Cartas
do deserto
"...Mergulhado nas profundezas cristalinas da vida, tentando
atingir, intensa e desesperadamente, algum significado. Uma pessoa perfeitamente
consciente dos véus pintados de maya, de cúpulas de vidro multicoloridas
dando tonalidade à brancura radiante da eternidade, estremecendo no intenso
vazio..."
Saul
Bellow em 'O legado de Humboldt' Trad. de Fernando Py
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Poema-entrevista
Diálogo:Cecim:Andara
1
1-)
Por que se reescrever..
1-)
E se agora em mim viesse o vão da voz..
1-)
No amazôniko..
1-)
Sim, no espelho que nos cega apesar do SoLnho, indo para fora da literatura ,
além do vôo sem asas da ave-Flaubert que já anunciava as transfigurações
que já anunciava as transfigurações que depois ouviremos
nos sinos de Andrei Rublev e Lars Von Triers..
1-)Como
te sentes diante de tuas partes visíveis ?
1-)
Depois de atravessar a água da obscuridade a flor do silêncio começa
a ofuscar o ouro do tempo
0-)
Esse ladrão de auroras capaz de imantar um cristal escuro no permanente
eclipse branco da memória ou o leitor...
1-)
É o que somos além do intrumento da tua invisibilidade?
1-)
E um vôo para essas asas que afundam no rio das imagens
1-)
Como o menino na ilha das cigarras
1-)
E dos pássaros que também já foram nuvens...
1-)
Brincando de passar
1-)
Cantando o lendário salmo dos fios
1-)
Enquanto segura nossas mãos
0-)
A alma ,
1-)
E só há uma para acordar tudo.
Mapa:
Obras de Vicente Franz Cecim: 'A asa e a serpente' & 'Terra da sombra e do
não' ( Ed. Cejup) , 'Viagem a Andara' & 'Silencioso' como o Paraíso
( Ed. Iluminuras) e Ó Serdespanto (Ed. Íman)
Mongólia, Cazaquistão e Favela ou o circo das falsas promessas.
Nuno
Ramos em recente entrevista ao Caderno 2 do jornal o Estado de São Paulo
se refere a uma 'crise da literatura atual' e que seria salutar um 'mergulho dentro
da própria crise' ao invés de ignorá-la. Prefiro a palavra
abismo em lugar da palavra crise (embora uma aponte para uma evolução
ou movimento circular ou em linha reta para algum lugar e outra aponte para uma
queda às vezes sem fim). Ao ler a entrevista pensei na hora em Paulo Coelho,
Paulo Lins e Bernardo Carvalho como ícones dessa crise (ou abismo-crise).
Paulo Coelho escreve fumaças pseudo-místicas, incensos para perfumar
um desejo de transcendência irrealizável. Bernardo Carvalho escreve
fumaças sobre o sentimento de alteridade enquanto sonha com a cegueira
do Borges. E Paulo Lins escreveu um relatório romanceado que anseia por
um distanciamento irônico e neutro típico dos Rappers. O Cazaquistão,
a Mongólia e a Favela Cidade de Deus se equivalem nas últimas obras
deles como 'não-lugares' onde o problema humano é enfocado e, ao
mesmo tempo, ofuscado pelo desejo de narrar o óbvio de um modo profundo
&/Ou distanciado e de disfarçar o obvio de 'Alteridade' e estranhamento
(em B.C.) ou de desejo de transcendência como motor de um fácil processo
de auto-conhecimento ao alcance de todos (em P.C.)... Ora, o que pretendo aqui
é contrapor estes três modelos de sucesso da atual literatura a outros
três escritores que considero representantes de um 'mergulho dentro da crise'
que, embora não a resolva, apontam alguns atalhos para o fundo do abismo
melhores do que a queda-livre com ou sem pára-quedas transcendentais. Um
é o Evandro Afonso Ferreira autor de 'Erefuê' e 'Arrãa', o
outro é Nicodemos Sena autor de ' À espera do Nunca Mais' e 'A noite
é dos pássaros' e por fim Mário Bortolotto autor de 'Bagana
na chuva', estes três numa margem oposta conseguem escapar dessa armadilha
de 'edulcorar o óbvio com o verniz da profundidade e promessas de redenção
ou deciframento'. O que é fumaça e esquematização
em BC, PC e PL se resolve como desmascaramento do jogo da linguagem, que se apresenta
como um estranhamento em si mesma nas obras de Evandro Affonso, o que é
desejo de transcendência mistificado e filtrado em 'Boas intenções'
e falso desnudamento em PC em Nicodemos Sena aparece como uma superposição
de camadas construídas como elementos de um sonho que por sua vez evoca
um jogo onde a própria língua é o 'elemento sobrenatural'
cuja única função é aproximar mundos distantes e irreconciliáveis
(o que acontece no romance 'A noite é dos Pássaros' escrito em Português
e Tupi-guarani ao mesmo tempo). O que em Paulo Lins é distanciamento neutro
disfarçado de 'jornalismo afetivo' no despretensioso e ótimo romance
de Bortolotto é a exposição dos próprios abismos de
sua história pessoal vertidos para a ficção onde o que sobra
é um vazio melancólico que já estava lá antes de abrirmos
o livro é como se tivéssemos ouvido um samba de Cartola transformado
em blues na voz de Etta James ou Alberta Hunter.. Ou seja com livros e autores
autênticos não tem essa de 'exotismos de classe média terceiro
mundista' à procura de uma visão 'estrangeira' do próprio
país sob uma ótica pseudo-antropológica disfarçada
de 'metafísica da profundidade' ou 'simulacro de alta-literatura'.
'Erefuê' se passa num tribunal, 'A noite é dos pássaros' numa
aldeia indígena e 'Bagana na chuva' nas ruas e bares de Florianópolis..
A literatura quando é corajosa e não faz concessões não
promete nenhuma transcendência e nem nos distrai do inferno.. ela apenas
nos joga de volta a nossas próprias vidas mais rápido do que o espelho,
esse sim 'o lugar' onde os abismos e as crises fazem algum sentido.. Bom mergulho.
Serviço:
'Erefuê', Evandro Affonso Ferreira , Ed. Ateliê , 'Arrãa',
Idem, Ed. Hedra, ' A noite é dos Pássaros' , Ed. Cejup, Bagana na
chuva de Mário Bortolotto, Ed. Ciência do Acidente,'Mongólia'
de Bernardo Carvalho, Ed. Companhia das Letras, O Zahir, Paulo Coelho, Ed. Rocco
e Cidade de Deus de Paulo Lins,Ed.Companhia das Letras..
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O
vôo cego do destino humano
( 'Herói' e 'O clã das adagas
voadoras' )
Zang
Yimou que já havia nos proporcionado uma ópera de contenções
e delicadeza em 'Lanternas Vermelhas' filme que mereceu um elogio até do
João Cabral que como é sabido era imune ao cinema, volta ao cartaz
no Brasil com dois filmes ao mesmo tempo, 'Herói' e ' O clã das
adagas voadoras'.
O primeiro 'Herói' é uma fábula moral
e simultaneamente um tratado de estética cinematográfica dividido
em blocos, que recontam a mesma estória com movimentos suntuosos de câmera
e efeitos visuais, que dão ao filme uma dimensão poética.
Cada um destes blocos tem uma tonalidade específica e trabalha as metáforas
a partir do encadeamento de tensões emotivas e de fusões do corpo
com as cores da paisagem natural, que em 'Herói' ultrapassam a condição
de cenário para as ações e são espelhos das sensações
escondidas nas motivações das personagens. Mas o grande tema de
'Herói' é a tragicidade das emoções humanas em conflito
com o sentimento de Nação ou o conflito entre a territorialidade
e a extraterritorialidade ( que transcende nossa condição efêmera
de seres vivos e só se realiza na morte ou no inominável ). Já
em 'O clã das adagas voadoras' este e outros conflitos passam do plano
meramente estético-poético para o plano psicológico ( E aqui
não podemos nos esquecer do que Proust escreveu na sua "Busca...",
os sofrimentos ultrapassam a psicologia" ). Em o 'Clã das adagas voadoras'
estamos no mesmo território de 'O Morro dos Ventos Uivantes' de Wyler/Emily
Bronté ( Há uma versão fantástica de Buñuel
chamada 'O abismo da paixão') com o diferencial gritante de que no filme
de Zang Yimou há um deslocamento do sobrenatural para o espaço do
corpo (E as espadas e adagas no filme são como sonhava Yukio Mishima uma
extensão do corpo e de suas paixões avassaladoras). Se 'Herói'
é dividido em blocos que se interligam e se contradizem, compondo um quadro
absurdo da condição humana, em 'O clã das adagas voadoras'
o filme se divide em camadas que se abrem como véus, revelando a complexidade
bestial dos sentimentos de paixão e lealdade, sentimentos (no filme) antagônicos
e destrutivos. É curioso notar como os dois filmes se completam formando
uma espécie de 'tratado-estético-político-poético'
sobre o vôo cego do destino humano.
Foda-se
James Joyce!

1-)
Faço coro com o xará Marcelo Mirisola, realmente o Ulisses seria
melhor se cortassem dele umas 300 págs. E discordo do J. Roberto, o resultado
não seria de modo algum um 'Ulisses em 90 minutos' porque o que sobra desse
corte ainda assim só poderia ser lido em no máximo um ano...A maioria
que compra o 'Ulisses' não passa da pág. 30, já li o livro
mais de 4 vezes e tenho a convicção de que ele não é
melhor do que a obra completa de Ésquilo ou "O diálogo dos
mortos" do Luciano. Obviamente o 'Ulisses' é uma boa 'máquina
de fazer perguntas' mas o que os membros da 'Igrejinha do Joyce' propagam é
que o livro é uma "súmula de todos os livros" e uma "síntese
da experiência humana inspirada na Saga do Homero" ( Ouvi isso de um
professor da Usp..O pior é que nem lembro o nome da figura..). Há
a apologia do Campbell no 'Poder do mito', mas entre ela e a leitura do livro
em si as promessas não são cumpridas e o que temos é um ou
outro leitor excepcional de um livro que mereceria uns cortes para ser extraordinário.
O cineasta Hans Syberberg é que foi inteligente ao resumir seu filme sobre
o Ulisses com a assustadora Edith Clever ao monólogo de Molly Bloom. Aliás
esse é o nome do filme.
2-)
O Finnegans Wake ( Finícius Revém em português na versão
de Donald Schüller) pode ser lido como uma brincadeira levada a sério
demais pelos críticos e professores de letras, que não se cansam
de 'bater punheta' lendo o livro em voz alta...Desconfio que nesse o Joyce fez
uma homenagem ao Stanislas... Seu irmão esquizofrênico escrevendo
um livro propositalmente esquizofrênico ( Essa era a opinião do Jung).
Na edição brasileira, as notas do Donald são brilhantes exercícios
de malabarismo mental e erudição que se esforçam para dar
um sentido maior à brincadeira do Joyce. Essas notas me lembram muito as
notas fictícias do crítico- professor analisando o poema no 'Fogo-pálido'
do Nabokov... Em inglês e no inglês-inventado por Joyce soa como uma
mistura delirante e febril do tom de Jonathan Swifft, com o de John Donne e Vico
escrito no estilo de Lewis Carroll...No fundo é um livro para crianças,
escrito para adultos brincarem de ' O investigador lingüístico-ontológico'
ou de a forma é o conteúdo e vice-versa..
3-O
maior mérito de Joyce foi ter influenciado William Faulkner e Samuel Beckett.
4-)Joyce
está para o romance como Wittgenstein para a filosofia. Não podemos
nos esquecer que antes de um, houve um Dostoievski e um Cervantes, e antes do
outro um Platão e um Kieergegaard.
5-)
Obviamente todas as ovelhas e lhamas formadas em Letras na Usp, Unicamp e etc...Irão
guinchar, chiar e até estourar se perguntando que méritos eu tenho
para diminuir o supremo James Joyce, Papa da literatura de vanguarda e etç..
Bom a contradição é que para chegar as minhas conclusões,
que não valem nada. nem vão mudar bosta nenhuma, eu li o Ulisses
mais vezes do que eles...
Uma
pequena nota de falecimento :
Me
sinto no mínimo enojado quando leio nos grandes jornais ( Folha,Estado,O
Globo etc..) elogios às obras de Glauber Rocha, Plínio Marcos e
Hilda Hilst, justamente pessoas que em vida foram ignoradas por esses mesmos jornais,
onde poderiam ter sido colunistas ( Plínio Marcos assinava uma coluna no
invisível Jornal da Orla e outra na revista Caros Amigos, Hilda Hilst chegou
a assinar uma coluna no invisível Correio do Povo de Campinas e Glauber
eu nem preciso comentar foi abandonado pelos amigos e pela grande imprensa em
seus últimos dias, justamente quando sua lucidez estava no auge)
Falou-se
muito em Hunter Thompson (Até no anódino fantástico da Rede
Globo) & me pergunto como seria a imprensa brasileira se os Grandes Jornais
abrissem realmente espaço para gente como : Roberto Piva, Vicente Franz
Cecim, João Silvério Trevisan, Fabrício Carpinejar, Ademir
Assumção, Ademir Demarchi, Márcia Denser, Mariana Ianelli,
Cecília Gianetti, Alexei Bueno, Nei Lisboa, Nei Duclós, Moésio
Rebouças ( da Agência de Notícias Anarquistas, a A.N.A.),para
o Cardoso (Do CardosoOnline),para o Márcio Américo, para o Juliano
Pessanha, para o Bruno Verner, para o Júpiter-Maçã enfim
a lista é imensa e até um pouco óbvia basta passar um 'pente-fino'
na Internet...A grande imprensa nesse caso mereceria ser chamada de Grande porque
ao menos tentaria dar conta da diversidade e qualidade das idéias que circulam
à margem dela e acabarão por cercá-la como as piranhas cercavam
um boi nos rios da extinta Amazônia.
Acabo
de encomendar mais três traduções do Ulisses para usar como
agenda.