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Plantation ou filho-pródigo ?

Marcelo Chagas

"Tendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. Então ele foi e se chegou a um dos cidadãos daquela terra, o qual mandou para os seus campos a apascentar os porcos. Ele desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada." Parábola do filho pródigo. Lucas 16. Bíblia Sagrada

"Nas outras áreas americanas restaurou-se o escravismo greco-romano em sua forma mais crua. Primeiro, pela escravização dos indígenas locais, e mais tarde, desgastados estes, pela transladação de enormes massas de negros da África para as plantations e para as minas, onde seria também consumida a maior parte deles.(...) Este foi o maior movimento de atualização histórica de povos jamais levado a efeito, mediante a destribalização e deculturação de milhões de índios e negros e seu engajamento em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas subalternas." O processo civilizatorio de Darcy Ribeiro 1

Com a máxima "Brazil for export"2 para descrever uma tal conquista do mercado internacional por artistas brasileiros fica a pergunta: quem conquistou quem? Se quando pensamos em ver a Arte plumária temos que rezar, como bons cristãos para que nossas súplicas sejam atendidas pelos museus e coleções da Europa ?

Criar um simulacro de prosperidade e integração à Metrópole pode gerar mais valia aqui na Colônia, mesmo que o mais próximo que cheguemos de lá seja em seus guetos e antros.Quando a realidade do processo de globalização, como via de mão-única, vai ser entendida ? Será que o desdém de lá é melhor que o daqui ? Como o filho pródigo que não tem coragem de assumir seu fracasso e faz de uma "visita breve" na casa do pai, um rancoroso retorno definitivo. Vamos juntar as moedas e mostrar para eles ! O QUÊ ? Devolver o resto regurgitado da papinha industrializada que nos vendem ? Pois fora aqueles que vivem de renda e podem retornar à metrópole, no Brazil o artista se educa por cartões postais e figurinhas de livros.

O que afinal o artista brazileiro pode dizer para essa turba global babelizada ? O dito mercado internacional. Bem, não tão babelizada assim, pois todos falam inglês. Por quê eles deveriam trocar Faulkner por Rosa, Copeland por Villa-Lobos ou mesmo Ben Shaun por Di Cavalcanti ? Mas o que fazem os nossos caixeiros viajantes pensar que um inglês ou americano iria valorizar uma cultura que não fosse a sua própria ? Senão pelo exotismo. Sim, Darwin esteve por lá. O pior artista deles continua melhor que nosso melhor.

Dizem que o Brazil "não é o lugar mais quente como já foi um dia". Conversa afiada! Que vergonha ! Ninguém nos conheçe ! Nem nós mesmos. Sim, mas existe o fator da miscibilidade, dos argumentos de lençóis, tão comuns por aqui. Existe a possiblidade de algum curador internacional chegar por aqui, como os frades que nas épocas coloniais desembarcavam nos portos brazileiros para "examinar a consciência, a fé". Quem sabe ele resolve cair na tentação de nossas belezas, de nossas iguarias ? O perigo está no herege, aquele que vira as costas para as Lições Santas da Arte Ocidental e resolve fazer seus patuás e trocar com seu vizinho por uma galinha.

O que afinal o artista brazileiro pode dizer para essa turba global babelizada ? O dito mercado brazileiro. Bem, não tão babelizada assim, pois todos falam inglês. Por quê eles deveriam trocar Faulkner por Rosa, Copeland por Villa-Lobos ou mesmo Ben Shaun por Di Cavalcanti ? Mas o que fazem os nossos caixeiros viajantes pensar que um brazileiro iria valorizar uma cultura que não fosse internacional ? Senão pelo exotismo. Sim, Darwin esteve por aqui. O pior artista deles continua melhor que nosso melhor.

Quem em sã consciência se oporia ao processo de internacionalização da arte no Brazil ? Irreversível, pois. Quem pode resistir nesse clima local amolecedor, de guardas rebaixadas, moral movediça, um ar quente, oleoso, amolecendo instituições e idéias nacionais ? Fico imaginando negros musculosos e lustrosos, pés de Portinari, carregando telas e esculturas para dentro dos navios. Descansando na sombra de uma instalação espalhafatosa.

Como se pode conceber que não haja indicadores econômicos precisos e cotações justas para os produtos brasileiros ? E não sejamos puristas ou falsos ingênuos, com a banana em escassez de safra, precisamos de alternativas para o equilíbirio do superávit primário. Os chineses sim, sabem trabalhar. Pagam barato à uma centena de artistas que, num galpão sem ventilação, produzem dezenas de pastiches de Warhol, Picasso e Koons. Será a falta ou o excesso de "experts" que inviabiliza o negócio ? Por quê não aproveitar toda essa terra que não vale nada e plantar uma lavoura amarelinha de Van Goghs ? Transformar esses museus, caindo aos pedaços, em cilos para armazenar a produção. Pegar essa gente toda que não tem o que fazer e desenvolver um multirão de performances ? Vamos re-socializar o Brazil com oficinas de criação de instalações com material reciclado !

Ningúem quer ser caboclo nessa terra e o que mais se vende e troca é pó-de-arroz. E já dizia o caboclo Drummond:

Chega o muladeiro, montado / em catedralesco animal branco / homem-cavalo-centauro-esplendor. / Tão rico ele é, pode comprar / todas as fazendas com seus fazendeiros / e levar, de pinga, o município. / Hospeda-se, imperial, / no único, mísero hotel / e lhe confere majestade. / Os hóspedes restantes curvam-se, humilhados. / As roupas finas, os dentes-joalheria, / a voz melodiosa, quem resiste / ao muladeiro do Sul ? / Virgens querem entregar-se em casamento / ao in-Esperado que passeia em torno / uma aura de fastio sorridente. (...)

1 Ribeiro, Darcy "As civilizações mundiais".O processo civilizatório. Ed. Círculo do livro. pp.137-156. São Paulo. 1982
2 Este texto dialoga com a reflexão entitulada "Mercado de artes: global e desigual" por Ana Letícia Fialho e com o comentário por Aracy Amaral "Arte brasileira: real e ficção" publicados na revista Trópico.
3 Andrade, Carlos Drummond "Muladeiro do Sul". Menino antigo. Ed. José Olympio. pp.17. Rio de Janeiro. 1974


 

 

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