"
Mas nós, nacional-socialistas, só conhecemos uma mortalidade, que
é a mortalidade do próprio povo. Suas causas nos são conhecidas.
Enquanto o povo existir, porém ele será o mastro fixo da sucessão
das aparências transitórias. Ele é o ser e a permanência
constante. E em verdade, por essa razão, a arte como expressão da
essência desse ser é um monumento eterno - é em si mesma o
ser e a permanência(...) E faremos com que o povo, de agora em diante, seja
novamente chamado a ser juiz de sua própria arte." Discurso
da inauguração da "Grande Exposição de Arte Alemã",
Adolf Hittler(1937)

Him,
Mauricio Cattelan
É a arte de hoje edificante ? Para entender o nó da questão,
que se revela importante a cada polêmica envolvendo o limite da liberdade
de expressão, o sentido e a necessidade da arte, precisamos nos perguntar
sobre a consciência, ou não, de estarmos construindo, a cada obra
de arte, ou seu equivalente, as chaves de interpretação da vida,
existencial e coletiva. Antes de medir o prumo da parede, ou o acabamento do assentar
de tijolos, devemos atentar a cada bloco que é trazido para compor essa
parede, muro, edifício ou labirinto, de acordo com a sociedade que a constrói.
Os muros da catedral da Arte, até há algum tempo, serviam para separar
o Bem do Mal. Esse edifício do saber, tornado em nós consciência,
tinha como sustentáculo a Moral. Enquanto disciplina do saber ético,
a Moral desenvolvia como princípio básico a idéia da influência
dos nossos atos sobre o comportamento dos outros. A práxis do saber é
o bom exemplo. E o papel translúcido da Arte é o de criar representações
fidedignas destes exemplos. Sua virtude é a de tornar visivelmente claras
as diferenças entre o Bem e o Mal, e induzir o leitor a seguir os exemplos
dos heróis.
O próprio conceito de Arte, durante séculos
de tutelada pela Religião e pelo Estado, era indissociável desta
mímese dos cânones da Verdade e da Bondade. O que fica de fora é
o informe, o grotesco, o inominável. Essa definição de Arte,
no entanto, não deixou de registrar toda a violência, que desde sempre
acompanha a humanidade, e que aparecia com o sentido de pagamento metafísico
pelas más ações, como expurgo da influência maléfica,
exorcismo ou entrega da decisão verdadeira da razão do herói.
Terror como disciplina, destino ou alívio. Essa mesma Religião e
esse mesmo Estado, que financiavam uma Arte do Sublime metafísico e "histórico",
entregavam para a multidão o espetáculo do terror, como educação
e entretenimento.

Revolução
Francesa e Santa Inquisição
A
vitimização dos culpados históricos e o sacrifício
metafísico justificaram um ciclo interminável de violência
e alimentaram um imaginário autônomo do Mal, já sem as amarras
da consciência cristã ou da ideologia política. A contradição
permanente entre os discursos e as práticas religiosas e políticas
fez surgir um campo intelectual possível para a instalação
de um niilismo ético irrestrito como um novo fazer crítico nas artes.
Ainda com a mente povoada de cenas do Apocalipse e do Juízo Final, esses
escritores, filósofos e artistas começaram a narrar o que seria
de um mundo sem a presença de Deus, um mundo onde o Inferno é a
própria consciência individual dos homens e mulheres.
Misturando-se
com a iconografia mítica pagã, repleta de deuses de índole
duvidosa, sodomitas, patricidas, polígamos, sem o menor pudor quando se
trata de realizar um desejo ou capricho, a Idade Moderna cria seus novos mitos,
legitimando na sua arte a presença do fantástico, do primitivo,
do informe, do terror. Muito embora estejamos acostumados às representações,
cada vez mais realistas, do Mal encarnado, é na manutenção
dos muros ideológicos da arte que ainda se pode arriscar o vislumbre da
diferença entre o Bem e o Mal na sociedade contemporânea. Essa lavoura
prolífica de imagens e narrativas ambivalentes é, diariamente, fertilizada
por todo tipo de racismo, sexismo, xenofobia, intolerância religiosa e do
mais arcaico medo primitivo.
Se Luís de Góngora y Argote consolida
seu estilo barroco trazendo da Grécia o monstro Polifemo, desafia, então
a visão monocular do período clássico e introduz diversos
pontos de vista, esquinas sombrias, "vozes obscuras e torpes". Góngora
afirma, ao mesmo tempo, duas balizas importantes para essa arte decaída:
o fato de ser uma arte nacional, em língua profana, e a proximidade com
a cultura popular. Um estética consciente da fugacidade do sentimento humano,
envolto em sombras e lirismo místico. O grande mérito de Góngora
foi o de representar, numa nova gramática, a proliferação
informe das forças da natureza no poeta.
Ainda que as sociedades propriamente
primitivas mantivessem seu equilíbrio social através das representações
totêmicas dos tabus, proibições quanto ao sexo, morte e consumo,
era no sacrifício, animal ou humano, que a ordem cósmica entre o
Bem e o Mal se reestabelecia. Mesmo com toda a sublimação que o
Velho Testamento trouxe para o imaginário Judaico-cristão, é
na parábola de Abraão que a nova fé é melhor representada,
mantendo a máxima: cortar da própria carne ou oferecer o sacrifício.
A certeza mística de que um olho "olha por nós" faz da
dor um instrumento de elevação. Terror se mistura com o Sublime,
numa prova inconteste de fé, por um lado, e por outro da consciência
de uma vizinhança em mim de um ser iluminado e de um monstro.

Abraão
em xilogravura de Julius Schnoor von Carolsfeld
Esse
momento traumático da Moral ocidental cristã gera no Pai a certeza
dos tortuosos caminhos de Deus, porém causa no filho uma séria desconfiança
sobre os detentores da autoridade e do poder, assim como inaugura o procedimento
exemplar da troca de sua dor pela dor de outra vítima, que trará
a expiação de seus pecados pelo sacrifício de outrém.
Assim, a imagem do cordeiro, e mais tarde do bode expiatório, fará
uma síntese coerente do desejo subliminar de exercer o mesmo terror que
sofreu e, ainda assim, conquistar a dádiva da Beleza.
Esse desejo
deve permanecer subliminar, inconsciente, enterrado nas "criptas oníricas"
de um homem detentor da razão revelada, desta vez científica. O
homem das máquinas deve conviver com um monstro, um devir seu que reclama
as proibições totêmicas, e reivindica as origens naturais,
tão religiosamente negadas. E é, ironicamente, pela própria
ciência de Charles Darwin que somos confrontados com essa origem monstruosa,
nem um pouco digna de toda a Arte e Cultura tão celebradas. Darwin deposita
a prova do crime no altar da razão e, acusado de herege e panteísta,
torna-se o novo herói da arte marginal.
O devir animal e maquínico
do homem passa a simbolizar a energia catártica do inconsciente humano.
O homem-lobo, homem-vampiro, homem-gorila. Cenas de incontrolável pulsão
anímica, uma espécie de elipse formal, onde a moral ainda não
permite representar o homem em tão ultrajantes papéis, entra a figura
do animal. Essa nova arte do macabro, já liberta dos assédios do
Belzebu, encarna seu próprio "fervilhar do possível",
como diz Michaux.

Ilustração
de Fritz Eichenberg para Assassinato na Rua Morgeu de Edgar Allan Poe por
Enquanto
essas forças habitavam um devir natural, ou animal, havia a chance de ver
no humano teológico uma distância segura de uma totalização
pela violência irracional. Sobre a Natureza prevalece a razão humana.
A questão se torna dramática quando esse devir é o do próprio
homem tornado máquina. Durante os últimos cem anos, a História
escreveu um capítulo que narra o extravazamento do Mal sobre todas as imagens
que havíamos visto até então. Ainda não haviam palavras
para descrever o assassinato em massa mais traumático da sua memória.
Onde a transgressão adquiriu um formato burocrático, científico
e estético.
Com a mesma obediência do filho de Abraão,
a mesma entrega do cordeiro, milhares de pessoas encarnaram, em seu devir-fumaça,
a nova consciência traumática do discurso sobre o Belo, Bom e Verdadeiro.
Idéias irremediavelmente perdidas, a ponto do maior crítico da cultura
do pós-guerra afirmar a impossibilidade de uma poesia futura. O Mal, a
partir de então, perdeu qualquer possibilidade de se tornar phármakos,
na ironia do portão de entrada: "O trabalho liberta".
A
arte possível nesse império de terror sistemático cultiva
aquele sentido de pagamento metafísico pelas más ações,
como expurgo da influência maléfica, exorcismo do outro, da decisão
verdadeira da razão do herói: o Estado totalitário moderno.
A certeza de uma pureza possível, a necessidade de uma diferença
irredutível entre o Bem e o Mal, traz o Pai e o Filho novamente à
pedra do sacrifício, num reencenar da crença, desta vez sem ouvir
a voz para parar.

Auschwitz:
à caminho do campo e sobreviventes
O novo império que surge procura apagar a ligação entre consciência
e exemplo e virtualiza nas suas telas globais a cena traumática judaico-cristã.
Freud não chegou a cruzar o Atlântico para ver, nessa nova potência
do terror, o drama de sua obra encenada. Se existe um exemplo da tese de auto-ódio
de algum povo por si mesmo, este é o da cultura americana. Uma mistura
kitsch de terror e libido barato, um império bastardo de ideologia, que
prefere o excesso, a hibris cultivada na corrida do ouro e na caça
aos índios. A psicopatologia cotidiana da cultura americana, tornada mundial
pela indústria, cultiva uma consciência culpada, repleta de crimes
fundadores, guardando um desejo latente de autodestruição. Autodetermina-se
numa diversidade não desejada, com uma ficção de democracia
baseada na emenda constitucional que garante a liberdade de expressão.
Para a saúde da balança comercial americana a retórica da
democracia pretende flexibilizar as diferenças culturais e políticas
sob o denominador comum de uma liberdade, não de expressão, mas
de monólogo. Uma plêiade monotônica de representações
do colapso histórico, seja em ficções futuristas, dramas
de época, ou no teatro do cidadão comum. "Heróis"
duvidosos que, na dúvida de algum valor coletivo, querem mais é
salvar a própria pele. E se, de quebra, levam alguém junto ao paraíso
do happy-end, é para reafirmar que "comigo ninguém pode",
ou "não somos tão santos assim". Ambivalência ou
cinismo ? O fato é que, mesmo tendo comprado o melhor da arte européia,
os melhores artefatos antropológicos das sociedades primitivas, de nada
serve esse arquivo-morto para uma sociedade que consome o lixo que produz para
os outros. Uma aberração que revira as tripas à procura de
consciência, em vão.
E é no exercício do seu poderio
econômico e militar que esse monstro, debaixo do seu cosmético tecnológico,
destila o seu rancor em relação ao mundo, inviabilizando sistematicamente
que esses povos se recriem por si mesmos, sem o espelho retorcido da publicidade
midiática. Seja comprando as empresas nacionais para internacionalizar
seus produtos, ocupando todos os espaços de exposição e debate,
ou simplesmente cooptando as mentes para soletrar sua cartilha, que o novo império
do terror cumpre seu plano. E com a mesma obediência do filho de Abraão,
a mesma entrega do cordeiro, as chamadas "elites intelectuais" elegem
o sexo dos anjos do apocalipse pós-moderno como tema predileto.

CHAPTER
486 EXPERIMENTAL AIRCRAFT ASSOCIATION
Essas
elites, que ainda ruminam seu passado degradado, preferem se projetar nesse imaginário
fantástico de heróis do futuro, onde já não há
coletivo por salvar, apenas adultos de calças curtas, comedores de pipocas.
Neste futuro todos estão de luto, não podemos ver seus olhos e o
dilema é se o outro está a favor ou contra os meus propósitos.
Na dúvida atire. "Hasta la vista, baby." O futuro é
das máquinas, isto é irreversível. Como é irreversível
que todos falem inglês, que as cidades se tornem megalópoles sombrias,
que os livros deixem de existir, entre outros decretos do gênero.
Esse
artista, devidamente alimentado de hanna-barbera e sitcoms, devolve
esse imaginário com todo o ceticismo, tanto o da ficção enlatada,
quanto da consciência culpada de sua ignorância. Já não
sabe mais a diferença entre ironia e apologia. Mimetiza os parágrafos
de derrisão que consegue memorizar, o ar de superioridade tensionando os
músculos da face, como no cartaz, comprando o figurino no brechó
mais em conta. O melhor é falar pouco, e de forma enigmática, aceitando
o contrato comum de silêncio para preservar o disfarce. Um pacto pelo tiroteio
e frases de efeito.

Cartazes
de filmes de ação [Matrix e Exterminador do Futuro 2]
Mas
o que acontece com quem entra nesse jogo sabendo apenas atirar ? Como no caso
dos adolescentes de Columbine, onde a imitação da arte pela vida
resultou em crianças mortas e feridos ? Onde a vida não é
tão perfeita como a ficção, pessoas morrem sem nenhum motivo
ou propósito, não havendo heroismo, apenas a imitação
patética de um vídeo game violento. Onde não vejo monstros,
apenas jovens completamente vazios, sem a menor noção de realidade.
Testando os brinquedos que compraram legalmente num hipermercado local.
Para
a metrópole imperial que cria esses anacronismos, e de certa forma, depende
deles para manter sua prosperidade econômica, se torna cada vez mais difícil
uma crítica sobre esse modelo de sociedade. Não apenas porque a
violência está na sua base ideológica e histórica,
mas porque se instaura como sistema de colonização global, pelo
medo e pela reprodução. Sim, pasmem senhores, pois as artes e seu
equivalente estético na indústria cultural são objetos de
imitação social ! São exemplos para uma massa de analfabetos
e semi-letrados ! Daí a sensação de dejá-vu quando
ligamos a televisão e não sabemos se estamos vendo um filme ou o
noticiário.

Eric
Harris e Dylan Klebold em Columbine, 20 deAbril de 1999
Hoje,
o conceito de Arte é indissociável do informe, do grotesco e do
inominável, financiado por elites que pretendem distribuir para a multidão
o espetáculo da nova beleza, como educação e entretenimento.
Toda a violência, necessária para esculpir as dobras barrocas desse
excesso virtual, ganha o sentido de pagamento metafísicos pelas boas ações,
como expurgo da influência de uma verdade qualquer, ou entrega da indecisão
cínica da ignorância do herói. Terror como incompreensão,
caos ou culpa. Com a tutela do Mercado, cumpre-se a promessa totalitária
de fazer com que o povo, de agora em diante, seja novamente chamado a ser juiz
de sua própria arte. Essa nova arte realista suspende a diferença
que propiciaria um julgamento. Habita uma linha tênue entre um revachismo
rancoroso, onde ninguém é vítima e todos podem ser algozes,
e um esgotamento das desconstruções culturais que inviabilizaram
a crença numa arte verdadeira possível.

La
nona ora, Mauricio Cattelan
No
nosso caso, também conhecemos a causa da morte do nosso povo, em corpo
e espírito. Pois, se nossas elites conseguem até tolerar a mudança
de papéis, entre escravos e senhores, no Carnaval; na maior parte do tempo
a ficção é justamente que ela cumpriria seu papel. Se na
metrópole a criança imita a ideologia dominante e dispara sobre
os colegas de escola, como quem salva o mundo de seus vilões, nas colônias
as crianças também imitam as representações da ideologia
dominante: desarmada, signo de uma diversidade não desejada, sem futuro.
Daí a sensação de dejá-vu quando ligamos a televisão
e não sabemos se estamos vendo a vida ou o noticiário.
Nós,
que começamos a nos representar poeticamente como anjos negros barrocos,
que não vivemos um período clássico, não temos de
onde trazer os monstros gregos para representar nossa hibris pagã. Um país
criado sem tabus de proibição sexual, mas com totens de proibição
de vida social e cultural comum. Traz, ainda hoje, em seus rituais de sacrifício,
o bode expiatório das elites, o próprio povo brasileiro. Terror
cheio de hibris carnavalesca, sublime de plumas e paetês, lirismo nas quatro
linhas do gramado. A expressão da essência desse povo numa arte decaída,
uma arte nacional, em língua profana, e próxima da cultura popular.
Faz lembrar a mortalidade possível de uma cultura, na quarta-feira de cinzas,
de volta ao canteiro de obras.

do
site amazonpress