".
Em
sua curta existência (suicidou-se aos 37 anos), produziu uma extensa obra
pictórica (mais de 100 desenhos e telas), escreveu vários livros
de poesia e prosa poética (Maquillage - Letanía de pómulos
y pánicos, La vida puede ser una lata, Falsearé la leyenda, La voz
de Mallick, El hidroavión de K., Te quiero porque tu corazón es
barato, entre outros), além de publicações esparsas de contos,
traduções e poesias em revistas, suplementos literários e
antologias e de peças teatrais e roteiros ainda inéditos, reunindo
uma obra significativa e visceral, onde as imagens proliferam e a escrita é
desenvolvida com um vigor e velocidade que a aproximam da linguagem cinematográfica
("Minha forma de escrever é a imitação da torrente.
Consiste em abrir uma torneira, de onde vertem todos os líquidos, os cantos
químicos possíveis").
Estava
certo de que a arte era sobretudo desordem, capacidade de ferir ou de acariciar
e desde logo falta de pudor, ou seja, liberdade. Em sua obra, impera a intuição,
ainda que haja um rigoroso e exaustivo processo de elaboração baseado
em um profundo conhecimento da linguagem. Pedro Casariego criou mundos instáveis
e "inquietos como as palavras", onde tigres usam lenços e homens
querem ser cacatuas [1] A escrita poética como um roteiro ilustrado. Caligramas,
limericks, storyboards, e outros suportes onde texto e imagem se apoiam mutuamente
foram as bases do trabalho deste artista que dizia utilizar a pintura quando "as
palavras não lhe mostravam as senhas para abrir a caixa-forte dos segredos",
ao que o amigo e crítico Francisco Rivas emenda: "Pedro pintava os
segredos que roubava da literatura".
Pedro
Casariego sempre foi um artista arredio, via pouca gente e tinha horror a atos
públicos e lugares fechados ("Parcimônia, tranqüilidade,
calma, paz, sossego, recolhimento. Por que não são vendidos no Corte
Inglês ? ") [2] Era o que se podia chamar de esquizóide imaginativo
("Não vejo quase ninguém. Esgoto-me ao ver as pessoas, exalta-me
interiormente. Passo a vida tentando conceder um descanso a mim mesmo, sou um
desses vagabundos que trabalham celularmente...Quero dizer que todas as minhas
células, ossos e cartilagens trabalham com violência e não
me deixam em paz um só momento"). Esse desamparo, essa angústia
e inquietude que o invadiam traduziam-se na necessidade de criar, de subverter
regras, ou melhor, ignorá-las.
Contudo,
este caráter excêntrico não lhe impediu de amar várias
mulheres, especialmente Ana Ruiz, com quem teve sua única filha, Julieta,
a quem dedicou o último livro antes do suicídio. Era sobretudo ambivalente.
Se falava em dor e liberdade como o "sangue da arte", também
buscava o elemento oposto: o prazer, a alegria, o humor e o otimismo ("Amo-te
porque és uma cerejeira sorrindo/ amo-te porque também sorrirás/quando
o vento do tempo te despojar de tuas flores"). Em seu trabalho transparece
o paradoxo: a cor, a ternura, a felicidade frente à dor, à tortura,
à fatalidade e é isso que vai imprimir um resultado tão comovedor
e atraente, a obra refletindo o espírito do autor, uma como parte do outro,
da mesma forma que pintura e texto são inseparáveis.
Em
1986, quando começava a ver o reconhecimento de seu trabalho perante a
crítica e o público, época de suas primeiras publicações,
Pedro volta-se para si mesmo, num gesto de auto-proteção ante a
exposição reiterada de seu trabalho. Era como estar "desnudo"
("Cálida Wataksi/ não tenho tabaco/ e não tenho a ti/
estou completamente despido/ ainda que uma veste de juta cubra todo o meu corpo/
estou completamente despido"). Em 1990, abandona definitivamente a poesia
e se dedica com exclusividade à pintura de grandes telas, como um novo
meio de expressão e como forma de superar o estado de angústia interior,
que a literatura não mais aplacava, ou pior, acentuava. Pintou obsessivamente
nos seus últimos anos de vida, conseguindo verter de tubos, pincéis
e telas, uma poesia ainda presente, escamoteada por uma gama enorme de imagens
e enigmas, mas já não conseguia equilibrar tão bem as molas
mestras de sua vida e obra: a liberdade e a dor, os azuis e os vermelhos, a "nudez"
e a solidão. Em janeiro de 1993, Pedro Casariego Córdoba (ou Pe
Cas Co, como assinava) se atirou sobre uma linha férrea em Aravaca, Espanha.
"Pe
Cas Co morreu com 37 anos. Cada vez me convenço mais de que isso é
irrelevante, e de que viveu o suficiente. É certo que com ele partem milhares
de imagens - visuais e literárias - que já nunca existirão,
mas também há muitíssimas outras para as quais ele deu vida
e cor... Olho minha fotografia na carteira de identidade e me pergunto: Quanto
tempo vivi? Quem poderia me dizer a quantos anos de minha vida corresponderiam
esses 37 anos da sua? Ninguém sabe, e por isso, ninguém pode dizer
se Pedro morreu jovem ou velho. Ninguém sabe os anos que tem, ninguém
conhece sua verdadeira idade, todos mentimos quando dizemos:
- Tenho 32 anos
e sou engenheiro". (Martín Casariego)
POEMAS
ENCADENADOS
(fragmento)
Nuestras
palabras
nos impiden hablar.
Parecía imposible.
Nuestras propias
palabras.
En
cierto sentido todas las vidas son uma misma cosa,
ya que cada vida es una
cuerda.
Pero unas cuerdas sirven para saltar a la comba
y otras para ahorcarse
con ellas.
y
aquí entre dos calmas
lejos del cementerio
abro un libro de silencios
por
la página de tu espalda
y encuentro la palabra alegría
y la
palabra alegría leva acento
y yo se lo quito
y te pongo en la nuca.
POEMAS
ENCADEADOS
Nossas
palavras
nos impedem de falar
Parecia impossível.
Nossas próprias
palavras.
Em
certo sentido todas as vidas são uma mesma coisa,
já que cada
vida é uma corda.
Mas algumas cordas servem para pular
e outras para
enforcar-se com elas.
e
aqui entre duas calmarias
distante do cemitério
abro um livro de
silêncios
na página de tuas costas
e encontro a palavra alegria
e
a palavra alegria leva acento [3]
e eu o retiro
e o coloco em tua nuca.
MEIAS-VERDADES
[4]
(Pedro Casariego Córdoba)
"Escrevi
este rosário de letras há algum tempo, justo antes de comer e mesmo
sem o desjejum: não há melhor escola do que a fome, mesmo a efêmera,
como não há melhor esposo que o monge, que Mallick... Não
se escreve uma obra literária: incorre-se numa obra literária. Manufaturá-la
significa, se não se trata de uma fraude ainda mais grave, desnudar-se,
e eu não desdenho os que se desnudam" (entenda-se metaforicamente).
Entôo
por isso, ao mesmo tempo que o canto sonoro e compulsivo das palavras manchadas,
um mea culpa tão sincero quanto o eco, tão sincero quanto Mallick,
tão distante como Wataksi, tão alheio de nós mesmos como
todos os nossos destinos, tão fugaz como a prostituta mulata que visita
a minha cela a cada mês.
Convencer
o Outro de algo, e remeto-os a um de meus poemas menos conhecidos, é o
suicídio por excelência, porque temos somente nossos erros, e estes
são tão poucos, que compartilhá-los não é algo
de cristão silencioso, mas de padre falastrão ancorado na secura
do púlpito.
Escondam
suas moedas místicas, e recordem que não é necessário
regá-las: elas sozinhas se propagam sem necessidade de amor, com a ajuda
de uma boca muda e do restelo sem dentes da noite. Aqueles entre vocês que
desonrarem e desobedecerem serão premiados, a estes, por regar, com uma
só gota, seu próprio misticismo com sangue sábio, a vida
lhes outorgará prêmios e benesses inumeráveis.
Bendito
seja o que não faça caso, o que se afaste do misticismo como da
serpente, bendito seja meu mestre o impuro, bendito seja o feliz, porque a ele
é lícito ter filhos que aram e fiam, bendito o que não lê
ou atua, o que se distancia das letras de câmbio, que são todas,
bendito o que evita o abraço do calor, bendito o que ama o frio, benditos
os corações congelados e baratos.
Somente
peço que torneiem seus ossos à brisa, homens pobres, que entalhem
seus gestos em pedra, homens sem esperança, juízes do dia do Juízo
Final!
Somente
peçam o que já têm, pois nunca foi seu. Não exijam
estrelas! Exijam a pele e os olhos, a flor que tenham pisado, o pássaro
que todavia voe!
Sangrem
na construção de um cavaleiro interior rumo à glória
e ao vazio.... Não me façam caso, somente peço para que assumam
a defesa do bruto, do verdadeiro poeta, do lenhador, do iletrado.
Que
idade têm vocês ao nascer?
E
agora, junto ao tic-tac do relógio que aflige, que exacerba a fome de infinito,
agora ou nunca, não posso expor uma das obrigações inevitáveis
do poeta de segunda, do poeta que escreve: este poeta condenado, que a nada sobrevive,
há de revelar a natureza da grande tragédia, do preço da
pedra, do preço de cada pão, de cada lágrima, de cada rugido,
de cada homem. Como um grande número, em torpes números redondos,
a tirania do Altíssimo, do jogador de basquete que vê um aro em cada
lua e em cada nuvem, se reparte em preços mínimos, em décimos
como moscas que nos afogam e nos medem e nos pesam e exigem que mirremos, que
acrescentemos músculo ao trigo, que falemos do que está acima e
do que desprezamos, das limitações que nos impuseram.
Levamos
a semente da insatisfação, e Deus, camponês em suas horas
livres, manda brilhar o sol, cair a chuva, morrer sem nascer a geada e o granizo!
Jardineiro no azul, quanto vales? Não nos fez saber o preço da lágrima
e sentir a ânsia de infinito! Redima-nos agora desta miséria na sombra,
desta sombra que vibra mesmo na noite mais escura...! Enche nossos bolsos de notas
bancárias ou, se não houver notas suficientes aí em cima,
baixe os preços do espírito e faça com que nos contentemos
com este nada!
Hoje
fundiram-se as hastes das flores. Hoje os macaquinhos saltitantes já não
nos divertem. [5]
Hoje
as cabeças dos mendigos perderam seu chapéu. [6]
Hoje
as piadas são contadas por dentistas ao nos arrancarem os dentes.
Mas
hoje também há uma ----- muito misteriosa que me olha com as mãos
e me busca com os olhos! Salpicado de bailes por -----,
perco a regra do cálculo
e
sou quase
misterioso"
(tradução
de Ana Maria Ramiro)
NT:
[1] "La vida puede ser una lata", 1985
[2] Loja de Departamentos
espanhola.
[3] Em espanhol, a palavra alegria é grafada com acento
(alegría).
[4] "Verdades a medias", 1983.
[5] "monos"
(macaquinhos, macaquices) também possui a acepção de desenho
simples, esboço.
[6] "chistera" (chapéu) faz trocadilho
com "chistes" (piadas), que aparecerá no verso seguinte.