Cartas
do deserto
" - Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu
pai, de sua mãe, de sua irmã, de seu irmão?
-Não
tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
-Amigos?
-Você
usa de palavra cujo sentido até aqui desconheço.
-Pátria?
-Ignoro
a que latitude se situa.
-Beleza?
-
Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
-O
ouro?
-Odeio-o
como você odeia a Deus.
-Mas
de que gosta então, estrangeiro extraordinário?
-Das
nuvens..as nuvens que passam...lá longe...lá longe...as maravilhosas
nuvens!"
Charles
Baudelaire em 'O spleen de Paris' Trad. Leda tenório da Mota Ed. Imago

Foto:
Yuri Salles Kawanami
Poema-entrevista
: Vicente : Franz : Cecim : Continuação
Vicente : Para ir a uma festa triste, que insiste em nos convidar para essa dança
das falsas dualidades ( Claro-escuro)
Franz:
Há essa beleza assustadora e estonteante do invisível e sua embriaguez
de sonho..
Cecim
: Como a sensação de perseguir uma miragem onírica, a vida
Vicente
: Não se toca nessa palavra...Dentro da brincadeira do Samsara.
Franz
: Para esse fantasma do mundo da palavra,
Cecim
: Corrompendo a névoa do silêncio onde nada
Vicente
: A casca
Ariel
: Lendo
Cecim
: Um livro-fantasma.
O
: Um copo d' água no fundo do oceano.

gravura:
Lívio Abramo
Ao
ator esvaziado ou O spleen de Paris no Brasil.
Ok
"isto", o teatro e suas camadas, não nos une e serve apenas para
juntar uma ou duas afinidades secretas, advindas da miséria generalizada,
e de um convívio com a esquizôfrenia "comum", compartilhada
com o mito das coisas perdidas e a visão de um demônio na escada
de Durer ( Na verdade um anjo arrasado e kamikase que desliga a negatividade e
o niilismo às vezes por puro desdém). Não cometo a roubada
de trocar a Estética do Hegel pela de Paul Singer, ou pelo Tao da física
de Fritjoff Capra ( Prefiro Frank Capra). Aliás, esse teatro de merda que
vai de Brasília e passa pela Vila Esperança ( Maior favela de Cubatão
com 10 mil pessoas e fora do mapa), fazendo escalas na Colômbia e no Paraguay
redimensionados, exclui o Bateau Ivre no sangue e, por isso, podemos desconfiar
de qualquer grupo que possua conexões com essa ficção encenada
( Cidades,Países,Máfias,O império Evangélico,A Bolsa
de Valores,Ongs,Partidos e etç..). Ficção que ignora o que
estamos perdendo ( Ver Elizabeth Bishop) Enquanto sonhamos que não sonhamos
com lacraias gigantes conversando no celular, orgasmos e etc.. O que nos leva
inutilmente a Clarice Lispector e seus fios de satoris falsificados ou aos fios
de fúria translúcida de Álvaro de Campos ( Ver um bloco de
gelo pegando fogo e a pessoa sem pele com todos os orgão para fora se debatendo
como um lençol vermelho no varal com um vento fortíssimo que depois
vira uma brisa totalmente absurda) como essa platéia enorme e bestial programada
pela máquina de não fazer-nada para erguer o muro etéreo
das reclamações, entre um e outro copo de cerveja, um e outro campeonato
de futebol, patrocinado pela maior rede de tv ( Ver atores ou não-atores
rodando bolsinha no vídeo-curral) Enquanto nós as ficções-vida
manipulamos um cubo de trevas dentro do não.
De
uma entrevista de Charles Cosac :
A
vida e a morte sempre dão contraste / Por isso a pós-modernidade
é o que começou a acontecer há um segundo / mas a imagem
fica fora de foco / quando acreditamos / em verdades absolutas / como essas que
um mês depois percebemos / que não significam nada / Mas o universo
não desiste / Não é Farnese?
Pérola
aos poucos
A
sair em dvd, em setembro ( Infelizmente apenas para locação) o bucólico
'Lavoura Arcaica' de Luiz Fernando Carvalho. Esta é uma versão de
um livro do superestimado Raduan Nassar que vai muito além da simples ilustração,
ao conferir ao livro um corpo de símbolos ( O filme se torna desse modo
um irmão siâmes do livro e não seu apêndice). O romance
de Nassar foi tecido como uma parábola que evoca o bíblico e se
apóia no laico, mas não é a obra prima anunciada pela maioria
dos críticos. Nassar foi inclusive alvo de um número dos cadernos
de literatura do Instituto Moreira Salles. O estilo de Nassar é algo que
fica entre Claude Simon e Céline, sem superá-los em momento algum...Mas
Raduan Nassar é uma formiga digna e têm autocrítica por isso
parou de escrever para criar bois e plantar tomates, algo superior à literatura
e seu açougue metafísico. Nisso estou com ele...Porra, me esqueci
do filme...Voltando ao fio de Ariadne, no filme a tragédia ganha o primeiro
plano e se torna o centro de uma bela tessitura de imagens bucólicas, que
fazem um contraponto para um ótimo enfoque violento e subversivo do desejo,
onde ele apareçe como uma triste força da natureza. Lavoura Arcaica
é belo como um poema de Mário Peixoto, que se não me engano,
mora no inconsciente de Luiz Carvalho, à direita de Gláuber Rocha,
um filme corajoso por optar pelo trabalho com a imagem como algo maior do que
o elemento discursivo que até se faz presente (Toda a obra de Raduan é
um discurso que toca de leve no niilismo dos adolescentes e é salvo pela
densidade poética). É até possível fazermos uma leitura
reducionista do filme e do livro a partir de Freud e seus "delírios
cognitivos", mas essa seria uma leitura idiota. Tão idiota quanto
a que o próprio Freud fez dos quadros de Da Vinci...Mas isso é outra
estória.
O
túnel no fim da luz
É quase inacreditável que o jornal GAZETA MERCANTIL tenha publicado
em sua edição de sexta-feira,1 de julho de 2005, trechos do poema
de Filipe Lazarini ( um aluno de Marketing da Universidade Mackenzie) do qual
reproduzo a seguir alguns trechos :
"
Som do silêncio
Silêncio, silêncio.../ Maldito silêncio!/ Silêncio/ Que
arrebenta meus tímpanos!/ Que rasga/ Minha carne/ E mata/ Pouco a pouco/
Minha Alma./ Silêncio,silêncio.../ Maldito Silêncio!/ Que me
amadurece/ Ah! Que dor de cabeça!/ Deve ser a falta de um grito!/ Silêncio../
Silêncio.../ Maldito Nada!/ Mas é isso que você pensa!/(..........)
Paradigmas,
estereótipos,/ Normalidade./ Qual a essência da Banalidade?/ Não
nesta medição descontínua de frutos inférteis da falta
de criatividade./ Ande,desfrute,/ Siga seu caminho, experimente o inusitado/ E
transforme essa porcaria! "
