Calamidade,
Mundo e linguagem na escritura de Max Aub
Felipe
Ronner
I.
Em seu já clássico livro, A Era dos Extremos, o historiador
Eric Hobsbawn constatou que mesmo percorrendo toda a literatura de guerras durante
a história da humanidade não se encontram conflitos de proporções
tão avassaladoramente globais quanto os que ocorreram a partir da Grande
Guerra de 1914 e, mais especificamente, na Segunda Grande Guerra Mundial. Numa
tentativa de explicar as razões extremadas que levaram os países
contendedores a exercerem tão energicamente seus papéis beligerantes,
transformando o conceito de guerra como nunca antes se imaginou, o historiador
oferece adjetivações para o conflito: guerra de intolerância,
de religião, de ideologias. Mas num outro plano, o das razões mais
acerbas e concretas que estão por trás do conceito de guerra total,
Hobsbawn explica: "Foi também, e demonstravelmente, uma luta de vida
ou morte para a maioria dos países envolvidos. O preço da derrota
frente ao regime nacional-socialista alemão, como foi demonstrado na Polônia
e nas partes ocupadas da URSS, e pelo destino dos judeus, cujo extermínio
sistemático foi se tornando aos poucos conhecido de um mundo incrédulo,
era a escravização e a morte" (Hobsbawn, 1995: 50). Não
há números baixos no que se refere aos morticínios levados
a cabo durante a Segunda Guerra. E mesmo esses números, cifras assustadoramente
gigantescas em termos de perdas humanas, tornam-se evidentemente pouco representativos
da realidade catastrófica desse novo conceito de guerra: "Na verdade,
podemos realmente apreender números além da realidade aberta à
intuição física?"(ibidem) O questionamento não
é de pouca monta e nos envia a problemas complexos, tais como o da impossibilidade
de representação de um evento por definição catastrófico;
da subsunção da capacidade de transmissão da experiência
ligada a esse evento desastroso e, conseqüentemente, da incapacidade do leitor,
ou ouvinte distante, de percepcioná-lo. Enfim, questiona-se a própria
possibilidade de mediação do conhecimento, tal qual se dá
no procedimento "(a articulação conceitual) que traz consigo
o lado universal da representação"(SELIGMANN-SILVA, 2000: 75).
As injunções decorrentes de tais problemas são as mais variadas
e, em seu limite, impõem um campo de reflexões pertencentes ao domínio
da ética. Seligmann-Silva, pautando-se nas considerações
de Friedlander acerca dos limites da representação da Shoah, ressalta
que o extermínio em massa de judeus durante a Segunda Guerra Mundial foi
em si um evento único. Evento limite, de proporções tão
catastróficas, que a perspectiva de formalização e teorização
do tema insinuam um quê de inaceitável rompimento dos limites (éticos,
poderíamos acrescentar) da representação (Idem: 77).
O retorno à verdade dos fatos, contra toda espécie de relativismo,
ressurge modificado como proposta de representação da realidade,
agora já não mais cabível no terreno do fato lingüístico,
mas como último liame entre epistemologia e ética. Daí o
dilema, traduzido na aporia que persegue o historiador da Shoah, articulando o
dever de narrar - escrita da história, agindo contra o esquecimento - e
a impossibilidade dessa escrita, impedida pela falta de referenciais conceituais
adequados para o seu tratamento. Rio caudal que lança suas águas
em afluentes de afluentes, o problema decorrente dessa dificuldade conceitual
deságua em novos problemas, pois contornar tal debilidade seria tornar
àquela teorização tão abstrata quanto infeliz, eticamente
condenada diante da realidade excessiva que se impôs à história
nas calamidades que compuseram a Shoah. Ao mesmo tempo, em última instância,
a História age como disciplina responsável pelo aplacamento da força
caótica dos eventos acumulados através dos tempos. Desta maneira,
ela tende à sistematização racionalizadora que, se tem o
mérito de agir contra o esquecimento, à revelia do risco de se quebrarem
velhos odres, também impõe seus pontos de fuga, assentando eventos
novos em antigos modelos de conhecimento. Assim, cabe nova bateria de questionamentos.
Como se faria uma escrita do evento catastrófico Shoah sem inscrever seus
sujeitos numa narrativa que instaura sua imobilidade sepulcral de objeto manipulável,
tendente sempre e sempre a trazer à tona a memória cristalizada
do terrífico, todavia, agora, já desbotada de suas capacidades politizadoras?
Tão pobre quanto objetiva, a narrativa das etapas de destituição
da dignidade, talvez até mesmo da humanidade, daqueles que se viram na
inexorável situação de vítimas preferenciais da sanha
nazista, faz-se necessária, nesse momento, como ponto de iluminação
das questões apresentadas acima. Desta forma, cruamente, em 1933, logo
após a posse de Hitler na chancelaria alemã, os judeus foram demitidos
de seus postos administrativos, de seus cargos nas universidades. Suas lojas foram
boicotadas e, posteriormente, saqueadas. Leis de confiscos minaram sua força
econômica, no que, a seguir, pelas leis de Nuremberg, perderam sua cidadania
e o direito de casar com alemães. E, finalmente, após a "noite
das vidraças quebradas" (Kristallnacht), de 09 para 10 de novembro
de 1938, quando praticamente todas as sinagogas e instituições judaicas
da Alemanha foram destruídas, milhares de judeus tiveram seus bens definitivamente
confiscados e foram presos em campos de concentração. Estes campos,
como já é amplamente sabido, não integravam o sistema penitenciário
usual, funcionavam sem qualquer vinculação com o sistema jurídico
da legislação civil, serviram ao recrutamento de mão-de-obra
voltada à produção da guerra, isto até a decisão
alemã de optar pela Solução Final (die Endlösung).
Aqui o filme Shoah, de Claude Lanzmann, instaura a indagação
sobre a possibilidade material de uma empreitada de tal envergadura. Sem recorrer
às cenas habituais do Holocausto, de corpos descarnados, das piras de mortos,
das imagens de arquivo, o filme prima pelo estranhamento e a distância,
lançando mão de recursos de rememoração do horror
ainda não assimilados ao relato convencional. "A pergunta [que atravessa
o filme] materializa os temas ideológicos: como alguém pode ter
chegado a pensar que a Solução Final era algo possível? E
não apenas do ponto de vista moral, mas também em face aos problemas
de seu planejamento concreto. [...] Por isso Shoah insiste tanto no detalhe,
não a fim de preparar o terreno para a história individual, mas
para apresentar o concreto da história, a perspectiva que coloca seu objeto
além da emoção, no registro material da administração
da morte"(SARLO, 1997: 38). O filme de Lanzmann revivifica o assunto
naquilo em que ele ainda foi pouco estudado, no que há de mais tenebroso
na história da perseguição nazista aos judeus, ou seja, no
aparato industrial, montado de forma a dar suporte a uma racionalização
do extermínio. Lanzmann parece querer dizer, assim, que pouca coisa de
irracionalismo se identifica no projeto nazista, posto que cada parte do processo
denota reflexão e racionalização extremamente bem planejadas,
a ponto dos ecos desse processo, como bem identificou Beatriz Sarlo, terem impregnado
o filme Shoah com uma sintaxe repetitiva que ressalta mesmo a monotonia de tal
empresa. Mas se o filme de Lanzmann tem o mérito de trazer à
baila um novo índice de questionamentos, iluminando um determinado nível
de perversidade planejada e calculada minuciosamente pelos nazistas, por outro
lado, o documentário Shoah revivifica o massacre com todos os seus excessos
de realidade, em seus detalhes, naquilo que menos conhecíamos. Detalhes
que trazem a força da sublevação da memória, incidindo
sobre suas capacidade de agenciar esquecimentos. Detalhes como o dos cabelos das
"mulheres judias que caíam sob as tesouras do barbeiro judeu antes
de entrarem nas câmaras de gás" ou "as horas registradas
no diário de um dirigente judeu como Czeniakow, no mesmo dia de seu suicídio"
(Idem: 41). Minudências que Lanzmann faz emergir, restituindo-lhes uma noção
concreta de tempo, numa materialidade assustadoramente presentificada. Após
Shoah e seu realismo detalhista, retém-se com crueza a intensidade
avassaladora do trauma, ferida aberta entre dois mundos, o dos campos e este outro,
o do receptor. Shoah parece querer dançar por entre seus pares da
sétima arte sem, no entanto, se reconhecer como tal. Nesta acepção
aproxima-se do sentido etimológico do gênero documentário,
o registro informativo socialmente relevante sobre o acontecimento, sobre as pessoas,
mas também produto intelectual que se inscreve como documento elucidativo.
O filme hesita como produto artístico para se firmar como registro documental
de excepcional valor. Em Holocausto, Testemunho, Arte e Trauma, encontra-se
uma crítica pertinaz ao temor do recuo da realidade, da estetização
do mundo após a catástrofe.
No
entanto, a arte cria um efeito de irrealidade que não é alienador
ou dessensibilizador. No melhor dos casos ela também fornece algo como
uma casa segura para a emoção e para a empatia. As lágrimas
que derramamos, como as de Enéias quando vê a destruição
de Tróia representada nas paredes de Cartago, são uma forma de reconhecimento
e não uma forma de exploração do passado (HARTMAN, 2000:
220).
Hartman
mão vê na obra de arte um instrumento descabido da linguagem, esteticamente
desrespeitoso, levando-se em consideração a dose cavalar de realidade
lancinante do extermínio judaico, mas sim, e na melhor das hipóteses,
como um dado conector capaz de fazer a ponte recognitiva e empática com
o evento, sem o risco de produção de traumas secundários.
Mas se a arte pode ser instrumento catártico de expurgação
dos potenciais traumas decorrentes da impossibilidade de falar sobre o objeto
de uma aflição, sobre a experiência sublime e totalizante
da calamidade que foi a Shoah, essa operação se realiza por um desvio
situado no que Hartman chamou de "reconhecimento" do passado. Nem atitude
de desvelamento da coisa, nem o véu que encobre o objeto. Seu potencial
está exatamente na criação de um novo ente, cuja qualidade
essencial reside na coisa velada (PRADO JR., 2000).
II.
Após a ação nazista, como já foi dito, passou-se em
revista uma reformulação radical dos parâmetros relativos
aos usos da linguagem. Aos seus limites e atributos, após Auschwitz, mas
também quanto às injunções políticas e jurídicas
decorrentes do reconhecimento de que as cenas terríveis dos campos de concentração
alemães jamais tornarão a acontecer sem que se possa afirmar que
tais atos se classificam como crimes contra a humanidade, seja qual for a situação
e as leis do país agressor. Os estudiosos da Shoah têm se debruçado
sobre questões acerca da necessidade de rememorar este acontecimento terrífico,
como já foi salientado, sem deixarem de reconhecer as dificuldades inerentes
a um trabalho desta estirpe. Como representar o acontecimento único se
não há parâmetros de comparação que sirvam de
suporte cognitivo para sua efetivação. No extremo, acerca-se ainda
a esta dificuldade o impeditivo de uma atitude moral que impõe a indagação:
é cabível a tentativa de representação desta que foi,
dentre tantas catástrofes coevas, a mais absolutamente aterradora?
Certo é que um evento de tal proporção, desmesura em todos
os sentidos, excesso que instaura o trauma, vem a atrair uma gama de reflexões,
partidas de intelectuais da mais alta envergadura. A irradiação
de seus efeitos ainda se perpetua com força tamanha que dificilmente se
há de contestar a prevalência de suas características, morbidamente
avassaladoras e inexcedíveis, sobre todas as outras catástrofes
que povoam o século XX. Mas o que caracteriza uma catástrofe senão
o acontecimento desastroso, distúrbio único ou raro, em cujo rastro
sobram a agitação e o transtorno, a funestação e a
tragédia? Em Sobre o Conceito de História (BENJAMIN,
1991: 226) o filósofo Walter Benjamin cunhou talvez a mais refinada alegoria
1 para expressar o modo de constituição
da História. Utilizando-se, como ponto de inspiração, do
Angelus Novus, de Paul Klee, Benjamin iluminou a faceta mais significativa
do conceito de progresso como História repleta de catástrofes. Progresso
e História correspondem para o anjo da alegoria benjaminiana à pilha
de destroços que se acumula sobre seus pés. Sem muito tornar atrás,
recapitulando os eventos mais marcantes do século XX, mesmo o mais desatento
leitor irá formular a sentença nem tanto absurda, de que se conhece
História se se estudam as catástrofes mais significativas da humanidade.
Não foram poucas e não é menosprezado o risco de se acreditar
que estas catástrofes fazem parte de um evento único e absoluto
de barbárie. Haveria, portanto, razão para que o leitor da
História, ou o anjo de Benjamin, fizesse distinção entre
as catástrofes grandes e pequenas - aqui o contra-senso toma dimensões
já pouco aceitáveis -, se estas só se designam como tais
por seu potencial destruidor que faz com que a vítima seja ela, unicamente
ela, a medida por excelência do evento catastrófico? Seria lícito
pensar que, para uma dada catástrofe, cuja magnitude excede os limites
de nossa compreensão há noutro extremo o exemplo menos funesto,
cujas questões mais relevantes, fossem elas a dos limites da representação,
ou das injunções políticas decorrentes do evento, não
merecessem atenção similar à conferida pelos estudiosos à
catástrofe exemplar? Num instigante ensaio acerca dos avanços
referentes à idéia de justiça, após a Segunda Guerra
Mundial, Tzevan Todorov passa em revista as questões principais decorrentes
dos processos relativos aos crimes de guerra, assim como às ações
reparadoras e suas compensações às vítimas. Todorov
afirma ter havido um fortalecimento do ideal de justiça no Ocidente após
a Grande Guerra, e isto não somente levando-se em consideração
as ações legais diretamente ligadas ao conflito, mas também
em outros aspectos e situações, como é o caso das reparações
(simbólicas ou materiais) relativas à descolonização.
Sintoma da consolidação do modelo democrático, a própria
História do século XX vem sofrendo transformações
em seus paradigmas narrativos. Se até a metade do século passado
o modelo epistemológico da História ainda se ligava fortemente aos
referenciais positivistas de uma narrativa dos feitos heróicos ligados
ao Estado e realizados por representantes deste, após a Segunda Guerra
a disciplina vem tendendo a abraçar um novo modelo dominante. Segundo Todorov,
esse modelo se caracteriza por ser uma narrativa em que "a história
favorita é aquela melancólica na qual nós fazemos o papel
de vítimas" (TODOROV, 2001: 06). Em sua etimologia latina a palavra
"vítima" está ligada à imolação sacrificial,
que, por sua vez traz embutida em sua semântica a forte presença
da idéia de passividade. Paradoxalmente, e no que se refere à contemporaneidade,
encarnar o papel da vítima tem mostrado ser o vetor de uma nova potência
relativa às capacidades de agenciamento de sentimentos de comoção.
Por sentimentos de comoção, entende-se o páthos capaz
de fazer valer, àqueles que detêm preponderantemente o papel de vítimas,
os recursos poderosos da opinião pública, que se traduzem diretamente
em pressões políticas para a efetivação de ações
reparadoras. Enfim, as vítimas tendem cada vez mais a perceberem o poder
que seu drama encerra no mundo moderno. Assim, o próprio uso do termo,
ou do nome que se liga a um índice de significados correlatos à
vitimização, passa a ser alvo de uma luta de possessão cujo
fim é dispor de toda gama de efeitos positivos decorrentes da encarnação
desse papel. Efeito depreciativo dessa situação, muitas "vítimas"
de situações significativamente trágicas sofrem com o não
reconhecimento da violência à qual foram submetidas. Desta maneira,
são subtraídas dos efeitos da comoção relativos aos
sentimentos de solidariedade pública, que, por ventura, serviam a fins
tais como o da condenação da violência a que foram submetidos.
Ainda nesse viés, sofrem novamente com a instauração de um
estado de desinteresse que faz valer a lei do silêncio, um não sei
o quê de indiferença ante a um sofrimento não-exemplar.
Como exemplo, faça-se uma breve análise sobre a instituição
sazonal mais comum em tempos de grandes turbulências - econômicas,
por vezes, mas, acima de tudo, em tempos de guerra. Os Campos de Concentração
com todas as suas conotações terríveis de encarceramento,
submissão e espoliação dos sujeitos aprisionados em seu sistema
de funcionamento se não são uma invenção nazista,
no entanto, por estes últimos, foram elevados ao máximo em seu poder
de confinamento e eficiência sacrificial. O invento foi aperfeiçoado
ao extremo, tornando-se o maior instrumento de genocídio da História
Contemporânea. Use-se o termo, Campo de Concentração, e, no
instante em que seu nome é proferido, a mente se povoa rapidamente com
as imagens angustiantes dos judeus sofrendo o efeito de seu encarceramento em
tais campos-prisão. Entretanto, como já foi dito, existem campos
desde muito antes. Historicamente data de 1896 o primeiro uso de um sistema prisional
com as características dos Campos de Concentração. A invenção
pertence, portanto, à Espanha, que a pôs em uso quando da rebelião
cubana contra o domínio da metrópole, aprisionando milhares de homens,
mulheres e crianças em locais cercados com arame farpado e guardados por
soldados espanhóis. Foram utilizados ainda pelo Reino Unido de 1899 a 1902,
durante a guerra do boêres. Stalin os adotou contra aqueles dissidentes
do regime, acusados de traição ou atuação contra-revolucionária:
de repente se descobriu um fim para a região inóspita da Sibéria.
Os mesmos campos ainda foram de grande valia para os partidários do regime
franquista, que, durante a Guerra Civil Espanhola, de 1936-1939, com o apoio dos
nazistas, utilizaram essa tecnologia de aprisionamento contra seus inimigos republicanos
e anarquistas. Até mesmo os americanos adotaram campos de concentração
logo após a agressão japonesa de 1941, aprisionando cerca de cem
mil japoneses e nipo-americanos da Costa do Pacífico em campos no interior
do país. Não é necessário lembrar o caso mais atual
de Guantánamo e os prisioneiros encapuzados 24 horas por dia, sem direito
de comunicação com o mundo exterior. Entretanto, veja-se o poder
que instaura disputas pela vitimização. Modelo de Campo de Concentração
Exemplar, o dos nazistas, levado aos extremos em seu funcionamento genocida,
continua funcionando ainda em nossos dias, agora, com outros fins, embora ainda
perniciosos, e utilizados por suas antigas vítimas. Todorov vai ao ponto
fulcral de um dos problemas referentes à vitimização. "A
coisa às vezes degenera, transformando-se numa competição
para ver quem sofreu mais. Assim, alguns judeus americanos negam que os nipo-americanos
encerrados em campos durante a Segunda Guerra Mundial devam utilizar a expressão
'campos de concentração' e contestam o direito de os americanos
de origem armênia em falarem de 'genocídio'" (Idem: 08).
A luta contra o esquecimento é travada, paradoxalmente, num ponto em que
seria pouco provável a percepção da sua recorrência.
Nada é facilitado, tudo relativo aos combates pela história são
problemas cuja resolução de forma alguma se dá na aceitação
de verdades estabelecidas. E, no caso em questão, o dilema ético
do historiador situa-se num espaço polemológico alternativo ao da
relação entre vítimas e algozes. Mais precisamente, o ponto
conflituoso da História atual, inscreve-se na revivificação
da narrativa das "vítimas das vítimas". Certo é
que nem todo esquecimento pode ser imputado aos conflitos decorrentes do monopólio
da representação da catástrofe pelos vencidos. Óbvio
está que razões políticas, para além das reflexões
anteriormente suscitadas, estão por traz do apagamento de rastros de catástrofes
outras, pouco ou de forma alguma registradas na História. Entretanto, em
um mundo superpovoado por signos que acionam fortes descargas emocionais, a insensibilidade
é presença garantida no cotidiano violento do mundo contemporâneo.
Autoproteção contra uma rotineira e acentuada exposição
à violência ou pura indiferença decorrente do elevado grau
de individualismo do homem moderno. O fato é que o uso da narrativa super-realista
de catástrofes igualmente elevadas ao superlativo pode causar o indesejável
efeito de tornar à insensibilidade, desta vez voltada para a maior parte
dos casos de grandes desastres, mortalidades, ruínas ou destruições
que já não serão recebidas como catástrofes tão
grandes assim.
III.
Propõem-se aqui fazer uma incursão no silencioso terreno de uma
dessas catástrofes, cuja experiência dos que a viveram tende a ser
esquecida pelos amplos motivos apresentados anteriormente, acrescidos de outros
tantos que serão expostos mais adiante. Reconstituir-se-á o percurso
de uma voz, palavra do homem perante a ignomínia, que fez da insistência
arrimo pertinaz para a inscrição de um testemunho da história.
O plano é avaliar em que medida a experiência catastrófica
se inscreveu na obra do escritor espanhol Max Aub, observando as injunções
narrativas decorrentes dos choques, na própria linguagem, entre o ato de
testemunhar e a escrita como ultrapassagem dos impedimentos da fala. Ao que, posteriormente,
na resenha de Crimes Exemplares, procurar-se-á identificar aspectos esclarecedores
do processo da escrita como catarse da experiência catastrófica.
A literatura de Aub é marcada em seus contornos mais nítidos por
sua vivência em meio a um século conturbado. Uma incursão
no que diz respeito a sua obra, portanto, torna-se frágil se não
articulada às situações históricas que lhe deram suporte
material. Prescindir dessa presença seria perder de vista a possibilidade
de uma interpretação mais precisa das significações
de suas representações e, concomitantemente, sua obra sofreria esvaecimento
de potencial literário, pois suas intencionalidades intrínsecas
se esfacelariam. Portanto, desta forma se faz a escritura de Aub: sob as circunstâncias
da Guerra Civil Espanhola, de seu internamento nos Campos de Concentração
franceses, de seu exílio no México. Tanto sua trajetória
intelectual e artística quanto sua vivência estão ligadas
sobremaneira à experiência, traumática em muitos aspectos,
decorrente dos conflitos avassaladores em que o mundo contemporâneo se envolveu.
Nascido no início do século passado, em 02 de junho de 1903, mais
precisamente, por sua condição ambígua no mundo, Aub viria
a sofrer fisicamente as agruras de ser um indesejável em épocas
de nacionalismo extremado. Francês de nascimento, a mudança da família
de Aub para Valência, na Espanha, coincidiria com o estopim da Primeira
Guerra Mundial. Sua origem e as decorrências da ambivalência de sua
condição foram por ele definidas no seu Diarios (2 de agosto de
1945):
¡Qué
daño me há hecho, em nuestro mundo cerrado, el no ser de ninguna
parte! El llamarme como me llamo, com nombre e apellido que lo mismo pueden ser
de um país como de outro... En estas horas de nacionalismo cerrado el haber
nacido em París, y ser español, tener padre español nacido
em Alemania, madre parisina, pero de origen también alemán, pero
de apellido eslavo, y hablar com ese acento francés que desgarra mi castellano,
¡qué dano me há hecho! El agnosticismo de mis padres - librepensadores
- em um país católico como España, o su prosapia judía,
em um país antisemita como Francia, ¡qué disgustos, qué
humillaciones no me ha acarretado! ¡Qué vergüenzas! Algo de
mi fuerza - de mis fuerzas - he sacado para luchar contra tanta ignominia (AUB,
1998: 28). 2
Falha
na função nomeadora da linguagem, a ambivalência, segundo
o sociólogo Zigmunt Bauman, define-se como a possibilidade de coincidir
em um mesmo objeto ou evento mais de uma categoria. Num plano que se estende de
problemas específicos dos estudos da linguagem até questões
de ordem mais ampla, açambarcando a política para si, a ambivalência
é sintoma do mundo moderno. Por ambivalência entende-se o refugo
deste desejo de classificar que, antes de tudo, almeja "dar ao mundo uma
estrutura: manipular suas possibilidades, tornar alguns eventos mais prováveis
que outros, comportar-se como se os eventos não fossem casuais ou eliminar
sua casualidade" (BAUMAN, 1999: 09). Assim, a ambivalência - este
entre-lugar do sentido - e o nacionalismo - com suas exigências de fidelidade
e pertença aos liames históricos, lingüísticos e raciais
que definem uma nação -, esta ambivalência e este nacionalismo
são mutuamente rivais. A depender do grau de robustez e intolerância
de um dado Estado nacionalista, esta rivalidade pode tornar aqueles que vivem
sob o signo da ambivalência um risco perpétuo, sinônimo de
esfacelamento das fronteiras que, por excelência, definem sua política
nacional. Conflito que prenunciou os grandes confrontos internacionais que
transformariam a Europa no palco da maior contenda humana já registrada
na história, a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) foi, em certo sentido,
um guerra em nome da sujeição da Espanha a um regime que não
admitia divisões, e essa é uma boa definição para
totalitarismo. Àqueles que, como Aub, abraçaram a constituição
de 1931 - "uma república democrática dos trabalhadores de todas
as classes" -, a história reservaria amarga derrota. Embora os republicanos
tenham resistido bravamente, o medo de países como a França e o
Reino Unido de se envolverem em um conflito internacional, e o apoio de Hitler
às forças do generalíssimo Francisco Franco, determinaram
a derrota republicana. Quando, em 1938, após a morte de 85.000 homens do
exército popular na cruenta batalha do rio Ebro, a sede do governo constitucionalista
de Valência finalmente caiu, Franco pôde invadir Barcelona, o que
fez com que os republicanos empreendessem fuga em massa pela fronteira francesa.
No primeiro dia de abril de 1939 foi declarada finda a guerra. Mas Aub já
não estava em território espanhol, havia partido com a família
para a França, seguindo a leva de milhares de espanhóis. "La
gente no ha huido por cobardía, sino por miedo, por miedo de caer prisioneros,
de venir a ser fascistas", escreveu em algum momento de seu diário.
Somente em batalha morreram cerca de 500.000 espanhóis na Guerra Civil,
desconsiderando-se os que pereceram de fome, doenças e desnutrição
(Cf. CASAS e URQUINO, 2002. e BROUÉ, 1992). Aub colaborou sobremaneira
com o esforço de resistência republicana, embora nunca tenha se envolvido
diretamente nos combates. Suas obras mais significativas incidirão, no
entanto, sobre a experiência de espanhóis nos campos de concentração
franceses. Submetido a diversas internações nestes campos, o escritor
faria dessa vivência a pedra de toque de seu Labirinto Mágico, composto
por romances - Campo Cerrado, Campo Abierto, Campo de Sangre,
Campo Francés, Campo del Moro, Campo de los Almendros
- e mais quarenta contos. A antologia de Aub sobre a Guerra Civil Espanhola
concentra em si a força do testemunho agindo sobre as suscetibilidades
da História dos vencedores. Escapando à auto-representação,
seus textos encadeiam narrativas, que se dispõem como um corolário
onde cada parte articula-se a uma outra, tocando-se mutuamente até fecharem
o círculo. As personagens são as mais variadas: comunistas, socialistas,
anarquistas e seus desentendimentos, políticos e refugiados, falangistas
e a árvore que presenciou a sina dos prisioneiros espanhóis em solo
francês, atores de um grupo universitário de teatro, liberais, católicos,
suicidas e traidores. Os lugares onde se desenrolam as tramas são igualmente
profusos: campos de concentração, Espanha e França, Djelfa
e Vernet, o deserto saariano, espaços de trânsito dos refugiados
espanhóis, Casablanca e Vera Cruz. História pouco registrada,
a dos espanhóis encarcerados nos campos franceses e, posteriormente, nos
campos alemães, com a submissão dos franceses às tropas hitleristas,
este silêncio inaudito deve-se em parte a dois motivos. Primeiro, a vitória
de Franco levou talvez a uma das mais longas ditaduras da história. Intelectuais
como Aub, contrários ao regime fascista de Franco, foram mortos ou perseguidos
à exaustão, encarcerados em campos concentracionários espanhóis,
ou se exilaram na França. Às dezenas de anos em que Franco permaneceu
no poder corresponderam as pressões mais violentas para o silenciamento
dos dissidentes. Em segundo lugar, as razões desse silêncio situam-se
no apagamento de rastros executado pela França. Tentativa de manter sua
história atrelada aos referencias democráticos dos quais foi pioneira,
o silêncio em torno das violências cometidas contra espanhóis
em seus campos de concentração reflete a ansiedade francesa em se
manter aquém ou além da condenação moral de sua atuação.
A derrota republicana na Guerra Civil Espanhola e a fuga pela fronteira francesa,
país cujo fascismo se difundira razoavelmente em seus meios políticos
e adepto de um anti-semitismo mal disfarçado (Cf. FERRO, 1995: 12-3), determinaram
a ausência quase completa de vozes desviantes que narrassem algo das condições
funestas que se abateram sobre os espanhóis exilados no território
francês. Acolhido pelo México, após sucessivas prisões,
juntamente com escritores como Jorge Semprúm, Mariano Constante e Montserrat
Roig 3, Aub faz parte do seleto rol de autores que
registraram as perdas tremendas, as mortes, os abusos e a violência sofrida
pelos espanhóis nos campos da república de Vichy. Experiência
catastrófica em muitos sentidos, serviu a Aub como ponto de reflexão
sobre a fragmentação do mundo dos espanhóis encarcerados.
Fragmentação esta que incidiu sobre sua escritura, afetando a sintaxe
da obra com uma construção trincada, cindida. Uma tradução,
no plano literário, do fluxo de vida interrompido com a guerra, com os
campos. Famílias, amigos, todos separados, como separados tornaram-se os
homens da Espanha, distantes de sua terra, e, acima de tudo, distantes de si mesmos.
Tais características, as encontramos em muitos contos do autor, estruturando
um fio narrativo que alinhava as histórias dos espanhóis a partir
da fuga da Espanha, passando pela chegada em território francês até
culminar na sua internação nos campos de Gours, Vernet d'Ariege
e no campo argelino de Djelfa. Os sujeitos da enunciação e os personagens
de Aub vivem seu esfacelamento num presente contínuo de histórias
que se entrecruzam formando uma rede inextricável e densa. Trama articulada
por perspectivas múltiplas, sua arquitetura narrativa assemelha-se ao edifício
de Dédalo, embora, diferentemente de Teseu e sua fuga, personagem alguma
de Aub tenha logrado ir além desse labirinto. A saída não
existe ou não pode ser vislumbrada, posto que o presente de suas narrativas
instaura o tempo do agora como a anti-celebração monolítica
do infortúnio. O testemunho se torna uma forma de lamento da qual Aub
se apoderou para ir além da inscrição lapidar, inspirando
os próprios mortos, fazendo-os falar através do jogo que se estabelece
exatamente com a impossibilidade de falar. Em El Cementerio de Djelfa, escrito
já no exílio mexicano, no ano de 1961, a forma epistolar da narrativa
serve à manifestação dessa força inexorável
que quer calar o próprio desejo de alcançar a fala - testemunho
do que se viu, ouviu e conheceu.
Tenía
razón el capitán: ¿quién se acuerda de ellos?, ¿quién
les va a agradecer que murieran aquí, em los confines del Atlas sahariano,
por defender la liberdad española? Nadie, absolutamente nadie. Claro, más
murieron en Alemania. Pero no los vi. Estos sí. Tal como pasó te
lo cuento por contárselo a alguien (AUB, 1994: 338).4
Manifestação recorrente na obra de Aub, o ato de prestar testemunho
situa-se no terreno da vivência, o estar lá e olhar para algo que
se passou, dando conta dos sucedidos com uma coletividade da qual o narrador também
faz parte. O pero no los vi do narrador de Enero sin Nombre faz
justiça a esse imperativo do ato de testemunhar. Só se fala do que
se vê, do que se vive, mantendo no horizonte dos limites narrativos certos
parâmetros que aproximam a obra do neo-realismo literário: a preocupação
em não fazer literatura - embora o que se produza seja literatura -, deixando
a realidade falar por si mesma, através da personagem que tudo narra tal
como se passou. No conto, El Cementerio de Djelfa, essas prerrogativas
do testemunho são respeitadas. O texto é montado em forma de epístola
escrita por um narrador-personagem, ex-prisioneiro do campo de concentração
que decidiu permanecer na região após ser libertado. Escrita dezesseis
anos depois da separação dos interlocutores, a carta foi endereçada
a um destinatário, antigo companheiro de infortúnio, que se exilou
no México. Na ruptura com os padrões usuais da linguagem a forma
epistolar não tradicional evidencia a violência e violação
sofridas por esses interlocutores.
No te acordarás de Pardiñas. O tal vez sí, aunque lo
creo difícil. Si no me equivoco, la última vez que nos vimos fue
en 1945, cuando salisteis, casi los últimos, para Argel. Luego me escribiste
desde Casablanca; al año siguiente, una tarjeta desde Veracruz. Después,
nada. No tiene nada de particular. Hasta te diré que me parece natural.
¿Cómo habías de suponer que yo seguía en Djelfa? (Idem:
331). 5
O fluxo de diálogo interrompido pela saída de um dos interlocutores,
rarefazendo-se paulatinamente até não mais existir, evoca a separação
e o distanciamento natural no contexto dos campos. É contra esse distanciamento,
edificante de uma certa ausência de envolvimento 6,
que o emissário se levanta, num jogo sinuoso por entre os labirintos da
memória, da recordação indecisa, não se lembrará
ou talvez sim, creio difícil. Exatamente por crer verdadeiramente na força
avassaladora do esquecimento, o narrador-emissário prossegue reconstituindo
vozes e situações que se intercruzam, multiplicando-se e sobrepondo-se,
como se a tudo e a todos quisesse dar um novo estatuto: no retorno ao cemitério,
fuga do memoricídio, revivificação. Se a questão
central presente no conto diz respeito à exumação dos corpos
de espanhóis, durante a Guerra da Argélia, para que em seu lugar
fossem enterrados os felagas - denominação que os franceses davam
aos partidários da independência argelina -, esse é somente
o pano de fundo de catástrofes que se amontoam. Tornando ao campo, ao cemitério,
na época em que sua função era livrar a França de
seus mais perigosos presos políticos, o narrador exuma também um
passado recente que foi apagado com a mesma violência com que os soldados
franceses executavam seus prisioneiros. A morte é deveras mórbida
e, no entanto, de ocorrência reiterada, aos poucos vai sendo assimilada
por aqueles que vivem nos campos como uma ordem regular das coisas. É,
entretanto, com presença de espírito diante da morte que a carta
é encerrada, aterradora presença de espírito que deve inspirar
angústia renovada no receptor da mensagem. Como nos elos de uma corrente,
essa angústia é transmitida de carta em carta, passada adiante,
sempre contra o esquecimento.
¡Ah!
- acaba diciendo la carta de la Liebre, como llamábamos a Pardiñas
-, olvidaba decirte - o no quería, no lo sé - que me van a fusilar
mañana. ¡Qué mañana!, hoy, dentro de un rato, porque
dicen que mis manos olían a pólvora. Olvidan que nacimos así
(Idem: 338). 7
Aqui o remetente da epístola finalmente apresenta os motivos que o levaram
a escrever a um companheiro dezesseis anos depois de sua separação.
Se é através de uma carta que ele procura rememorar as catástrofes
de Djelfa com o companheiro exilado no México, tornando ao campo nesse
presente que se instaura onímodo, foi pela carta de Pardinãs que
o narrador-remetente sentiu a obrigação de escrevê-la.
A epístola é talvez o gênero mais pessoal de escritura, ela
nasce do desejo de contar e de transmitir uma mensagem de foro íntimo.
E, entretanto, é da impossibilidade de falar que se materializa a carta
de Pardiñas. Num espaço em que trabalhos forçados, castigos
físicos e humilhações, carência alimentar e doenças,
servem a um fim normatizador, a própria fala torna-se risco de morte. Sob
tremenda repressão não houve espaço para a comunicação.
Porém, se é pelo temor à morte que se instaura a disciplina
e o aniquilamento da fala, paradoxalmente, foi a certeza dessa mesma morte que
libertou Pardiñas. Uma libertação que se fez na transmissão
de seu testemunho momentos antes de ser fuzilado. Aliás, a percepção
da libertação desse estado de coisas tremendamente opressor inscreve-se
no texto, de forma estóica e compungente, na displicência com que
comunica o fato de seu fuzilamento. Concomitante, o enunciado deste narrador-emissor
traz consigo um quê de indizível totalidade da catástrofe
vivida. Manifesta-se a percepção crivada por um evento perene e
a-temporal, situado no todo o sempre, que conecta e amalgama passado, presente
e futuro, experiência pessoal e social. Conecção que se faz
no contraponto de discursos entre a fala dos algozes, escondida no pronome possessivo
relacionado à terceira pessoa do plural - "porque dicen que mis
manos olían a pólvora." - e a asserção do
próprio Pardiñas, que se faz na primeira pessoa do plural, indicando
o sujeito composto de eu mais outros imersos na guerra - "Olvidan que
nacimos así." Eles/nós diz respeito à cisão
entre aqueles que têm o poder de determinar (o que somos, a nossa morte,
mas que não nos compreendem efetivamente) e estes (que sabem de si, de
seu destino marcado por um traço na fraternidade forçada pela situação
que impregna os sujeitos o odor de pólvora desde o seu nascimento). A força
do trauma torna a fala de Pardiñas prenhe de uma verdade atroz. A experiência
da Guerra Argelina, dos campos franceses, da Guerra Civil em Espanha, atinge os
envolvidos com tamanho excesso de violência, tão desmesuradamente,
que, sinal da própria presença no mundo, o nascimento é contaminado
tornando-se a emanação primeira da catástrofe.
IV.
Após sua fuga dos Campos de Concentração franceses Aub adotou
o México como lar de seu exílio, em 1942, onde faleceu 30 anos depois.
Ao longo de sua vida escreveu vasta obra que, além das crônicas da
Guerra, engloba poesias, romances, biografias, ensaios, novelas, traduções,
roteiros de filmes e peças de teatro. Em seus trabalhos, reconhece-se o
autor a encarar seu próprio drama de exilado, através de escritos
que primam pela ironia e derrisão cáusticas, pelo humor sério
e realista que ativa reflexões sobre os temas da desterritorialização
do homem e do desarraigamento impositivo (pleonasmo justificado pelo vigor que
empresta à expressão). Arregimentando questões densas do
ponto de vista da linguagem, sua obra é ampla e uma redução
do foco de análise se faz necessária, portanto, procurar-se-á
aqui tratar das reflexões suscitadas pela leitura de um dos seus livros
menos abordados pelos críticos. Diga-se de passagem, utilizar a expressão
livros menos abordados é quase um equívoco, dados os poucos trabalhos
encontrados sobre a obra e a trajetória de Aub. Só muito recentemente,
tendo-se passado o centenário de seu nascimento, no México e na
Espanha, principalmente, nota-se o surgimento de análises mais acuradas
dos textos de Max Aub. Certamente contribuíram para esse tardio reconhecimento
seu exílio no México e a condição de crítico
perpétuo das opressões exercidas por países tão diferententes
como Espanha e França. Por fazer de sua escrita o meio de um engajamento,
antidiplomático na arte e na política, arregimentou desafetos, angariou
decepções. Nas palavras de Vanderley Mendonça, seu tradutor
no Brasil, Crimes exemplares insinua-se psicologicamente neste sentido:
"um ajuste de contas com o mundo que o rodeava. De ambições
nunca satisfeitas, eliminaria por meio deles [personagens do romance] seus inimigos,
pelo menos literariamente" (AUB, 2003: 05). Um ato de sublimação
de impulsos criminosos, significativamente mais produtivos se canalizados para
a forma poética que se instala ao trespassar o romance. Publicado pela
primeira vez em 1957, numa edição cuidada pelo próprio Aub,
que também era tipógrafo, Crimes exemplares inquieta já
no título. Crimes: do latim, crimen, ato funesto, digno de repreensão
ou castigo. Exemplares: de exemplare, numa acepção primeira,
algo que pode servir de modelo, comportamento exemplar. Consórcio de palavras
que ganham potência, unidas, causando estranhamento. O estranhamento é
digno da ambigüidade que flutua no título, experimenta-se a um só
tempo dois (ou vários) sentimentos opostos. Esclareça-se de antemão.
Esta sensação é saboreada pelo autor, pelo leitor, porém,
em nenhum momento da obra é vivida por suas personagens. No plano literário
da obra há um evidente diálogo com o barroco de Miguel de Cervantes.
Já no título de Crimes Exemplares manifesta-se a intertextualidade
velada com Novelas Exemplares do escritor barroco. O contato se dá, pairando
por sobre influências de estilo e arranjo da obra, lá onde ressalta
a ironia de Aub. Pois, se em Cervantes o adjetivo exemplares que acompanha
suas novelas tem um sentido evidentemente moralizante, em Crimes é
exatamente o oposto que domina a obra. Ausência de limites morais e incapacidade
de reconhecer as culpas, por parte dos sujeitos da enunciação, e
distanciamento do autor, que se exime de proferir juízos de valor, fazem
do exemplares de Aub ferramenta da ironia com que dialoga com Cervantes.
No que diz respeito a El Ingenioso Hidalgo don Quijote de la Mancha, a
influência da obra sobre Crimes Exemplares, situa-se para além
da sátira ao idealismo cavaleiresco medieval ou das ironias lançadas
à mentalidade guerreira da Espanha imperial. O diálogo parece se
dar num lugar obscuro em que o contraponto barroco e o dualismo de Cervantes parecem
servir como uma anti-inspiração produtiva. No Quixote o sublime
e a nobreza espiritual contrastam com a rudeza e o materialismo. E o traço
barroco da disposição dos personagens em profundidade evidencia,
no uso do paradoxo e das antíteses, as complexidades do encontro de dois
princípios de vida diferentes. Entretanto essas divergências sucumbem
ante a primazia de uma ética animada pelo espírito fraternal que
irmana cavaleiro-louco-idealista e escudeiro-rude-materialista, transformando
as diferenças através do diálogo e criando um dos mais belos
painéis literários acerca do convívio humano (CERVANTES SAAVEDRA,
2002). Escrito quase todo na primeira pessoa o romance de Aub é marcado
por um uso econômico da linguagem. Essa economia se acopla às personagens,
casando-se a uma rasa apresentação de suas personalidades. Mais
uma vez dialogando inversamente com Cervantes no que há de profundidade
nos protagonistas de Quixote. Cabe ressalvar que esses personagens dotados
de uma certa mediocridade de caráter nada têm a ver com incompetência
literária, ao contrário, servem à intenção
do autor. Na operação que Aub executa ao dispô-los rasteiramente,
situa-se o risível de seus atos criminosos, tão simples e recorrentes
quanto os contornos de suas imagens. É esse mesmo procedimento que impregna
os sujeitos da enunciação com um discurso absurdo e deformado, mas
também dotado de uma enorme força de auto-persuasão e verdade.
Marca o livro um realismo atravessado pelas alegações fantásticas
dos criminosos. E aqui reside o inusitado desses enunciados que não são
fantásticos no que têm de inventivos ou de potencial imaginativo
extravagante, mas exatamente na simplicidade fora do comum com que narram seus
atos. O realismo com que falam de seus feitos contrasta com a percepção
deformada desses personagens que não enxergam ou definitivamente não
se importam com o outro, criando o efeito de tornar seus relatos prodigiosamente
extraordinários. É no plano plástico que se encontra
a inspiração para tal procedimento no livro, mais precisamente no
realismo de Goya. Em quadros como O Manicômio, O Tribunal da Inquisição,
Procissão de Flagelantes e o O Funeral da Sardinha acham-se
imagens realistas dotadas, todavia, de um movimento contínuo e subterrâneo
de visões fantásticas. A marca do sarcasmo, a sátira social,
os motivos eróticos, a atração por práticas esotéricas
tais como a bruxaria, estão presentes em Goya como fustigamento das crenças,
do absolutismo, tornando sua obra uma contraposição à concepção
racionalista de mundo. Sua produção na gravura é grifada
pelo mesmo espírito de humor espanhol que encontramos em Crimes Exemplares,
prenhe de expressividade e tendente para o trágico e para a deformação.
Esse humor satírico não se encontra, em absoluto, nas obras do pintor
dedicadas a representar as atrocidades cometidas pelos invasores da Espanha durante
as guerras napoleônicas. As cenas de morte, destruição, estupros
e fuzilamentos presentes em Os Desastres da Guerra são a sua denúncia
aguda dos crimes infames cometidos pelos invasores. Coincidentemente as histórias
de vida de Aub e Goya se cruzam no drama pessoal do qual foram protagonistas,
pois também Goya que chegara a ser o primeiro pintor da Corte de Carlos
IV foi obrigado a retirar-se do cargo quando o trono foi ocupado por José
Bonaparte. O pintor tornou ao cargo com a queda de Napoleão, mas, finalmente,
com a restauração do Absolutismo na Espanha, exilou-se na França,
em 1824. Exílio estranho, levando-se em consideração a condenação
dos atos de guerra franceses, mas explicável se se entender que, com a
Restauração, o absolutismo na Espanha voltou ao poder significativamente
menos tolerante com o espírito crítico de seu mais afamado pintor.
A potência do gênio criativo de Goya e seu espírito contundente
marcam um traço da obra de Aub. O mesmo gosto pela oscilação
entre o trágico e o cômico encontra-se na literatura deste último.
Assim como está presente nos Crimes Exemplares a utilização
da ironia como recurso estético contrastante com uma visão racionalista
de mundo. Dramático, o livro encerra uma pluralidade de vozes e narrativas
mínimas, como esquetes. Essas micro-narrativas formam um enredo pelo tema
que as aglutina, e pelos personagens que as enunciam e participam de seu enunciado.
São curtas, breves, diretas e objetivas, secas, e despretensiosamente encadeadas
na aparência. No entanto, como já foi dito, sob essa arquitetura
modesta da obra, há uma fuga da possibilidade de monotonia, assegurada
pela maestria poética de Aub, que lhe empresta um tom encantador e absurdo.
Não se respeitam afinidades entre os crimes nem quaisquer lógicas
formais, senão aquelas que garantem o prazer da leitura. Criminosos, vítimas,
romancista e leitores estão fadados ao prazer do inusitado. A multiplicação
das personagens garante ainda a pluralidade social dos motivos que levam a matar.
Assim, barbeiros, motoristas, maometanos, médicos, patrões, donas
de casa, vendedores, pais e irmãos, professores e escritores põem-se
a agir dando cabo de suas desprevenidas vítimas que, uma a uma, sucumbem
pelos motivos mais inesperados. Caem o jovem espinhento que atormenta o profissional
da barbearia e o guarda-de-trânsito "com jeito de pilantra", o
católico não praticante, a paciente que teimava em permanecer adoentada,
o funcionário relapso, o marido beberrão, o cliente que não
comprava o produto oferecido, o filho e o irmão, o aluno indisciplinado
e o crítico de literatura excessivamente severo. À revelia de seus
motivos um tanto quanto absurdos, os personagens de Aub tocam o solo do cotidiano,
assassinando ao rés do chão, numa relação quase íntima
com suas vítimas. Não existem crimes à distância ou
totalmente impessoais, e se seus motivos beiram o inaceitável, as motivações
de seus atos são produzidas socialmente em meio à realidade referencial
que envolve os assassinos. No entanto, são tantas as razões
de ser dos crimes, que a pergunta persiste incessante. Por que se mata? Questionamento
que comporta em seu cerne uma pletora de explicações, geralmente
crivadas por um referencial moral, no romance é tratado segundo uma lógica
diferente. O fato é que, entre os sujeitos dos enunciados dos Crimes
Exemplares não existem motivos para matar, ou melhor, não existem
motivos morais para não matar. Segundo o próprio autor, inspirado
em depoimentos que passaram da "boca para o papel, roçando o ouvido",
o livro foi composto como um "divertimento" instigado pelas histórias
tremendas de crimes publicados na imprensa mexicana. Foram recolhidas confissões
ao longo de 20 anos, "confissões sem importância", narradas
após o uso de cogumelos da serra de Oaxaca, no México, para "fazer
falar sem preconceitos". E por que se confessavam esses criminosos?
Pelo simples fato de quererem, como assevera o autor, reconciliarem-se com Deus,
explicando o arrebatamento com suas conotações de fúria súbita
e êxtase, que são, enfim, as únicas razões dos atos
insólitos dessas personagens. No entanto, à revelia da asserção
de Aub, destas narrativas se depreendem motivos irreconciliáveis com a
noção de confésion. Carregados de um crivo íntimo,
os relatos em primeira pessoa reforçam um sentido de confissão,
como declaração da própria fé, que se contrapõe
à sua versão religiosa, entendida como parte do sacramento da penitência,
constituída pela declaração dos próprios pecados.
Uma confissão:
Subir num monte de cadáveres para ver o campo através da brecha
na muralha, esperar com cuidado, olhar com atenção para ver se se
descobre o inimigo, disparar uma salva, sem errar o tiro e sentir o coice no ombro
direito, o coice que nos torna cavaleiros. Acabar de uma vez por todas com aqueles
que nos ofendem, para não os encontrar no dia seguinte, barrando o caminho.
Ou os meus inimigos não são inimigos de Deus? (AUB, 2003: 68)
A concepção, reinante na escritura desses Crimes exemplares,
insinua-se como um tipo de imperativo ético. Especificamente aquele de
que falou o filósofo da linguagem, Ludwig Wittgenstein, em seu Tractatus
lógico-filosoficus: "Sobre aquilo de que não se pode falar,
deve-se calar" (1994: 281). Sentença aforismática que vai ao
encontro da obra de Aub no ponto de inflexão das narrativas, denotando
essa atitude ética de calar diante de suas personagens, esquivando-se de
proferir juízos morais. Apenas mostrando, através da linguagem,
a totalidade absoluta de suas experiências. Em síntese, depreende-se
desse tipo de enunciado o fato de que os problemas da vida (ou da morte) não
podem ser solucionados ou avaliados segundo sistemas de condutas universais, mas
apenas lá onde eles surgem, no sujeito, através dele, para se resolverem
com ele, na medida em que o indivíduo se coloca pessoalmente em cada situação.
A nossa lógica não é a mais adequada para expressar operações
de pensamento efetivamente estranhas ao nosso mundo. Essa inefabilidade do mundo
do outro é reconhecível, embora, dificilmente se escape à
tentação de proceder à explicação e, nesta
operação, aplicar um julgamento. Aub se mantêm aquém
dessa ânsia explicativo-condenatória, indo além do obtuso
ao encarar os crimes de suas personagens com olhar poético e irrecusável
comicidade. "'Prefiro morrer', disse ela. E pensar que o que eu mais
gostava era fazer a vontade dela" (AUB, 2003: 15), confidenciou uma personagem.
"Matei-o porque tinha a certeza de que ninguém estava olhando"
(Idem: 21), declarou um outro. O que se depreende de suas narrativas, tão
ingênuas e voluntariosas quanto verdadeiras, é o fato de que não
há remorso ou culpa nos sujeitos dos enunciados. Suas razões lhes
bastam a si próprias, como uma declaração de fé
aos sentimentos que embalaram suas ações: raiva, humilhação,
injustiça, indiferença, impotência ou insegurança,
incômodo ou nervosismo, discordâncias estéticas, tudo são
motivos honestos e justos para dar vazão àquele desejo irreprimível
de matar. Penitência pressupõe arrependimento pela falta cometida,
a própria aceitação da culpa que, no caso, não é
detectável nos sujeitos das micro-narrativas. "Você nunca matou
ninguém por tédio, por não saber o que fazer? É divertido"
(Idem: 25). Aub parece querer mostrar na integridade desses sujeitos homicidas,
atores tão inocentes como uma criança, que o irremediável
não tem remédio. Assim faz-se valer o potencial catártico
da literatura, expurgando leitor e autor do páthos que tradicionalmente
acompanha a idéia de morte. Como ocorre no dia dos mortos em Oaxaca, não
se chora infinitamente por seguir o vazio deixado pela ausência, mas celebram,
confraternizam e riem-se os vivos. Não à toa Aub explica, em sua
introdução, que os depoimentos dos criminosos foram feitos após
o consumo dos cogumelos da serra de Oaxaca, pois essa região possui uma
das mais tradicionais comemorações do dia dos mortos. De 31 de outubro
a 02 de novembro são erguidos altares na região que possuem forma
piramidal, cuja base representa a morte, sustentáculo de tudo, e o ápice,
a vida. As famílias se reúnem e acendem fogueiras para guiar seus
mortos de volta ao lar. Flores, pães doces, velas e incensos são
ofertados às crianças mortas, oferendas acompanhadas pela música
festiva, pois, acredita-se que elas não tiveram que sofrer as penalidades
da vida adulta. Depois de mortos, os mexicanos seguem crendo que continuam vivos,
e festejam essa crença com a convicção de que seus mortos
animam o mundo dos vivos, revitalizando o cotidiano da região (DA SILVA,
2004: 165-170). Vê-se estabelecer aqui o nexo entre o humor de Crimes
Exemplares e uma dada cultura da morte presente no México, país
que acolheu o autor. As características da cultura mexicana diante da morte
permeiam o livro, instalando-se na graça que instiga o leitor àquele
sorriso ao canto da boca, sinal do estado de espírito que o jocoso produz,
mas também indício de percepção da fina ironia.
Aub escreveu este livro ao longo de vinte anos, por divertimento, como ele mesmo
disse. Um divertimento que parece ter passado ao largo da escritura de suas obras
mais volumosas e contundentes, em termos de engajamento. Entretanto, entre a visita
aos Campos, enquanto escrevia seu Labirinto Mágico, nos momentos
de distração, recolhia na imprensa Mexicana essas histórias
tremendas de crimes. Histórias a que emprestou o tom cômico inequívoco,
cotejando a experiência traumática dos Campos de Concentração,
registrada nos testemunhos de sua literatura, com a pilhéria diante da
morte. Aparentemente, cada coisa em seu lugar. Mas significativamente o cômico
dos Crimes Exemplares atua um aplacamento dos potenciais destrutivos da
catástrofe e um redirecionamento de forças que transforma a Morte,
denominador comum a toda obra de Aub, criando um contrapeso terapêutico
para os próprios traumas do autor. Mas as palavras de Aub, em seu prefácio,
são demasidas sérias para que se possa crer que esses Crimes
Exemplares tenham servido ao restabelecimento efetivo do autor, apagando os
vestígios do trauma.
O homem do nosso tempo só considera fracassos. O último grande
mito cai, não de velho, mas pelo poder que tem. A grandeza humana se mede
apenas pelo que se pôde ser. Não vamos a lugar algum, o grande ideal
é, agora, a mediocridade; vencer os impulsos. Por causa dessa suposta dignidade
de se castrar, morreram muitos dos melhores. No seu submundo, esses humildes criminosos
explicam-se sem sequer saber como, mas não acredito que isso cause pena.
Nisso, são tão medíocres quanto nós, que não
nos atrevemos a gritar no enorme processo do nosso tempo. Aceitamos deliberadamente
o que nos impõem, concordando com tudo, totalmente conformados. Como ganhar
a batalha com o destino? [...] O sal da sabedoria não move o riso, a não
ser nos sábios, que mordem o próprio rabo depois de comerem os filhos.
O que aramos? O que plantamos? Só nos resta o jogo que depende do acaso.
Há aqueles, os felizes, que não se cansam de jogar. Eu, sim. E também
estes, que aqui se confessam: o míope, o de vista cansada, dão com
bengalas de cego (AUB, 2003: 11-2).
Não é, portanto, tão injustificado o desprazer que alguns
leitores menos espirituosos demonstram ao ler as narrativas dos criminosos de
Aub 8. Esse desconforto diz respeito ao momento
em que o livro dobra sobre si mesmo para dialogar com o restante da obra do autor.
E o riso terapêutico se torna derrisão da ironia que se lança
fugaz sobre os homens. Acaso esse riso, o bom riso, não se produz nos intertícios
de uma ausência? Ou já se ouviu falar de alguma vítima de
assassinato que houvesse voltado para dar a sua versão do sucedido? Ao
menos em Crimes Exemplares as vítimas silenciam. Os mortos não
falam, mas se insinuam com uma presença espectral que faz subsumirem-se
os sorrisos dos leitores menos condescendentes com os criminosos. Aub instaura
na piada a presença fantasmagórica daqueles que sucumbiram. E lança
o leitor na desconfiança que não se pressupôs. A linguagem
é danosa naquilo que nos persuade, daí a ironia contra os sujeitos
da enunciação da obra, que se justificam sem ao menos saber como.
Se é uma comédia que eles atuam, há também a tragédia,
que se resume no silêncio de uma voz, a das vítimas, eloqüência
surda incomodando o leitor. O registro dessa tragédia velada inspira mesmo
ao receio de que também o leitor pode estar compactuando com o crime ao
se pôr diante de uma obra de humor negro como esta. O que há de ferina
nessa presença ausente, espectro de uma vítima provável que
se anuncia no silêncio, é a assustadora aproximação
que Aub faz da catástrofe, trazendo-a para o cotidiano, indistintamente.
Ou criminosos e seus assassinatos não povoam e despovoam o mundo inteiro
com seus desejos irreprimíveis de matar?
NOTAS
1
Sobre a alegoria em Benjamin ver os instigantes ensaios de (GAGNEBIN, 1984).
2 [Que mal me fez, em nosso mundo fechado, não ser de parte alguma. Chamar-me
como me chamo, ter nome e sobrenome que tanto podem ser de um país como
de outro. Nestas horas de forte nacionalismo, ter nascido em Paris e ser espanhol,
ter pai espanhol nascido na Alemanha, mãe parisiense, mas também
de origem alemã e de sobrenome eslavo e falar com este sotaque que marca
meu castelhano... Que mal me fez! O agnosticismo de meus pais - livres pensadores
- em um país católico como a Espanha, ou sua ascendência judaica
num país anti-semita como a França, que desgostos, que humilhações
me acarretou. Que vergonha! Tirei algo do fundo de minhas - de minhas forças
- para lutar contra tanta ofensa.] 3 São obras que permitem articular
reflexões sobre a dor do exílio e as possibilidades de representação
do mal absoluto, embora também contribuam para a elaboração
de novas reflexões acerca da moral. (ROIG, 1993), (SEMPRÚN, 1997),
(CONSTANTE, 2000). 4 [Tinha razão o capitão: quem se lembra
deles? Quem vai agradecê-los por terem morrido aqui, nos confins do Atlas
saariano para defender a liberdade espanhola? Ninguém, absolutamente ninguém.
Claro, mais morreram na Alemanha. Porém eu não os vi. Estes sim.
Assim como aconteceu, te conto, apenas para poder contar a alguém.]
5 [Não te lembrarás de Pardinãs. Ou talvez sim, embora eu
creia difícil. Se não me engano, a última vez em que nos
vimos foi em 1945, quando saístes, quase um dos últimos, para Argel.
Logo me escreveste de Casablanca; no ano seguinte, um cartão de Veracruz.
Depois, nada. Não há nada de incomum nisto. Até te direi
que me parece normal. Como havias de supor que eu continuava em Djelfa?] 6
Escrevendo durante os anos da guerra de independência argelina, o narrador
confessa seu envolvimento com a situação, traçando liames
entres três momentos históricos diferentes, mas que tiveram o signo
da morte como denominador comum.''Hemos conocido muchos años de desgracia.
Primero fue nuestra guerra, luego la de todos (que fue la más corta) y
ahora - hace años - ésta de aquí. Si te digo que no tomo
partido mentiría". [Temos conhecido muitos anos de desgraça.
Primeiro foi nossa guerra, logo a de todos (que foi a mais curta) e agora - há
anos - esta daqui. Se te digo que não tomo partido estaria mentindo.]
7 ["Ah! - termina dizendo a carta da Lebre, como nós chamávamos
a Pardiñas -, esquecia de falar - ou não quis, eu não sei
- que me vão fuzilar amanhã. Que amanhã!, hoje, num instante,
porque eles dizem que minhas mãos cheiram a pólvora. Eles esquecem
que nós nascemos assim.''] 8 Ocorrido no dia 6 de Maio de 2004, no
Centro Maria Antônia da Universidade Federal de São Paulo, o debate
sobre o curta-metragem Menos 9 de Rita Nunes, inspirado em Crimes Exemplares,
contou com um público interessado, que fez questão de ler o pequeno
livro de Aub. Entretanto, uma questão se mostrou recorrente entre as perguntas
dos entrevistados: como alguém pode rir diante de tal gênero de humor?
BIBLIOGRAFIA
AUB,
M. (2003) Crimes Exemplares. SP, Amauta Editorial. _______. (1998) Diarios
(1939-1972). Edición de Manuel Aznar Soler, Barcelona, Alba Editorial.
_______. (1994) Enero sin nombre - los relatos completos del laberinto mágico.
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