Texto
apresentado para o curso A Antropologia da Pessoa e sua Interação
com os Saberes Psicológicos, ministrado pelo professor Luiz Fernando Dias
Duarte, no PPGAS-Museu Nacional - UFRJ, em 1990
pois
quando a arte é boa é
porque tocou no inexpressivo,
a pior
arte é a expressiva
Clarice
Lispector
There's
nothing cool about having a problem,
Don't expect me to explain your indecision.
Go
to your analyst, isn't that what he's paid for?
David
Byrne
"Parece-me
que os etnólogos se deveriam sentir em O Anti-Édipo como em sua
casa." Esta declaração foi feita pelo etnólogo Pierre
Clastres durante um debate organizado pela revista la Quinzaine littéraire
em abril de 1972, poucas semanas após a publicação de O Anti-Édipo,
o primeiro tomo de Capitalismo e Esquizofrenia, obra do filósofo Gilles
Deleuze e do "psicanalista" Félix Guattari. Talvez os outros
antropólogos não tenham prestado atenção nas palavras
de Clastres. Talvez, ao ler O Anti-Édipo, esses outros antropológos
não tenham ali reconhecido a sua casa e, mais do que isso, não tenham
ali identificado aquela estranheza que os encanta nas "outras" culturas.
O fato é que o livro de Deleuze e Guattari não provocou nenhuma
discussão, e nem obteve respostas (a não ser em artigos pouco conhecidos
e em pequenas notas de pé de página) nesse grande "lar"
que é a antropologia contemporânea. Qual a razão para tamanho
silêncio?
Deleuze e Guattari bem que se esforçaram para iniciar
um diálogo com os etnólogos. Talvez nenhum outro livro, vindo de
outras disciplinas, tenha tantas citações de antrópologos
quanto O Anti-Édipo. Não se trata de citações quaisquer,
feitas por quem não tem intimidade com o que está citando. Os etnólogos
discutidos por Deleuze e Guattari são exatamente aqueles que devem ser
reverenciados por outsiders que querem se aproximar de nossa casa (isto é,
da casa dos antropólogos). Não pode existir lista mais "substancial":
Mauss, Lévi-Strauss, Evans-Pritchard, Leach, Meyer Fortes, Griaule, Turner,
Bateson, Godelier, Clastres. Acrescente-se a esses nomes a trindade da antropologia
psicanalítica (Devereux, Roheim e Kardiner) e teremos etnólogos
para todos os gostos. Gostos refinados, diga-se de passagem: os nomes citados
acima (e em O AntiÉdipo) poderiam facilmente integrar (com algumas ressalvas
de praxe) o panteão da antropologia.
Talvez os antropológos
nem saibam que a sua disciplina ganhou todo esse destaque dentro de uma obra muito
estranha chamada Capitalismo e Esquizofrenia. Talvez a primeira página
de O Anti-Édipo (que começa assim: "Ça fonctionne partout,
tantôt sans arrêt, tantôt discontinu. Ça respire, ça
chauffe, ça mange. Ça chie, ça baise. Quelle erreur d'avoir
dit le ça.") afaste os leitores mais bem intencionados. Talvez o contexto
pouco ortodoxo no qual são citados os totens da antropologia seja considerado
desrespeitoso. Mas essas ainda não são explicações
convincentes para a ausência quase total de repercussão de O Anti-Édipo
no "ambiente" antropológico. Por que o silêncio e não
uma crítica arrasadora? Os antropólogos não sabem o que fazer
com Deleuze e Guattari?
O "sociólogo" Jacques Donzelot afirma,
em seu comentário sobre O Anti-Édipo chamado Uma Anti-Sociologia
(Donzelot, 1976), que o livro de Deleuze e Guattari "põe em desordem
as teorias de cada disciplina sem que os seus defensores o possam citar perante
o tribunal das suas regras, tanto ele lhes foge por todos os lados." E ainda:
"Não se trata propriamente dum livro de filosofia [...] Também
não resulta duma disciplina científica, assim como não inventa
nenhuma."
(Donzelot, 1976:155) Esses "elogios", publicados incialmente
na revista Esprit em 1972, hoje parecem ingênuos. Todos sabem que as disciplinas
cientifícas e artisticas modernas desenvolveram estratégias bastante
eficazes para lidar com a "maldição", com a "transgressão",
com aquilo que "lhes foge por todos os lados". A psicanálise
parece ter se divertido com O Anti-Édipo. Tanto que recentemente Jacques-Alain
Miller, discípulo "querido" de Lacan, foi capaz de afirmar: O
Anti-Édipo "est une variation sur un théme de Lacan, la critique
de l'oedipisme naïf, enrichie d'un éloge, non sans humour, de la schizophrénie.
C'est d'ailleurs une progéniture que Lacan a reconnue, tout en la taxant
de délirante." (Miller, 1989:24)1
Se, como diz Donzelot, Deleuze e Guattari produziram "uma atividade de lascagem
dos saberes insituídos, de destruição integral das proposições
em circulação"
(Donzelot, 1976:155), por que os etnólogos
(donos de um saber tão "instituído" quanto a psicanálise)
não podem assumir O Anti-Édipo com a mesma ironia de Jacques-Alain
Miller? Mas afinal: de que maneira a antropologia é destruída em
O Anti-Édipo? Voltando a nossa questão inicial: como Pierre Clastres
(uma estrela solitária no diálogo com Deleuze e Guattari?) foi capaz
de dizer que deveríamos nos sentir em casa dentro de um livro que pretende
destruir nossa casa? Mais um paradoxo dos tempos modernos?
Não é
facil explicar O Anti-Édipo. Não é fácil explicar
um livro onde, segundo Deleuze, "não há nada para explicar,
para compreender, para interpretar." (Deleuze, 1976:222) O que fazer com
um livro assim? Como dialogar, "cientificamente" ou "academicamente",
com autores que declaram "lemos muito, não livros inteiros, mas só
partes." (Deleuze e Guattari, 1976b:136) Ou então que afirmam que
"aqueles que acham sobretudo que este livro é difícil são
os que têm mais cultura".
(Deleuze, 1976:221)2
Como recuperar a inocência perdida e ler o livro com olhos incultos? Não
é necessário demasiado esforço. O próprio Deleuze
recomenda: "considera-se o livro como uma pequena máquina a-significante;
o único problema é 'será que isso funciona e como é
que funciona?'
Como é que isso funciona para vocês? Se não
funciona, se nada se passa, peguem outro livro."
(Deleuze, 1976:222) Será
que foi isso que aconteceu com a maioria dos antropólogos? O AntiÉdipo
não funcionou para ela. Está explicado o silêncio. A maioria
dos antropólogos pegou outros livros. Foi melhor ou pior para a antropologia?
Por
que insistir em O Anti-Édipo? Vale a pena dar algumas explicações
pessoais. A idéia deste trabalho surgiu dentro de um curso intitulado A
Antropologia da Pessoa e sua Interação com os Saberes Psicológicos
onde foi estudada uma bibliografia, para mim até então inteiramente
desconhecida, que tentava forjar uma aliança entre a antropologia e a psicanálise.
Fiquei interessado em ver como autores situados fora do campo antropológico
pensaram essa mesma questão (da relação entre antropologia
e psicanálise). Eu já tinha folheado O Anti-Édipo várias
vezes e sempre adiava a leitura para uma outra ocasião. Sabia que Deleuze
e Guattari discutiam alguns conceitos centrais para a antropologia pós-estruturalista.
Resolvi então aproveitar o curso para me obrigar a enfrentar O Anti-Édipo.
Tinha algumas perguntas em mente: como esse livro conecta a máquina da
antropologia com a máquina da psicanálise? Como esse livro funcionará
para mim, interessado na antropologia das sociedades complexas e sem um cultura
deleuziana anterior (além de vagos comentários escutados ou lidos
aqui e ali)? O livro funcionará para mim?
Bem, já li o livro
e agora vou tentar colocar suas peças (suas máquinas) para funcionar
dentro do meu texto, seguindo as preocupações comentadas no parágrafo
anterior. Vou concentrar minhas atenções no capítulo terceiro
de O Anti-Édipo, intitulado "Selvagens, Bárbaros, Civilizados",
não por acaso aquele que tem o maior número de conexões com
a "máquina" teórica da antropologia.
3
Nesse capítulo Deleuze e Guattari desenvolvem suas principais idéias
acerca de uma história "universal" da representação
e da produção desejante social, que é para comentadores como
Ronald Borgue (Bogue, 1989:85) a parte mais importante de O Anti-Édipo.
Jacques Donzelot chega a afirmar que essa parte ("aí se desenvolve,
à escala do conjunto das ciências humanas, uma tentativa
de subversão
da mesma ordem da que Laing e Cooper tinham levado a efeito apenas no terreno
da psiquiatria" - Donzelot, 1976:154), apesar de sua importância, foi
ignorada pelos críticos de Capitalismo e Esquizofrenia.
Antes de entrar
nesse assunto, é preciso falar rapidamente de alguns "conceitos"
propostos por Deleuze e Guattari, deixando claro o modo como vou utilizá-los,
isto é, como eles funcionam para mim. O que é um corpo sem órgãos?
O que é um socius? O que é libido? O que é inconsciente?
O
que é máquina? São essas perguntas que eu vou tentar responder
a partir de agora.
Máquinas
Desejantes
Tudo
é máquina. Esse é o ponto de partida de O Anti-Édipo.
Como dizem seus próprios autores, essa afirmação não
deve ser entendida como uma metáfora. Deleuze e Guattari não estão
dizendo que tudo funciona como se fosse máquina. Tudo é máquina
mesmo. Aqui, como em todo o resto do livro, não há segundas intenções,
não há nada para ser interpretado, não há um significado
oculto para ser desvendado pelos leitores. O livro, como já vimos, deve
ser manipulado como uma "máquina a-significante".
Tudo é
maquina: o livro, o sol, o seio, a boca. Cada máquina tem seu regime de
funcionamento,
se acoplando a outras máquinas, produzindo seus próprios fluxos
(de energia, de matéria, de informação) ou "cortando"
os fluxos produzidos pela máquina (os acoplamentos são sempre, num
momento preciso, binários) à qual está acoplada. "Une
machine-organe est branchée sur une machine-source: l'une émet un
flux, que l'autre coupe. Le sein est une machine que produit du lait, et la bouche,
une machine couplée sur celle-là." (O Anti-Édipo, p.
7) Uma mesma máquina pode "hesitar" em qual regime de funcionamento
adotar num determinado momento, isto é, em qual máquina vai estar
acoplada: "La bouche de l'anorexique hésite entre une machine à
manger, une machine anale, une machine à parler, une machine à respirer".
(O Anti-Édipo, 7)
Se tudo é máquina, e máquinas
diferentes podem estabelecer os mais diversos tipos de conexão (por exemplo,
a conexão entre o ânus do Presidente Schreber e os raios do céu,
sem passar necessáriamente pelo "ego" centralizador dos órgãos),
não existem mais distinções relevantes entre o homem e a
natureza circundante, entre o "moi" e o "non-moi": "extérieur
et intérieur ne veulent plus
rien dire." (O Anti-Édipo,
8)
O desejo efetua essa acoplagem entre fluxos contínuos e os "objetos
parciais" que cortam os fluxos. O desejo é também a produção
desses fluxos, ou melhor, a produção da realidade. Pensar o desejo
como produção do real é se negar a pensar o desejo como produção
de fantasmas ou como falta: "Le désir est cet ensemble de synthèses
passives qui machinent les objets partiels, les flux et les corps, et qui fonctionnent
comme unités de production. Le réel en découle, il est le
résultat des synthèses passives du désir comme auto-production
de l'inconscient. Le désir ne manque de rien, il ne manque pas de son objet.
C'est plutôt le sujet qui manque au désir, ou le désir qui
manque de sujet fixe; il n'y a de sujet fixe que par la répression. Le
désir et son objet ne font qu'un, c'est la machine, en tant que machine
de machine." (O Anti-Édipo, 34)
Na citação anterior
foi introduzido um outro ponto importante para o pensamento de Deleuze e Guattari:
é a ausência de um sujeito fixo para as máquinas desejantes.
Quem deseja não é um "moi" separado do mundo, separado
do objeto de seu desejo. Por isso, para a máquina conceitual montada por
O Anti-Édipo, não faz sentido também a distinção
entre indivíduo e sociedade, um indíviduo que deseja (quase sempre
no espaço de sua família) e uma sociedade hostil (mal-estar na civilização)
a seu desejo. O desejo é imediatamente social: "le champ social est
immédiatement parcouru par le désir, qu'il en est le produit historiquement
déterminé, et que la libido4
n'a besoin de nulle médiation ni sublimation, nulle opération psychique,
nulle transformation, pour investir les forces productives et les rapports de
production. Il n'y a que du désir et du social, et rien d'autre."
(O Anti-Édipo, 36)
Se o inconsciente, entendido como produção
desejante nos moldes anteriormente colocados, ignora as pessoas ("moi",
papai, mamãe - sendo que os objetos parciais não são representativos
de indivíduos "totais" - por exemplo, o seio não representa
a mãe para a boca da criança), ele também ignora o "teatro"
(o inconsciente não é um palco teatral e sim uma usina) do complexo
de Édipo, que seria encenado com pessoas fixas. Édipo só
pode existir a partir de um "terrorismo" exercido sobre as máquinas
desejantes, atrávés do qual todas as suas sínteses conectivas
vão ter que estar referidas à relação entre o "moi",
papai (ou qualquer coisa que seja colocada no lugar do pai) e mamãe.
Essa
linha de argumentação conduz àquilo que podemos chamar de
um anti-individualismo radical contido em O Anti-Édipo. Michel Foucault
disse, na introdução à edição norte-americana
desse livro, que uma das principais lições de Deleuze e Guattari
se resume na seguinte recomendação: "N'exigez pas de la politique
qu'elle rétablisse les "droits" de l'individu tels que la philosophie
les a définis. L'individu est le produit du pouvoir. Ce qu'il faut, c'est
'désindividualiser' par la multiplication et le déplacement, l'agencement
de combinaisons différentes. Le groupe ne doit pas être le lien organique
qui unit des individus hiérarchisés, mais un constant générateur
de 'désindividualisation'." (Foucault, 1988:50)
Deleuze e Guattari
falam de processos mais fundamentais que a individualização/desindividualização
apontada por Foucault. Em O Anti-Édipo o que está em jogo é
a própria construção do sujeito, sempre produzido como "resto"
ou "resíduo" do processo de agenciamento máquinico. Nem
sempre o sujeito é produzido e, quando isso acontece, ele não possui
algo que se possa chamar de identidade: o sujeito "n'est pas lui-même
au centre, occupé par la machine, mais sur le bord, sans identité
fixe, toujours décentre, conclu des états par lesquels il passe."
(O
Anti-Édipo, 27)
Esses estados "intensivos" são registrados
naquilo que Deleuze e Guattari chamam de corpo sem órgãos, um "conceito"
retirado da obra de Antonin Artaud. As máquinas desejantes "ne marchent
que détraquées." (O Anti-Édipo, 14) O corpo "souffre
d'être ainsi organisé." (O AntiÉdipo, 14)5
Por isso, contra os fluxos conectados e recortados das máquinas desejantes,
o corpo sem órgãos, ou corpo pleno sem órgãos (que
é produzido no mesmo processo de produção dos fluxos e seus
cortes - e tentar saber o que vem primeiro é uma questão parecida
com a clássica anedota do ovo e da galinha), opõe um fluxo amorfo
e indiferenciado, que perpassa tudo (com intensidade zero) constituindo tanto
"um motor imóvel do desejo" (que é o improdutivo, o instinto
de morte) quanto uma superfície necessária para o registro de toda
a produção desejante. Mesmo assim, e por isso mesmo, o corpo sem
órgãos não deve ser confundido com a "totalidade"
das máquinas desejantes.
Deleuze e Guattari dizem: "Nous sommes
à l'âge des objets partiels, des briques e des restes. Nous ne croyons
plus en ces faux fragments qui, tels les morceaux de la statue antique, attendent
d'être complétés et récollés pour composer une
unité qui est aussi bien l'unité d'origine. Nous ne croyons plus
à une totalité originelle ni à une totalité de destination."
(O Anti-Édipo, 50)
A relação entre o corpo sem órgãos
e as máquinas desejantes não é portanto uma relação
do todo para com suas partes, mas sim de uma superfície de inscrição
que aparece "à coté" mas interferindo decisivamente no
processo produtivo/anti-produtivo. Existem tanto a repulsão como a atração
entre os dois termos da relação, e existem também várias
combinações possíveis entre as forças de atração
e as forças de atração. Quando a repulsão domina totalmente
estamos diante de uma máquina paranóica. Quando a atração
assume o controle nos deparamos com uma máquina miraculante.
Acho que
todos esses conceitos ficarão mais claros quando estivermos discutindo
seu funcionamento nas máquinas sociais descritas em O Anti-Édipo.
Agora só posso apresentá-los rapidamente, construindo um pano de
fundo teórico sobre o qual vamos nos movimentar a seguir.
Restam algumas
questões importantes para poder atacar os problemas "antropológicos"
contidos nesse livro. A mais evidente delas é saber, já que tudo
é máquina, quais são as diferenças entre as máquinas
sociais e as máquinas desejantes, entre a produção social
e a produção desejante. Deleuze e Guattari afirmam que "entre
les deux, entre les machines désirantes et les machines sociales techniques,
il n'y a jamais de différence de nature. Il y a bien une distinction, mais
seulement une distinction de régime, suivant des rapports de grandeur."(O
Anti-Édipo, 38)
Ao contrário das máquinas desejantes,
as máquinas técnicas ("indice d'une forme générale
de la production sociale") não produzem a anti-produção
(corpo sem órgãos). Seu funcionamento deve ser perfeito e "l'anti-production
propre aux machines techniques est seulement produite dans le conditions extrinsèques
de la reproduction du procès". (O Anti-Édipo, 39) Mesmo assim,
toda máquina social produz seu socius, que atua como uma espécie
de corpo sem órgãos "wich appears to be the natural or divine
presupposition of production". (Bogue, 1989:94) Deleuze e Guattari esclarecem:
"les formes de production sociale impliquent elles aussi une station improductive
inengendrée, un élément d'anti-production couplé avec
le procès, un corps plein déterminé comme socius [...] Il
ne se contente pas en effet de s'opposer aux forces productives en elles-mêmes.
Il se rabat sur toute la production, constitue une surface où se distribuent
les forces et les agents de production, si bien qu'il s'appropie le surproduit
et s'attribue l'ensemble et les parties du procès qui semblent maintenant
émaner de lui comme d'une quasi-cause." (O Anti-Édipo, 16)
Armados
com todos esses conceitos podemos então começar nossa viagem pelas
três máquinas sociais descritas em O Anti-Édipo: a máquina
territorial, a máquina despótica e a máquina capitalista.
Durante o percurso, poderemos entender melhor como Deleuze e Guattari relacionam
a antropologia e a psicanálise tentando responder àquela pergunta
impertinente: o Édipo é universal?
Selvagens, Bárbaros
e Civilizados
Como encontrar inocência bastante para fazer uma história
universal? Essa pergunta, feita por Deleuze e Guattari no início do terceiro
capítulo de O Anti-Édipo, dá o tom da empreitada que os dois
autores realizam nas mais de cento e cinquenta páginas seguintes. Inocência?
É preciso, ao contrário, muita esperteza. Afinal é muito
fácil acusar qualquer pessoa que tente levar a frente um projeto como esse
de evolucionista, de etnocentrista ou de reducionista. Com que direito intelectuais
de uma civilização qualquer podem querer falar por toda a humanidade?
Deleuze
e Guattari pensam que temos esse "direito" pelo fato de vivermos numa
sociedade capitalista. O capitalismo frequenta o limite mais temido pelas outras
máquinas sociais précapitalistas6,
que codificavam minuciosamente os fluxos do desejo. A máquina capitalista
descodifica os fluxos, fazendo exatamente aquilo que a máquina territorial
primitiva e a máquina despótica bárbara menos podiam suportar.
Os códigos, como vamos ver com detalhes mais adiante, são substituídos
por "une axiomatique des quantités abstraites en forme de monnaie."
(O Anti-Édipo, 163)
Sendo assim, é "juste de comprendre
retrospectivement toute l'histoire à la lumière du capitalisme".
(O Anti-Édipo, 163) Contra o evolucionismo que poderia estar implícito
nessas declarações, Deleuze e Guattari citam Marx e Nietzsche para
dizer que essa não é uma história necessária mas sim
contingente: "Car il a fallu des grands hasards, d'étonnantes rencontres
qui auraient pu se produire ailleurs, auparavant, ou ne jamais se produire, pour
que les flux échappent au codage". (O Anti-Édipo, 163) Por
exemplo: foi necessário o encontro do fluxo de riqueza (convertida em propriedade
privada) com o fluxo de trabalhadores (possuindo apenas sua força de trabalho)
para que o capitalismo pudesse ver a luz do dia. Mas de alguma maneira as máquinas
sociais "anteriores" pressentiam a possibilidade capitalista (isto é,
dos fluxos escaparem ao controle de seus códigos) como os selvagens de
Pierre Clastres pressentiam a possibilidade do Estado nascer entre eles (era por
causa desse misterioso pressentimento que suas sociedades possuiam mecanismos
contra-Estado).
Nada escapa à voracidade codificante da máquina
territorial primitiva. Todos os fluxos - de mulheres, de crianças, de grãos,
de esperma - estão presos à códigos coletivos. As unidades
da máquina não são as pessoas mas as séries que determinam
as conexões entre os órgãos. Todos os órgãos
são investidos socialmente e todos os fantasmas são coletivos.
Pierre
Clastres, no debate já citado, aponta que em O Anti-Édipo existe
"o primado da genealogia da dívida, que assim substitui o estruturalismo
da troca." (Deleuze e Guattari, 1976a:75)
Tomando esse partido, Deleuze
e Guattari estabelecem sua linhagem etnológica. A antropologia de O Anti-Édipo
deve muito mais a Nietzsche e a Bataille do que a Mauss e Lévi-Strauss.
Deleuze e Guattari deixam evidente sua posição nesse "debate"7:
"la societé n'est pas d'abord un milieu d'échange où
l'essentiel serait de circuler ou de faire circuler, mais un socius d'incription
où l'essencial est de marquer et d'être marqué. Il n'y a de
circulation que si l'inscription l'exige ou le permet."(O Anti-Édipo,
166). Ou ainda:"Le grand livre de l'ethnologie moderne est moins l'Essai
sur le don de Mauss que la Généalogie de la morale de Nietzsche."
(O Anti-Édipo, 224)
A atividade principal da máquina territorial
é marcar os corpos, os órgãos, assinalando (mais do que isso:
produzindo) o seu pertencimento à Terra, o motor imóvel (como um
corpo sem órgãos) desse socius "gravador". O regime de
inscrição da máquina territorial relaciona cada órgão,
através de um sistema de crueldade (de uma "mnemotécnica terrível"),
à coletividade, impedindo assim a privatização dos órgãos
que existe nas sociedades modernas. É essa privatização que
torna possível a produção de pessoas globais, de onde sai
também a possibilidade de Édipo. Os primitivos não têm
Édipo: "on ne trouve dans les sociétés primitives aucun
des mécanismes, aucune des attitudes qui l'effectuent dans notre société.
Pas de surmoi, pas de culpabilité. Pas d'identification d'un moi spécifique
à des personnes globales - mais des identifications toujours partielles
et de groupe, suivant la série compacte agglutinée des ancetres,
suivant la série fragmentée des camarades ou des cousins."
(O
Anti-Édipo, 168)8
Mesmo com tanta
certeza, Deleuze e Guattari se perguntam: "Faut-il croire qu'OEdipe universel
hante toutes les sociétés, mais exactement comme le capitalisme
les hante, c'est-à-dire comme le cauchemar ou le pressentiment angoissé
de ce que seraient le décodage de flux et le désinvestissement collectif
d'organes, le devenir-abstrait des flux de désir et le devenir-privé
des
organes?" (O Anti-Édipo, 168) Voltamos ao pressentimento e
a Pierre Clastres. Poderíamos aqui fazer aos autores de O Anti-Édipo
a mesma crítica que eles próprios fazem a Clastres em Mille Plateaux:
"Clastres, dans l'état dernier de son travail, maintenait la préxistence
et l'autarcie des sociétés contre-Etat, et attribuait leur mécanisme
à un pressentiment trop mystérieux de ce qu'elles conjuraient et
qui n'existait pas encore." (Mille Plateaux, 535)9
Mas, se fizéssemos essa crítica, estaríamos ignorando o desenvolvimento
da argumentação de Deleuze e Guattari. Eles têm uma maneira
interessante de pensar a causalidade histórica ou geral: "La physique
et la biologie nous mettent en présence de causalités à l'envers,
sans finalité, mais qui n'en témoignent pas moins d'une action du
futur sur le présent, ou du présent sur le passé: ainsi l'onde
convergente et le potentiel anticipé qui impliquent une inversion du temps."
(Mille Plateaux, 537) Continua o mistério, mas pelo menos agora estamos
diante de um mistério mais charmoso.
Ironias de lado, e pressentido
ou não o terror do Édipo futuro, a máquina territorial tem
mecanismos internos que impedem seu aparecimento. As famílias primitivas,
por exemplo, não são apenas unidades de parentesco. O sistema de
filiação, para Deleuze e Guattari (seguindo as idéias de
Leach) é aberto, fazendo das alianças mais que um arranjo de classes
matrimoniais e de linhagens. As famílias selvagens formam também
(e indistintamente da atividade propriamente filiativa) uma política, uma
economia, colocando tudo em jogo ao mesmo tempo. É por isso que nenhum
paralelismo pode ser traçado entre a cura psicanalítica e a cura
xamânica10. Para os autores de O Anti-Édipo,
muitas curas primitivas são esquizo-análises11
em ato. O exemplo dado é o da cura entre os Ndembu, como foi descrita por
Victor Turner. Cabe ao xamã explorar as relações do desejo
de seu "paciente" com as unidades políticas e econômicas
da tribo, abrindo caminhos para a passagem de todo o tipo de fluxos e não
fechando o desejo no triângulo "moi"-papai-mamãe.
Como
compreender então aqueles que dizem encontrar um Édipo africano
ou um Édipo indiano? Como entender a discussão entre culturalistas
e psicanalistas sobre a universalidade do Édipo? Deleuze e Guattari identificam
as estratégias dos defensores da universalidade do complexo.
Alguns
deles reconhecem que não encontram, entre os selvagens, os mecanismos e
as atitudes que constituem o nosso Édipo, mas ignoram esse fato e afirmam:
"a estrutura está lá", é diferente mas é
Édipo. Outros interpretam a negação selvagem de Édipo
como uma falta ou uma privação (o lugar vazio do Pai etc.). De certa
forma tudo vira um problema de interpretação. Para os autores de
O Anti-Édipo, interpretar "c'est notre manière moderne de croire,
et d'être pieux." (O Anti-Édipo, 202)
E é nesse contexto
que pode aparecer um Géza Roheim: "C'est lui qui disait sans humour
qu'on ne trouvait pas le complexe d'OEdipe si on ne le cherchait pas. Et qu'on
ne le cherchait pas si l'on ne s'était pas fait soi-même analyser.
Et voilá pouquoi votre fille est muette, c'est-à-dire: les tribus,
filles de l'ethnologue, ne disent pas l'OEdipe qui les fait pourtant parler."
(O Anti-Édipo, 202)
E a proibição do incesto, não
é ela uma prova da existência de Édipo entre os primitivos?
Para
Deleuze e Guattari o que é recalcado pela proibição de incesto
não é Édipo, mas sim a produção desejante e
seus fluxos descodificados, seus estados intensivos12.
O problema comum do relativismo e do absolutismo edipiano (de Malinowski, de Ernest
Jones, de Kardiner) é pensar o desejo como um assunto familiar. Daí
a dificuldade de trabalhar, seguindo Kardiner, com conceitos como instituições
primárias e instituições secundárias. O desejo ficaria
sempre preso ao primário, que quase sempre é o familiar (ver O Anti-Édipo,
206), e teria que passar pela mediação do primário para investir
o social. Mas, como vimos anteriormente, esse investimento é sempre imediato.
O inconsciente13 está ligado diretamente
à máquina social.
É possível falar em universalidade
de Édipo apenas num sentido muito específico: Édipo "est
une mystification de l'inconscient qui n'a réussi chez nous qu'à
force de monter ses pièces et ses rouages à travers les formations
antérieures." (O Anti-Édipo, 207) Essas peças e roldagens
só formam a máquina de Édipo quando algumas condições
estão presentes. A primeira delas é que o campo de produção
e reprodução social fique independente da reprodução
familiar. Além disso: "il faut que, à la faveur de cette indépendence,
les fragments de chaîne détachables se convertissent en un objet
détaché transcendant qui écrase leur polyvocité; il
faut que l'objet detaché (phallus) opère une sorte de pliage, d'application
ou de rabattement, rabattement du champ social défini comme ensemble de
départ sur le champ familial, maintenant défini comme ensemble d'arrivée,
et instaure un réseau de relations bi-univoques entre les deux." (O
Anti-Édipo, 209) Édipo deixa então de ser um limite e passa
para o centro do sistema, ocupando o lugar de representante do desejo. As condicões
para que isso aconteça, descritas acima, só estão presentes
no capitalismo.
Vejamos agora, passando rapidamente pela máquina despótica,
como o capitalismo e, por conseguinte, o Édipo se tornam vitoriosos.
Como
está escrito em A Genealogia da Moral, o aparecimento do Déspota
foi um acontecimento relâmpago, fruto do mais puro acaso, de um mau encontro.
Nada, dentro da máquina territorial, poderia engendrar tal figura. O Déspota
surge de fora da tribo e conquista tudo, em pouquíssimo tempo, com a fúria
das "bestas louras" de Nietzsche. O Déspota impõe uma
Nova Aliança, que vai sobrecodificar todos os códigos que garantiam
o bom funcionamento da sociedade selvagem. Sobre o sistema de crueldade da tribo
se instaura, como num passe de mágima, o sistema de terror despótico.
O
Déspota, sem compromisso com os códigos da tribo, recusa as alianças
laterais e as filiações "étendues" até então
vigentes. Ele se coloca em filiação direta com a divindade, estabelecendo
uma transcendência desconhecida pelos selvagens. O corpo pleno (a instância
de antiprodução onde se inscrevem os fluxos sociais/desejantes)
deixa de ser a Terra, como era para a máquina territorial, e passa a ser
o próprio corpo do Déspota, cercado pela sua sempre imensa burocracia.
Não é por acaso que, nessa parte de seu livro, Deleuze e Guattari
dão um descanso para os etnólogos e passam a ter como autor de referência
ninguém menos do que Franz Kafka. Em O Anti-Édipo, a literatura
(de Kafka, de Lawrence, de Artaud) tem a mesma "legitimidade" que a
"nãoficção" (de Marx, de Melaine Klein, de Clastres
e até de Castañeda).
As antigas alianças subsistem modificadas,
isto é, sobrecodificadas pelo objeto transcendente.
No corpo de Déspota
se produzem as sínteses conectivas das antigas alianças com a nova
aliança, maquinação através da qual o novo corpo pleno
se apropria de todas as forças e agentes de produção, gerando
as castas, os escravos e a dívida infinita que estes últios (todo
o resto da sociedade) têm para com o Déspota.
A principal arma
que o Déspota utiliza para sobrecodificar todos os corpos é o incesto
(Calígola, Heliogábalo) cometido fora da tribo. O incesto do déspota
simula os estados extremos de intensidade que só podem existir em "regimes"
onde os fluxos desejantes estão inteiramente descodificados. Essa simulação
coloca em cena justamente aquilo que era recalcado pela máquina primitiva.
Mas, é claro, como uma simulação, (ainda) como uma representação
ecalcante.
A aparição do Déspota cria o lugar (locus)
da transcendência que poderia ser ocupado por Édipo. Mas para que
Édipo ocupe esse lugar ainda são necessárias muitas transformações,
muitos maus encontros: "Il faudra que la cellule oedipienne achève
sa migration, qu'elle ne se contente pas de passer de l'état de représenté
déplacé à l'état de représentation refoulante,
mais que, de représentation refoulante, elle devienne enfin le représentant
du désir lui-même. [...] Il faudra que la dette ne devienne pas seulement
dette infinie, mais qu'elle soit intériorisée et spiritualisée
comme dette infinie [...] Il faudra que le père et fils se forment [...]
Il faudra qu'OEdipe-despote soit remplacé par des OEdipes-sujets [...]
Il faudra que toutes les opérations formelles soient reprises dans un
champ
social décodé". (O Anti-Édipo, 256) Tudo isso só
se concretiza na máquina capitalista.
O capitalismo, como já
foi dito, trabalha apenas com fluxos descodificados. Todas as antigas territorialidades,
as antigas alianças, os antigos códigos e sobrecódigos devem
ser destruídos para garantir o "livre movimento do capital".
Quantias imensas de dinheiro podem ser transferidas via satélite, e em
questão de segundos, da Bolsa de Tóquio para a Bolsa de Londres,
sem intermediários, sem barreiras alfandegárias, sem ao menos serem
convertidas em dinheiro vivo, em moeda (muito menos ser convertidas em produto
com valor de uso). O capital é o novo corpo pleno, o novo socius, onde
se registra a produção da produção, o produzir sem
outra finalidade que o produzir.
Contra os códigos, o capital gera algo
muito mais eficiente: uma axiomática dos fluxos descodificados. Essa axiomática
não mais é colocada em questão por elementos alienígenas.
Seu poder de recuperação é praticamente infinito, nunca saturado:
o capitalismo é sempre capaz de juntar um novo axioma aos axiomas precedentes
para dar conta de uma situação/ameaça inesperada. A axiomática
tem mais "vantagens": ela é imanente à produção
econômica, não precisando recorrer a instâncias exteriores
como a burocracia despótica. Além disso: ela não precisa
de crenças, não precisa marcar os corpos para construir sua memória.
O capitalismo é cruel sem precisar recorrer a um sistema de crueldade.
Mesmo
assim, o Estado continua necessário. É ele que regula os fluxos
descodificados. Mas essa "regulagem" é imanente à produção
dos fluxos, ela (incluindo o Estado) é produzida pela conjunção
dos fluxos: o Estado não inventa a axiomática "puisqu'elle
se confond avec le capital luimême.
Il en naît au contraire, il
en résulte, il en assure seulement la régulation, il en règle
ou même en organise les ratés comme conditions de fonctionnement,
il en surveille ou en dirige les progrès de saturation et les élargissements
correspondants de limite [...] Il n'y a jamais eu de capitalisme liberal".
(O
Anti-Édipo, 300) Uma tese fora de moda?
De alguma maneira, o capitalismo
é uma dança à beira do abismo: ele está muito próximo
da esquizofrenia desejante, da perda total de controle sobre a produção
dos fluxos. Por isso a necessidade de um Estado forte. Por isso o recurso à
reterritorializações no meio de sua tendência a desterritorializar
tudo. A reterritorialização é sempre artificial, nostálgica,
residual, ressucitando códigos antigos, fragmentos de códigos, inventando
pseudo-códigos14. Os grupos assim formados,
para os autores de O Anti-Édipo, podem ser facistas mas podem também
revolucionários.
Outra estratégia do capitalismo para evitar
sua esquizofrenia "latente" ("Notre societé produit des
schizos comme du shampoing Dop ou des autos Renault" - O Anti-Édipo,
292 15) tem a ver diretamente com o nascimento
triunfal de Édipo. Na máquina capitalista, a família deixa
de ser um fator dominante da reprodução social, sendo colocada para
fora do campo político-econômico.
Em outras palavras: a família
foi privatizada (como os corpos também foram privatizados) em torno do
triângulo "moi"-papai- mamãe. Todo o campo social pode
então se projetar/rebater/aplicar na família, que passa a funcionar
como um simulacro das imagens do capital. Édipo é essa "aplicação"
das imagens sociais nas imagens privadas, é a territorialidade interiorizada
"qui correspond à tous les efforts de re-territorialisation du capitalisme."
(O Anti-Édipo, 317) E mais: "ce n'est pas la psychanalyse qui invente
OEdipe: elle lui donne seulement une dernière territorialité, le
divan, comme une dernière loi, l'analyste despote et percepteur d'argent."
(O Anti-Édipo, 321) Em vez dos grandes fluxos descodificados, "les
petits ruisseaux recodés dans le lit de mamam." (O Anti-Édipo,
322)
Dentro dessa imensa (pequena) tragédia de Édipo (a má-
consciência como teatro íntimo), devemos nos considerar máquinas
de sorte. Só o capitalismo pode fazer sua autocrítica e a crítica
das sociedades "anteriores". Só Édipo pode fazer sua autocrítica
e a crítica das armadilhas do desejo "anteriores".
Para quando,
então, a produção desejante sem entraves? Não temos
desculpas para a espera: segundo Deleuze e Guattari tudo já está
ao nosso alcance. Apesar de tudo.
Conclusões
Minha
leitura de O Anti-Édipo foi bastante parcial. O livro é extremamente
rico em questões que não foram sequer mencionadas neste trabalho16.
Não foi possível, para uma primeira leitura, ter uma outra atitude
a não ser a exploratória. O que fazer, então, para concluir?
Só posso anotar alguns pontos que "funcionaram" para mim e que
poderiam ser reexaminados em outra ocasião:
1 - Pensar a descodificação
geral imposta pela máquina capitalista pode ser um caminho interessante
para discutir alguns impasses teóricos da antropologia das sociedades complexas.
Como explicar as relações de poder entre os vários grupos
sociais sem cair na armadilha totalizante/unificante da Cultura ou da cultura
dominante? Como pensar um todo que não seja a soma das partes, dos fragmentos,
que seja produzido "à coté"? Como reinventar o conceito
de identidade desfazendo-se de suas características "fixas" e
tornando-o capaz de lidar com a fragmentação da vida cultural contemporânea?
2
- A questão da identidade está intimamente ligada à questão,
também clássica para a antropologia, das relações
entre o indivíduo e a sociedade. Deleuze e Guattari tomam o partido do
coletivo. O desejo é sempre social e o "moi" privatizado só
aparece dentro da máquina capitalista. As máquinas
desejantes
de cada pessoa não estão necessariamente sob o comando de um aparelho
centralizador.
Elas podem se conectar com outras máquinas, dos mais
diversos tipos, humanas ou não-humanas. As máquinas desejantes e
as máquinas sociais diferem apenas por ordem de grandeza, podendo ser entendida
como a aplicação de leis de distribuição estatística.
Em outras partes de seu livro, os autores de O Anti-Édipo usam a oposição/complementaridade
molar/molecular para combater o "erro" que é opor coletivo e
individual: "les machines désirantes moléculaires sont en elles-mêmes
investissement des grandes machines molaires ou des configurations qu'elles forment
sous les lois de grands nombres, dans un sens ou dans l'autre de la subordination,
dans un sens et dans l'autre de la subordination." (O Anti-Édipo,
342) Mas não esqueçamos: qualquer investimento desejante é
sempre coletivo.
3 - O Anti-Édipo deve ser discutido em todas as tentativas
de se estabelecer um paralelo (ou realizar a fusão) entre a antropologia
e a psicanálise. As questões que Deleuze e Guattari colocam para
os antropólogos me parecem de extrema importância e devem, de algum
modo, ser respondidas. Por exemplo: como aprofundar a crítica (que está
em Leach) da concepção de parentesco como um sistema fechado? Como
pensar a história (desequilíbrios, rupturas, revoltas) nas sociedades
selvagens? Como fugir da "interpretação" dos mitos, não
mais encarando-os como "textos expressivos"? Como repensar o funcionamento
da "universalidade" da proibição do incesto? Como se livrar
do debate sobre a universalidade de Édipo?
Esse não é
bem o tipo de pergunta que nos transmite a sensação de estar em
casa. O AntiÉdipo, mesmo tendo perdido a aura panfletária e a urgência
pós-Maio 68 que o acompanhavam no tempo de sua publicação,
continua sendo um livro pertubador. Ou melhor: confuso. Ou melhor: divertido.
Resumindo: ainda é uma excelente máquina para se brincar.
Notas
1
Vale a pena citar o que disse Deleuze numa entrevista de 1972: "Até
agora tem-se deixado a psicanálise tranquila: atacavase a psiquiatria,
o hospital psiquiátrico, mas a psicanálise parecia intocável,
não comprometida. Tentamos mostrar que a psicanálise é pior
do que o hospital" (Deleuze e Guattari, 1976a:63). Aqui, nada indica que
existe uma maneira "melhor" de se fazer psicanálise. Tudo nela
é condenável, não apenas o "oedipisme naïf".
2
Em entrevista Deleuze disse: O Anti-Édipo "é ainda muito difícil,
muito cultivado e opera demasiados compromissos. Não o soubemos fazer suficientemente
directo, claro. No entanto, faço notar que o primeiro capítulo,
que passa por difícil a muitos leitores favoráveis, não supõe
qualquer conhecimento prévio." (Deleuze e Guattari, 1976a:63)
3
Portanto, não me deterei nas críticas mais específicas à
psicanálise.
4 "On appelle libido le "travail" connectif
de la production désirante". (O Anti-Édipo, 19)
5 Aqui Deleuze
e Guattari se encontram com vários outros pensadores, como Canetti, Bataille
e até mesmo Durkheim (com todas as diferenças que existem entre
eles), para quem a realidade está fundamentada numa luta incessante entre
ordem e desordem, entre a organização e a entropia, sem o prevalecimento
de nenhum dos dois fatores.
6 O prefixo pré, nessa palavra, denuncia
um deslize evolucionista que será autocriticado em momentos posteriores
de Capitalismo e Esquizofrenia, principalmente em Mille Plateaux, o segundo e
último tomo dessa obra.
7 Que praticamente não chegou a acontecer:
quantos antropólogos citam a Genealogia da Moral ou A Parte Maldita?
8
Em nota de pé de página Deleuze e Guattari comentam assim o livro
OEdipe Africain: "ces auteurs se livrent à une étrange gymnastique
pour maintenir l'existence d'un problème ou d'un complexe d'Oedipe, malgré
toutes les raisons qu'ils donnent du contraire". (O Anti-Édipo, 168)
9
Deleuze e Guattari chegam a acusar a etnologia de indiferença com relação
às descobertas da arqueologia que confirmam que o Estado sempre existiu:
"Tout n'est pas Etat, justement parce qu'il y a eu des Etats toujours et
partout." (Mille Plateaux, 535)
10 São citados Lévi-Strauss
e Devereux como autores que tentaram traçar esse paralelo.
11 Sua proposta
de superação da psicanálise.
12 Que podem ter nomes como
mãe, irmão da mãe etc. e pelos quais uma mesma pessoa pode
passar - ver a análise de Deleuze e Guattari sobre um mito Dogon, comentado
por Marcel Griaule no artigo Remarques sur l'oncle utérin au Soudan, "sans
doute, dans toute l'ethnologie, le texte plus profondement inspiré par
la psychanalyse." (O Anti-Édipo, 189)
13 Que não é
vazio, como quer Lévi-Strauss (ver O Anti-Édipo, 219), e sim uma
usina produtora de fluxos desejantes.
14 Estou expondo as idéias de
Deleuze e Guattari. Elas não me parecem ser muito convincentes. Se a axiomática
é tão poderosa por que ainda é preciso reterritorializar?
15
O parentesco dessa afirmação com as teses de Devereux é explicitado
em várias citações incluídas ao longo de O Anti-Édipo.
16
Como por exemplo a história das representações, ligada à
história das máquinas sociais, um assunto que certamente interessa
à antropologia.
BIBLIOGRAFIA
CITADA
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Paris, Minuit.
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Esquizofrenia (Dossier Anti-Édipo), Lisboa,
Assírio & Alvim, pp. 55/81.
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- 1976b - "Entrevista 2", in Capitalismo e
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Paris, Minuit.
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in Capitalismo e Esquizofrenia
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& Alvim, pp. 153/184.
FOUCAULT, Michel - 1988 - "L'Anti-OEdipe: une
introduction à la vie non fasciste", Magazine
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MILLER, Jacques-Alain - 1989 - "Une histoire de
la psychanalyse", Magazine littéraire, nº 271,
pp. 20/26.