>coluna............

 

Cartas do deserto 4

Marcelo Ariel

 

Cartas do deserto

"...Mergulhado nas profundezas cristalinas da vida, tentando atingir, intensa e desesperadamente, algum significado. Uma pessoa perfeitamente consciente dos véus pintados de maya, de cúpulas de vidro multicoloridas dando tonalidade à brancura radiante da eternidade, estremecendo no intenso vazio..."

Saul Bellow em 'O legado de Humboldt' Trad. de Fernando Py

.....................................................

Poema-entrevista

Diálogo:Cecim:Andara 1

1-) Por que se reescrever..

1-) E se agora em mim viesse o vão da voz..

1-) No amazôniko..

1-) Sim, no espelho que nos cega apesar do SoLnho, indo para fora da literatura , além do vôo sem asas da ave-Flaubert que já anunciava as transfigurações que já anunciava as transfigurações que depois ouviremos nos sinos de Andrei Rublev e Lars Von Triers..

1-)Como te sentes diante de tuas partes visíveis ?

1-) Depois de atravessar a água da obscuridade a flor do silêncio começa a ofuscar o ouro do tempo

0-) Esse ladrão de auroras capaz de imantar um cristal escuro no permanente eclipse branco da memória ou o leitor...

1-) É o que somos além do intrumento da tua invisibilidade?

1-) E um vôo para essas asas que afundam no rio das imagens

1-) Como o menino na ilha das cigarras

1-) E dos pássaros que também já foram nuvens...

1-) Brincando de passar

1-) Cantando o lendário salmo dos fios

1-) Enquanto segura nossas mãos

0-) A alma ,

1-) E só há uma para acordar tudo.

Mapa: Obras de Vicente Franz Cecim: 'A asa e a serpente' & 'Terra da sombra e do não' ( Ed. Cejup) , 'Viagem a Andara' & 'Silencioso' como o Paraíso ( Ed. Iluminuras) e Ó Serdespanto (Ed. Íman)


Mongólia, Cazaquistão e Favela ou o circo das falsas promessas.

Nuno Ramos em recente entrevista ao Caderno 2 do jornal o Estado de São Paulo se refere a uma 'crise da literatura atual' e que seria salutar um 'mergulho dentro da própria crise' ao invés de ignorá-la. Prefiro a palavra abismo em lugar da palavra crise (embora uma aponte para uma evolução ou movimento circular ou em linha reta para algum lugar e outra aponte para uma queda às vezes sem fim). Ao ler a entrevista pensei na hora em Paulo Coelho, Paulo Lins e Bernardo Carvalho como ícones dessa crise (ou abismo-crise). Paulo Coelho escreve fumaças pseudo-místicas, incensos para perfumar um desejo de transcendência irrealizável. Bernardo Carvalho escreve fumaças sobre o sentimento de alteridade enquanto sonha com a cegueira do Borges. E Paulo Lins escreveu um relatório romanceado que anseia por um distanciamento irônico e neutro típico dos Rappers. O Cazaquistão, a Mongólia e a Favela Cidade de Deus se equivalem nas últimas obras deles como 'não-lugares' onde o problema humano é enfocado e, ao mesmo tempo, ofuscado pelo desejo de narrar o óbvio de um modo profundo &/Ou distanciado e de disfarçar o obvio de 'Alteridade' e estranhamento (em B.C.) ou de desejo de transcendência como motor de um fácil processo de auto-conhecimento ao alcance de todos (em P.C.)... Ora, o que pretendo aqui é contrapor estes três modelos de sucesso da atual literatura a outros três escritores que considero representantes de um 'mergulho dentro da crise' que, embora não a resolva, apontam alguns atalhos para o fundo do abismo melhores do que a queda-livre com ou sem pára-quedas transcendentais. Um é o Evandro Afonso Ferreira autor de 'Erefuê' e 'Arrãa', o outro é Nicodemos Sena autor de ' À espera do Nunca Mais' e 'A noite é dos pássaros' e por fim Mário Bortolotto autor de 'Bagana na chuva', estes três numa margem oposta conseguem escapar dessa armadilha de 'edulcorar o óbvio com o verniz da profundidade e promessas de redenção ou deciframento'. O que é fumaça e esquematização em BC, PC e PL se resolve como desmascaramento do jogo da linguagem, que se apresenta como um estranhamento em si mesma nas obras de Evandro Affonso, o que é desejo de transcendência mistificado e filtrado em 'Boas intenções' e falso desnudamento em PC em Nicodemos Sena aparece como uma superposição de camadas construídas como elementos de um sonho que por sua vez evoca um jogo onde a própria língua é o 'elemento sobrenatural' cuja única função é aproximar mundos distantes e irreconciliáveis (o que acontece no romance 'A noite é dos Pássaros' escrito em Português e Tupi-guarani ao mesmo tempo). O que em Paulo Lins é distanciamento neutro disfarçado de 'jornalismo afetivo' no despretensioso e ótimo romance de Bortolotto é a exposição dos próprios abismos de sua história pessoal vertidos para a ficção onde o que sobra é um vazio melancólico que já estava lá antes de abrirmos o livro é como se tivéssemos ouvido um samba de Cartola transformado em blues na voz de Etta James ou Alberta Hunter.. Ou seja com livros e autores autênticos não tem essa de 'exotismos de classe média terceiro mundista' à procura de uma visão 'estrangeira' do próprio país sob uma ótica pseudo-antropológica disfarçada de 'metafísica da profundidade' ou 'simulacro de alta-literatura'.
'Erefuê' se passa num tribunal, 'A noite é dos pássaros' numa aldeia indígena e 'Bagana na chuva' nas ruas e bares de Florianópolis.. A literatura quando é corajosa e não faz concessões não promete nenhuma transcendência e nem nos distrai do inferno.. ela apenas nos joga de volta a nossas próprias vidas mais rápido do que o espelho, esse sim 'o lugar' onde os abismos e as crises fazem algum sentido.. Bom mergulho.

Serviço: 'Erefuê', Evandro Affonso Ferreira , Ed. Ateliê , 'Arrãa', Idem, Ed. Hedra, ' A noite é dos Pássaros' , Ed. Cejup, Bagana na chuva de Mário Bortolotto, Ed. Ciência do Acidente,'Mongólia' de Bernardo Carvalho, Ed. Companhia das Letras, O Zahir, Paulo Coelho, Ed. Rocco e Cidade de Deus de Paulo Lins,Ed.Companhia das Letras..
-------------------------------------------------------------

O vôo cego do destino humano
( 'Herói' e 'O clã das adagas voadoras' )

Zang Yimou que já havia nos proporcionado uma ópera de contenções e delicadeza em 'Lanternas Vermelhas' filme que mereceu um elogio até do João Cabral que como é sabido era imune ao cinema, volta ao cartaz no Brasil com dois filmes ao mesmo tempo, 'Herói' e ' O clã das adagas voadoras'.
O primeiro 'Herói' é uma fábula moral e simultaneamente um tratado de estética cinematográfica dividido em blocos, que recontam a mesma estória com movimentos suntuosos de câmera e efeitos visuais, que dão ao filme uma dimensão poética. Cada um destes blocos tem uma tonalidade específica e trabalha as metáforas a partir do encadeamento de tensões emotivas e de fusões do corpo com as cores da paisagem natural, que em 'Herói' ultrapassam a condição de cenário para as ações e são espelhos das sensações escondidas nas motivações das personagens. Mas o grande tema de 'Herói' é a tragicidade das emoções humanas em conflito com o sentimento de Nação ou o conflito entre a territorialidade e a extraterritorialidade ( que transcende nossa condição efêmera de seres vivos e só se realiza na morte ou no inominável ). Já em 'O clã das adagas voadoras' este e outros conflitos passam do plano meramente estético-poético para o plano psicológico ( E aqui não podemos nos esquecer do que Proust escreveu na sua "Busca...", os sofrimentos ultrapassam a psicologia" ). Em o 'Clã das adagas voadoras' estamos no mesmo território de 'O Morro dos Ventos Uivantes' de Wyler/Emily Bronté ( Há uma versão fantástica de Buñuel chamada 'O abismo da paixão') com o diferencial gritante de que no filme de Zang Yimou há um deslocamento do sobrenatural para o espaço do corpo (E as espadas e adagas no filme são como sonhava Yukio Mishima uma extensão do corpo e de suas paixões avassaladoras). Se 'Herói' é dividido em blocos que se interligam e se contradizem, compondo um quadro absurdo da condição humana, em 'O clã das adagas voadoras' o filme se divide em camadas que se abrem como véus, revelando a complexidade bestial dos sentimentos de paixão e lealdade, sentimentos (no filme) antagônicos e destrutivos. É curioso notar como os dois filmes se completam formando uma espécie de 'tratado-estético-político-poético' sobre o vôo cego do destino humano.

Foda-se James Joyce!

1-) Faço coro com o xará Marcelo Mirisola, realmente o Ulisses seria melhor se cortassem dele umas 300 págs. E discordo do J. Roberto, o resultado não seria de modo algum um 'Ulisses em 90 minutos' porque o que sobra desse corte ainda assim só poderia ser lido em no máximo um ano...A maioria que compra o 'Ulisses' não passa da pág. 30, já li o livro mais de 4 vezes e tenho a convicção de que ele não é melhor do que a obra completa de Ésquilo ou "O diálogo dos mortos" do Luciano. Obviamente o 'Ulisses' é uma boa 'máquina de fazer perguntas' mas o que os membros da 'Igrejinha do Joyce' propagam é que o livro é uma "súmula de todos os livros" e uma "síntese da experiência humana inspirada na Saga do Homero" ( Ouvi isso de um professor da Usp..O pior é que nem lembro o nome da figura..). Há a apologia do Campbell no 'Poder do mito', mas entre ela e a leitura do livro em si as promessas não são cumpridas e o que temos é um ou outro leitor excepcional de um livro que mereceria uns cortes para ser extraordinário. O cineasta Hans Syberberg é que foi inteligente ao resumir seu filme sobre o Ulisses com a assustadora Edith Clever ao monólogo de Molly Bloom. Aliás esse é o nome do filme.

2-) O Finnegans Wake ( Finícius Revém em português na versão de Donald Schüller) pode ser lido como uma brincadeira levada a sério demais pelos críticos e professores de letras, que não se cansam de 'bater punheta' lendo o livro em voz alta...Desconfio que nesse o Joyce fez uma homenagem ao Stanislas... Seu irmão esquizofrênico escrevendo um livro propositalmente esquizofrênico ( Essa era a opinião do Jung). Na edição brasileira, as notas do Donald são brilhantes exercícios de malabarismo mental e erudição que se esforçam para dar um sentido maior à brincadeira do Joyce. Essas notas me lembram muito as notas fictícias do crítico- professor analisando o poema no 'Fogo-pálido' do Nabokov... Em inglês e no inglês-inventado por Joyce soa como uma mistura delirante e febril do tom de Jonathan Swifft, com o de John Donne e Vico escrito no estilo de Lewis Carroll...No fundo é um livro para crianças, escrito para adultos brincarem de ' O investigador lingüístico-ontológico' ou de a forma é o conteúdo e vice-versa..

3-O maior mérito de Joyce foi ter influenciado William Faulkner e Samuel Beckett.

4-)Joyce está para o romance como Wittgenstein para a filosofia. Não podemos nos esquecer que antes de um, houve um Dostoievski e um Cervantes, e antes do outro um Platão e um Kieergegaard.

5-) Obviamente todas as ovelhas e lhamas formadas em Letras na Usp, Unicamp e etc...Irão guinchar, chiar e até estourar se perguntando que méritos eu tenho para diminuir o supremo James Joyce, Papa da literatura de vanguarda e etç.. Bom a contradição é que para chegar as minhas conclusões, que não valem nada. nem vão mudar bosta nenhuma, eu li o Ulisses mais vezes do que eles...

Uma pequena nota de falecimento :

Me sinto no mínimo enojado quando leio nos grandes jornais ( Folha,Estado,O Globo etc..) elogios às obras de Glauber Rocha, Plínio Marcos e Hilda Hilst, justamente pessoas que em vida foram ignoradas por esses mesmos jornais, onde poderiam ter sido colunistas ( Plínio Marcos assinava uma coluna no invisível Jornal da Orla e outra na revista Caros Amigos, Hilda Hilst chegou a assinar uma coluna no invisível Correio do Povo de Campinas e Glauber eu nem preciso comentar foi abandonado pelos amigos e pela grande imprensa em seus últimos dias, justamente quando sua lucidez estava no auge)
Falou-se muito em Hunter Thompson (Até no anódino fantástico da Rede Globo) & me pergunto como seria a imprensa brasileira se os Grandes Jornais abrissem realmente espaço para gente como : Roberto Piva, Vicente Franz Cecim, João Silvério Trevisan, Fabrício Carpinejar, Ademir Assumção, Ademir Demarchi, Márcia Denser, Mariana Ianelli, Cecília Gianetti, Alexei Bueno, Nei Lisboa, Nei Duclós, Moésio Rebouças ( da Agência de Notícias Anarquistas, a A.N.A.),para o Cardoso (Do CardosoOnline),para o Márcio Américo, para o Juliano Pessanha, para o Bruno Verner, para o Júpiter-Maçã enfim a lista é imensa e até um pouco óbvia basta passar um 'pente-fino' na Internet...A grande imprensa nesse caso mereceria ser chamada de Grande porque ao menos tentaria dar conta da diversidade e qualidade das idéias que circulam à margem dela e acabarão por cercá-la como as piranhas cercavam um boi nos rios da extinta Amazônia.

Acabo de encomendar mais três traduções do Ulisses para usar como agenda.

 

>>Topo

 

Sobre reidmeidbluiz 1 de Marcelo Chagas

A Musica, musica e outras coisas de Silvio Campos

Entrevista com Claudia Alonso com Marcelo Chagas

 

...

 

 

 

 

Get this widget!

 

 

C..divulgação...envie originais...quem somos...OPML...newsletter...expediente