"Tendo
ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer
necessidades. Então ele foi e se chegou a um dos cidadãos daquela
terra, o qual mandou para os seus campos a apascentar os porcos. Ele desejava
encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém
lhe dava nada." Parábola do
filho pródigo. Lucas 16. Bíblia Sagrada

"Nas
outras áreas americanas restaurou-se o escravismo greco-romano em sua forma
mais crua. Primeiro, pela escravização dos indígenas locais,
e mais tarde, desgastados estes, pela transladação de enormes massas
de negros da África para as plantations e para as minas, onde seria também
consumida a maior parte deles.(...) Este foi o maior movimento de atualização
histórica de povos jamais levado a efeito, mediante a destribalização
e deculturação de milhões de índios e negros e seu
engajamento em novos sistemas econômicos, na qualidade de camadas subalternas."
O processo civilizatorio de Darcy Ribeiro 1
Com
a máxima "Brazil for export"2
para descrever uma tal conquista do mercado internacional por artistas brasileiros
fica a pergunta: quem conquistou quem? Se
quando pensamos em ver a Arte plumária temos que rezar, como bons cristãos
para que nossas súplicas sejam atendidas pelos museus e coleções
da Europa ?
Criar
um simulacro de prosperidade e integração à Metrópole
pode gerar mais valia aqui na Colônia, mesmo que o mais próximo que
cheguemos de lá seja em seus guetos e antros.Quando a realidade do processo
de globalização, como via de mão-única, vai ser entendida
? Será que o desdém de lá é melhor que o daqui ? Como
o filho pródigo que não tem coragem de assumir seu fracasso e faz
de uma "visita breve" na casa do pai, um rancoroso retorno definitivo.
Vamos juntar as moedas e mostrar para eles ! O QUÊ ? Devolver o resto regurgitado
da papinha industrializada que nos vendem ? Pois fora aqueles que vivem de renda
e podem retornar à metrópole, no Brazil o artista se educa por cartões
postais e figurinhas de livros.
O
que afinal o artista brazileiro pode dizer para essa turba global babelizada ?
O dito mercado internacional. Bem, não tão babelizada assim, pois
todos falam inglês. Por quê eles deveriam trocar Faulkner por Rosa,
Copeland por Villa-Lobos ou mesmo Ben Shaun por Di Cavalcanti ? Mas o que fazem
os nossos caixeiros viajantes pensar que um inglês ou americano iria valorizar
uma cultura que não fosse a sua própria ? Senão pelo exotismo.
Sim, Darwin esteve por lá. O pior artista deles continua melhor que nosso
melhor.
Dizem
que o Brazil "não é o lugar mais quente como já foi
um dia". Conversa afiada! Que vergonha ! Ninguém nos conheçe
! Nem nós mesmos. Sim, mas existe o fator da miscibilidade, dos argumentos
de lençóis, tão comuns por aqui. Existe a possiblidade de
algum curador internacional chegar por aqui, como os frades que nas épocas
coloniais desembarcavam nos portos brazileiros para "examinar a consciência,
a fé". Quem sabe ele resolve cair na tentação de nossas
belezas, de nossas iguarias ? O perigo está no herege, aquele que vira
as costas para as Lições Santas da Arte Ocidental e resolve fazer
seus patuás e trocar com seu vizinho por uma galinha.
O
que afinal o artista brazileiro pode dizer para essa turba global babelizada ?
O dito mercado brazileiro. Bem, não tão babelizada assim, pois todos
falam inglês. Por quê eles deveriam trocar Faulkner por Rosa, Copeland
por Villa-Lobos ou mesmo Ben Shaun por Di Cavalcanti ? Mas o que fazem os nossos
caixeiros viajantes pensar que um brazileiro iria valorizar uma cultura que não
fosse internacional ? Senão pelo exotismo. Sim, Darwin esteve por aqui.
O pior artista deles continua melhor que nosso melhor.
Quem
em sã consciência se oporia ao processo de internacionalização
da arte no Brazil ? Irreversível, pois. Quem pode resistir nesse clima
local amolecedor, de guardas rebaixadas, moral movediça, um ar quente,
oleoso, amolecendo instituições e idéias nacionais ? Fico
imaginando negros musculosos e lustrosos, pés de Portinari, carregando
telas e esculturas para dentro dos navios. Descansando na sombra de uma instalação
espalhafatosa.
Como
se pode conceber que não haja indicadores econômicos precisos e cotações
justas para os produtos brasileiros ? E não sejamos puristas ou falsos
ingênuos, com a banana em escassez de safra, precisamos de alternativas
para o equilíbirio do superávit primário. Os chineses sim,
sabem trabalhar. Pagam barato à uma centena de artistas que, num galpão
sem ventilação, produzem dezenas de pastiches de Warhol, Picasso
e Koons. Será a falta ou o excesso de "experts" que inviabiliza
o negócio ? Por quê não aproveitar toda essa terra que não
vale nada e plantar uma lavoura amarelinha de Van Goghs ? Transformar esses museus,
caindo aos pedaços, em cilos para armazenar a produção. Pegar
essa gente toda que não tem o que fazer e desenvolver um multirão
de performances ? Vamos re-socializar o Brazil com oficinas de criação
de instalações com material reciclado !
Ningúem
quer ser caboclo nessa terra e o que mais se vende e troca é pó-de-arroz.
E já dizia o caboclo Drummond:
Chega
o muladeiro, montado / em catedralesco animal branco / homem-cavalo-centauro-esplendor.
/ Tão rico ele é, pode comprar / todas as fazendas com seus fazendeiros
/ e levar, de pinga, o município. / Hospeda-se, imperial, / no único,
mísero hotel / e lhe confere majestade. / Os hóspedes restantes
curvam-se, humilhados. / As roupas finas, os dentes-joalheria, / a voz melodiosa,
quem resiste / ao muladeiro do Sul ? / Virgens querem entregar-se em casamento
/ ao in-Esperado que passeia em torno / uma aura de fastio sorridente. (...)
1
Ribeiro, Darcy "As civilizações mundiais".O processo civilizatório.
Ed. Círculo do livro. pp.137-156. São Paulo. 1982
2 Este texto
dialoga com a reflexão entitulada "Mercado de artes: global e desigual"
por Ana Letícia Fialho e com o comentário por Aracy Amaral "Arte
brasileira: real e ficção" publicados na revista Trópico.
3 Andrade, Carlos Drummond "Muladeiro do Sul". Menino antigo. Ed. José
Olympio. pp.17. Rio de Janeiro. 1974